Ir para o conteúdo

Trabalho de memória - Era Vargas e o uso das rádios como propaganda política - Alice Pinazza, Ana Isabela Alonso Silva, Brenno Cunha Pimentel, Vitória Elisa Maria Francisco, Wesley Rogério Oliveira de Macedo (Matutino).

De Wikiversidade

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS - CAMPUS DE MARÍLIA

CIÊNCIAS SOCIAIS - MATUTINO

HISTÓRIA DO BRASIL II

Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira

Alice Pinazza

Ana Isabela Alonso Silva

Brenno Cunha Pimentel

Vitória Elisa Maria Francisco

Wesley Rogério Oliveira de Macedo

Trabalho e Relatório Avaliativo

Era Vargas e o uso das rádios como propaganda política

MARÍLIA, SP

2025

INTRODUÇÃO 

O trabalho redigido teve como fim retratar a utilização do rádio para propaganda política durante o Estado Novo de modo que a Era Vargas foi um período fundamental no que se refere a construção do pensamento político da sociedade brasileira, isso porque, essa época foi marcada por narrativas e comunicações políticas que influenciaram significativamente no entendimento popular sobre o Estado e a nação.  Dentre essas comunicações, se destaca o uso da rádio, especialmente a Rádio Nacional, que foi um instrumento fundamental para a difusão dessas ideais, marcou a história e a memória social do povo brasileiro, e mudou também as formas de dinâmica social e informacional da época.

OBJETIVO

Esse trabalho tem como objetivo trazer uma conjuntura da utilização do rádio durante o Estado Novo, aplicando o conceito de memória coletivo. Começando com a história geral do rádio; a chegada do instrumento no Brasil, e, a sua influência política durante o Estado Novo.

DESENVOLVIMENTO/ARGUMETAÇÃO

O SURGIMENTO DO RÁDIO

Quando pensamos no surgimento de uma tecnologia, é comum pensar que um único individuo foi responsável por criar ela como ela é. Uma ideia individualista dos acontecimentos históricos que nós somos ensinados a décadas por uma historiografia liberal. Todavia, ao falarmos do Rádio temos um grande contraponto a toda essa construção.

Por mais que Guglielmo Marconi detenha os créditos por ter recebido a primeira patente para um sistema de rádio, a criação do rádio não se trata de um simples evento singular, na realidade é o ponto culminante de uma extensa cadeia de desenvolvimentos científicos. Marconi, na realidade, teve sucesso na aplicação de fundamentos científicos sólidos lançados por uma trajetória de cientistas e matemáticos do século XIX.

Os alicerces da radiocomunicação foram estabelecidos por Michael Faraday, James Clerk Maxwell, Oliver Lodge e Heinrich Hertz. Faraday. Todos os citados fizeram grandes contribuições para a compreensão e manipulação do que hoje entendemos como ondas de rádio.

UTILIZAÇÃO INICIAL

Após essa breve introdução sobre a invenção do aparelho eletrônico chamado radio, vamos tratar sobre o seu início na sociedade. No começo do século XX, o termo “rádio” tem era usado para “telegrafia sem fio”, pois se entendia como uma comunicação estritamente de ponto-a-ponto, assim como é como telégrafo (que já era amplamente utilizado) e as cartas, mas não como uma transmissão para várias pessoas vindo de um único local. Ressalta-se que a experiência do rádio na época era feita especialmente para a escuta do código Morse, com sons pontuais frequentemente imersos no ruído da estática eletromagnética.

Um ponto que chama a atenção é que a Nova Zelândia foi pioneira na regulação do rádio, com o “New Zealand Wireless Telegraphy Act 1903”, 1 ano antes da legislação similar na Grã-Bretanha em 1904. Tal lei, tinha como principal objetivo estabelecer um monopólio governamental sobre o meio, buscando salvaguardar o comércio marítimo e a proteção da privacidade das comunicações estatais, pois havia o temor de tais comunicações serem interceptadas por outras pessoas.

Ainda nesse período inicial das transmissões de rádio, as pessoas e a impressa popular entendia o rádio como um símbolo da modernidade, amplamente associado ao progresso científico, algo que demonstrava a velocidade da vida moderna.

