UMA ESTAÇÃO DE MEMÓRIAS: CRÔNICA DOS TRILHOS POR IVAN EVANGELISTA JUNIOR - RODRIGO LOPES VIUDES – MATUTINO
UMA ESTAÇÃO DE MEMÓRIAS: CRÔNICA DOS TRILHOS POR IVAN EVANGELISTA JUNIOR
RODRIGO LOPES VIUDES E CRISTIANO CRUZ PEREIRA - NOTURNO
Pesquisa realizada na antiga estação ferroviária de Marília, na biblioteca da Câmara Municipal de Marília, no site Estações Ferroviárias (www.estacoesferroviarias.com.br) e em bibliografias consultadas
INTRODUÇÃO
Poucos traços retratam as primícias da memória do município de Marília quanto aqueles que atravessaram sua história, de leste a oeste, e ainda hoje, prescrevem os rumos da cena cultural, social e urbana da cidade.
Deitados lado a lado ao desenvolvimento expansionista paulista, interior adentro, rumo às mais distantes plantações de café, os novos caminhos de ferro proveram Marília de transporte, nome, progresso e emancipação.
Passados quase 96 anos daquele 1º de maio de 1928, do primeiro ao último, todos os trens já passaram, vagando a ferrovia à lacuna da história, encravada e enferrujada nas novas direções da mobilidade urbana da cidade.
Neste fluxo, mantém-se de pé – sobretudo à sorte das profundas fundações que sustentam sua alvenaria – a estação ferroviária de Marília, desativada desde a passagem do comboio derradeiro da tarde de 14 de março de 2001, rumo à capital.
Na antiga gare, na manhã de um sábado nublado de máculas ferroviárias por todo lado, surgiram luzes de intactas memórias transportadas pelo tempo por uma das locomotivas da preservação histórica de Marília.
A saber, pelo escritor, palestrante, repórter-fotográfico e membro da Comissão de Registros Históricos da Câmara Municipal de Marília, Ivan Evangelista Júnior, que contribuiu com este trabalho não apenas com suas memórias ferroviárias.
Mais do que um relato histórico, o entrevistado embarcou em uma narrativa lírica, partindo da estação para trafegar pelos trilhos da história de Marília, dos pioneiros passageiros aos destinos incertos da ferrovia na cidade.
Ao desembarcar de suas palavras, Ivan acabou por entregar uma crônica ferroviária, cujo registro, em vídeo, delineou o conteúdo exclusivo deste trabalho, dando-lhe motivo à sua parada final.
OBJETIVO
De saída, importante reiterar o que parece óbvio: a escolha pelo tema e, em particular, pelo lugar – que, verdade seja dita, sugerida pelo entrevistado – se devem à necessidade da valorização à memória ferroviária.
A necessidade, visto que posta por este autor, urge dadas as circunstâncias que afetam diretamente a sobrevivência do objeto de estudo: a depreciação pelo tempo, pelo abandono e pelo risco de supressão de estruturas – e, por fim, memórias.
Por isso, além do restrito foro das apresentações acadêmicas, a entrevista que subsidiou este trabalho foi publicada na íntegra no Youtube [acesse aqui], no canal do ‘Blog do Rodrigo’, cujas publicações também abordam sobre memórias de Marília.
Daí a ampliação do objetivo: o alcance do público em geral, pela audiência espontânea das pesquisas por vídeos sobre o tema, de modo a divulgar as memórias ferroviárias de Marília – e de sua gente.
Também o banner, após cumprir o expediente das apresentações nos corredores da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), será encaminhado aos acervos da Comissão de Registros Históricos, para que dele faço uso em suas exposições.
CRÔNICA FALADA
Em sua entrevista, Ivan Evangelista Júnior elevou a estação ferroviária de Marília a um plataforma de evocação memorial, onde o presente pôs-se como cenário melancólico diante de passado triunfante.
A oralidade do autor, marcada por pausas, ênfases e interjeições, transforma o espaço físico da estação em pátio simbólico. Seu discurso, embora pessoal, assume contornos coletivos na conversão das bitolas pronominais do “eu” para o “nós”.
Ao conjugar lembrança e reflexão, Ivan fala de si, mas também de uma cidade. É um exercício de pertencimento. Cada lembrança evocada — o cheiro da manteiga, o barulho do trem, o relógio da estação — opera como ícone de uma temporalidade perdida, convertendo a ruína em permanência.
