Ir para o conteúdo

Trabalho de memória - O Olhar do Povo Sobre a Ditadura Militar - Pedro Augusto Dias, Lucas Castão Bento e Vitor Gabriel Botini

De Wikiversidade

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

[editar | editar código]

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS - CAMPUS DE MARÍLIA

[editar | editar código]

CIÊNCIAS SOCIAIS - MATUTINO

[editar | editar código]

HISTÓRIA DO BRASIL II

[editar | editar código]

Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira

Pedro Augusto Pereira Dias, Lucas Castão Bento Lemes e Vitor Gabriel Botini

Trabalho com embasamento teórico e entrevista com análises.

O Olhar do Povo Sobre a Ditadura Militar

[editar | editar código]

Pesquisas: Trabalho sobre a construção da memória da ditadura militar, dos anos de 1964 a 1988, com entrevistas presenciais de 5 pessoas com questionário pré-elaborado para a entrevista com perguntas direcionadas ao regime militar e com o recorte do público com casais da Bahia, Santa Mariana e Marília e uma entrevistada em Neves Paulista.

O trabalho analisa a construção da memória sobre a Ditadura Militar brasileira (1964–1988) a partir de entrevistas com cinco pessoas de diferentes regiões do país. Fundamentado em autores como Napolitano, Halbwachs e Pollak, o estudo discute como as memórias individuais e coletivas revelam disputas entre narrativas oficiais e lembranças silenciadas. As entrevistas mostram que, mesmo em contextos rurais e distantes, o regime impactou a vida cotidiana, especialmente durante o chamado “milagre econômico”, que trouxe melhorias limitadas e desiguais.

MARÍLIA, SP

[editar | editar código]

A Construção da Memória: Conceitos e Abordagens

[editar | editar código]

Se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior, como se uma mesma experiência fosse compartilhada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias (HALBWACHS, 1990, p. 25). Nesse sentido, nós, quanto seres sociais, construímos memórias ao longo do tempo em grupos sociais distintos — “quadros sociais” — que moldam, orientam e limitam, sendo na coletividade que vai ser determinado o que será lembrado, pois são esses grupos que compõem nossa memória. É na memória individual que adicionamos pontos de vista sobre a memória coletiva, que comporá a narrativa do grupo e as memórias geradas por esses — memórias essas orais.

Nesse sentido, a memória não é apenas um acúmulo de lembranças individuais, mas uma construção compartilhada, situada e influenciada pela posição social de quem lembra. Pollak (1989, p. 3) e Halbwachs (1968) afirmam: “Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória, mas também um processo de ‘negociação’ para conciliar memória coletiva e memórias individuais: ‘Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum.’”.

As memórias orais não são somente passadas e adquiridas, mas sim, deve haver concordância de ideias entre o propagador e o sujeito em que será construída essa memória, construída pelo convívio social. A memória, assim, é armazenamento de informações e fatos obtidos através de experiências ouvidas ou vividas, que possam vir a cair no esquecimento, algumas vezes, e principalmente no silêncio, como analisado por Pollak (1989) em Memória, esquecimento, silêncio, onde o autor analisa os fatos do porquê muitas vezes certas memórias se silenciam, caem no não dito, mesmo após os ocorridos, e que trazem discursos importantes para montagem da memória da época.

Esses discursos, feitos pelo Estado para formação ideológica, muitas vezes ficam nesse silêncio por questões de silenciamento à força, traumas e vergonhas, deixando espaço para criação de outras interpretações sobre um mesmo momento, muitas vezes tomadas pelo poder da época para afirmação de seu ideal, omitindo e criando novos fatos.

Como dito por Pollak (1989, p. 8): “Enquanto uns viveram o silêncio e com resistência de uma sociedade civil impotente, outros que não sentiram/vivenciaram da mesma forma os acontecidos acreditam em meias-verdades que o Estado deu, culminando nos antros familiares e amistosos duas narrativas diferentes sobre um mesmo período (...). A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor.”

O autor argumenta que, em sociedades marcadas por experiências traumáticas, como guerras ou ditaduras, parte significativa da memória permanece “subterrânea”, transmitida oralmente e fora das esferas institucionais (POLLAK, 1989). Esse silêncio, porém, não equivale ao esquecimento; pelo contrário, muitas vezes constitui uma forma de resistência contra discursos oficiais, os quais buscam impor versões consolidadas e homogêneas do passado. A memória dissidente circula nos espaços íntimos — família, vizinhança, redes de confiança — e frequentemente entra em conflito com as narrativas hegemônicas construídas pelo Estado.

Contexto Histórico

[editar | editar código]

O contexto político aqui proposto, foi um momento de extrema importância para a história política e social do país. Seu início está intrinsicamente ligado a um contexto de instabilidade política, econômica e ideológica vivida no governo de João Goulart (1961-1964).

Nesse sentido, em 25 de agosto de 1961, o então presidente Jânio Quadros, surpreende a população brasileira ao renunciar seu cargo de presidente, com apenas sete meses de atuação. A renúncia de Quadros tinha como objetivo uma manobra política de “autogolpe” seu objetivo era que sua renúncia causasse comoção popular ao ponto de o levar novamente ao poder com mais autoridade, se aproveitando da impopularidade de seu vice-presidente João Goulart, que no presente momento residia na dita china comunista, com intuito de se aumentar os laços econômicos.

A manobra política de Jânio fracassa, e de acordo com a constituição de 1946 o cargo deveria ser ocupado pelo vice-presidente (João Goulart) que foi eleito separadamente, o que refletia a fragmentação política do país.

Goulart era uma figura muito associada ao trabalhismo e os movimentos sindicais, onde o mesmo ocupou o cargo de ministro do trabalho no governo Vargas e presidente do partido trabalhista (PTB). Sua figura era considerada hostil pelas elites econômicas e os setores das forças armadas, que o acusavam de simpatizar com a ideologia comunista.

Nesse contexto, parte dos militares, especialmente os generais do Comando do III Exército, sediado no Rio Grande do Sul recusou-se a aceitar sua posse, argumentando que Goulart representava uma ameaça à segurança nacional. O então ministro da Guerra, general Odílio Denys, chegou a declarar que as Forças Armadas não permitiriam seu retorno ao país.

Em resposta, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, cunhado de Goulart, organizou a Campanha da Legalidade. Esse movimento, iniciado em 25 de agosto de 1961, mobilizou militares legalistas, civis e estudantes em defesa do cumprimento da Constituição e da posse legítima do vice-presidente. Brizola utilizou a Rádio Guaíba e depois a Rádio Farroupilha, criando a famosa “Cadeia da Legalidade”, que transmitia discursos e orientações em tempo real, incentivando a resistência contra qualquer tentativa de golpe militar. O movimento teve ampla adesão popular no Rio Grande do Sul e em outros estados, tornando-se um dos maiores levantes civis em defesa da legalidade democrática no Brasil.

A tensão entre os defensores da legalidade e os setores militares contrários à posse levou o país à beira de uma guerra civil. Para evitar um conflito armado, foi articulada uma solução de compromisso político: a instauração do parlamentarismo. Essa proposta, elaborada pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Tancredo Neves, e por líderes do Congresso, foi aprovada em 2 de setembro de 1961.

O Ato Adicional nº 4 à Constituição estabeleceu o regime parlamentarista, limitando os poderes do presidente e transferindo parte das funções executivas ao primeiro-ministro, que seria escolhido pelo Parlamento. Assim, João Goulart pôde assumir a presidência em 7 de setembro de 1961, com Tancredo Neves como primeiro-ministro, em um ambiente político extremamente dividido.

Nos anos seguintes, as tensões persistiram. Goulart tentou recuperar seus poderes plenos e fortalecer sua base de apoio popular, o que culminou no plebiscito de 6 de janeiro de 1963, quando 82% dos eleitores votaram pela volta do presidencialismo. Embora o resultado tenha devolvido a Jango o poder político, o país já enfrentava grave crise econômica, inflação crescente, greves e polarização ideológica, fatores que contribuíram para o ambiente de instabilidade que culminaria no golpe militar de 31 de março de 1964.

Memória Histórica do Golpe de 1964

[editar | editar código]

Momentos de instabilidade política e social, como golpes de estado, guerras civis, revoluções e ditaduras, constituem obviamente momentos particularmente traumáticos na história. Pois esses momentos expressam profundas divisões ideológicas no corpo social e político de uma nação, aqueles que saem vencedores desses processos fazem grande esforço para reescrever a história.  

Na tentativa de justificar os fatos no plano ético, é necessário controlar as narrativas e impor na memória contemporânea uma perspectiva que atende a seus demasiados interesses. Sob essa ótica, os regimes se utilizam da memória para se justificar na história.

Dessa forma, se encontram os fatores ideológicos, se por um lado os revolucionários, precisam explicar a ruptura e buscar no passado as novas raízes da sociedade que pretendem construir. Os conservadores precisam justificar a ruptura como forma de manter os valores dominantes, as hierarquias e as instituições vigentes na sociedade, regenerando-as e afastando o que julgam ser ameaça à ordem tradicional. E o curioso é que o regime cívico militar tentou mesclar as duas narrativas.