Em contrapartida a essa racionalização da modernidade, uma ampla parcela das pessoas na época associou o rádio a discursos sobre o paranormal e a espiritualidade, como a ideia de que as ondas de rádio poderiam ser utilizadas para comunicação com os mortos.

O COMEÇO DOS RADIO JORNAIS

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o jornal Detroit News tomou a iniciativa para que pela primeira vez no país, tivesse uma transmissão de um jornal por rádio. Isso ocorreu em 20 de agosto de 1920, mas vale ressaltar que o editor do jornal na época, William E. Scripps, que era fascinado por inovações científicas, tinha amizade com o inventor Thomas E. Clark, que lhe ajudou nos quesitos técnicos para que uma rádio fosse ao ar naquela época.

Curiosamente, o primeiro grande evento transmitido pela rádio ocorreu em 31 de agosto de 1920, no qual foi divulgado de forma bem-sucedida os resultados das eleições primárias estaduais. O fim político da rádio no qual abordaremos adiante no texto, já estava presente logo na sua gênese.

Logo surgiram outras rádios, só que com elas uma grande interferência generalizada no qual vários sinais de rádio se cruzavam. Houve processos entre as rádios por estarem interferindo em suas transmissões e reuniões com parlamentares dos EUA para que chegasse em um consenso da utilização do novo meio de comunicação, mas foi só em 1927 que foi elabora uma nova lei (Radio Act of 1927) em que estabeleceu parâmetros para a concessão da licença para radio transmissão em massa.

O ponto de maior importância para esse trabalho ocorreu no governo do trigésimo segundo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. Roosevelt experimentou de forma árdua o poder da impressa radialista na época. Existiu toda uma cobertura hostil e uma oposição editorial ao New Deal como nunca ocorrera antes. Todavia, Roosevelt utilizou o rádio, particularmente nos seus “Fireside Chats”, para se comunicar diretamente com o público e contornar toda a hostilidade editorial.

Diante disso, é demonstrado uma dicotomia da utilização do rádio no parâmetro político. Por meio dele a impressa conseguia atacar diariamente as decisões políticas, mas somente com ele, as pessoas poderiam ouvir comunicações diretas dos seus políticos em que ouviam sua voz pela primeira vez para muitos, criando assim uma ligação mais íntima com seus líderes.

RÁDIOFUSÃO NO BRASIL E O COTIDIANO

O Rádio reordenou o cotidiano de parte da sociedade brasileira, e foi um veículo privilegiado no processo de formação e divulgação das informações.

No Brasil, o rádio fez sua primeira apresentação oficial e pública no ano de 1922, na Exposição Nacional comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, e esse tipo de montagem de exposição era comum na época. Elas serviam como uma espécie de vitrine, e no caso do nosso país, era de fundamental importância para se mostrar próspero, saudável, desenvolvido e moderno, para os olhos dos países europeus.

Para a recepção das transmissões foram instalados os equipamentos em São Paulo, Petrópolis e Niterói, e no dia da Exposição Nacional, foi transmitido o discurso do Presidente da República (Epitácio Pessoa), e a ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes, e isso causou encantamento e espanto no público que estava presente no evento. E logo após 1 ano de sucesso e repercussão, foi estabelecida a primeira emissora de rádio do Brasil, com os pioneiros Roquete Pinto e Henrique Morize que fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com a finalidade de exibir conteúdos culturais e educativos, nos mesmos moldes que surgiam em países europeus. Naquela época ainda era muito caro estabelecer a radiofusão, era um investimento de certa forma arriscado mesmo que uma novidade muito interessante na época.

No que se diz respeito ao cotidiano, era muito difícil desfrutar do que a rádio oferecia, na primeira metade da década de 1920 escutar às transmissões custava caro. Mas não se limitava só ao preço, visto que o sistema na época ainda era muito precário e de uma exigência complicada para que funcionasse. Além de que havia dificuldade para captar ondas do rádio, seja pela localização onde se encontra, ou os trâmites que envolviam montar a estrutura.

Em grande medida o que desacelerou o desenvolvimento do rádio no Brasil foi, os horários irregulares e transmissão de baixa intensidade, e como dito anteriormente, o alto custo dos aparelhos receptores. E o mais sério dos problemas enfrentados durante o começo do rádio no Brasil foi o baixo poder aquisitivo das emissoras, e a única medida para resolver isso foi criar rádio-sociedades, onde em seus estatutos estava previsto a contribuição mensal para que pudesse continuar.

