Torres-García, Joaquín
Joaquín Torres-García, nascido em Montevidéu, Uruguai, em 28 de julho de 1874, e falecido na mesma cidade em 8 de agosto de 1949, foi um pintor, professor, escritor, escultor, ilustrador e teórico da arte uruguaio e espanhol. Ele é amplamente reconhecido como o criador do Universalismo Construtivo e do Taller Torres García, movimentos artísticos que se tornaram pilares da arte de seu país
Primeiros Anos e Período Europeu
[editar | editar código]Aos 17 anos, em 1891, Torres-García mudou-se com sua família para Mataró, na Catalunha, e depois para Barcelona, devido a dificuldades financeiras. Sua formação artístico-intelectual ocorreu durante a ascensão do Modernismo catalão. Em 1894, ingressou na Escola Oficial de Belas Artes de Barcelona. Ele se destacou como um dos principais impulsionadores da vida artística e intelectual de Barcelona, participando do movimento Noucentista Catalão, que buscava um retorno ao classicismo e às tradições mediterrâneas.
No início de sua carreira, Torres-García colaborou com Antoni Gaudí no design de vitrais para a Catedral de Palma de Mallorca e para a Sagrada Família em Barcelona. No entanto, Gaudí não apreciou seu trabalho como artista e o aconselhou a se dedicar ao ensino. Essa fase inicial foi marcada por alguns infortúnios, como a destruição de murais que pintou em igrejas catalãs, seja por terem sido repintados, seja por incêndios. Os afrescos que realizou para o Salón Sant Jordi no Palacio de la Generalitat de Catalunya (1913-1914), inspirados na tradição greco-latina, foram duramente criticados pela imprensa, levando as autoridades catalãs a cobri-los. Após esses incidentes, ele construiu sua casa, "Mon Repòs", em Tarrasa, mas foi forçado a vendê-la em 1919 devido a dívidas; o edifício desabou em 2007, embora algumas pinturas tenham sido resgatadas.
Torres-García começou a escrever sobre arte em 1904, e seu primeiro livro, Notes sobre art, foi publicado em 1913. O nascimento de seus filhos impulsionou sua obra criativa em novas direções, caracterizadas por figuras simples, geométricas, cores primárias e uma linguagem infantil e simbólica. Ele começou a confeccionar brinquedos de madeira modular (os juguetes) nesta época, utilizando formas geométricas e cores primárias.
Em 1920, ele decidiu emigrar para os Estados Unidos. Viveu em Nova Iorque por cerca de dois anos (1920-1922), onde tentou, sem sucesso, produzir e distribuir seus juguetes e expor suas obras. Sua fábrica em Nova Iorque foi destruída por um incêndio em 1925. Após um breve período na Itália, onde continuou com a produção de brinquedos, ele se mudou para Paris em 1926.
Em Paris (1926-1932), Torres-García viveu o que considerou os melhores anos de sua vida. Lá, ele se relacionou com figuras importantes das vanguardas, como Michel Seuphor, Theo van Doesburg e Piet Mondrian, cujos princípios do Neoplasticismo coincidiam com os seus. Ele co-fundou o grupo Cercle et Carré e editou uma revista com o mesmo nome em parceria com Seuphor, com o objetivo de difundir a arte abstrata em oposição ao Surrealismo e de estabelecer a ordem diante da crise europeia. Durante este período, ele elaborou seu sistema estético-filosófico, o Universalismo Construtivo, uma arte construída com base nos princípios de proporção, unidade e estrutura. Seus textos mais vibrantes são dessa época, como Ce que je sais, et ce que je fais par moi même e Foi (ambos de 1930), Père soleil (1931) e Raison et nature (1932). Ele começou a inserir símbolos de origem arcaica e de teor místico em suas obras. Algumas de suas obras dessa fase, como "Gran copa constructiva" e "Composición con hombre y reloj", foram perdidas, sendo revelado que ele as havia pintado sobre telas já utilizadas.
Retorno a Montevidéu
[editar | editar código]Devido às difíceis condições financeiras, Torres-García mudou-se para Madri em 1932, antes de retornar a Montevidéu em 1934. Ali, Torres-García encontrou um ambiente "acanhado", mas dedicou-se intensamente a comunicar suas ideias aos artistas e intelectuais locais. Ele realizou uma extensa labor didática, proferindo mais de 500 conferências sobre arte e estética. Fundou a Asociación de Arte Constructivo (AAC) em 1934-1935. Em 1935, ele proferiu a conferência Escuela del Sur, onde expôs sua esperança de que as Américas desenvolvessem seu próprio projeto artístico, libertado da Europa, o que se tornou um motivo de orgulho para seu povo e um sinal de valor para sua cultura. Este projeto é simbolizado por seu famoso desenho de 1943, América Invertida, que coloca o sul para cima, transformando-o em um novo "norte".
Torres-García reativou a publicação da revista Cercle et Carré como Círculo y Cuadrado para difundir o Universalismo Construtivo. Mais tarde, ele fundou o Taller Torres García (1942), conhecido como Escuela del Sur, um ateliê de trabalho e ensino coletivo focado em uma pintura estritamente planista, baseada no plano de cor, linha, geometria e na proporção áurea. A revista Removedor (1945-1953) continuou a propagar os princípios de sua doutrina após a dissolução da AAC.
Sua obra plástica amadureceu, incorporando elementos de diversas culturas e arquétipos em um espírito unificado. Ele defendia que a arte deve estar a serviço da razão e da harmonia da ordem cósmica, utilizando símbolos universais dentro de uma estrutura construída sobre a proporção áurea. Seus principais trabalhos teóricos desse período incluem La tradición del hombre abstracto: La Doctrina Constructivista (1938), Metafísica de la prehistoria indoamericana (1939), La ciudad sin nombre (1941) e La regla abstracta (1946). Sua maior obra teórica, Universalismo Constructivo, uma compilação de textos que somam mais de 1.000 páginas, foi publicada em 1944. Ele incorporou elementos de culturas primitivas, especialmente americanas, em seu vocabulário, re-semantizando-os para criar uma nova sintaxe universal.
Torres-García também criou obras públicas, como o Monumento Cósmico no Parque Rodó em Montevidéu. Contudo, uma parte significativa de sua obra foi perdida, incluindo murais que pintou com seus discípulos no Hospital Saint Bois (1944), que foram destruídos em um incêndio no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1978.
Impacto e Legado
[editar | editar código]Torres-García alcançou a condição de "homem-universal", sendo considerado o "primeiro pintor semântico" e um "pioneiro das gramáticas plásticas". Seus cadernos manuscritos (carnets), que misturam manuscritos e desenhos, são considerados obras-texto, objetos mestiços que transcendem as categorias usuais de "texto de artista" ou "livro de artista". Esses carnets combinam conteúdo teórico com visualidade/plasticidade e são vistos como um ponto central em sua vasta produção, servindo como veículo de teorização da arte.
Apesar de sua obra plástica ser mais conhecida, sua vasta obra teórica tem sido menos explorada, especialmente no Brasil, e a falta de traduções para o português limitou seu reconhecimento. Sua proposta para a América Latina era conciliar as tradições autóctones com a modernidade, promovendo um projeto estético que buscasse uma identidade própria e o Universalismo Construtivo. Ele acreditava que a arte deveria se integrar à vida cotidiana, e que todos os homens seriam artistas no futuro. A intransigência de Torres-García e os conflitos que enfrentou, especialmente em Montevidéu, retardaram o processo de legitimação de sua obra e ideias, mas ele conseguiu formar uma coletividade de artistas construtivistas, e seus ensinamentos continuam a formar novas gerações de artistas através da Escuela Sur. Sua obra e escritos continuam a ser uma fonte fundamental para a compreensão da arte moderna e contemporânea na América Latina e além.
Referências Bibliográficas
[editar | editar código]AZEVEDO, Mário César de. A obra-texto de Joaquín Torres-Garcia. Tese (Doutorado em História, Teoria e Crítica de Arte ) - Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/252045?locale-attribute=pt_BR
JOAQUÍN Torres García. Wikipedia La enciclopedia libre. Diponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Joaqu%C3%ADn_Torres_Garc%C3%ADa
KERN, Maria Lúcia Bastos. O Construtivismo de Joaquín Torres García e suas Projeções Estéticas para a América Latina. Cadernos PROLAM/USP, v. 12, n, 23, p. 86-96, 2013. Disponível em: https://revistas.usp.br/prolam/article/view/83014/108566
SANZ, María. Torres García: la maldición del pintor uruguayo. Lifestyle, 19 mai. 2014. Disponível em: https://lifestyle.americaeconomia.com/articulos/torres-garcia-la-maldicion-del-pintor-uruguayo
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