Sociologia e Comunicação Cásper/Circuito de Cultura
A noção de "Circuito de Cultura"
[editar | editar código]O conceito de circuito da cultura foi proposto por Paul du Gay, Stuart Hall, Linda Janes, Hugh Mackay e Keith Negus no livro Doing Cultural Studies: The Story of the Sony Walkman (1997). O objetivo era oferecer um modelo analítico capaz de compreender os processos pelos quais os objetos culturais – e aqui se incluem tanto produtos midiáticos quanto bens materiais – adquirem significados na sociedade.
Essa proposta se insere no campo dos Estudos Culturais, fundados no Reino Unido a partir da década de 1960, em torno do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), em Birmingham. Autores como Stuart Hall, Raymond Williams, Richard Hoggart e posteriormente Angela McRobbie e outros marcaram esse campo ao conceber a cultura não como algo elevado ou restrito às belas-artes, mas como o terreno cotidiano de disputas de sentido, de poder e de identidade.
O circuito da cultura é, portanto, uma ferramenta ou um protocolo de análise que busca sistematizar essa perspectiva. Ele é composto por cinco momentos inter-relacionados: representação, identidade, produção, consumo e regulação. A análise cultural, segundo du Gay e seus colegas, precisa levar em conta todos esses momentos, já que o significado cultural de um objeto ou prática emerge da articulação entre eles, e não de um ponto isolado.
1. Representação
A representação é talvez o ponto mais conhecido do circuito, sobretudo pelos trabalhos de Stuart Hall. Trata-se de compreender como os significados são construídos e transmitidos por meio da linguagem, dos discursos e das imagens. A representação não é um reflexo neutro da realidade, mas um processo ativo de construção de sentidos.
Exemplo utilizado no livro: no caso do Sony Walkman, estudado pelos autores, a publicidade não representava o aparelho apenas como uma máquina de som portátil, mas como um símbolo de individualidade, liberdade e juventude. Do mesmo modo, podemos pensar hoje em como os smartphones são representados como dispositivos de conectividade, criatividade ou produtividade – sentidos que moldam a forma como as pessoas os utilizam.
Pensando o TikTok:
No TikTok, os significados são produzidos por representações múltiplas: as campanhas oficiais da plataforma, os discursos midiáticos sobre ela e, sobretudo, os conteúdos criados pelos usuários.
Na mídia tradicional, o TikTok aparece representado ora como espaço criativo de jovens, ora como ameaça política (sob acusação de espionagem chinesa), ora como risco para a saúde mental.
Na publicidade, a própria plataforma se representa como espaço de autenticidade (“Faça do seu jeito”, “Não faça anúncios, faça TikToks”), reforçando uma estética de espontaneidade.
Nos conteúdos dos criadores, há a proliferação de representações identitárias, políticas, corporais e culturais – desde dancinhas virais até ativismo ambiental e feminista.
Seguindo Stuart Hall (1997), essas representações não apenas “mostram” o mundo, mas o constroem discursivamente, atribuindo sentidos a juventude, corpo, política e criatividade.
2. Identidade
A identidade refere-se a como os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos em relação a determinados bens, práticas ou discursos. Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade (1992), argumenta que a identidade é uma construção histórica, instável e processual.
No circuito da cultura, a identidade se articula com a representação, mas não se reduz a ela: trata-se de como os indivíduos ou grupos mobilizam certos significados para construir pertença, distinção ou resistência.
Exemplo: o Walkman permitia ao usuário criar uma trilha sonora própria para a vida cotidiana, reforçando uma identidade de autonomia e intimidade. Hoje, aplicativos de streaming, como o Spotify, permitem que usuários expressem identidades musicais por meio de playlists, gostos e compartilhamentos.
O TikTok é central na construção de identidades sociais e culturais.
Para jovens, ele funciona como espaço de experimentação de si, de criação de pertencimento a comunidades (LGBTQIA+, gamers, K-pop, moda, entre outras).
Para grupos marginalizados, o TikTok oferece visibilidade e recursos de auto-representação, ainda que sujeitos à lógica algorítmica de visibilidade seletiva.
Para marcas e influenciadores, constitui um terreno de performance identitária em busca de engajamento e autenticidade calculada.
Aqui é importante lembrar Stuart Hall (1992): identidades são construídas, instáveis e relacionais. O TikTok acelera esses processos ao permitir que indivíduos editem, remixem e publiquem performances de si em escala global.
3. Produção
A dimensão da produção enfatiza que os significados culturais estão imbricados nas condições materiais e institucionais de fabricação dos bens. Aqui a tradição marxista dos Estudos Culturais é evidente: a cultura é vista também como indústria, organizada por relações de poder econômico, tecnológico e organizacional.
No caso do Walkman, compreender sua produção implica analisar a empresa Sony, sua capacidade tecnológica de miniaturizar o som portátil e suas estratégias de marketing global. Mais recentemente, no caso de plataformas digitais, a produção envolve a infraestrutura de dados, os algoritmos de recomendação e os regimes de propriedade intelectual.
A produção no TikTok envolve tanto a dimensão técnica e corporativa quanto a dimensão criativa dos usuários.
Corporativa: A ByteDance, empresa chinesa dona da plataforma, investe em infraestrutura massiva de dados e algoritmos de recomendação (o “For You Page” – FYP), que estruturam a visibilidade.
Criativa: A produção é descentralizada, marcada por formatos replicáveis (challenges, trends, dublagens), que permitem a reapropriação constante.
Híbrida: A plataforma incentiva a criação amadora, mas também estrutura ecossistemas de monetização e profissionalização de influenciadores.
Como mostra David Hesmondhalgh (2013) nos estudos sobre indústrias criativas, a produção cultural contemporânea é sempre tensionada entre criatividade e estruturas industriais. No TikTok, esse tensionamento se dá entre espontaneidade dos criadores e controle algorítmico da plataforma.