Nas décadas de 1920 e 1930, quem desejasse ouvir rádio precisava de uma autorização do governo, de modo que os proprietários das estações deveriam registrar seus aparelhos junto ao Departamento de Correios e Telégrafos, e isso acarretava um grande controle sobre o número dessas estações. Isso era uma tentativa do Estado de controlar a existência de transmissões e captações clandestinas, ainda que na época havia muita dúvida e suspeita a respeito do meio de comunicação novo. Porém essa obrigação de registro e de autorização do governo caiu em desuso devido ao completo descumprimento da lei por parte dos proprietários dos aparelhos de rádio.

No que diz respeito às rádio-sociedades, tinha como dever informar e divertir os associados, mesmo que essa transmissão pudesse ser captada por qualquer pessoa que tivesse um aparelho receptor, desta forma se tornou muito difícil a continuidade das rádio-sociedades, já que o acesso era liberado mesmo para aqueles que não contribuíssem.

No período entre 1923 e 1932, a rádio no Brasil é considerada ainda como experimental, de tal forma que a programação nos primeiros anos era composta por músicas clássicas, óperas, entrevistas de estúdio, leitura, e muitas destas feitas inclusive, de forma gratuita, para que os artistas pudessem ao menos receber reconhecimento e atrair mais públicos para seus shows e circos. Mas dizer que ela era experimental nessa época não necessariamente remete que as emissoras de rádio não procuravam criar um público cativo, atrair patrocínio, melhorar e consolidar sua audiência.

Conforme o tempo, o rádio foi se integrando nas casas das famílias brasileiras, de modo que por meio de propagandas como por exemplo a de escutar a rádio e ter rápido acesso às informações, mesmo morando fora da capital do país, se tornava realidade. Isso permitia o morador do interior saber das coisas que estavam acontecendo nos polos do Brasil, um prenúncio da aceleração da redefinição do espaço doméstico. Nota-se que as casas construídas no século XIX e início do XX não eram adaptadas para receber instalações elétricas para os novos aparelhos que estavam chegando, e posteriormente isso mudou, visto a necessidade da população e conhecer e usufruir de “telefônicas” e “rádio-telephonia” (como se chamavam na época). Essas mudanças invadiam a vida privada e reordenavam os usos e as práticas cotidianas no interior dos lares.

O final da década de 1920 e início dos anos 30 mostrava uma evolução efervescente da rádio no Brasil, que apesar de ter uma programação mais a gosto das elites, ainda tentava popularizar para que atraísse as massas. Exemplo disso é que em 1929, os aparelhos de rádio em São Paulo já passavam de 60 mil unidades, e um ano depois, nas eleições, o rádio marcava uma presença efetiva. Um problema era que apesar dos avanços técnicos chegarem de forma rápida ao país, ainda era uma realidade muito distante que esses aparelhos se tornassem acessíveis à maioria da população, a título de curiosidade, um aparelho na época era aproximadamente 15 vezes o salário individual no ano de 1931.

Pode-se concluir que, com a rapidez que as notícias estavam sendo veiculadas na época, que era uma novidade e tanto, com a maneira que cada emissora utilizava para fazer isso e demonstrar seus conteúdos, como isso moldou de certa forma as relações sociais, a rádio foi de fato um veículo revolucionário que tinha vindo para ficar. O empecilho por muito tempo foi o acesso e como o aparelho era apropriado pela elite, com custos muito caros desde instalação e até o local em que residia. Porém, não possuir um aparelho de rádio na casa não significava necessariamente não ter nenhum acesso ou conhecimento das emissoras, grande parte da população que não conseguia ter acesso e não conseguia realizar seu sonho de “rádio próprio” usava do mecanismo de escutar com seus vizinhos ou em estabelecimentos próximos, o que deixa nítido o fato explicitado anteriormente, de que a rádio moldou as formas de relações sociais na época. Podemos perceber isso com os seguintes depoimentos:

“O radialista Haroldo de Andrade, ao recordar seus primeiros contatos com o rádio, na periferia da cidade de Curitiba, no início da década de 40, ressalta como eram grandes as dificuldades de se obter um aparelho de rádio e de como aqueles que o possuíam ganhavam um papel destacado junto à vizinhança. Segundo Haroldo de Andrade, a primeira vez que viu um rádio foi:

