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Trabalho sobre Memória - Mémoria Coletiva e Ditadura Militar: Analise de relatos de pessoas que viveram o período - Pedro Henrique Alves Pereira, João Gaspar Ferreira, Estevão Josué Gimenes Pinto, Aline Andrade Alcantara

De Wikiversidade

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS - CAMPUS DE MARÍLIA

CIÊNCIAS SOCIAIS - MATUTINO

HISTÓRIA DO BRASIL II

Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira

ISABELA BENINE FURLAN

JÚLIO CÉSAR RIBEIRO SOARES

MARIA JÚLIA SANTOS DE SOUZA ALMEIDA

Trabalho e Relatório Avaliativo

Memória Coletiva e Identidade Cultural: Uma Análise das Narrativas

e Omissões do Bairro da Liberdade, em São Paulo

Pesquisas: Trabalho sobre a construção da memória originária do Bairro da Liberdade, em São Paulo, com pesquisas online, realizadas por meio da ferramenta ‘Google Forms’, com 41 participantes de 17 a 61 anos, e recorte do público alvo a partir das vivências e conhecimentos sobre o bairro.

MARÍLIA, SP

2025

  1. Introdução

A memória é um elemento essencial na construção das identidades individuais e coletivas. Mais do que simples lembrança do passado, ela é um processo de seleção, esquecimento e ressignificação, moldado pelas relações sociais e pelas disputas de poder, revelando dinâmicas que evidenciam classes dominantes e classes dominadas.

Como propõe Pollak (1989), o ato de lembrar está intrinsecamente ligado ao ato de esquecer. Ou seja, o silêncio não representa simplesmente a ausência de memória, mas constitui parte fundamental dela, podendo ser tanto uma escolha quanto uma imposição social. Já para Halbwachs (1950), a memória é coletiva, pois mesmo as lembranças pessoais são formadas e organizadas a partir dos quadros sociais nos quais o indivíduo está inserido. Ou seja, lembramos a partir da ótica de familiares, religiosos, étnicos, políticos, que oferecem molduras interpretativas para o passado.

Nesse sentido, a memória é também um campo de conflito, onde diferentes grupos lutam para afirmar suas versões do passado e legitimar suas identidades no presente. Assim, compreender a memória implica a análise não apenas do que é lembrado, mas principalmente do que foi apagado, e, porque foi apagado.

O bairro da Liberdade, localizado na região central de São Paulo, constitui um exemplo emblemático dessas disputas. Hoje reconhecido como o principal símbolo da presença japonesa e asiática no Brasil, o bairro abriga, com a estética oriental, camadas de história e memória negra frequentemente invisibilizadas. Com teor turístico e atrativo, o processo que ocasionou a construção do bairro toma diferentes proporções sobre o espaço. Segundo Nora (1993) a denominação de “lugares de memória”, são espaços onde o passado é reconstruído e ritualizado, mas também petrificado e seletivamente lembrado, expressando tanto o desejo de preservação quanto o esquecimento de outras histórias

Dessa forma, emergindo da necessidade sobre memória e apagamento de um passado colonial e escravocrata, este trabalho busca analisar como se constrói e se disputa a memória do bairro da Liberdade, observando os mecanismos de lembrança, silêncio e apagamento que configuram suas identidades históricas.

  1. Memória, esquecimento e tradição.

Para Halbwachs (1950), a lembrança do passado é sempre uma reconstrução feita a partir do presente. O indivíduo não se recorda sozinho, ele mobiliza palavras, ideias e significados que são produtos da coletividade à qual pertence. Assim, a consciência individual jamais está isolada, ao contrário, ela é intrinsecamente atravessada por influências sociais.