Diante disso, os militares em 1964 se orientavam por uma ideologia mais atrelada á um “reformismo autoritário”, que em linhas gerais essa tradição do pensamento tinha um aspecto modernizadora, que nem sempre se conciliava com grupos historicamente conservadores como os católicos e as oligarquias liberais.

No quesito narrativo, os militares se apresentavam como “revolucionários” no sentido em que guiavam as reformas modernizantes da sociedade brasileira, na direção de um capitalismo industrial desenvolvido e de uma democracia institucionalizada e sem conflitos, com as classes populares sobre sub supervisão.

Porém, ao mesmo tempo em que se chamavam de “revolucionários” eles defendiam a ordem, pois pretendiam modernizar o capitalismo industrial no país sem alterar sua estrutura social. Eram também antirreformistas, mas falavam em reformas. Falavam sobre defesa da pátria, mas criticavam o nacionalismo econômico das esquerdas. Prometiam democracia enquanto instauraram uma ditadura.

Os Crimes cometidos pela ditadura  

[editar | editar código]

A ditadura militar, foi um momento marcado por muitos crimes cometidos pelo aparelho governamental, na liderança dos militares. Na obra memorialística escrita por Frei Betto, “Batismo de Sangue”, o autor reconstrói suas experiências durante o período da Ditadura Militar brasileira, revelando as marcas deixadas pela repressão e pela violência de Estado. Através de suas memórias, o autor revela os horrores vividos por religiosos dominicanos, que movidos pela fé e pelo compromisso com a justiça social, se envolveram ao grupo de resistência de Carlos Marighela Ação Libertadora Nacional (ALN).

O Autor descreve, em detalhes, o ambiente de medo e perseguição instaurado pelo regime. Prisões ilegais, interrogatórios violentos, choques elétricos, pau de arara, cadeira do dragão, afogamentos e espancamentos eram práticas comuns nos porões do governo. A tortura, longe de ser um ato isolado, transformou-se em uma política de Estado.  

Nesse sentido, o dominicano descreve a vida de Carlos Marighella e a sua morte, apresentando-o não apenas como um militante político, mas como um símbolo da resistência à opressão. Sua execução, em 1969, pelos militares, é tratada na obra como um marco da crueldade do regime e da forma como o Estado utilizou o medo e a violência para eliminar seus opositores.

Um episódio emblemático desse período foi a forma como os jornais da época noticiaram o fato, veiculando manchetes manipuladas e carregadas de falsidades, de modo a reforçar o discurso oficial e legitimar as ações do regime.  

As manchetes afirmavam que o militante havia morrido em um intenso tiroteio ao reagir à prisão, quando, na verdade, ele foi executado em uma emboscada montada pelo DOPS. As notícias ainda o rotulavam como “terrorista” e “inimigo da pátria”, ocultando o contexto político e o ideal de liberdade que motivavam sua luta. Essa manipulação da informação serviu para legitimar a violência do Estado e manter a imagem de que a ditadura agia em defesa da ordem e da segurança nacional.

Disputa da Memoria nos dias atuais sobre 1964

[editar | editar código]

Entende-se como disputa de memória, para Halbwachs (1990), que ela ocorre quando diferentes grupos sociais procuram impor suas próprias interpretações do passado, prevalecendo a versão que melhor corresponde aos seus valores. Já para Pollak (1989), a disputa surge quando grupos silenciados historicamente confrontam as versões oficiais do passado, desafiando as representações dominantes produzidas pelo Estado. E, como analisado por Napolitano (2014), a disputa se intensifica quando regimes políticos tentam controlar as interpretações históricas para legitimar suas ações.

A articulação entre esses autores permite compreender que a disputa pela memória da ditadura militar não é apenas um embate de interpretações sobre o passado, mas um processo sociopolítico ativo. As memórias das vítimas e de grupos marginalizados, frequentemente mantidas oralmente e transmitidas em redes afetivas, confrontam as narrativas hegemônicas que tentam reescrever os acontecimentos para legitimar a violência de Estado. Assim, o estudo da memória no Brasil contemporâneo exige considerar não apenas a construção da narrativa oficial — cristalizada posteriormente em documentações como o Relatório da Comissão Nacional da Verdade — mas também as memórias subterrâneas que sobrevivem em silêncio, resistência e conflito.

“A despeito da importante doutrinação ideológica, essas lembranças durante tanto tempo confinadas ao silêncio e transmitidas de uma geração a outra oralmente, e não através de publicações, permanecem vivas (...) O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo tempo, ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades” (POLLAK, 1989, p. 5).

Houve um campo da memória que entrou em disputa, relacionado ao contexto de memórias — principalmente orais — ligadas aos anos da ditadura (1964–1985) e ao período pós-Bolsonaro no poder, quando se observou um discurso reacionário e saudosista reemergindo por parte da população brasileira. Esse movimento contou com segmentos significativos da população que, muito provavelmente, não vivenciaram a parte opressora do regime — pelo menos não do lado dos oprimidos — e lançaram ao poder, no segundo turno, com 55,13% dos votos, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Este, por sua vez, era dotado de discursos que trouxeram à tona a memória em disputa, discursos esses que residiam em partes fúnebres, maleáveis e, em alguns casos, ingênuas — mas nem sempre inocentes, no sentido de puras e não maliciosas — da realidade brasileira.

“Para que emerja nos discursos políticos um fundo comum de referências que possam constituir uma memória nacional, um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a simples montagem ideológica, por definição precária e frágil” (POLLAK, 1989, p. 9).

Nesse sentido, nessa época do século XXI, em que o discurso pró-ditadura emergiu — já que sempre esteve plantado e engendrado no ideário da memória dessa população —, alguns anos antes, em 2012, formou-se a Comissão Nacional da Verdade. Esta contou com o auxílio de partes populares, municipais, estaduais e federais, além de uma organização extensa composta por familiares de mortos e desaparecidos políticos; comissões estaduais, municipais e setoriais da verdade; comitês populares de memória, verdade e justiça; sindicatos; entidades de direitos humanos; universidades; órgãos das administrações federal, estaduais e municipais de todo o país; instituições legislativas, judiciárias e do Ministério Público; arquivos públicos; Estados estrangeiros; organizações internacionais e a imprensa.

Seu objetivo foi a investigação, descoberta, comprovação e formulação de um relatório que perpassa os anos de 1946 a 1988, apurando e trazendo a verdade sobre as graves violações dos direitos humanos ocorridas nessas épocas — principalmente nos anos de ditadura (1964–1985). A Comissão conseguiu confirmar e identificar 434 mortos e desaparecidos do regime militar, números esses que não correspondem ao total de vítimas, mas que tiveram o importante papel de comprovar e oficializar a morte dessas pessoas.

A Comissão Nacional da Verdade buscou consolidar uma narrativa oficial, baseada em investigações e testemunhos, sobre as violações de direitos humanos praticadas entre 1964 e 1988. Até então, a ausência de reconhecimento estatal sobre esses fatos — agravada pela destruição deliberada de parte da documentação e pelo acesso restrito a arquivos — favorecia a permanência de memórias fragmentadas, sustentadas sobretudo por relatos orais de familiares de vítimas e de grupos atingidos pela repressão.

Ao mesmo tempo, a redemocratização não eliminou a presença de discursos que relativizam ou negam a violência do regime. A emergência, nas últimas décadas, de lideranças políticas que expressam simpatia pelo período autoritário revela que a disputa pelas memórias da ditadura permanece ativa e não foi plenamente superada.

Entrevistas

[editar | editar código]

Um período histórico, por mais impacto e influência que tenha sobre a vida das pessoas, as atinge de formas diferentes; e o problema toma outra proporção se, para justificarmos essa diferença, entendemos que os fatores particulares, subjetivos ou não, influenciam na vivência e na lembrança que certos sujeitos têm de uma época que já se passou e hoje existe para eles apenas como conservação da memória. É essa diferença que buscamos atenuar em nossa pesquisa.

Como nosso objeto de estudo foi uma época relativamente distante, as dificuldades que os entrevistados tiveram para se recordar do que se passou naquele momento foram consideráveis — principalmente quando houve a tentativa de se retirar parcialmente do escopo subjetivo puro para tocar em uma experiência e vivência mais geral ou coletiva da época em questão. Fizemos um roteiro de entrevista para abordar sempre as mesmas perguntas (o roteiro será anexado ao final do texto), com o intuito de manter um padrão e colaborar com a manifestação do contraste. Assim, mesmo com essas dificuldades, conseguimos evidenciar um contraste proveitoso sobre como polos muito distintos experienciaram (ou não) os eventos de 1964.

Primeiro, faz-se importante enunciar o perfil dos entrevistados. Pela facilidade de contato, optamos por entrevistar os avós de um participante de nosso grupo (ambos, parte de pai e de mãe), os quais, naturalmente, tiveram desenvolvimentos muito diferentes em certo sentido. Da parte paterna, o avô tinha 16 anos em 1964, enquanto a avó tinha 9. Já na parte materna, o avô tinha 15 e a avó 17.

Nossa análise começou pelos avós maternos. Ambos moravam em uma cidade que, na época, se chamava Água Quente, hoje conhecida como Érico Cardoso. A região tem uma história antiga e marcada por transformações significativas. Originalmente habitada por povos indígenas tapuias, começou a ser colonizada entre 1715 e 1720, quando a descoberta de ouro nas imediações do Morro do Fogo atraiu desbravadores vindos de diferentes partes, principalmente de Minas Gerais, São Paulo e Portugal. Esses colonos criaram fazendas e passaram a se dedicar, além da mineração, à agricultura e à pecuária — atividades que moldariam o modo de vida local.

O Arraial do Morro do Fogo se tornou um importante núcleo regional, especialmente por volta de 1840, quando mineradores de Rio de Contas migraram para lá em busca de novas oportunidades. Com o tempo, no entanto, o ouro se esgotou, e a economia precisou se reinventar. Foi nesse contexto que surgiu o Arraial de Água Quente — nome inspirado nas águas termais existentes na região —, que cresceu impulsionado pelo comércio e pela agropecuária. A partir daí, o centro administrativo foi transferido do Morro do Fogo para Água Quente, marcando o início de uma nova fase de desenvolvimento.

Mesmo enfrentando disputas políticas e rivalidades entre lideranças locais, o arraial manteve seu crescimento. No início do século XX, foi incorporado ao município de Paramirim, mas, em 1962, recuperou sua autonomia, tornando-se um novo município. Poucos anos depois, em 1985, recebeu oficialmente o nome de Érico Cardoso, em homenagem ao seu primeiro prefeito.

O ponto central aqui é que a importância rural para o fator econômico, assim como seu caráter de desenvolvimento territorial, influenciaram muito na vida dos entrevistados — no sentido de que ambos viviam em uma parte do município que chamavam de “roça”, onde sua vida era muito limitada às experiências que existiam dentro desse ambiente. Ambos os avós maternos trabalhavam na parte rural da roça; de tudo o que plantavam, uma parte ficava para os donos da terra, e a outra ficava para os trabalhadores, que vendiam nas feiras de domingo.

Tanto o avô materno quanto a avó começaram a trabalhar desde muito cedo e, até o momento em que se casaram (o avô tinha, na época, 20 anos e a avó, 22), cada um, da mesma forma que todos os irmãos do avô ou da avó, entregava seu dinheiro aos pais para ajudar nos mantimentos da casa.

O panorama geral nos mostra — nesse caso dos avós maternos — que os limites da experiência de vida do casal em questão não ultrapassavam os limites territoriais do trabalho no campo. E, nesse caso, isso também ocorre se nos voltarmos para suas impressões subjetivas. Quando questionados sobre temas relacionados à segurança ou à política, no caso dos dois, esses traços naturais do ser humano corporificado no Estado não chegavam a se manifestar — ou, pelo menos, não apareciam para eles.

Aqui, se quisermos nos valer dos exemplos, é necessário antes contextualizar que, na história de cada indivíduo situado no polo materno, a escolaridade não foi um traço muito desenvolvido ou incentivado. A avó estudou somente até o ensino fundamental, enquanto o avô não chegou a estudar; e isso foi uma característica presente não apenas no núcleo familiar dos entrevistados, como também em todos que estavam à sua volta. A consequência dessa peculiaridade é que todos com quem os entrevistados tinham contato — e que colaboraram para sua experiência da época —, em sua maioria, não sabiam escrever o próprio nome, nem sequer possuíam documentos. Consequentemente, tudo ali era resolvido com base em uma confiança mútua.

Por isso, uma das frases repetidas pelos dois avós era: “Naquela época a gente podia confiar nas pessoas, não é que nem hoje em dia.” Seja pelo lugar onde moravam ou não, fato é que a confiança no outro, para eles, era tamanha que não viam a necessidade da intervenção policial — que, inclusive, não existia para eles naquela época —, assim como não havia energia elétrica, que ainda não havia chegado ao local. Ou seja, as notícias ou não chegavam (pois também relataram não ter contato com jornais impressos) e, quando chegavam, eram limitadas a superstições religiosas, as quais o avô relatou como sendo “mentiras que os mais velhos que iam para as cidades falavam”.

Tendo em vista que tanto as questões internas quanto as externas eram majoritariamente limitadas pela vida cerceada pelos limites impostos pelo trabalho rural, um ponto que se destacou de modo a agregar à pesquisa foi o fator econômico. Para os entrevistados, não houve muita diferença entre o período que cobria sua infância até os 15 anos (1964), sendo apenas ao completar 20 que as coisas melhoraram, como ele relata. Esse período cobre exatamente o chamado “milagre econômico”, que vai de 1968 a 1973.

Diante disso, a terceira pessoa entrevistada respondeu à seguinte pergunta: “Como era a qualidade de vida da época?”

“Dava para sobreviver, as coisas eram difíceis, mas não impossíveis. Havia períodos em que os preços estavam mais acessíveis e outros em que tudo ficava mais caro. No entanto, a época mais complicada foi durante a minha infância, em 1964. Nesse tempo, o custo de vida era alto, e produtos básicos, como o arroz, tornaram-se escassos. Lembro-me de momentos em que o arroz ficou tão caro que era quase impossível comprá-lo. Com o passar dos anos, durante a minha adolescência, as coisas começaram a melhorar um pouco. Entre 1968 e 1975, apesar das dificuldades, a vida se tornava mais estável. Ainda não havia concluído os estudos — só fui me formar entre 1978 e 1979 —, mas já trabalhava com a catação e o beneficiamento do café. As mulheres ficavam nas máquinas, separando os grãos crus e ruins, deixando apenas os bons para serem torrados. Eu trabalhava junto com minha mãe e, com esse serviço, conseguia ganhar um dinheirinho que ajudava nas despesas de casa.”

A partir desse relato, torna-se perceptível que, mesmo diante de realidades sociais e geográficas distintas, o chamado “milagre econômico” produziu efeitos similares sobre o cotidiano das pessoas, revelando contradições entre o crescimento econômico e as condições reais de vida da população.

Materiais e métodos

[editar | editar código]

Esta pesquisa insere-se no campo da história social e da sociologia da memória, com enfoque qualitativo e caráter exploratório-descritivo. O objetivo central foi compreender como a Ditadura Militar brasileira (1964–1988) é lembrada, narrada e disputada no âmbito da memória familiar, a partir de diferentes contextos regionais e trajetórias de vida.

Foram utilizados dois conjuntos principais de fontes:

  1. Fontes bibliográficas e documentais, empregadas como referencial teórico e contextual:
    • Obra de Maurice Halbwachs sobre memória coletiva, articulada à noção de “quadros sociais” da memória;
    • Texto de Michael Pollak sobre memória, esquecimento e silêncio, com destaque para a ideia de memórias subterrâneas e enquadramentos;
    • Análise de Marcos Napolitano sobre 1964 e a construção historiográfica do regime militar;
    • Obra memorialística de Frei Betto, especialmente Batismo de sangue, como exemplo de memória de oposição e denúncia da violência de Estado;
    • Relatórios da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em especial os volumes que tratam de mortos e desaparecidos e da sistemática de violações de direitos humanos.
  2. Fontes orais, constituídas por cinco entrevistas presenciais com pessoas que viveram o período da ditadura, selecionadas a partir dos seguintes critérios:
    • serem nascidas antes ou durante os anos 1960;
    • terem vivido sua infância ou juventude entre 1964 e 1985;
    • representar diferentes espaços sociais e regionais: casais da Bahia (Érico Cardoso, antiga Água Quente), de Santa Mariana (PR) e Marília (SP), além de uma entrevistada residente em Neves Paulista (SP);
    • manter vínculo de proximidade familiar com um dos integrantes do grupo de pesquisa, o que facilitou o acesso, o consentimento e a construção de confiança.

Instrumentos e procedimentos de coleta

[editar | editar código]

Foi elaborado previamente um roteiro de entrevista semiestruturado, com perguntas abertas, organizado em eixos temáticos:

  • condições de vida e trabalho (infância, adolescência, início da vida adulta);
  • poder de compra, percepções sobre economia e “qualidade de vida”;
  • segurança, presença da polícia, sensação de ordem ou medo;
  • religião e mensagens transmitidas por lideranças religiosas à época;
  • acesso a meios de informação (rádio, jornais, boatos, conversas de vizinhança);
  • lembranças específicas ou ausência de lembranças sobre a ditadura, 1964, “comunismo”, desaparecimentos, repressão, eleições e presidentes;
  • impressões atuais sobre o período e conexões com o presente político.

As entrevistas foram realizadas presencialmente, com registro em áudio mediante autorização verbal dos participantes, explicitando-se o propósito acadêmico da pesquisa e o uso dos relatos apenas para fins de estudo. Em seguida, os áudios foram transcritos integralmente, preservando expressões, hesitações e marcas da fala, sempre que relevantes para a análise da memória.