...na casa de um vizinho. E como esse vizinho era um sujeito que gostava muito das pessoas que habitavam as proximidades da casa dele, o seu Alfredo que era um alemão...E era até um perigo porque a guerra terminou em 1945, a Segunda Guerra Mundial, e seu Alfredo era alemão. E durante a guerra muita gente alegava que seu Alfredo ouvia, acompanhava muito a programação que trazia informações sobre a guerra e principalmente sobre as forças do Eixo. Quer dizer, o que os nazistas defendiam. Mas passada a guerra, seu Alfredo começou a receber as pessoas aos domingos às 7 horas da noite e deixava a vizinhança ouvir, escutar rádio. Ele colocava numa varanda grande que ele tinha, o rádio num volume muito alto e a gente ficava ouvindo ali. Achava muita graça, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, essas coisas assim. Quer dizer, ele procurava uma estação que tivesse uma programação que mais ou menos na idéia dele agradasse aquela gente simples” (Azevedo, 2002).

“O comentarista esportivo Luiz Mendes, em sua infância no Rio Grande do Sul, conviveu com os rádios de galena e narra seus primeiros contatos com o rádio, aos seis anos de idade.

O rádio era um baita de um móvel e não tinha som que se ouvisse ao redor dele, havia necessidade de se colocar o fone e era uma pessoa no máximo  que podia ouvir o rádio. Minha mãe quase que monopolizava o rádio, mas ainda assim de vez em quando ela dava uma chance para a gente e a gente botava o fone.”(Azevedo, 2002).

O rádio da década de 1920 ainda não era um meio de comunicação popular, mas, segundo Antônio Pedro Tota, já nos últimos anos da década de 1920:

O cotidiano de um lar passava cada vez mais a ser visitado pelo som indiscreto emitido pelo alto-falante do aparelho radiofônico. Um sarau até pouco tempo, era resultado do som produzido por uma pequena orquestra ou dependia do trabalho de dar corda em um gramofone. O aparecimento do rádio dispensou essa relação”(Azevedo, 2002)

A RÁDIO COMO PROPAGANDA POLÍTICA

A utilização da rádio no período das campanhas eleitorais se configura como uma prática de extrema popularidade no cenário político brasileiro, sendo uma das ferramentas de comunicação mais utilizadas dentro do acirrado período eleitoral. Essa prática, antes mediada pela argumentação direta e pela impessoalidade, com advento dos avanços tecnológicos e comunicacionais, foi-se transformando em um palco para a construção de uma imagem pessoal e emotiva do candidato, priorizando a imagem midiática dos líderes políticos e uma linguagem mais imediata dos discursos políticos. Essa transformação, no entanto, não diminuiu a relevância do rádio como um tipo de arena argumentativa fundamental, na qual as entrevistas e debates ao vivo permitem que os candidatos desenvolvam estratégias argumentativas, utilizando recursos como a autoridade, valores comuns e o “reenquadramento do real” com objetivo de convencer o eleitorado e mobilizar opiniões, mantendo, portanto, sua notoriedade na mediação dos espetáculos políticos no campo midiático. Na perspectiva midiática e política, a campanha política por meio das rádios é uma oportunidade dos políticos adquirem maior visibilidade, assim como atrair audiência e patrocínios para cobrir as campanhas em seu decorrer. A ideia de apresentar sua proposta de mandato pela rádio - que não utiliza de métodos de manipulação, por se tratar de um programa realizado ao vivo - acabar por expor ao ouvinte uma versão mais crua da propaganda, gerando não somente um senso de aproximação à figura política, mas uma percepção de autenticidade e transparência. O debate e a propaganda, sob essa ótica, transmitem que o político está disposto a se colocar à disposição do público de forma aberta e sem roteiros preestabelecidos, o que fortalece a credibilidade de suas promessas e propostas aos eleitores. Sendo assim, a campanha política radiofônica configura-se como um complexo fenômeno entre a lógica de profissionalização das campanhas e a convergência midiática do próprio veículo. Portanto o rádio reafirma sua notoriedade no cenário político ao promover eventos programáticos (media events), a exemplo de entrevistas e debates eleitorais. Esses espaços, portanto, ultrapassam em muito a função básica de transmissão de informações, consolidando-se como arenas privilegiadas de deliberação argumentativa. Por meio deles, o veículo não apenas mantém, mas potencializa seu papel histórico de mediador essencial do debate democrático, oferecendo um espaço onde acontecem batalhas discursivas que forjam opiniões, legitimam propostas e contribuem para a formação da vontade política do eleitorado. Dessa forma, o rádio demonstra sua vitalidade ao se reinventar como um espaço de argumentação e diálogo político fundamental para o exercício da cidadania, superando a função informativa para se tornar um local de debate e disputa política.