A memória individual, portanto, não é uma propriedade privada da mente, mas um processo de reconstrução sustentado pela vida em coletivo. A memória, sozinha, representa apenas um ponto de vista particular sobre a memória coletiva, que é mais ampla e viva. Mesmo quando o indivíduo acredita se lembrar sozinho, ele o faz a partir de categorias e valores aprendidos no convívio com os outros. O esquecimento, por sua vez, não acontece porque a lembrança “desapareceu” da mente, mas porque a pessoa se afastou do grupo que a sustentava. Quando o vínculo social se rompe, o acesso à lembrança se enfraquece, mostrando que recordar depende da continuidade da vida coletiva.

Com o enfraquecimento das memórias vivas e dos rituais coletivos, surge a necessidade, apontada por Nora (1993), da criação de “lugares de memória”. São os espaços, objetos e práticas que preservam artificialmente o que antes era lembrado naturalmente. Museus, monumentos, arquivos, comemorações e símbolos nacionais tornam-se vestígios de uma memória que já não vive, mas que é reconstruída pela história. Esses lugares são, portanto, restos e substitutos, expressando a nostalgia e o desejo de permanência em uma sociedade que valoriza o novo e tende ao esquecimento.

Nora aprofunda essa ideia ao afirmar que os lugares de memória são, antes de tudo, restos, vestígios nostálgicos de uma memória perdida. Eles surgem em uma sociedade que perdeu seus rituais naturais e que precisa criar mecanismos artificiais para lembrar. Por isso, há sempre um aspecto melancólico e dual nesses lugares: ao mesmo tempo que preservam, revelam a ausência daquilo que tentam guardar. É nesse sentido que Nora apresenta a definição e a existência de um lugar de memória:

“Mas se o que eles defendem não estivesse ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificados, eles não se tornaram lugares de memória. (NORA, 1993, p. 13)

Já Pollak (1989), analisa a memória como um fenômeno social e político em constante transformação. Para o autor, lembrar e esquecer não são ações opostas, mas sim processos interligados que revelam as disputas simbólicas presentes em cada sociedade. O silêncio, nesse caso, não deve ser compreendido apenas como ausência, mas como uma parte constitutiva da memória, podendo surgir tanto como uma escolha individual quanto coletiva, resultando em uma imposição pré-definida socialmente.

O autor destaca que as memórias não são neutras nem igualmente legitimadas, resultando em como cada grupo social busca afirmar sua própria narrativa sobre o passado, disputando reconhecimento e poder. Nesse processo, as memórias dominantes se consolidam como versões oficiais da história, enquanto outras, como as de grupos subalternos, são marginalizadas ou silenciadas. A memória, para Pollak, é viva, relacional e constantemente reinterpretada a partir das necessidades do presente, funcionando como uma parceria entre lembrança, esquecimento e reconstrução social do tempo.

Dessa forma, as reflexões de Halbwachs, Pollak e Nora permitem compreender que a memória é sempre uma construção social atravessada por disputas simbólicas e pela materialidade do espaço. Se para Halbwachs, o ato de recordar depende da coletividade e de seus quadros sociais, Pollak mostra que esse processo é permeado por relações de poder que determinam o que será lembrado e o que será silenciado. Nora, por sua vez, evidencia como, diante da perda dessas memórias vivas e partilhadas, a sociedade cria lugares de memória para manter viva a ilusão de continuidade com o passado.

A partir dessa articulação, podemos perceber como o urbano se torna um campo de disputa pela memória. O bairro da Liberdade, nesse sentido, funciona como um exemplo concreto de como diferentes grupos projetam, transformam e reivindicam sentidos sobre um mesmo território. Nele, convivem lembranças preservadas e silêncios impostos, um tipo de memória coercitiva como oficial, fortemente associada à imigração asiática, e outras memórias marginalizadas, como a de sua origem ligada à população negra e escravizada. Assim, o bairro se configura como um lugar de memória (Nora, 1993), no qual se evidencia o território tenso entre lembrança, esquecimento e reconstrução identitária.

