Samico, Gilvan
Gilvan José Meira Lins Samico, nascido em 15 de junho de 1928, no centro do Recife, e falecido em 2013, foi um xilogravador pernambucano. Filho de Maria Antonia Meira Lins Samico e Oswaldo Eugênio Samico, ele era o caçula de seis filhos.
Sua trajetória artística foi marcada pela busca incessante de um estilo próprio, e por sua estética e temática mito-mágica, que caraterizou suas xilogravuras até sua morte. Suas gravuras, construídas com texturas refinadas em composições meticulosamente planejadas, abordam temas comuns a poetas populares nordestinos, como os folhetos de cordel. Seu trabalho pictórico é marcado por formas simples que se repetem através de suas obras, adaptadas para trazer a vida o simbolismo que a imagem representa.
Formação e Início da Carreira: Do Realismo Social à Busca pela "Brasilidade"
A infância e adolescência de Samico se deram no Recife. Aos 17 anos, começou a ter o desejo de reproduzir imagens que via, num período em que a oferta cultural na cidade era baixa e "não chegava nenhuma informação sobre pintura".
Samico foi membro do Ateliê Coletivo de Gravura da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), onde permaneceu até 1957. A SAMR, fundada em janeiro de 1946, buscava a expansão de uma arte "bem orientada" e o desenvolvimento cultural e artístico de Recife. A preocupação dos integrantes era utilizar a arte como ferramenta de educação política, sendo comum a retratação de pessoas comuns em cenas de trabalho, numa abordagem inspirada nos muralistas mexicanos.
Apesar do contexto coletivo, Samico era reservado: ele era "muito tímido para trabalhar em grupo", e ele não gostava de produzir em grupo no Ateliê Coletivo, preferindo produzir mais em casa. Por isso, já afirmou que se Abelardo da Hora não tivesse a iniciativa de criar o Ateliê, "muitos não teriam enveredado pelo caminho da arte. Eu mesmo, talvez, creio que ficaria apenas como funcionário público”.
Samico aprimorou sua formação em gravura com dois grandes nomes do expressionismo: Lívio Abramo, na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), e Oswaldo Goeldi, na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Ao chegar a São Paulo, Lívio lhe perguntou se ele queria uma bolsa para a Escola de Artesanato do MAM-SP, e Samico respondeu: "Quero". Samico brincou que ele virou gravador por ter dito "não sei quantos 'quero'". Com Lívio Abramo, aprendeu a explorar as possibilidades de gravação e o uso de recursos gráficos na construção do espaço e das figuras, e a elaborar as texturas para organizar a composição da gravura.
A insatisfação com a gravura produzida no início dos anos 60 levou Samico a buscar algo "mais brasileiro". Em uma conversa com Ariano Suassuna, este sugeriu que Samico mergulhasse no universo do cordel como forma de buscar essas características nacionais. Ele relembrou que sua relação com o cordel vinha da infância, momento no qual ouviu histórias, como a de "Juvenal e o dragão", narradas oralmente e em verso. Samico explicou que o povo que não tinha acesso à leitura aprendia "oralmente, a coisa entrava pelo ouvido, e eles repetiam. Ele tinha tanto interesse de saber, porque isso enriquecia. E acabava passando para outros, era essa a função muito importante do cordel".
O Desenvolvimento da Poética Mito-Mágica e a Geometria
A partir dos anos 60, a produção de Samico passou a ter como referência temática a literatura de cordel, o que resultou na transição da representação naturalista para o universo imaginário em suas gravuras.
Transformação Estética e Técnica: Samico efetuou uma inversão no modo de gravação, buscando o clareamento progressivo da imagem. O curador Ronaldo Brito destacou que, nesse período, definiu-se na obra de Samico a simetria a partir de um eixo central, o contorno, a perda do sentido de profundidade e a supressão de qualquer espaço naturalista. O artista criou uma compartimentação da imagem, ao qual se referiu como "uma espécie de arquitetura", onde inseria suas figuras fantásticas, racionalizando o espaço mítico ao adotar padrões geométricos.
Essa organização geométrica e racional pode ter sido influenciada por suas experiências em um escritório de engenharia e arquitetura no Rio de Janeiro, juntamente com seu periodo no escritório de comunicação visual com Aloísio Magalhães até 1965. Samico, ao falar sobre seu rigor técnico, afirmou: "Para fazer uma circunferência, você pode simplesmente deixá-la achatada de um lado. (...) Eu não; faço no compasso, porque na minha gravura ela tem que ser perfeita. (...) o todo pede que cada elemento seja muito bem colocado, pensado e executado".