Tratamento e análise dos dados

[editar | editar código]

A análise foi conduzida em três movimentos principais:

  1. Leitura analítica das transcrições, identificando temas recorrentes e diferenças entre os relatos, especialmente entre os dois casais de avós (polo materno e polo paterno) e a entrevistada de Neves Paulista.
  2. Construção de eixos de comparação, cruzando as experiências relatadas com categorias oriundas do referencial teórico:
    • memória coletiva x memória individual (Halbwachs);
    • silêncio, esquecimento e memórias subterrâneas (Pollak);
    • disputas pela interpretação do golpe, da ditadura e do “milagre econômico” (Napolitano; CNV);
  3. Articulação entre experiências individuais e contextos históricos, relacionando:
    • o isolamento rural, a baixa escolaridade e a ausência de documentos nas memórias dos avós maternos;
    • a combinação rural/urbano, o trabalho precoce, a centralidade do rádio e o medo difuso do “comunismo” nas memórias dos avós paternos;
    • as marcas do “milagre econômico” na percepção de melhora ou estabilidade econômica, em contraste com a permanência da pobreza e da desigualdade.

A pesquisa reconhece seus limites metodológicos: número reduzido de entrevistados, recorte familiar, forte influência de reinterpretações presentes (como o bolsonarismo) sobre lembranças passadas e dificuldade inerente à memória de eventos distantes. Tais limites, entretanto, são assumidos como parte da natureza da história oral e da sociologia da memória, em que a precisão factual cede lugar à análise de sentidos, silêncios e enquadramentos.

Conclusão

[editar | editar código]

O trabalho buscou compreender como a Ditadura Militar brasileira (1964–1988) é lembrada, esquecida ou ressignificada por sujeitos comuns, situados em diferentes contextos regionais e sociais, a partir de um conjunto de entrevistas com cinco pessoas que viveram sua infância ou juventude durante o período autoritário. À luz de Halbwachs, Pollak, Napolitano, Frei Betto e dos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, foi possível perceber que a memória do regime se constrói em camadas desiguais, atravessadas por silêncios, disputas e apropriações políticas posteriores.

Os resultados mostram que a ditadura não aparece, para os entrevistados, como um bloco homogêneo de sentidos. Entre os avós maternos, cuja vida foi fortemente marcada pelo trabalho rural em Água Quente/Érico Cardoso, com baixa escolaridade, ausência de documentos e quase nenhum acesso a meios de comunicação, a ditadura surge pouco ou nada nomeada. O que permanece são lembranças de trabalho duro, de confiança entre vizinhos, de ausência de polícia e de notícias que chegavam apenas como rumores religiosos ou “mentiras dos mais velhos”. Nesse caso, o silêncio sobre o regime não indica simpatia, mas limites de experiência e de informação — um exemplo claro daquilo que Pollak descreve como memórias subterrâneas e espaços de não dito.

Já entre os avós paternos, que viveram entre Santa Mariana (PR) e Marília (SP), combinando trajetórias rurais e urbanas, com passagem por fábricas, empresas e contato direto com o rádio e “A Voz do Brasil”, a memória da época é atravessada por uma forte ênfase em ordem, segurança, disciplina e medo difuso do “comunismo”. Embora não tragam relatos de repressão direta — prisões, torturas ou desaparecimentos —, internalizam com mais força o discurso oficial do período, construindo uma imagem positiva da ditadura enquanto momento de controle e estabilidade. Essa apropriação seletiva do passado ajuda a explicar a adesão posterior a discursos autoritários contemporâneos, como o bolsonarismo, nos quais a violência estatal é vista como extensão legítima da proteção social.

A comparação entre os dois casais de avós revela que as orientações políticas atuais, os julgamentos morais e as narrativas sobre 1964 não podem ser compreendidos apenas como escolhas individuais, mas como resultado de formações históricas profundamente enraizadas em condições materiais específicas: localização (roça/cidade), acesso a informação, escolaridade, relação com o Estado e experiências de trabalho. A década de 1960 e seus desdobramentos não se inscrevem na memória das famílias como “golpe”, “ato institucional” ou “ditadura” em abstrato, mas como fome, trabalho, medo, disciplina, boatos, melhorias pontuais de renda ou sensação de segurança — elementos concretos do cotidiano.