  1. A construção e a reconstrução da memória no bairro da Liberdade

Como já indicado por Pierre Nora, os lugares de memória são espaços onde o passado se mantém presente de forma simbólica. O bairro da Liberdade, localizado na região central de São Paulo, é um exemplo desse tipo de lugar. Conhecido principalmente pela forte presença da cultura asiática e pelo turismo voltado a essa identidade, o bairro também guarda camadas históricas menos visíveis, que emergem à presença negra e à população escravizada. É nesse contexto que se torna possível analisar como diferentes memórias coexistem, se sobrepõem e são percebidas por quem frequenta o local, sobretudo, a partir de uma narrativa histórica de poder, legitimidade e dominação sociopolítica-racial.

No Brasil, a desigualdade racial e a dominação de certos grupos sobre outros são fenômenos que atravessam a história e se manifestam de diversas formas até os dias de hoje. Uma das maneiras mais sutis, porém eficazes, de perpetuar esse poder é por meio da memória. Controla-se o que é lembrado e o que é esquecido, resultando na modificação de narrativas históricas que favorecem determinados grupos e invisibilizam outros. Segundo Portela (2024), essa dominação é caracterizada por:

“(...) Aquelas através da negação da história e da memória de povos historicamente perseguidos, são as mais complexas de se confrontar. A memória pode ser usada para manipular o passado, produzindo o esquecimento através de dispositivos que escondem a verdade ou até mesmo a construção de versões falsificadas de eventos pretéritos.” (PORTELA, 2024, p. 55)

A autora argumenta introduzindo que, o Brasil como nação, coleciona ataques às memórias, principalmente as memórias daqueles que já aqui habitavam e daqueles que foram trazidos à força, resultando em constante esquecimento apesar da tentativa de resistência e lutas. Um exemplo desse ataque, em meados do século XIX, o ministro da fazenda, Ruy Barbosa, ordenou a queima de documentos referente à época, pois segundo ele, os vestígios documentais poderiam destruir a honra de uma pátria que não se beneficia mais do sistema escravista.

Consequentemente, esse Brasil que finge não ter escravizado e traficado africanos, avança o processo do esquecimento e apagamento de memória da história nacional, caracterizando não apenas o impacto histórico a partir da ótica escravista, mas também do povo negro, descendentes destes que passaram a ser invisíveis aos olhos da sociedade.

Como exemplo, introduzimos como fator o cemitério dos aflitos ou cemitério dos enforcados (1779, antigamente), e a capela dos aflitos, localizada no bairro da Liberdade em São Paulo. Conhecido por ser um local de adoração ao santo popular e adotado pela região, Francisco José das Chagas, conhecido popularmente como Chaguinhas. Durante os séculos XVIII e XIX, o Cemitério dos Aflitos funcionava para enterrar todos aqueles que a sociedade paulista considerava inferior, como negros, escravizados, indígenas e pobres condenados à forca.

O santo popular, Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, foi um cabo negro do primeiro batalhão do império português. Em 1821, ano interior da independência, Chaguinhas e um parceiro, também negro, organizaram um motim a fim de motivar o pagamento atrasado. O motim articulado pela reivindicação de salários e melhores condições de trabalho resultou na condenação de morte de Chaguinhas.

Tomado pela força institucional, deram andamento à execução de Chaguinhas. Dizem as narrativas, que a corda se rompeu por três vezes seguidas, mesmo com tentativas de cordas de couro resistentes. Sua execução então foi feita pelas mãos de seus executores, e diante da revolta do povo, que aclamavam as tentativas falhas do enforcamento diante das cordas rompidas, passaram a gritar:

                                                      Liberdade! Liberdade!

Dizem, então, que o nome que hoje compõe o bairro, surge diante desse episódio. São Paulo, sendo uma localização de maior província cafeicultura, lidou com as rebeldias e insubordinações de negros/negras e indígenas, resultando muitas vezes em suas vidas ceifadas, corpos punidos e histórias e memórias apagadas. O cemitério dos Aflitos possui essa característica: acolher os despejados, os esquecidos, os desprezíveis e os excluídos.