RÁDIO NACIONAL E A ERA VARGAS

O Estado Novo foi o primeiro governo do Brasil a se preocupar de maneira sistemática com a autopromoção. Enquanto os governos anteriores se preocupavam com a divulgação política através de jornais por exemplo, a Era Vargas visava sua disseminação ideológica a partir de uma tomada de controle dos meios de comunicação, e assim construíram elementos fundamentais para garantir a duração do regime por 15 anos.

Essa tomada de controle se deu de diversas maneiras, como a implementação da disciplina “Educação Moral e Cívica” nas escolas, que trazia uma imagem idealizada de Vargas. Mas a principal forma foi o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) que controlava jornais, revistas e principalmente as rádios.

A emissora de rádio mais popular era a “Rádio Nacional” e foi o meio de comunicação mais utilizado no que se refere a disseminação política, foi também, o mecanismo fundamental para a popularização de Vargas e a permanência do sistema ditatorial no país.

O DIP possibilitava o controle de emissoras que rejeitavam o sistema de governo, assim, cada uma dessas emissoras era acompanhada por pessoas responsáveis pela censura dos conteúdos considerados inapropriados.

Em 1936 foi inaugurada a Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional que transformou a rádio em uma retransmissora oficial do Estado Novo. Por cobrir todo o território brasileiro, promoveu além de uma propaganda política, uma integração nacional. Além disso, a mesma, em 1942, passou a ser uma das cinco emissoras mais potentes do mundo (a forte verba direcionada a isso contribuiu para o alcance do título).

A rádio tinha à frente o jornalista Gilberto de Andrade e foi a primeira emissora do país a desenvolver pesquisas de popularidade, utilizando dos resultados para atrair mais anunciadores (isso gerava sua autossuficiência). A Rádio Nacional é atualmente considerada a maior lenda da rádio brasileira graças ao seu sucesso, foi nela que se deu a primeira radionovela brasileira Em Busca da Felicidade em 1941. Os rádios utilizavam de entretenimentos como uma forma de atrair ouvintes. Isso fica exposto no seguinte depoimento:

“Segundo o historiador Antônio Pedro Tota, a Rádio Educadora Paulista, em 1924, criou o programa Hora da Criança:

O fato de a criança ser incluída na programação de rádio revela a atenção dada ao aliciamento de novos ouvintes. Certamente a criança, ao ser envolvida nos apelos radiofônicos, exigiria que a família aceitasse o rádio. Em outras palavras, o rádio passava a ser incluído nos hábitos familiares, ao mesmo tempo em que a presença da ‘máquina’ na casa implicava uma maneira diferente de se usar o lar.” (Azevedo, 2002)

O relacionamento de Vargas com a Rádio Nacional é anterior aos decretos de 1931 e 1932, isso porque o até então futuro presidente do país resolveu apostar nesse veículo de comunicação. Este feito contribuiu para que Vargas conseguisse aprovar a Lei Getúlio Vargas que visava o pagamento de direitos autorais para empresas que lidassem com música.

O governo, portanto, utilizava de investimentos na rádio como uma forma de forjar uma ideologia aceitável pela população, tudo isso para buscar consolidar a imagem de Vargas como um político preocupado com o seu povo e defensor dos trabalhadores.

Após a criação do Conselho Nacional de Imprensa, composto por seis membros, o controle da mídia passou a ser ainda mais rigoroso, isso porque os veículos de imprensa, tanto nacionais quanto estrangeiros, foram obrigados a registrar seus funcionários no DIP. As agências de notícias estrangeiras foram proibidas de disseminar notícias referentes a assuntos nacionais no país.

