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Trabalho sobre mémoria: Memórias do trabalho infantil na área rural- Ana Beatriz Almeida Neves

De Wikiversidade

Trabalho sobre mémoria - Ana Beatriz Almeida Neves

Memórias do trabalho infantil na área rural:

A história de Dona Luzia

Resumo:

O projeto tem o objetivo de contar e refletir sobre a história de dona luzia, mulher de 74 anos, que durante boa parte de sua vida teve que trabalhar no campo, trabalho esse, que começou muito jovem, aos seus 15 anos.

Dona Luzia, criou 7 filhos, os quais tiveram mais filhos, assim tendo vários netos e bisnetos. Família essa que eu tenho orgulho em pertencer. Não por sangue, mas por coração.

A presente história oral é a de Luzia, feita por mim, sua neta do coração, para que sua história fique aqui eternizada. Obrigada por toda sabedoria e aprendizagem.


O trabalho infantil:

O trabalho infantil rural, caracterizado por atividades pesadas e insalubres, como capinar, colher e carregar sacos de café, é considerado uma das piores formas de trabalho infantil. [1]Essa prática, além de violar os direitos das crianças e adolescentes, traz consequências graves para a saúde física e mental, que podem se manifestar ao longo da vida adulta.

Dona Luzia, por exemplo, vivenciou intensamente as consequências do trabalho infantil no campo. Anos de labuta, exposta ao sol, causaram-lhe diversos problemas de saúde, como dores crônicas nas articulações. Sua história é um testemunho das sequelas do trabalho infantil e serve como um alerta para a necessidade de combater essa prática.

A história oral de Dona Luzia, assim como a de tantas outras pessoas que vivenciaram o trabalho infantil, é fundamental para visibilizar as experiências dessas crianças e adolescentes e para sensibilizar a sociedade sobre a importância de garantir seus direitos. Ao compartilhar suas histórias, essas pessoas contribuem para a construção de um futuro mais justo e igualitário para todas as crianças.

Nascida em Cafelândia, se mudou com 12 anos para a vila Corredeira, próxima de Garça, onde viveu por 20 anos e trabalhou nas fazendas da região.

Foi feita uma entrevista com 20 perguntas. Foram 8 questões sobre perfil e 12 a respeito do trabalho, e aqui abaixo transcrevo partes de nosso diálogo, com enfoque nos questionamentos sobre o trabalho exercido no campo:

Quando começou os trabalhos no campo?

Eu comecei acho que com uns 15, 16 anos. Que eu vinha da escola, e ia trabalhar na plantação de arroz do meu pai. Ia todo mundo, depois da escola ia pra roça. Meu pai tinha plantação de arroz, feijão, milho, sabe. Aí tinha meus irmãos também, nessa época. Comecei com uns 15 anos, saia da escola e ia. Ainda ia a cavalo. Era longe. (...) Aí depois com uns 17 anos eu comecei a trabalhar fora. Nos arrendatários. Plantação né, colheita. Aí eu trabalhava pra ganhar dinheiro.


O que te levou a trabalhar?

Necessidade, minha fia. Ninguém ficava parado lá. Todo mundo trabalhava. Naquela época, todas as crianças trabalhavam. Meus irmãos, começou tudo novo a trabalhar.  Todo mundo. No meu tempo né, trabalhava desde pequeno. Era normal na época, tinha que trabalhar.


Quantas horas por dia você trabalhava?

A gente saía cedo. 5 horas da manhã, 6 horas, parava 17:00. Porque era longe, então tinha que sair cedo para chegar lá e começar a trabalhar 07:00 horas. Era das 07:00 às 17:00.

Era todo dia?

Não era todo dia, de domingo a sexta, né. Sábado era pra lavar roupa, limpar casa né.


Quando você saiu da Corredeira e veio para Garça?

Por volta de uns 40 anos eu tinha 38 anos... por aí. Aí eu vim com as meninas já que eu era casada, vim para as meninas estudarem, porque lá não tinha, só tinha 4 serie. Elas veio pra fazer o terceiro colegial e estudar. (...) Eu tinha por volta de 40 anos, acho, e aí não tinha mais trabalho lá né. E as meninas não tinham estudo. A corredeira foi acabando, antes a gente trabalhava na plantação de arroz né. Quando eu casei, eu fui trabalhar né. Com 19 pra 20 anos. Trabalhava na colheita de milho, depois colheita de amendoim. Não na roça da gente, na roça dos outros. Trabalhava na colheita de tomate, de milho, de melancia. Aí acabou né (...) aí nós trabalho nesse serviço, trabalhamos 6 anos, eu e as menina. Só não a Rosana (filha mais nova) porque a Rosana ainda era pequena. A Tide (outra filha) ainda era nova, mas já trabalhava também. Ia a criançada né, colher tomate. Cada um pegava um balde, colhia, se não aguentava levar no carreador, levar as caixas, né, de tomate no carreador, aí, se não aguentava, as mães levavam. Mas desde pequenos trabalhavam.


Quais as consequências que você observa na sua saúde devido ao trabalho que você exerceu no campo?

