Temperaturas Paulistanas/Planejamento/Pinheiros/Reportagem B

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Reportagem - Turma B[editar | editar código-fonte]

Duas Faces de Pinheiros[editar | editar código-fonte]

Texto: Bárbara Gaspar e Thaís Monteiro

Fotos: Giovanna Bronze

Edição de áudio: Brenda Zacharias

O sol incide forte para uma tarde de inverno na saída da Estação Faria Lima do Metrô. Os prédios altos não fornecem sombra para as vias largas. Refúgio? Só nas barraquinhas que vendem de capinhas de celular e yakissoba por menos de 10 reais. Passadas as quatro padarias no caminho à Rua dos Pinheiros, encontramos Fátima correndo para chegar no seu apartamento no horário marcado para começarmos a entrevista. Ofegante, a mulher de Bonito, município de Pernambuco, sobe os três lances de escadas rachadas e descoloridas até a porta com três fechaduras.

Quem abre a porta do apartamento número 22 é Letícia, sua prima. Em questão de segundos, passamos pela porta da cozinha entreaberta - pela qual só é possível avistar a geladeira branca, o mármore gelo da pia e os armários -, e nos encontramos na sala de estar, onde há um sofá branco manchado com tamanho para dois, uma televisão do outro lado do pequeno cômodo, uma mesa de jantar retangular de vidro, com 5 cadeiras de madeira em seu entorno, uma pequena escrivaninha de madeira escura envernizada que suportava um computador HP, o teclado e um mouse. Letícia, sorridente, se apresenta e se dirige à cozinha, enquanto Fátima nos serve um copo de água.

Ainda agitada, Fátima se senta na cadeira de uma das pontas. A sala, embora com apenas uma janela pequena e fosca, ilumina bem seu rosto que apresenta olheiras bem marcadas, mas um sorriso vivo e acordado. Por meio do vidro da mesa, é possível ver dois retratos de um menino pequeno em cenários montados. Aquele é Felipe, seu único filho que, agora com 11 anos, tem aulas integrais em uma escola particular do próprio bairro. Os dois voltam juntos a pé, na maioria das vezes. “Eu vou buscar ele, às vezes a gente vem a pé, às vezes vem de ônibus quando ele tá cansado. Mas eu sempre vou a pé”, ela ri.

A comodidade do distrito é tudo para Fátima - apelido pelo qual se identifica. Em um atravessar de rua, faz compras no Supermercado Futurama, seu banco é seu vizinho e o local onde trabalha como cozinheira fica apenas a 40 minutos de caminhada. Ela vai às baladas e bares da Vila Madalena, volta tarde e não se sente aflita. Não gosta de metrô, mas esse não é necessário para a mulher que caminha por horas por diversão.

Há sete anos ela mora no apartamento que divide com as duas irmãs, o filho e, há seis meses, a prima. Fátima já experimentou outros três bairros de São Paulo nos vinte anos vivendo na cidade. Pinheiros foi eleito duas vezes para ser sua morada e continuaria a ser, caso o noivo não morasse em Moema.

O noivo é o pai de seu filho e, com ele, esteve oito anos em Moema antes de se separarem e tal evento culminar no retorno de Carmelita à seu amado distrito. Sobre o futuro na antiga-nova moradia, ela demonstra-se ansiosa. Não sabe em que escola de inglês irá matricular o filho ou em que parque irá caminhar, pois não gosta do Parque do Ibirapuera, mas sujeita-se a mudar pois, onde o noivo mora e trabalha, ele ganha mais.

