Trabalho de memória - Memórias de ingresso no cangaço: um estudo das motivações narradas ex-cangaceiros do bando e dos sub-bandos de Lampião (1920-1938)
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL II
PROFESSOR: PAULO TEIXEIRA
Integrantes do grupo:
Marcos Simon Nogueira - matutino
Vikytor Moreno de Sousa - matutino
Sofia Marcondes - matutino
Memórias de ingresso no cangaço: um estudo das motivações narradas por ex-cangaceiros do bando de Lampião
objetivo
Este estudo visa compreender as motivações de ex-cangaceiros pertencentes ao bando e aos sub-bandos comandados por Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião. A partir das justificativas apresentadas em suas memórias e depoimentos, busca-se realizar uma análise e um levantamento das motivações mais recorrentes, considerando o contexto histórico e social da época.
Introdução
No início do século XX, o nordeste do Brasil sofria por uma enorme instabilidade social. Marcada pela desigualdade, pela fragilidade das instituições públicas e com boa parte do seu território dominado pelo coronelismo, as disputas por terras entre famílias da época se tornaram recorrentes. Em uma espécie de resistência, o cangaço cresce contra esse e outros movimentos políticos. Nesse cenário, os cangaceiros se fundamentam na revolta. E o cangaço se fortalece como um fenômeno social complexo, que não pode ser reduzido apenas à criminalidade. Ele representa, em grande escala, um movimento de reação às estruturas de poder dominantes no sertão, reunindo indivíduos que, por diferentes razões, encontraram no cangaço uma saída. Seja por revolta, desejo de vingança, necessidade de proteção, busca por subsistência ou quebra com a ordem social imposta.
Desenvolvimento
O cangaço foi um movimento originário do nordeste, que surgiu no fim do século XIX e teve grande força até a metade do século XX. A origem do termo ainda não é certa, mas são levantadas algumas hipóteses sobre sua emergência. Para Lokoi (2005), sua nominação derivaria da palavra “canga”, um objeto de madeira utilizado para prender bois às carroças. Sua associação, devia-se pelo fato dos cangaceiros serem grupos que migraram de um canto a outro pelo refúgio, sempre levando consigo muito peso.
Em meio ao movimento coronelista, o abandono para com a região nordeste e a situação do Brasil Império, o cangaço surge. O nordeste sofria por fortes secas, como em 1915, tendo como o epicentro o Ceará, e em 1919-1921 no sertão pernambucano, o berço do cangaço.
A memória, como bem aponta Barros (1999), não é apenas individual, mas coletiva, construída a partir de imagens vividas e impressões do ambiente de combate. Em sua pesquisa, a autora evidencia como as lembranças dos ex-cangaceiros e de seus perseguidores são marcadas por valores como coragem, honra e valentia, mas também por dor, ódio e injustiça. Essa dualidade permite compreender as motivações que levaram indivíduos a aderir ao cangaço, muitas vezes como resposta a violências sofridas ou em busca de um código de honra alternativo ao do Estado.
Muitos cangaceiros, como relata Barros (1999), justificavam sua entrada no bando como uma forma de vingança contra injustiças cometidas pela polícia ou por poderosos locais. Outros, ainda jovens, eram atraídos pelo espírito de aventura ou pela falta de perspectivas em um sertão marcado pela seca e pela miséria. Uma vez inseridos no grupo, tornavam-se “marcados” e, sem alternativas, permaneciam no cangaço até a morte.
Para este estudo, foram analisadas 17 entrevistas gravadas com ex-cangaceiros, sendo 10 homens e 7 mulheres, permitindo a preservação de suas memórias com enfoque em suas motivações.
Homens entrevistados:
Deus-te-guie (Domingos José da Silva), Barreira (José Correia dos Santos), Saracura (Benício Alves dos Santos), Labareda (Ângelo Roque da Costa), Balão (Guilherme Alves), Criança (João Alves da Silva), Volta Seca (Antônio dos Santos), Vinte e Cinco (José Alves de Matos), Zé Sereno (José Ribeiro Filho) e Moreno (Antônio Inácio da Silva).
Mulheres entrevistadas:
Adília (Maria Adília de Jesus), Dadá (Sérgia Ribeiro da Silva), Aristéia (Aristéia Soares de Lima), Otília (Otília Teixeira de Lima), Dulce (Dulce Menezes dos Santos), Sila (Ilda Ribeiro da Silva) e Durvinha (Durvalina Gomes de Sá).
Ao analisar essas entrevistas, percebe-se uma semelhança marcante entre as experiências das mulheres. A maioria delas afirma ter ingressado no cangaço em função de um companheiro já pertencente ao grupo.
A cangaceira Adília que ingressou aos 16 anos, companheira do cangaceiro Canário (Bernardino Rocha), relata:
“Eu entrei no cangaço porque eu namorava com ele e meus pais não queriam.”
E reforça sua devoção ao companheiro afirmando:
“Se você for pro inferno, eu também vou.”
Os depoimentos de Dadá e Sila também evidenciam a ilusão que muitas jovens da época nutriam pelos cangaceiros. Dadá relata:
“Muitas vezes eu chegava e via meninas bonitinhas, todas influidas com eles, namorando.”
Ela afirma ainda que aconselhava essas meninas a não seguir esse caminho, pois “não tinha futuro”, mostrando que sua própria entrada no cangaço não foi por escolha, mas por falta de alternativas.
Sila complementa:
“Por amor, muitas entravam pelo amor.”
E cita outras cangaceiras movidas pelo mesmo motivo, como Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira).
Entre os homens, observa-se um padrão distinto. Predominam relatos de revolta e intrigas locais. O cangaceiro Saracura, que era lavrador antes de ingressar no bando, afirmou:
“Fui obrigado a entrar por perseguição da polícia.”
Ele explica que a motivação estava vinculada à tortura sofrida por seu pai:
“Pegou meu pai, arrancou as barbas, arrancou as unhas dizendo que ele era coiteiro.”
Sendo os Coiteiros, pessoas que ofereciam abrigo e apoio logístico aos cangaceiros, perseguidas pelas volantes policiais da época.
considerações finais
A partir da análise das entrevistas realizadas com 17 ex-cangaceiros e ex-cangaceiras que integraram o bando de Lampião, foi possível identificar que as motivações para o ingresso no cangaço não são homogêneas, mas atravessadas por fatores sociais, históricos e pessoais. As narrativas revelam que o cangaço, longe de ser apenas uma escolha individual, surge como resposta a um contexto marcado pela violência institucional, pela pobreza extrema, pelas secas recorrentes e pela ausência do Estado no sertão nordestino.
Entre os homens, prevalecem relatos que apontam para a perseguição policial, injustiças cometidas por autoridades locais e conflitos familiares como principais motivos de adesão ao bando. Muitos deles afirmam terem sido forçados a fugir após episódios de violência ou humilhação, vendo no cangaço a única alternativa possível para sobreviver. Esse padrão reforça a compreensão do cangaço como um fenômeno social que emergiu das falhas estruturais do sistema jurídico e político da época.
Entre as mulheres, observa-se um quadro distinto, embora igualmente marcado pela falta de opções. A maioria relata ter ingressado no cangaço por amor ou pelo vínculo afetivo com um companheiro já pertencente ao grupo. No entanto, esses testemunhos também evidenciam o peso da vulnerabilidade social e da ausência de autonomia feminina naquele período. Muitas dessas mulheres não viam sua entrada no cangaço como motivo de orgulho, mas como resultado inevitável das circunstâncias em que viviam.
Desse modo, o estudo confirma que as memórias dos ex-integrantes do cangaço revelam experiências atravessadas por dor, injustiça, resistência e, em alguns casos, idealizações amorosas. Mais do que simples relatos pessoais, essas memórias constroem uma visão complexa sobre o fenômeno, demonstrando que o cangaço não pode ser compreendido apenas pela ótica da criminalidade, mas como expressão das desigualdades e tensões históricas do sertão nordestino.
Assim, o levantamento realizado contribui para preservar e interpretar as narrativas desses sujeitos, permitindo uma leitura mais profunda sobre as motivações que os levaram a ingressar no cangaço, ao mesmo tempo em que evidencia a importância da memória coletiva para a compreensão desse capítulo marcante da história brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Lutgarde Oliveira Cavalcanti. Cangaço e Memória. Educação em Debate, Fortaleza, ano 21, n. 37, p. 26-31, 1999.
IOKOI, Z. (Org.). (2015): Cangaço: Insurgentes do Nordeste Origens no Século XIX. FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP - Universidade de São Paulo. São Paulo. 2015.
Vídeos de apoio:
17 ENTREVISTAS RARAS COM EX CANGACEIROS. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/whNd0dzPLps?si=nnEnMZZDBrbLq8-u
. Acesso em: 2 nov. 2025
ENTREVISTA COM SILA, CANGACEIRA DE LAMPIÃO, O REI DO CANGAÇO. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/YcUuF392894?si=AKaNalAJOv_0hzNx
. Acesso em: 2 nov. 2025.
MEMÓRIAS DO CANGAÇO :com Saracura e Labareda, YouTube. Disponível em: https://youtu.be/sD1zlp5okTM?si=hNw11S5tYLTufENq
. Acesso em: 2 nov. 2025.