Com o passar dos anos, esse território da exclusão tomaria uma forma completamente distinta. O bairro da Liberdade, na área central de São Paulo, passa a ser sinônimo da imigração japonesa, sendo tomado por símbolos que remetem ao Japão. A Liberdade, então, se torna um campo de disputas entre o preterimento e o esquecimento de séculos da história negra e indígena e a supervalorização da presença e da cultura oriental no bairro.

Esse território abriga dois mundos opostos e conflitantes, onde um deles é sepultado e esquecido. A configuração urbana da cidade foi feita para atender os interesses da elite paulistana, seguindo os mesmos padrões de exclusão do período escravocrata. A higienização no bairro da Liberdade integra-se ao processo de orientalização que se intensificou no final dos anos 1960, constituindo o primeiro grupo nipônico do município de São Paulo.

O plano de orientalização da Liberdade, de autoria de Randolfo Marques Lobato (jornalista, posteriormente secretário do turismo), foi anunciado em 1969. Ele planejava transformar a região numa espécie de Chinatown nova-iorquina de modo a consolidar um núcleo oriental que teria condições de se tornar uma atração turística. No processo de seguir a construção típica de um bairro oriental, foi estabelecido que as três estradas principais da Liberdade seriam guarnecidas de portais e pequenos jardins, semelhantes aos existentes em Tóquio.

A instalação de ícones orientais se faz presente em todo o bairro, com direito a luminárias japonesas, memoriais, uma infinidade de lojas e restaurantes voltados à cultura nipônica. A influência oriental se tornou tão forte que a estação de metrô foi batizada de “Japão-Liberdade”. Entretanto, os símbolos orientais como símbolo do bairro compõem uma estética descaracterizada das culturas orientais e criam uma narrativa visual de que a imigração e a ocupação japonesa se deram de forma linear e uniforme. A descaracterização do bairro se alia às escolhas ideológicas de higienização urbana.

A consolidação da identidade japonesa no bairro da Liberdade pode ser compreendida a exemplo do conceito de tradição inventada, proposto por Hobsbawm (2012). Segundo o autor, a tradição inventada é um conjunto que se caracteriza como:

“(...) Práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente uma continuidade em relação ao passado” (HOBSBAWM, 2012, p. 9).

A “identidade” japonesa no bairro pode ser entendida como uma tradição inventada, na qual símbolos e práticas repetidas constroem uma narrativa selecionada do passado. Essa construção reforça a memória da imigração japonesa, enquanto outras histórias, como as da Capela e do Cemitério dos Aflitos, permanecem invisibilizadas, evidenciando a disputa de memórias no bairro.

Atualmente, a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, herança do antigo Cemitério dos Aflitos, resiste como espaço de fé e devoção às pessoas historicamente marginalizadas, como negros, indígenas e pobres executados. No entanto, a Capela é sufocada pela urbanização do bairro e a reorganização arquiteta, apagando a edificação original. O tombamento histórico ocorreu apenas em 1979 pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico)  e em 1991 pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Ambiental da Cidade de São Paulo), após articulação da União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca), que também iniciou os trabalhos de preservação do sítio arqueológico, onde foram encontradas ossadas de indivíduos executados, indígenas e escravizados.

O bairro, agora nomeado como Japão-Liberdade, recebe centenas de turistas para eventos de cunho oriental, restaurantes de culinária oriental e lojas de produtos geeks, enquanto a Capela e o Cemitério dos Aflitos sequer recebem atenção quando há denúncias de que a Capela necessita urgentemente de uma restauração. Existe um esforço coletivo para que a Capela, o Cemitério e Chaguinhas não desapareçam e continuem sendo inscrições negras na memória da cidade.

Além disso, as disputas políticas-raciais são constantes no bairro, sendo a única homenagem pública a uma pessoa negra na Liberdade referente a escultura da sambista Deolinda Madre, mais conhecida como Madrinha Eunice. Deolinda foi a fundadora da primeira escola de samba na cidade de São Paulo, a Lavapés. Em setembro de 2023, a estátua de Madrinha Eunice sofreu uma ameaça de dano e de ocultamento devido à montagem de um palco para a realização do Festival Cultura Geek, executado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Algo simbólico e recorrente a partir de toda a história e processo do bairro.

Como lembra Halbwachs, a memória individual depende da vida coletiva, e Pollak mostra que certas lembranças são silenciadas ou legitimadas em disputas sociais. Nora, em sua vez, indica que os lugares de memória preservam o passado de forma simbólica e estratégica. Essa sobreposição de memórias evidencia como o espaço organiza o que deve ser lembrado e o que tende a cair no esquecimento, refletindo disputas históricas de poder, dominação e reconhecimento social.

  1. Percepções atuais e resultados da memória no bairro da Liberdade

Os resultados a seguir, oferecem uma oportunidade de observar como a memória coletiva do bairro da Liberdade é percebida na contemporaneidade. Eles permitem identificar quais narrativas históricas permanecem presentes na consciência dos frequentadores e quais dimensões do passado permanecem invisíveis ou esquecidas. A partir das concepções de memória discutidas por Halbwachs, Pollak e Nora, os dados evidenciam como diferentes camadas de memória coexistem, se sobrepõem e, muitas vezes, entram em disputa.

As respostas obtidas pelo formulário vieram de participantes de diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade e ascendências diversas, permitindo observar uma pluralidade de perspectivas sobre o bairro da Liberdade. As questões abordaram o conhecimento prévio sobre o bairro, percepções sobre mudanças ao longo do tempo, experiências pessoais e fontes de informação sobre o local. Essa abordagem buscou compreender a visão de cada participante sem direcionar respostas, sem a intenção de generalizar ou validar uma narrativa específica. Dessa forma, foi possível identificar como a memória coletiva do bairro se manifesta na experiência cotidiana das pessoas, revelando quais camadas históricas são lembradas, quais permanecem invisibilizadas e de que maneira o passado dialoga com o presente.

  • As respostas ao formulário foram coletadas de participantes com idades variando entre 17 e 61 anos, com maior concentração entre 19 e 20 anos (19 anos: 11 participantes – 27,5%; 20 anos: 7 participantes – 17,5%).
  • Quanto à escolaridade, a maioria possuía ensino superior incompleto (23 participantes – 56,1%), seguida de ensino médio completo (8 – 19,5%), ensino superior completo (9 – 22%) e pós-graduação (1 – 2,4%).
  • Em relação à ascendência, 13 participantes declararam origem europeia (31,7%), 8 afro-brasileira (19,5%), 4 asiática (9,8%), 1 indígena (2,4%), 1 afro-europeia (2,4%), 1 brasileira (2,4%), enquanto 13 não identificaram sua ascendência (31,7%).
  • Todos os participantes (41 – 100%) afirmaram frequentar ou já ter frequentado o bairro da Liberdade.
  • Quanto à relação com o bairro, a maioria o visita para lazer (32 participantes – 78%), seguida por turismo (19 – 46,3%), cotidiano, como transporte, trabalho ou faculdade (5 – 12,2%), e moradia (2 – 4,9%).
  • Quanto ao tempo de contato com o bairro da Liberdade, 15 participantes (35,7%) afirmaram frequentá-lo há mais de dez anos, 11 (26,2%) entre seis e dez anos, 8 (19%) entre um e cinco anos e 2 (4,8%) menos de um ano. Três participantes (7,1%) relataram mais de quarenta anos de experiência, e outros 3 (7,1%) não identificaram o período.
  • Sobre a percepção de mudanças estruturais no bairro, 27 participantes (73%) perceberam alterações que repaginaram a estética e a vivência na região, enquanto 10 (27%) não notaram mudanças.

Neste caso, parte das pessoas que não perceberam mudanças afirma ter frequentado pouco o bairro (em geral, uma ou duas vezes) e, por isso, não notou diferenças no local. Já as pessoas que perceberam mudanças, frequentam o bairro há muitos anos ou, pelo menos, costumavam frequentá-lo.

