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Trabalho movimento estudantil - PERSPECTIVAS SOBRE O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO AMBIENTE VIRTUAL - Isabela; Júlio; Maria Júlia

De Wikiversidade

Curso de Ciências Sociais - Matutino

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HISTÓRIA DO BRASIL II

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Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira

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PERSPECTIVAS SOBRE O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO AMBIENTE VIRTUAL

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ISABELA BENINE FURLAN, JÚLIO CÉSAR SOARES, MARIA JULIA SANTOS DE SOUZA ALMEIDA

MARÍLIA

2025

Resumo

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O presente trabalho discute a relação entre o movimento estudantil e a articulação digital, analisando como o neoliberalismo e o avanço das tecnologias de comunicação influenciam o engajamento político contemporâneo. Partindo das reflexões de Mesquita (2003) sobre o desgaste do movimento estudantil e da análise de Silva, Gervasoni e Dias (2023) acerca da individualização e da falsa autonomia promovidas pelas redes sociais, o estudo observa como a lógica neoliberal e os algoritmos digitais contribuem para o enfraquecimento da coletividade. Em contraponto, são apresentados relatos e perspectivas otimistas sobre o papel democratizador das redes, como apontado por Lucas Marques e Adriana Saraiva (Jornal da UFG, 2013), que destacam o potencial de mobilização e horizontalidade dos espaços virtuais. No entanto, também se evidenciam os limites dessas ferramentas, como o ativismo superficial e o passivismo decorrente da ausência de mobilização presencial. Conclui-se que, apesar do potencial comunicativo das redes, o controle neoliberal e o individualismo digital têm contribuído para o enfraquecimento da ação coletiva estudantil, acentuado após a pandemia, quando as mobilizações presenciais foram substituídas por formas de engajamento restritas ao ambiente virtual.

Palavras-chave: movimento estudantil; redes sociais; neoliberalismo; engajamento político; individualismo.

⦁ O movimento estudantil no ambiente virtual

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Na atualidade, é quase impossível pensar em organizações sociais e políticas desvinculadas de sua atuação nas redes sociais, tendo em vista o alto alcance que a tecnologia proporciona, mas seria o engajamento social proporcional a ele? Mesquita (2003) já apontava um desgaste no movimento estudantil ocasionado pelo descrédito e falta de participação dos estudantes: “A distância entre estudantes/entidades, muito se dá pelo fato do movimento estudantil não criar ou recriar espaços de participação para os estudantes”. Nesse sentido, o fator predominante que o autor traz em sua reflexão se centraliza na ascensão do neoliberalismo, e disso se pode retirar diversas questões, como o individualismo, que é incentivado pelo pensamento neoliberal e agravado pela condição conflituosa que muitos estudantes universitários vivem – como a dificuldade de conseguir bolsas, se formar e conseguir um bom emprego – e os fazem priorizar o individual no lugar do coletivo.

Nesse sentido, Silva, Gervasoni e Dias (2023) apontam como a “conectividade digital remodela como os movimentos se conectam e organizam” e, argumentando a partir de Crary (2023, p.14), analisam como as redes sociais são subordinadas ao poderio de empresas transnacionais e “atores não sociais” que influenciam a política global. Desse modo, enfatizam que esse pensamento de que uma “simples mudança de mãos” no uso dessas ferramentas seriam suficientes para que ela fosse independente ao capitalismo global não passa de uma ilusão, pois todo o ecossistema digital orbita em torno interesses do capital, que obedece uma lógica neoliberal – fato que pode ser constatado no fenômeno da algoritmização, tendo havido diversas denúncias de ativistas de esquerda que tiveram suas contas banidas ou seus posts prejudicados pelo alcance, isto enquanto o algoritmo privilegia posts de conservadores e reacionários. Além disso, os autores também denunciam “a individualização dos seres e a falsa noção de autonomia” proporcionada pela era digital, o que contribuiria para o distanciamento em relação à coletividade, o que parece contraditório em um contexto de lutas coletivas como o movimento estudantil, dialogando com a crítica de Mesquita (2003) já mencionada.

Silva et al. (2023) também falam sobre o luto de estudante como força política do movimento estudantil durante a ditadura, ou mesmo mais recentemente com a morte de Marielle Franco, no entanto, nota-se a ausência de mártires pós-pandemia em um contexto de tantas mortes de jovens periféricos pela violência policial, por exemplo, eles questionam:

“Com fulcro nestas construções, inclusive, se poderia estender a indagação: por que as mortes constantes de jovens periféricos não vêm servindo como catalizador para as demandas hodiernas?” (SILVA; GERVASONI; DIAS, 2023. p. 85)

Concluem, a partir de Han (2021), que na contemporaneidade as relações sociais são paliativas, ou seja, se antes a morte ou desaparecimento era capaz de produzir a “intensidade revolucionária”, hoje não produz mais que letargia, “não parecendo haver uma dor a ser sentida enquanto sentimento comum, como coletividade”:

“Portanto, seria viável inferir que as conexões em rede que articulam as mobilizações atuais dos estudantes podem estar a enfraquecer a potência vital contida na morte, mais precisamente a dor sentida em conjunto precisa dos corpos e da força coletiva, algo que se esvai nos cabos de internet” (SILVA; GERVASONI; DIAS, 2023. p. 85)

Indo na contramão dos autores citados, para Lucas Marques, presidente em 2013 da União Estadual dos Estudantes (UEE), as redes sociais ajudam a mobilizar e democratizar a informação, “os estudantes, via internet, podem gerar também sua própria informação”. A matéria da UFG (2013), de autoria omissa, reúne diversos relatos de ativistas em favor do uso de ferramentas digitais na organização do movimento estudantil, onde relatam as facilidades de comunicação proporcionadas pelas redes sociais. Adriana Coelho Saraiva, analista de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e entrevistada citada na matéria, avalia como processo de transformação pelo qual os movimentos estudantis têm passado e reconhece a “construção de uma nova forma de mobilização popular”, ela afirma que “hoje há um certo embate entre as velhas fórmulas do movimento estudantil hierarquizado e uma forma mais autônoma, mais horizontal e menos institucional”. Na mesma matéria, no entanto, já traziam problematizações que a conectividade digital poderia trazer, como “a não garantia de que as manifestações ocorressem de fato”. A comodidade das manifestações digitais criam uma situação de passivismo, que faz com que os indivíduos ignorem a necessidade de uma real pressão popular, o famoso “ir às ruas”, o individualismo ganha lugar visto que a luta coletiva na prática é mais trabalhosa que o conforto das redes sociais. Quanto a isso, Lucas Marques ressalta:

“Esses movimentos reivindicatórios tem que ir para as ruas também. A Primavera Árabe, por exemplo, foi um movimento que nasceu na web, mas que só se solidificou com a presença da população nas ruas, ajudando a derrubar governos”  (SECOM UFG, 2013)

Outro ponto importante seria a superficialidade dos debates levantados, gerando um ativismo ingênuo ou conservador, que muitas vezes resulta em uma perspectiva conformista, uma mentalidade coletiva que se limitaria a identificar os problemas sem analisar suas causas e aprofundar o debate. Nesse sentido, o espaço virtual não parece comportar suficientemente as complexidades dos debates políticos, como reflete Adriana C. Saraiva:

“Formam-se grupos focados em causas que não aprofundam as discussões. A mobilização contra a corrupção, por exemplo, não trabalha as causas que levaram a essa situação. Muitos vão às ruas, mas não estão refletindo sobre as causas reais que suscitaram aquele contexto” (SECOM UFG, 2013)

CONCLUSÃO

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Embora haja poucas pesquisas sobre a articulação digital dos movimentos estudantis no mesmo recorte temporal, é possível averiguar que as opiniões acerca das ferramentas digitais são controversas. Em 2013, contexto da publicação da matéria no SECOM, as manifestações ainda apresentavam um caráter híbrido, que não excluía a necessidade de ir às ruas, era o início da transformação citada por Adriana. No entanto, 10 anos depois, os efeitos negativos citados brevemente na matéria são observados e parecem agravados na análise de Silva et al. (2023), o que poderia demonstrar, como sugerem os autores, o resultado a longo prazo do controle neoliberal sobre o espaço virtual, e a ascensão de um discurso conservador e conformista. Neste caso, é necessário também destacar a influência da pandemia na realidade das lutas sociais, quando, devido ao distanciamento social, os movimentos sociais se viram desaconselhados a irem para as ruas, e alternativa se tornou restringir suas manifestações ao ambiente virtual (SERAFIM; SOARES; PEREIRA, 2025). Desse modo, as circunstâncias favoreceram a articulação digital de movimentos sociais, ao mesmo tempo em que o discurso neoliberal individualista ganhava força, eclodindo em uma forma de militância de “tuitaço” e, embora ainda haja tentativas dos centros e diretórios acadêmicos como luta de base em estimular o debate político presencial, a falta de participação dos estudantes explicitam uma dificuldade generalizada do movimento estudantil em romper com o comodismo gerado pelas dadas circunstâncias.

REFERÊNCIAS:

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SECOM UFG. Redes sociais revigoram movimento estudantil. UFG, s.d. Disponível em: https://secom.ufg.br/n/46766-redes-sociais-revigoram-movimento-estudantil. Acesso em: 29 out. 2025.

SERAFIM, L.; SOARES, L. B.; PEREIRA, M. M. Movimentos sociais, protestos e participação social em tempos de pandemia: Nas ruas, nas redes, nos territórios e nas instituições. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, São Paulo, v. 30, p. e93374, 2025. DOI: 10.12660/cgpc.v30.93374. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/cgpc/article/view/93374. Acesso em: 29 out. 2025.

SILVA, Laura de Castro; GERVASONI, Tássia A.; DIAS, Felipe da Veiga. Movimento estudantil na era digital e a morte como ator social. Revista Húmus, v. 13, n. 40, 2023. Disponível em: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/revistahumus/article/download/24605/13052/78571. Acesso em: 29 out. 2025.