Durante o período de guerra, o radiojornalismo foi o maior destaque das emissoras, isso porque era a maneira mais fácil e prática da população se informar sobre o que estava acontecendo nos campos de batalha. Esses programas foram tão importantes que alguns locutores da Rádio Nacional foram mandados para o front e atuavam transmitindo via telefone as últimas informações. Portanto, é fato que a Segunda Guerra Mundial contribuiu ainda mais para a popularização da emissora. Podemos perceber isso com o seguinte depoimento:

“O interesse pela Guerra levou mesmo algumas famílias a adquirir seu primeiro aparelho de rádio, como recorda o radialista paulistano Walter Silva:

Estourou a Guerra e o meu avô, o meu padrinho que era português, ele queria saber das coisas da guerra e a gente ficava ouvindo. Ele comprou um rádio (...) um New Condor, comprado nas Lojas Assunção e a gente ficava ouvindo rádio em ondas curtas.” (Azevedo, 2002)

A ideia de focar os investimentos em emissoras partiu de um modelo norte-americano, nos Estados Unidos, de Franklin Roosevelt. Lá, a radiodifusão se baseava nas agências de publicidade, que tinha interesse em conquistar audiência permitindo o desenvolvimento de técnicas de administração, edição e controle de mercados. Assim, Roosevelt entendeu que o que é transmitido na rádio vale mais pelas qualidades da elocução da voz do que pelo conteúdo em si.

Vargas analisou os resultados obtidos no modelo do norte-americano e criou o Hora do Brasil (programa radiofônico) visando esclarecer a opinião pública sobre os problemas do momento.

Apesar de sua grande popularidade, a Rádio Nacional perdeu sua influência após a chegada de novas tecnologias, como a TV nos anos 60, que gerou o fim de uma era. Mesmo enfrentando problemas administrativos e financeiros, a Nacional permaneceu como rádio pública, e atualmente se encontra como parte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), sendo importante para a preservação da memória histórica.

Podemos concluir que a Rádio Nacional foi um instrumento de distração e entretenimento para a população, mas muito além disso, foi um fator imprescindível para a formação do pensamento político das massas da época. Por meio de uma manipulação ideológica disseminada por esse instrumento tecnológico, A Rádio Nacional “educava” os cidadãos sobre seus deveres e pensamentos referentes a pátria, além de atrair o público com estratégias de lazer para agir como uma ferramenta poderosa a garantir a legitimação do Estado Novo.

“Não é preciso o contato físico entre o líder e a massa para que haja multidão” (Campos, 1941: 34).

CONCLUSÃO

Podemos concluir, portanto, que a utilização do rádio como instrumento e da Rádio Nacional, articulados ao entretenimento e cultura, foram indispensáveis na propaganda política do Estado Novo, e desenvolveram um papel importante na construção da identidade nacional brasileira. Entender esse processo é compreender que os meios de comunicação vão além da disseminação de informação, eles têm influência no campo da memória coletiva e nas narrativas históricas.

DIFICULDADES ENCONTRADAS

No que se refere a organização do grupo e a distribuição de tarefas entre os membros, não foram encontradas dificuldades. Já em relação ao método de entrevistas, as maiores obstruções foram no quesito de encontrar testemunhos da época, pois já se foi um longo período desde o Estado Novo, e os sujeitos que poderiam contribuir com um relado de memória concreta já estão falecidos. Outra dificuldade encontrada foi a falta de bibliografia traduzida sobre o surgimento do rádio, sendo necessário a leitura em inglês.

REFERÊNCIAS

GARRATT, G. R. M. The early history of radio : from Faraday to Marconi. Stevenage (Gb): Institution Of Electrical Engineers, 1995.

‌MOLLGAARD, M. Radio and Society. [s.l.] Cambridge Scholars Publishing, 2011.

STAMM, M. Sound business : newspapers, radio, and the politics of new media. Philadelphia: University Of Pennsylvania Press, 2016.

NEW ZEALAND. Wireless Telegraphy Act of 1903. Wellington, New Zealand: General Assembly of New Zealand in Parliament, 1903. Disponível em: https://www.nzlii.org/nz/legis/hist_act/wta19033ev1903n11323.pdf. Acesso em: 07 nov. 2025.

AZEVEDO, Lia Calabre de. NO TEMPO DO RÁDIO: Radiodifusão e Cotidiano no Brasil. 1923 - 1960. 2002.

RUTILLI, Marizandra. Campanha eleitoral e jornalismo político no rádio., 2016.