Ao articular essas memórias com o referencial teórico, o trabalho mostrou que:

  • a memória coletiva é sempre mediada por quadros sociais (Halbwachs), isto é, pelas redes de sociabilidade e posições sociais que definem o que pode ser lembrado;
  • o silêncio e o esquecimento não equivalem à ausência de memória, mas podem representar formas de resistência ou produto de violência simbólica (Pollak);
  • a disputa de memória não se limita aos livros de história ou aos relatórios oficiais, mas se estende ao interior das famílias, às conversas religiosas, ao uso político do passado por lideranças contemporâneas (Napolitano; CNV).

Nesse sentido, a pesquisa reforça a importância da história oral para o ensino de história e para a compreensão das polarizações atuais. Escutar sujeitos comuns — em vez de apenas consultar documentos oficiais — permite perceber como o regime militar foi vivido na escala do cotidiano e como suas lembranças continuam a estruturar percepções sobre violência, autoridade, justiça e política no presente.

Por fim, longe de encerrar o debate, este estudo aponta caminhos: ampliar o número de entrevistados; incluir outros recortes geracionais, raciais e de gênero; cruzar mais sistematicamente memórias familiares com arquivos da CNV e de comissões estaduais; e explorar em profundidade como as novas gerações reapropriam as narrativas de seus familiares. Ao mostrar que as memórias da ditadura são plurais, desiguais e disputadas, o trabalho contribui modestamente para o esforço mais amplo de construir uma memória crítica do período, capaz de enfrentar nostalgias autoritárias e de sustentar uma cultura democrática fundada na verdade histórica e no reconhecimento das vítimas.

Bibliografia

[editar | editar código]

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006. 224 p.

PERES, Sonia Maria Zanezi. Maurice Halbwachs e a memória coletiva e individual. Revista Missioneira, Santa Rosa, v. 23, n. 2, p. 71-78, 2021.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. e, 1989, p. 3-15

BETTO, Frei. Batismo de sangue: guerrilha e morte de Carlos Marighella. 23. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

BETTO, Frei. Cartas da prisão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

NAPOLITANO, Marcos. 1964: história do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório – Volume I. Brasília: CNV, dez. 2014. 976 p. ISBN 978-85-85142-63-6. Data de acesso em: 25/10

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório – Volume III: mortos e desaparecidos políticos 1946-1988. Brasília: CNV, dez. 2014.  Data de acesso em: 25/10

Roteiro da Entrevista

[editar | editar código]
  • Em 1964 você tinha quantos anos?
  • Onde você morava nessa época?
  • Você sentiu muita diferença na transição da sua infância (até onde se recorda)
  • Você trabalhava na época de 64?
  • O poder de compra era maior ou menor que antes de 64?
  • O poder aquisitivo era menor ou maior que atualmente
  • Como você via que as pessoas ao seu redor se sentiam? O que falavam para você sobre a época
  • Você se sentia mais seguro?
  • As pessoas próximas a você se sentiam seguros?
  • Você se recorda qual era a relação dos seus pais com a época de 64?
  • Sua religião na época era a mesma de hoje em dia?
  • Qual era a mensagem que o líder religioso passava na época? Era a mesma?
  • Você tinha alguma restrição de horário (que não fosse imposta pelos seus pais ou costume próprio) que era obrigado a voltar para a casa?
  • Como era sua relação com a religião
  • Sente que mudou nesta época?
  • O que o pastor passava no culto/missa?
  • E das pessoas a sua volta? Como era e você acha que mudou nesta época?
  • O que você consumia de entretenimento e meios de informação?
  • Quais eram os conteúdos que passavam?
  • Quais eram as notícias que passavam?
  • Os boatos ou conversas eram sobre os mesmos assuntos? Tinha algum tema ou assunto frequente ou que retornava com frequência?
  • Você já ouviu alguma notícia sobre desaparecimento naquela época?
  • Como era a relação da polícia com a população?
  • Você acha que a polícia era mais agressiva, menos ou era a mesma coisa que atualmente?
  • Como você via a ação da polícia aquela época?
  • Você acha que a polícia era mais agressiva, menos ou era a mesma coisa que atualmente?
  • Como você via a ação da polícia naquela época
  • Mudou ou continua vendo dessa mesma forma?
  • A política era um assunto muito discutido? (Meio de comunicação ou no dia a dia das pessoas como um assunto frequente)
  • Se você tinha contato com o discurso político, nesse discurso havia algum inimigo do estado ou inimigo político (como petsimo por exemplo) na época?
  • Se sim, esse inimigo era caçado pela polícia? Havia muitas notícias desse inimigo preso?
  • Você se sentia ameaçado por esse inimigo (no caso de existir um)?

Deixar livre para falar qualquer coisa relacionado a época (sem pauta aqui) ou como foi a experiência da entrevista para o entrevistado