Ele dedicava-se intensamente à confecção de suas obras. Não só criava e executava suas gravuras, mas também produzia suas próprias ferramentas e preparava o material. Samico disse: "eu compro a madeira no armazém, ela praticamente bruta, já cortada em prancha, às vezes em tábua; e sou eu que faço a planagem, o acabamento na lixa e a junção de uma tábua com a outra...". Ele também mencionou a complexidade de encontrar madeira com mais de 55 cm de largura e a exigência de uma madeira com fibra "bem fina, fina e uma certa dureza. Eu não gravo em madeira mole. Gosto de sofrer".
Realizações e Obras de Destaque
A Consolidação do Estilo e a Projeção: Samico consolidou seu estilo próprio com a xilogravura "Suzana no Banho" (1966). Esta obra introduziu uma composição bi e tripartite, bidimensional e planimétrica compartimentada, com simetria vertical e assimetria horizontal, servindo de clássico para sua criação gráfica. Outra obra importante é "A luta dos anjos" (1968) por marcar um ponto decisivo na trajetória estética e poética do artista.
Em 1968, Samico recebeu o prêmio viagem ao exterior no 17º Salão Nacional de Arte Moderna, passando dois anos na Europa, majoritariamente na Espanha e na França. Ao escolher a Espanha como destino, ele disse que foi em busca de "uma dose de romantismo" e para ter "pelo menos, uma possibilidade de um entendimento melhor, sobre o ponto de vista linguístico".
Após a viagem, Samico fixou residência em Olinda em 1971, junto ao Mosteiro de São Bento, e passou a lecionar xilogravura na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ele ensinava não apenas a técnica, mas os conteúdos teóricos e poéticos da gravura.
A partir de "No reino da ave dos três punhais" (1975), Samico estabeleceu um ritmo de produção de apenas uma nova gravura por ano, decidindo investir tempo na busca da textura ideal para cada tema, incorporando motivos da arquitetura como arcos, rosáceas e molduras.
A Influência Literária Tardia: A partir dos anos 80, Samico estabeleceu contato com Eduardo Galeano, autor da trilogia "Memória do Fogo". Embora Samico tenha recusado o convite inicial de Galeano para ilustrar o livro, a obra se tornou sua principal fonte de inspiração de 1993 até 2011, o final de sua carreira.
Em sua produção, ele repete obsessivamente símbolos como a lua, a serpente, pássaros, ondas, flechas, estrelas de Lampião, dragões, leões, árvores, peixes e bois. Samico estava ciente dessa reiteração, dizendo: "Às vezes me pergunto: me repito? Mas isso é parte de minha caligrafia – a lua, a serpente, o pássaro, a estrela. Tenho que me virar com os mesmos elementos”.
Exemplos de Obras
• "Cena campestre" (1957): Gravura da fase inicial, com representação mais realista do espaço e das figuras.
• "Juvenal e o dragão" (1962): Tema retirado da épica narrada oralmente na infância.
• "O triunfo da virtude sobre o demônio" (1964).
• "Suzana no Banho" (1966): Marco de sua linguagem própria.
• "A luta dos anjos" (1968).
• "No reino da ave dos três punhais" (1975).
• "A espada e o dragão" (2000): Exemplo da racionalização e compartimentação do espaço.
• "A Caça" (2003): Obra inspirada pela lenda "A festa" do livro Memória do Fogo.
O Legado e a Projeção Internacional
Apesar de se considerar um artista que vivia de maneira isolada e fora da política da arte contemporânea, Samico alcançou grande reconhecimento. Ele é considerado um narrador viajante, contando histórias universais e atemporais.
Sua obra, ao abordar os mistérios do mundo, fala diretamente à alma do espectador, independentemente de sua origem, tornando-se parte da memória regional, nacional e internacional. Samico, ao final de sua vida, ainda buscava a perfeição em cada composição, afirmando que não havia atingido sua obra-prima, o que pode ser uma explicação para a reiteração de seus elementos simbólicos. Samico faleceu tendo deixado um vasto e significativo legado no campo da gravura brasileira.
Referências
DUPRAT, Andréia Carolina Duarte. Clubes de Gravura no Brasil (1947-1960): o realismo socialista à brasileira. Orientação: Daniela Pinheiro Machado Kern. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais. Porto Alegre, BR-RS, 2023.
FONSECA, Fábio. A geometria na gravura de Gilvan Samico: entre a técnica e a narrativa, a racionalização do espaço mítico. Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG. V.11, n.21, jan-abr. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.35699/2237-5864.2021.20564. Acesso em: 23 nov. 2025
FONSECA, Fábio. Entrevista com Gilvan Samico. ouvirOUver, [S. I.], v.15, n.2, p. 620-633, jul-dez. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.14393/OUV-v15n2a2019-50281. Acesso em: 23 nov. 2025.
MORAT, Camille. A linguagem simbólica de Gilvan Samico e a influência da obra de Eduardo Galeano na sua xilogravura. Orientação: Carlos Newton Júnior. Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCTA. João Pessoa, 2017.