4. Consumo
O consumo, longe de ser visto apenas como uma etapa passiva, é um momento ativo de apropriação de significados. Os Estudos Culturais, em diálogo com autores como Michel de Certeau (A invenção do cotidiano, 1980), ressaltam que os consumidores reapropriam produtos e discursos, frequentemente de maneiras não previstas pelos produtores.
Com o Walkman, os usuários descobriram novos modos de habitar o espaço urbano, redefinindo a experiência da cidade através da música.
O consumo no TikTok não é passivo: usuários participam ativamente na circulação e ressignificação dos conteúdos.
O ato de assistir, curtir, comentar e compartilhar vídeos é parte do ciclo produtivo, pois retroalimenta o algoritmo. O consumo se torna performativo: usuários não apenas consomem trends, mas os reproduzem, remixam e recriam. Esse caráter participativo aproxima o TikTok da noção de produsage (Bruns, 2008), em que as fronteiras entre produção e consumo se diluem.
Hoje, no campo digital, podemos pensar em como fãs de séries ou bandas transformam produtos midiáticos em práticas de fandom, fanfics ou memes, expandindo sentidos além do controle dos produtores originais. Exemplo: uma música pouco conhecida pode se tornar viral por meio de vídeos de dança, levando ao consumo massivo em plataformas de streaming. Aqui vemos como o consumo no TikTok gera valor econômico em ecossistemas externos.
5. Regulação
Nenhum significado circula em um vácuo de liberdade absoluta. O momento da regulação examina as forças formais e informais que governam, restringem e orientam como os objetos são usados e quais significados são permitidos ou proibidos. É onde o poder do Estado, das corporações e das normas sociais se fazem sentir.
A regulação pode ser hard (leis, políticas de uso, termos de serviço) ou soft (etiqueta social, moralidade, pressão dos pares). Ela constantemente puxa as rédeas do consumo desviante, tentando enquadrar a cultura dentro de limites aceitáveis.
Exemplo Walkman (1997): O uso do Walkman foi rapidamente regulado. Surgiram debates sobre sua periculosidade no trânsito (regulação estatal potencial), e normas sociais de educação criticavam a "antissocialidade" de quem se isolava com fones de ouvido em encontros (regulação informal).
Exemplo Contemporâneo (Plataformas Digitais): A regulação é o centro da crise das plataformas hoje.
Regulação Corporativa (ToS - Terms of Service): Plataformas como Meta e YouTube são reguladores privados. Seus algoritmos de moderação de conteúdo, suas políticas contra hate speech e disinformation definem o que pode e o que não pode ser dito para bilhões de pessoas. São juízes, júri e executor sem mandato democrático.
Regulação Estatal: Leis como a LGPD no Brasil e a GDPR na Europa regulam como os dados dos usuários (o combustível da produção digital) podem ser coletados e usados, impactando diretamente o modelo de negócios das plataformas.
Regulação Social: A "cultura do cancelamento" é uma forma de regulação social informal, onde comunidades online impõem consequências sociais (boicote, críticas públicas) a indivíduos ou empresas por comportamentos considerados inaceitáveis.
A regulação, portanto, mostra como a cultura nunca é apenas espontânea ou livre: ela é atravessada por regimes normativos que orientam e, muitas vezes, limitam a circulação dos significados.
Podemos dizer, então, que a noção de "circuito da cultura" de Paul du Gay e colegas oferece um protocolo de análise dos artefatos e bens culturais para os Estudos Culturais. Ele nos lembra que o significado não está em um único ponto de investigação – nem na produção, nem no consumo, nem na representação – mas emerge da articulação entre os diferentes momentos.
Como vimos, o TikTok, analisado pela lógica do circuito da cultura, aparece como objeto específico da plataformização contemporânea (Helmond, 2015; Nieborg & Poell, 2018).
Ele é representado como espaço de criatividade ou risco social.
Constrói identidades fluídas e performativas.
É sustentado por complexos processos de produção que articulam criatividade dos usuários e controle corporativo.
Envolve formas ativas e criativas de consumo que retroalimentam o próprio funcionamento da plataforma.
Está submetido a fortes regimes de regulação, formais e informais, que moldam os sentidos possíveis.
Ao aplicar o protocolo do circuito, vemos que o TikTok não pode ser entendido apenas como tecnologia ou moda juvenil, mas como prática cultural complexa, atravessada por disputas de sentido, poder e apropriação.
Referências
[editar | editar código]COHEN, S.A. de M. ‘O Circuito da Cultura como um protocolo metodológico para análise cultural de manifestações de tendências: o estudo de caso da SpaceX’, Anglo Saxonica, 19(1), 2021
DU GAY, Paul et al. Doing cultural studies: the story of the Sony Walkman. Londres: Sage, 1997
GIRARDI JR, Liráucio. O Spotify e a questão da audiência em ambientes plataformizados. Revista FAMECOS, [S. l.], v. 30, n. 1, p. e42773, 2023. DOI: 10.15448/1980-3729.2023.1.42773. Disponível em: https://pucrs.emnuvens.com.br/revistafamecos/article/view/42773. Acesso em: 9 set. 2025.
HELMOND, Anne. A Plataformização da Web. In: OMENA, Janna Joceli. Métodos Digitais.- teoria-prática-crítica. Lisboa : Coleção ICNOVA, 2019
HESMONDHALGH, David. The Cultural Industries. 3. ed. London: Sage Publications, 2013
POELL, Thomas, NEIBORG, David, VAN DIJCK, José, PlataformizaçãoLinks to an external site.. Revista Fronteiras - estudos midiáticos, Vol. 22 Nº 1 - janeiro/abril 2020