A composição oral aproxima-se, assim, da tradição da crônica memorialista, gênero híbrido entre o registro histórico e o lirismo cotidiano. A escolha pela linguagem afetiva, pela cadência de fala e pela interjeição (“ah, que coisa bacana!”) estabelece uma ponte entre o narrador e o ouvinte, aproximando o público do tempo da experiência.
Trata-se de um ato de resistência da memória pela palavra, em que a ferrovia, já ausente do espaço urbano, sobrevive pela força do discurso e da memória partilhada. Mais do que simples nostalgia, a fala do autor revela uma consciência crítica sobre o esquecimento.
Ao evocar a “pobre ferrovia abandonada”, Ivan transcende o tom melancólico e o converte em denúncia: “povo sem memória é povo que perde sua cultura”. Aqui, a crônica abandona a contemplação e adquire valor pedagógico — ou mesmo político — ao reivindicar o dever coletivo de preservar os símbolos materiais e imateriais que fundam a identidade de Marília.
E ainda, ao tratar a estação como organismo vivo — “a ferrovia ainda existe no coração das pessoas” —, Ivan confere à memória uma dimensão orgânica, quase biológica.
A metáfora da ligação “umbilical” entre os trilhos, os antepassados e os que nascem na cidade hoje, devolve à história seu caráter contínuo e pulsante. Nesse gesto, o entrevistado reata, pela voz, o elo que o tempo tentou romper: entre o ferro e a carne, entre o passado e o agora, entre o trem que partiu e a memória que permanece.
BIBLIOGRAFIA
TANURI, Rosalina. Marília, feitos e festas. Marília: Comissão dos Registros Históricos / Câmara Municipal de Marília, 2015.
TANURI, Rosalina. Marília, no tempo e sua saudade. Marília: [s.n.], 2001
LARA, Paulo Corrêa de. Marília: sua terra, sua gente. Marília: Grupo Iguatemy de Comunicações, 1991
BASTIDORES DA PESQUISA
De início, este trabalho providenciaria o entroncamento de diferentes narrativas. Algumas outras entrevistas foram providenciadas com pessoas que, de alguma forma, convivem com a ferrovia em Marília.
Entre estes, moradores de áreas invadidas, proprietários de estabelecimentos comerciantes vizinhos aos trilho, feirantes e frequentadores de pistas de cooper. Em todos os casos, por se tratar de trabalho acadêmico, solicitei autorização de uso de imagem.
Do mesmo modo, troquei contatos telefônicos pessoais para eventual manifestação de cada lado da linha. Qual foi minha surpresa, um a um, meus entrevistados declinaram do interesse da participação no trabalho – algo raríssimo, mesmo em minha atuação como jornalista.
Ao questionar o motivo da desistência, cada qual acendeu seu sinal de impedimento de via: uns, visibilidade demais ante situação irregular de moradia; outro, por litígio com a Rumo Logística, concessionária da ferrovia.
Antes que ficasse a pé, recorri a um velho amigo que tem na ferrovia uma causa comum na produção de pesquisas e textos, há mais de duas décadas: meu caro historiador, Ivan Evangelista Junior.
Absolutamente solícito, concedeu-me não apenas a entrevista, mas prestou um socorro. E, dada nossa proximidade, dispensou qualquer burocracia que versasse sobre o uso de sua imagem em ambientes acadêmicos e digitais.
CONCLUSÃO
De todo modo, por conta da extraordinária contribuição deste amigo ‘fãrroviário’, este trabalho pôde ser recolocado nos trilhos e, não apenas isso, conduzido através de sua capacidade de contar histórias – e memórias.
A nossa presença na velha estação ferroviária nos fez revisitar a necessidade de recontar as histórias deste lugar que, cada dia mais, parece padecer de um processo de cadaverização arquitetônica da memória de Marília.
Desde a passagem dos últimos trens de carga, em janeiro de 2009, as concessionárias que assumiram o trecho ferroviária – Ferroban, depois ALL e, agora, Rumo – interromperam o tráfego de comboios em Marília.
Com o passar do tempo, o mariliense passou a se acostumar com a ausência do trem e, não apenas isso, ignorando a presença dos trilhos com toda sorte de invasões e ocupações, como se de ninguém fossem, apesar de espaços públicos federais.
Com a retomada anunciada pela Rumo em 2024 – e prevista até 2028 –, há alguma expectativa de que a ferrovia, tão logo receba de novo os trens, recoloque a memória ferroviária nos trilhos. Enquanto isso, passa por Marília apenas o fluxo da história.