Dentre as mudanças percebidas, os participantes citam: novas lojas, prédios e estabelecimentos, melhoria na estrutura e no visual ao redor da praça em que atualmente se encontra a estação de metrô “Japão-Liberdade”, bem como o aumento na população de imigrantes chineses e coreanos; alguns citam ainda o aumento de visitantes, do comércio ambulante, e da modernização estética. Porém, em nossa análise, os principais pontos de mudança citados dizem respeito a um apagamento de outras culturas, a orientalização espacial, e a implementação de estabelecimentos “instagramáveis” e elitizados, que fizeram do bairro um ponto turístico jovem, aumentando o turismo.

  • Quanto ao conhecimento sobre a história do bairro da Liberdade, 18 participantes (43,9%) afirmaram conhecer a história completa do local, enquanto outros 18 (43,9%) declararam ter conhecimento parcial. Apenas 5 participantes (12,2%) afirmaram não conhecer a história do bairro.

Em geral, as pessoas que conhecem a história completa do bairro (perpassando pelo histórico escravista) são mais novas; já as pessoas que conhecem a história parcial (a partir da imigração asiática e estabelecendo diretamente a criação do bairro por povos asiáticos) são mais velhas, e isso se dá, provavelmente, pela falsa memória fomentada durante anos e pelo apagamento histórico recorrente.

  • Quanto às fontes de conhecimento sobre a história do bairro da Liberdade, a maioria dos participantes relatou ter adquirido informações por meio de amigos e familiares (15 participantes – 26,3%) e redes sociais (13 – 22,8%). Outros mencionaram pesquisas autônomas (5 – 8,8%), televisão (5 – 8,8%), contato direto com o bairro (4 – 7%), escola ou cursinho (4 – 7%), jornais (4 – 7%), faculdade (1 – 1,8%) e artigos (1 – 1,8%). Cinco participantes (8,8%) afirmaram não ter ouvido nada sobre a história do bairro.

Como apresentado, as conversas com amigos e familiares, e as redes sociais, são os meios principais de transmissão da história do bairro e, em geral, pessoas mais velhas conheceram a história do bairro por jornais e televisão, e pessoas mais novas conheceram por redes sociais, pesquisas autônomas e informações passadas por amigos ou familiares. No entanto, os declarantes informam que apenas por pesquisas autônomas e redes sociais foi possível entender a historiografia completa da Liberdade, e não somente a parte oriental de sua história.

Além disso, a partir das pesquisas é possível concluir que a questão escravagista do bairro vem sendo apresentada em escolas e cursinhos pre-vestibulares na atualidade, diferente do que se nota a partir das respostas de pessoas mais velhas. Dessa forma, a partir de ações de escolas e cursinhos pre-vestibulares, conjuntamente as ferramentas midiáticas, talvez, seja possível reconstituir uma nova memória coletiva, baseada em fatos históricos não abordados em tempos passados.

  • Sobre a percepção da identidade cultural do bairro, todos os participantes (100%) identificaram-na predominantemente como asiática, voltada para o turismo, marcada por práticas juvenis e por elementos tradicionais da cultura oriental.
  • Quanto à percepção de transformações na identidade cultural ao longo do tempo, 24 participantes (64,9%) reconheceram mudanças observadas durante o período de convivência ou visita ao bairro, enquanto 8 (21,6%) não perceberam alterações.

Entre os participantes que não definiram uma resposta, ou que não souberam responder, todos afirmaram não frequentar muito o bairro, além de conhecer pouco ou nada de sua história. Já, os participantes que afirmaram não perceber diferenças no local, todos frequentam o bairro há poucos anos/meses, e todos são jovens – podendo indicar que a Liberdade já possui uma identidade cultural e visual estabilizada, que não se modificou nos últimos tempos. Em contraposição, entre os participantes que afirmaram perceber mudanças no bairro ao longo de seu tempo de convívio, têm-se pessoas mais velhas e pessoas que frequentam o bairro há muitos anos – podendo indicar que acompanharam a formação cultural e estrutural do bairro, além de seu movimento de formação de um centro cultural asiático, evidenciando os esforços e a fatídica ocorrência de um apagamento histórico da antiga historicidade do bairro.