No campo, eu tive uma fratura na coluna, né? Porque não tinha condução pra gente trabalhar. Era uma carreta, e numa descida arrancou a roda. E eu tive 4 ossos da coluna quebrados. ai por ali, começou, muito serviço, muito peso, eu tive os desgaste no meu joelho. Da roça. Que nem na colheita de arroz mesmo, a gente carregava uns sacos de 50kg na cabeça, uma distância longe pra condução pegar. Tinha que carregar na cabeça. Feixe de lenha, porque não tinha fogão, era feixe de lenha, andava 3, 4 horas com feixe de lenha na cabeça. A pobreza, a nossa alegria era a pobreza.


E você se arrepende do trabalho exercido no campo?

Não. Não? Não, de jeito nenhum.

Mesmo com as consequências você não se arrepende?

Não, não, eu não me arrependo. Não me arrependo porque aí eu tive o sustento, né? Depois eu casei, tive minhas filhas. Cada ano nascia uma. Mas eu trabalhava assim mesmo, né? Pra dar o sustento, porque pra elas nunca faltou nada. Eu trabalhava. E elas começaram muito novas também em trabalhar. Até que ninguém tem saúde, né? Ninguém tem saúde. Começou tudo pequeno.


O que você pensa sobre o trabalho infantil?

O que eu penso? É para ocupar a cabeça. Mente vazia não adianta. É que nem outro fala. Mente vazia é a oficina do capeta. Eu acho que tem que trabalhar. Desde pequeno. Na minha família ninguém virou bandido. Não é só na minha família mesmo. Minha família em geral. Meus irmãos, meus sobrinhos fizeram faculdade, tem boa profissão. Ninguém virou bandido. Mas começou desde pequeno. Trabalhar. Meus irmãos, toda vida até hoje têm vida boa, mas começou a trabalhar de pequeno. Minhas filhas. O Ricardo (filho) com quatro anos já tinha uma enxadinha, ele já carpia. A Vanilza (filha), a Vanilza tem a enxadinha dela aí. Com seis anos, ela já carpia arroz. Eu acho que o necessário é trabalho pra criança.

Você acha que tem que ser um trabalho, então, pra criança, não um trabalho de adulto?

É, um trabalhinho, né? Que seja plantar uma hortinha né? Não assim pra arrebentar. Mas tem, as crianças têm que trabalhar.

A senhora fala por educação?

Por tudo. Pra ajudar os pais. Pra eles terem a cabeça, não ter a cabeça vazia, né? Se um menino de 14 anos se arrumar um emprego, não pode porque é de menor. Ele não come, ele não bebe, ele não veste. O trabalho valoriza a pessoa. Valoriza. Eu me sinto valorizada por tudo que eu fiz. Não me arrependo. Fiquei muito doente, aposentei. Entrei em depressão. O médico falou, se for pra senhora ter depressão e se matar por falta de trabalho, então, vai fazer o que a senhora sabe. Eu sabia fazer comida, né? Entrei a cozinhar, cozinhar, cozinhar. E hoje em dia, eu já cozinhei até pra presidente da república. Né? Eu já cozinhei pra presidente não, mas pra governador eu cozinhei.

Conclusão

As mãos calejadas de Dona Luiza contam uma história de luta, trabalho e desigualdade que ecoa nos campos brasileiros. Dedicada à agricultura desde muito jovem, ela e seus filhos enfrentaram as duras condições do trabalho rural, desenvolvendo diversos problemas crônicos na saúde de cada um.

O trabalho no campo, muitas vezes visto como uma atividade essencial, esconde uma realidade cruel marcada pela exploração e pela desvalorização da mão de obra. A necessidade de garantir o sustento da família impulsiona muitas pessoas, como Dona Luiza, a trabalharem em condições precárias, sem os direitos básicos garantidos.

A história de Dona Luiza não é isolada. Milhares de famílias rurais vivem em situação semelhante, em um ciclo de pobreza e desigualdade. O trabalho infantil, a falta de acesso à educação e à saúde, e a concentração de terras são alguns dos desafios que precisam ser enfrentados para transformar a realidade do campo.

É fundamental que a sociedade se mobilize para garantir direitos iguais a todos, especialmente aos trabalhadores rurais. O acesso à informação, a promoção de políticas públicas que valorizem a agricultura familiar e a criação de cooperativas são algumas das medidas que podem contribuir para melhorar a qualidade de vida no campo. Pequenos passos para modificação de um sistema de intensa exploração.

Que o relato de dona Luzia, sirva como exemplo para sensibilizar a todos a respeito de uma luta coletiva. Assim fazendo com que os trabalhadores conheçam seus diretos e que as crianças não precisem trabalhar por necessidade, mas sim que aproveitem sua infância da maneira que deve ser aproveitada, sem horas de trabalho intenso.


Referência bibliográfica

Kassouf, Ana Lúcia; Santos, Marcelo Justos Dos. Trabalho infantil no meio rural brasileiro: evidências sobre o “paradoxo da riqueza”. Economia Aplicada. São Paulo.  Economia Aplicada, v. 14, n. 3, pp.339-353.2010.

Disponível em https://www.revistas.usp.br/ecoa/article/view/1052

Acesso em: 29/10/2024

Kassouf, Ana Lúcia. O que conhecemos sobre o trabalho infantil?. Nova Economia Belo Horizonte. Belo Horizonte. V.17. pp.323-350.2007.

Disponível em:

https://www.scielo.br/j/neco/a/vNWZvdPj8mGNRNF48zxWXPJ/abstract/?lang=pt

Acesso em: 29/10/2024.

Lista TIP: Lista das piores formas de trabalho infantil. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm

Acesso em: 29/10/2024.


[1] https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm