Trabalho sobre Memória: Memórias da Ditadura Militar; relatos de pessoas que viveram aquele período- João Gaspar Ferreira; Estevão Josué Gimenes Pinto; Rafael Yago Vieira Barella; Aline Andrade Alcantara; Pedro Henrique Alves Pereira
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS (FFC)
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL II
PROFESSOR RESPONSÁVEL: PAULO EDUARDO TEIXEIRA
DISCENTES: João Gaspar Ferreira (matutino); Estevão Josué Gimenes Pinto (matutino); Rafael Yago Vieira Barella (matutino); Aline Andrade Alcantara (matutino); Pedro Henrique Alves Pereira (noturno).
Memórias da Ditadura Militar; relatos de pessoas que viveram aquele período
Introdução
Este relatório apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida para investigar as memórias da ditadura militar brasileira (1964-1985) através da perspectiva teórica de Halbwachs (1990) sobre memória coletiva. Partindo do pressuposto de que a memória não é algo apenas individual, mas uma construção social criada a partir de quadros sociais específicos como família, classe social e instituições, buscamos entender como as experiências desse período trágico da história brasileira são recordadas, ressignificadas e transmitidas. A pesquisa concentrou-se na análise de depoimentos de um homem e uma mulher que vivenciaram sua infância e juventude durante o regime militar, utilizando os conceitos halbwachsianos como principal ferramenta analítica.
Objetivo
Analisar como as memórias desse período são construídas e organizadas a partir dos quadros sociais propostos por Halbwachs (1990), identificando os grupos que influenciam essas lembranças e como se dão as tensões sobre o que cada pessoa lembra e o que a coletividade constrói sobre esse regime autoritário.
Desenvolvimento e Argumentação
A análise dos depoimentos revelou a importância dos conceitos propostos por Halbwachs (1990) para compreender a construção social das memórias sobre a ditadura.
1. Memória familiar como primeiro quadro social:
O conflito de terras envolvendo seu “tio” e um oficial do exército se mostra como uma memória familiar traumática que serve para ilustrar sua experiência no regime militar. Esta memória foi posteriormente reinterpretada à luz da memória coletiva nacional crítica à ditadura, demonstrando o processo de reconstrução da memória descrito por Halbwachs (1990).
[...]O tio tinha uma briga muito grande com um oficial do exército que se apossou de um trecho de terra dele e vivia em disputa [...] aí de lá ele chegava a atirar nos colonos [...] tinham que se jogar no meio da soja, do milho, se jogava no chão para fugir da bala do tenente. (ENTREVISTADO A, 2025, informação verbal)
2. Classe social como fator que molda a experiência:
A pobreza e a necessidade de trabalhar desde os 12 anos de idade formam um quadro social que define sua experiência. Sua escolha de entrar no exército como oportunidade de “ganha pão” demonstra como a memória de classe molda vivências específicas durante o período autoritário, observado nas falas:
Eu trabalhava de dia numa marcenaria [...] comecei cedo a trabalhar com 12 anos [...] (entrar no exército) No meu caso, era uma oportunidade de ganha pão, ganhar um pouquinho melhor do que trabalhar como, sei lá, qualquer outro serviço que havia na época [...] Quem tinha dinheiro, na época, dos meus colegas de ensino médio, ia para a FIDENE. Eu só entrei na FIDENE para colocar as portas. (ENTREVISTADO A, 2025, informação verbal)
3. A instituição militar como quadro social totalizante:
A descrição do processo de “quebra” no quartel e da doutrinação anticomunista mostra como o exército atuava para impor suas próprias formas de memória, tentando substituir os antigos referenciais sociais dos recrutas por uma nova identidade coletiva mais alinhada com o regime.
Quando você entra no exército há praticamente uma desconstrução daquilo que você é como ser humano, eles tentam te quebrar para depois te reerguer do modo que eles querem[...] Dentro do quartel uma pregação contra o comunismo, as próprias técnicas de combate e tudo eram fundamentadas em torno de combater o comunismo, combater guerrilha[...] Havia dentro do quartel uma pregação contra o comunismo [...] os treinamentos eram feitos assim na época[...] Eu pegava um jipe, saia com uma pistola na cintura, eu e mais três soldados e íamos para a cidade fazer tipo uma ronda. (ENTREVISTADO A, 2025, informação verbal)
4. Tensões entre memória coletiva e individual:
A forma como ele descreve a Escola Polivalente – ligada aos militares, mas lembrada como “muito avançada” – mostra como as experiências educacionais durante o regime militar eram complexas. Isso quebra visões rígidas e revela que as pessoas conseguiam fazer suas próprias interpretações e ações mesmo em um contexto de forte controle.
Quem criou essa escola foi um, se não me engano, foi um governador militar [...] era época de ditadura, mas era uma escola muito avançada[...] Essa escola, ela tinha, para você ter uma ideia, ela tinha o que hoje a gente não vê nas escolas públicas no país [...] havia oficinas para técnicas industriais [...] havia uma grande horta [...] tinha um laboratório bacana [...] As aulas de química e física eram aulas muito interessantes assim, porque ela levava para o laboratório, [...] e a gente via aquelas coisas todas. Tinha acesso a microscópios, essas coisas todas. (ENTREVISTADO A, 2025, informação verbal)
5. Relatos de uma trabalhadora rural durante a ditadura militar
Essa entrevista transcrita de modo resumido tem como objetivo evidenciar as contribuições teóricas de Pollak e Halbwachs, assim como registrar os importantes relatos de uma pessoa que vivenciou os efeitos da ditadura e como isso dialoga com ambos os autores.
Antes de abordar a entrevista, é preciso conceituar a memória coletiva. Segundo Pollak (1989), em referência a Maurice Halbwachs, além da abordagem durkheimiana, centrada nas instituições e não nos indivíduos, não existe apenas a seletividade de qualquer memória, mas também uma negociação que vise conciliar memórias de um grupo com as dos indivíduos, referindo-se ao que determinados grupos querem o que seja lembrado e esquecido, sendo caracterizado como um campo em disputa (Pollak, 1989).
A entrevista com a mãe de João Gaspar Ferreira, um dos discentes do grupo, foi realizada em 28/10/2025. O diálogo foi sobre as lembranças dela sobre a época da ditadura militar. Ela nasceu em 1964, na zona rural de Mococa-SP, mais precisamente no distrito de São Benedito das Areias, próximo à divisa com Minas Gerais. Ela relatou sobre a violência no campo, a vigilância extrema e a omissão da polícia, compreendendo o período de 1969 a 1977. De 1977 em diante, ela foi obrigada a abandonar os estudos e passou a ser trabalhadora rural, tendo se aposentado em 2021 e voltado a estudar pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) no mesmo ano, concluindo os estudos dela em 2023.
Durante a entrevista, ela mencionou que não sabia que esse período se tratava de uma ditadura, assim como quase ninguém naquela região, pois a despolitização naquele meio era marcante, mas ela desconfiava de alguns fatos que ocorreram naquela época que ela vivenciou na infância. Somente muitos anos depois, ao ter contato com o conhecimento historiográfico por meio dos filhos, ela teve mais clareza do que foi aquele momento.
No início da entrevista, ela falou sobre as “barreiras”, que erram barracas onde policiais militares fiscalizavam e controlavam o fluxo de pessoas na região da divisa entre MG e SP.
Em seguida, ela falou que presenciou desaparecimentos na zona rural e desconfiava que a polícia estava envolvida, mas ela não consegue afirmar isso. Os desaparecidos eram chamados de loucos ou doentes mentais. Era difícil saber se crimes comuns eram de fato comuns ou se havia envolvimento da polícia. Entre 1972 e 1973, minha mãe chegou a saber que a polícia pedia autorização para humilhar e trucidar pessoas encarceradas.
Segundo ela, os policiais incriminavam pessoas. Havia também enforcamentos suspeitos. Quem ficasse sabendo ou visse pessoas mortas poderia ser incriminado. O pai dela, meu avô, teria visto um homem sendo torturado com chicote em Mococa, durante o regime militar. Minha mãe disse que ele temia que policiais descobrissem que ele e a família soubessem desses fatos. Ele também carregava traumas de ter visto outras torturas e repressões da época da ditadura varguista do Estado Novo, o que explicava o motivo de ele ter tais receios na época da ditadura militar.
Minha mãe suspeitava de pessoas infiltradas, que ela chamava de “agentes”, que espionavam outras pessoas com binóculos à distância. Ela também disse que os policiais interrogaram até mesmo crianças quando crimes suspeitos aconteciam, cujo interrogatório era autoritário para ver se havia relatos diferentes ou contraditórios. As pessoas não tinham liberdade para sair de casa tranquilamente e nem expressar opiniões de maneira segura e livre, pois fofocas poderiam se tornar caso de polícia.
Na escola, minha mãe relatou que era obrigatório cantar o hino nacional e que os professores geralmente eram autoritários.Ela também presenciou o Milagre Econômico, quando disse que houve grandes obras de infraestrutura na construção de rodovias naquela região, pois não havia estradas asfaltadas por lá até o início dos anos 1970.
Conclusão
A pesquisa demonstrou que a memória da ditadura militar, na perspectiva halbwachsiana, se forma como um “tecido social complexo” onde lembranças individuais e coletivas se “entrelaçam” de uma forma dinâmica. Os quadros sociais (família, classe social, instituições) foram determinantes na construção das experiências relatadas, atuando como filtros através dos quais os eventos históricos são vividos, recordados e ressignificados. A reconstrução do passado mostrou-se um processo contínuo, influenciado pelo contexto social atual e pelas disputas de memória que marcam a relação com esse período traumático. A teoria de Halbwachs (1990) ajudou a entender melhor as diferentes dimensões dessa experiência histórica, indo além de explicações simplistas e destacando que a memória é, sobretudo, um fenômeno social.
Em relação aos comentários sobre o trabalho, metodologicamente foram feitas leituras de textos acadêmicos e entrevistas semiestruturadas com o pai de um integrante do grupo de pesquisa e mãe de um outro integrante. As dificuldades da pesquisa centraram-se em planejar as leituras dos trechos do artigo de Pollak e do livro de Halbwachs, assim como definir as perguntas nas entrevistas semiestruturadas com pessoas que viveram a época do regime militar, pois era necessário realizar a entrevista com perguntas já pré-estabelecidas, porém estar aberto ao que essas pessoas iriam falar e, desse modo, elaborar perguntas conforme o decorrer das conversas. Uma outra dificuldade foi transcrever a entrevistas, de modo a selecionar o que era mais importante para o trabalho. Por exemplo, a entrevista da mãe de João durou três horas ao todo, mas só foram aproveitados relatos para uma página de Word, pois isso exigiu bastante esforço de reflexão e análise.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ENTREVISTADO A. Entrevista concedida a ESTEVÃO JOSUÉ GIMENES PINTO, Marília/SP, out. 2025. Entrevista não publicada.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
GALAK, Eduardo; SÁ, Elizabeth Figueiredo; SOUZA, Rosa Fátima. A pesquisa histórica sobre a educação no período da ditadura cívico-militar: à guisa de apresentação e debate. Revista Brasileira de História da Educação, v. 25, 2025.
POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.