Dentre as diferenças percebidas e citadas pelos participantes, tem-se: modernizado, maior mercantilização do bairro, ascensão da cultura coreana, apagamento dos traços escravagistas, aumento do turismo (e principalmente do “turismo instagramável”, ou “turismo de YouTube”), aumento do público jovem (principalmente jovens de subculturas alternativas), aumento da cultura asiática num geral (deixando de ser um bairro apenas japonês e passando a agregar as culturas chinesa e coreana), aumento da imigração chinesa para o local, aumento no número de estabelecimentos chineses recém-abertos e a troca de pessoas de idade se comunicando em japonês, por músicas sul-coreanas em caixas de som.

  • Em relação à importância do bairro para famílias de ascendência asiática, os participantes indicaram que a Liberdade cumpre funções culturais centrais, servindo como espaço de contato com a herança e identidade familiar, possibilitando o consumo e vivência da cultura no contexto brasileiro, além de fornecer aprendizado sobre a cultura nipo-brasileira. Por outro lado, respostas que indicaram ausência de vínculo cultural ou familiar ressaltaram que a visita ao bairro se dá principalmente por turismo, evidenciando que a função do espaço pode variar conforme a relação individual ou familiar com a memória e identidade cultural local.
  1. Conclusões

Segundo os dados presentes, é possível perceber que a maioria dos participantes frequenta o bairro da Liberdade principalmente para lazer e turismo, demonstrando uma forte valorização da dimensão cultural e estética do local. Observa-se, também, que há diversidade de idade, escolaridade e ascendência entre os respondentes, incluindo indivíduos de ascendência africana e asiática, o que evidencia múltiplas óticas sobre a história e identidade do bairro. Quanto ao conhecimento histórico, os dados indicam que muitos conhecem apenas parcialmente a trajetória da Liberdade, e que grande parte desse conhecimento é mediada por experiências pessoais, familiares ou redes sociais.

Além disso, nota-se que a percepção predominante associa o bairro à cultura japonesa, ainda que haja reconhecimento de transformações e tensões na identidade cultural ao longo do tempo. Esses elementos evidenciam a importância de refletir sobre a memória coletiva. Enquanto certas narrativas, como a japonesa, são amplamente visibilizadas, outras, como as memórias negras ligadas ao Cemitério e à Capela dos Aflitos, permanecem apagadas. Dessa forma, os dados reforçam a necessidade de compreender o bairro não apenas como espaço turístico ou cultural, mas como um lugar de disputas simbólicas e memória em constante negociação.

  1. Referências

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. 2. ed. Tradução de Laurent Léon Schaffter. São Paulo: Edições Vértice; Editora Revista dos Tribunais, 1950.

HOBSBAWM, Eric J. Introdução. In: HOBSBAWM, Eric J.; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2012. p. 7–21.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Revista PUC, São Paulo, n. 10, p. 7–28, dez. 1993.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento e silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3–15, 1989.

PORTELA, Leide Joice Pontes. Cemitério dos Aflitos e o sepultamento de memórias negras no bairro da Liberdade em São Paulo. Revista Presença Geográfica, v. 3, n. 1, p. 54–64, 2024.

STURGEON, Lianne. A Prefeitura de São Paulo e a criação do Bairro Oriental na identidade paulistana, 1969-1974. Revista Hydra, v. 6, n. 12, p. 275–301, maio de 2023.

  1. Relatório de trabalho/Comentários

Fase Inicial:

Na fase inicial do trabalho, o grupo optou pelo tema e espaço de trabalho (História e Memórias do Bairro da Liberdade, em São Paulo) a partir dos interesses dos integrantes; dessa forma, a partir do recorte do tema, o grupo estipulou a hipótese a ser analisada, e as questões a serem estudadas e respondidas.

Dado que o grupo já vem trabalhando conjuntamente em outras produções, não encontramos dificuldades de entrosamento, ou de divisões de tarefas; o grupo trabalhou em ótima comunhão ao longo de todo o processo de construção do trabalho.

No entanto, o grupo encontrou dificuldades no levantamento bibliográfico, visto que não é um tema muito abordado, evidenciando o baixo número de produções acadêmicas sobre o caso selecionado para análise. Além disso, outra dificuldade encontrada pelo grupo diz respeito a realizar uma pesquisa sobre um bairro de São Paulo, estando no interior do estado, e tendo pouco contato rotineiro com pessoas que se enquadram a responder o formulário de coleta dos dados. Dessa forma, entende-se a dificuldade obtida pelo grupo de divulgar o formulário que, mesmo a partir de realizações e divulgações online, retornou uma quantidade de respostas insaciáveis.

Fase Intermediária:

Ao longo da segunda fase (ou fase intermediária), o grupo deu início a divisão de tarefas, elaboração da pesquisa e construção do trabalho. Dessa forma, o grupo formado por três integrantes designou diferentes funções a cada um.

Um integrante ficou encarregado da criação de um formulário online, produzido pela plataforma ‘Google Forms’, para coletar e sistematizar os dados e questões abordadas no projeto. Assim, desenvolveu-se 13 perguntas com recortes de público alvo (como idade, escolaridade, ascendência, contato com o bairro, entre outras) de modo a entender e formular respostas para as questões levantadas ao longo do trabalho, e esse processo ocupou aproximadamente 2 semanas, arrecadando 41 respostas úteis. Esse mesmo integrante ficou responsável pela avaliação, sistematização (transferência dos dados obtidos para gráficos e percentuais de análise) e análise dos dados coletados, e pela elaboração do relatório final. Já as segunda e terceira integrantes ficaram responsáveis pelo levantamento bibliográfico e pela revisão bibliográfica do trabalho e, assim, ambas realizaram as pesquisas teóricas, as leituras e os fichamentos base, além do recorte teórico-metodológico abordado no trabalho.

Após essa etapa, e após a documentação dos dados levantados a partir da pesquisa, deu-se início ao desenvolvimento redigido do projeto, por ambas as participantes; porém apenas uma das integrantes se manteve na estruturação redigida do projeto, uma vez que a terceira encarregou-se da construção do banner de apresentação do projeto.

Por fim, a partir dessa organização, construiu-se o texto final, constituído de uma introdução, um desenvolvimento (com discussão teórico-metodológica sobre memória, evidenciação da constituição originária do Bairro da Liberdade e sua memória coletiva, e a apresentação analítica dos dados coletados, evidenciando as questões, hipóteses e respostas obtidas, e apresentando o debate incitado sobre o tema escolhido pelo grupo). Nesse caso, é importante ressaltar que apesar da divisão de tarefas para otimização e melhor estruturação de ideias, todos os integrantes do grupo participaram, opinaram e estiveram de acordo em cada processo do trabalho final.

Fase Final:

Na fase final, o grupo optou por estruturar o projeto como um trabalho acadêmico, devido a praticidade e a facilidade de organização para melhor entendimento do tema debatido. Dessa forma, a metodologia, a bibliografia e os resultados obtidos a partir da pesquisa foram evidenciados no texto final, apontando as respostas e as conclusões do grupo. Assim, o grupo sentiu-se satisfeito e entregou discussão teórica, pesquisa, dados e análises satisfatórias a partir dos meios os quais dispunha.

Por tanto, todo o projeto deu-se de forma orgânica e possibilitou ao grupo desenvolver seus conhecimentos, metodologias, métodos e técnicas de pesquisação e estruturação de projetos, principalmente aos voltados para análise e constituição histórica, que fomentam, e ao mesmo tempo criticam, a memória coletiva e a construção da identidade cultural.