A vinda para São Paulo aos 22 anos lhe rendeu melhores oportunidades de trabalho que, por conseguinte, uma nova casa para a mãe e uma reforma da mesma, ambos em parceria das irmãs Nena e Marilucia, também funcionárias domésticas. No iPhone, mostra um vídeo do filho cantando, e conta sobre o desejo de matricular o filho em uma escola particular de música. As aquisições são recebidas em um tom de surpresa por todos a sua volta, e é com isso que Fátima se incomoda. Ao terminar a entrevista, perguntamos se há algo que ela gostaria de falar, e ela diz: “Sabe uma coisa que eu gostaria de falar? Que eu gostaria que as pessoas falassem mais, Thaís? Sobre a nossa vida, sobre nós. Sobre a empregada doméstica, sabe? Eu acho que as pessoas não dá muito valor, não falam muito sobre elas. As pessoas acham que empregada doméstica é só empregada doméstica, que não estuda, não tem vida."

A comodidade do distrito é tudo para Fátima - apelido pelo qual se identifica. Em um atravessar de rua, faz compras no Supermercado Futurama e seu banco é seu vizinho. Ela vai às baladas e bares da Vila Madalena, volta tarde e não se sente aflita. Não gosta de metrô, mas esse não é necessário para a mulher que caminha por horas por diversão. Aliás, nem ir trabalhar é desprazeroso, pois onde exerce a profissão como cozinheira fica apenas a 40 minutos de caminhada.

É longo o caminho que leva Fátima até a cozinha na Rua Colômbia, no Jardim Paulista, muito diferente do caminho que nos levou até lá.

Antes de chegarmos até a casa de Andréia, na rua embalada pelo canto dos passarinhos que fazem das árvores da Rua Panamá sua morada, chegamos à Avenida Brasil, situada no bairro Jardim Paulista, de ônibus. No começo da tarde, há muitas pessoas caminhando e o trânsito de carros e ônibus flui bem. O movimento da avenida é contrastado pela tranquilidade da Rua Panamá. Ao chegar à esquina da Brasil com a rua de Andréia, o visitante é protegido do sol pelas árvores que, além de preservarem um pouco da natureza, colorem o caminho de casas monocromáticas com as folhas e pétalas caídas no chão. Apesar de Pinheiros ser um dos distritos mais verdes de São Paulo, a proprietária da casa aponta que as árvores são o principal problema da região, porque estão cheias de cupins.

As casas têm estilos de arquitetura bem distintos: algumas parecem mais clássicas, outras são modernas. Isoladas por muros altos, escondem seus moradores, que reclamam da insegurança na região. Chegamos, então, em frente ao portão de madeira clara da casa de Andréia. O primeiro contato é feito pelos olhos da câmera de segurança da casa, que nos assiste enquanto nos identificamos pelo interfone.

A barreira do portão é passada quando André, o porteiro, permite a nossa entrada. Ele está vestido com uma calça cáqui de tecido grosso, camiseta e usa uma bota parecida com a de alpinistas. Atencioso, pergunta como foi o percurso até o local e, sem sair de dentro da guarita, nos indica com um aceno a direção da porta de entrada. Depois de subir alguns degraus, chegamos ao nível da casa, elevada do chão. Há um espaço estreito que conduz o visitante à porta da cozinha. A paisagem do quintal remete aos cenários de filmes sobre distopias: um muro alto revestido de cimento e coberto por plantas trepadeiras e algumas palmeiras. Não há vista para a rua.

A cozinha é o primeiro cômodo. Ela faz a transição entre o cinza de fora e o colorido dos cômodos mais reservados da casa. Somos recebidas por Fátima, uma das funcionárias da residência, que para de cortar legumes para nos dar um abraço e dizer que Andréia seria chamada imediatamente. Enquanto esperamos sentadas à mesa do mesmo cômodo, Chico, um cachorro da raça Pug, sai de sua cama localizada na área de serviço da casa e corre alegremente até a nossa direção. O cachorro é proibido de subir aos outros cômodos da casa e faz companhia para as funcionárias durante o trabalho. O telefone da cozinha toca e somos avisadas de que Andréia estava nos esperando em seu escritório.

Abandonamos aquele ambiente claro e andamos até uma porta alta, que isola totalmente a cozinha do restante da moradia. O corredor estreito nos leva até uma escadaria bege. Ela conduz o visitante para um hall amplo, cujas paredes são decoradas por quadros de diferentes estilos. A última porta dá acesso ao escritório, onde Andréia estava reclusa para assistir à televisão. O ambiente de trabalho é separado em duas seções: uma grande mesa em frente à porta com um computador e vários papéis e a outra parte preenchida por um grande tapete, um sofá e duas poltronas. Separando as poltronas, que ficam nas pontas do sofá, há uma longa mesa de centro, com pilhas de livros e enfeites em sua superfície. Em frente ao sofá, há uma parede com uma televisão, artigos de decoração e um rack que se estende no comprimento de toda a parede. Há muitos porta-retratos espalhados pelos móveis e dois grandes buquês de flores no parapeito da janela comprida localizada atrás do sofá. A vista é o muro verde e cinzento do quintal.

Andréia entra no escritório por uma porta ao lado da parede da televisão, eufórica e saltitante. Aparentava ter acabado de sair de uma aula de ginástica. Vestia, inclusive, roupas confortáveis e casuais: shorts cinza, uma camiseta cinza-escuro e um agasalho roxo. Ela nos cumprimenta, e sentamos nas poltronas. Andréia, acomodada de forma relaxada no sofá, aumenta o volume da televisão e começa uma conversa sobre a morte do ator Domingos Montagner, segundo ela, um homem lindo. Durante pelo menos 30 minutos, a dona da casa assiste ao programa “Vídeo Show”, naquele dia inteiramente dedicado a homenagear o ator. Ela não se conforma com a morte de Domingos e faz críticas ao comportamento de um dos apresentadores, que “sorri nesse momento de tristeza”.

No final do programa, Andréia diminui o som da televisão e pergunta o que gostaríamos de saber dela sobre o distrito de Pinheiros. Nascida no Rio de Janeiro, Andréia descreve sua infância como maravilhosa. Escolheu fazer faculdade de direito quando ainda morava lá, mas não chegou a atuar na área. “Foi mais por pressão do meu pai”, ela explica. Quando veio para São Paulo, 25 anos atrás, ela morou em “uma casa micro com uma piscina que parecia um tanque”, localizada no Jardim Paulistano. João Pedro, seu primeiro filho,  brincava na Praça Gastão Vidigal, lugar que foi ajudado a ser preservado por ela. “O distrito representa a felicidade de morar em São Paulo. Aqui, você pode andar de bicicleta, você conhece bem os caminhos. Fiz a minha vida aqui. Vou nos restaurantes a pé. Tive uma vida de Rio de Janeiro em São Paulo”. Depois, ela e sua família se mudaram para outra casa na mesma rua, com uma piscina maior, e viveu por 17 anos nela. “Já que eu não podia ter praia, eu queria uma piscina”, brinca a moradora.

Para Andréia, qualidade de vida é sinônimo de não pegar trânsito e ter tudo o que ela precisa bem perto de casa. Ela considera difícil voltar aos costumes do carioca, principalmente a informalidade, porque viveu sua maturidade em São Paulo. Andréia prefere continuar morando em Pinheiros, porque há mais segurança, muitas opções de passeios culturais e ela fez grandes amigos na cidade. Contudo, relembra o assalto ocorrido na casa vizinha à dela e admite que a preocupação com a segurança das casas da região aumentou.

Nas pilhas de livros na mesa de centro do escritório, os temas religiosos aparecem com grande frequência. A religião católica está muito presente na vida de Andréia, que adora a Igreja Nossa Senhora do Brasil, situada no bairro Jardim Paulista. A moradora fala sobre a importância da religião na formação das pessoas e afirma que “ser ateu virou moda”. Ela tem prazer em ajudar o próximo e gosta muito de trabalhar com pessoas. Nos primeiros anos em São Paulo, trabalhou na área de moda, na Rua Oscar Freire (onde ainda faz compras). Hoje, contribui para associações que promovem melhorias em Pinheiros e está sempre ajudando ONGs pequenas, que precisam de incentivos para crescer.

Áudio bruto* das entrevistas[editar | editar código-fonte]