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Práticas anticientíficas
Quando se fala sobre práticas anticientíficas o que se quer mostrar são as ações que distorcem, exageram ou simulam um discurso científico sem seguir os princípios básicos da investigação. Elas aparecem em diferentes espaços, desde conteúdos produzidos por influenciadores até materiais institucionais que tentam valorizar resultados ainda imaturos. Para quem trabalha com comunicação científica, saber como essas práticas se formam e como circulam é uma forma de evitar que a divulgação de ciência seja capturada por narrativas distorcidas. A ideia desta unidade é ajudar você a identificar esses movimentos e a situar o leitor de forma clara quando um conteúdo parece científico, mas não se sustenta.
Uma boa forma de começar é retomando o debate sobre o ethos da ciência. Esse termo costuma ser usado para indicar o conjunto de normas, hábitos e expectativas que orientam a conduta de quem produz conhecimento. Ou seja, trata-se de uma ideia que ajuda a entender por que certas práticas são reconhecidas como científicas e outras não. Autores clássicos, como Robert Merton, explicam que a prática científica se apoia em princípios como transparência, abertura à crítica, cuidado com evidências e disposição para revisar conclusões. As práticas anticientíficas, por sua vez, surgem justamente quando esses princípios são abandonados ou usados de maneira estratégica para reforçar argumentos. Se um conteúdo rejeita correções, evita análise ou tenta passar impressão de certeza absoluta, há sinais claros de que não segue o padrão esperado de produção de conhecimento.
Outro ponto relevante é diferenciar ciência, pseudociência e o que chamamos aqui de práticas anticientíficas. A pseudociência imita a forma da ciência, mas sem método adequado ou sem possibilidade de verificação. Já as práticas anticientíficas podem surgir dentro ou fora do mundo científico. Elas incluem desde distorções intencionais até interpretações apressadas que acabam reforçando erros.
Como essas práticas ganham força no ambiente atual
No ambiente digital, práticas anticientíficas se espalham com uma velocidade que antes não existia. A comunicação científica hoje enfrenta um cenário em que ruídos, disputas narrativas e tentativas de simplificação inadequada se misturam e isso facilita o surgimento de conteúdos que usam linguagem técnica de forma superficial, apresentam conclusões exageradas ou omitem pontos essenciais da metodologia. É aí que o jornalismo científico entra e tem seu maior desafio, o de identificar esses movimentos rápidos e impedir que o público receba versões distorcidas de temas sensíveis.
Importante frisar que parte dessas distorções nasce dentro do próprio ecossistema científico, especialmente quando instituições divulgam resultados de forma apressada. Muitas vezes, conclusões parciais são apresentadas como se fossem definitivas. O comunicador que não observa o método, a etapa da pesquisa e as limitações do estudo pode reforçar a impressão de que certas hipóteses já estão confirmadas. Isso não significa que o jornalista precise atuar como fiscal da ciência, mas que deve observar diferenças básicas entre dados preliminares e achados mais robustos.
Outro aspecto importante é o papel da desinformação científica. Oliveira (2020) mostra como muitos grupos se apoiam em incertezas legítimas da ciência para defender narrativas que rejeitam evidências sólidas. Isso aconteceu de forma intensa durante a pandemia e permanece ativo em temas como vacinas, clima e saúde. Indo de encontro a mesma ideia, Gomes e Zamora (2024) explicam que há uma diferença entre dúvida metodológica e rejeição deliberada de consenso científico. Para o comunicador, isso significa evitar enquadramentos que tratem argumentos desiguais como se estivessem no mesmo patamar.
A pseudociência também continua sendo o ambiente ideal para práticas anticientíficas. Discursos que usam jargões técnicos e uma aparência de formalidade seguem seduzindo parte do público. Esses conteúdos exploram emoções e buscam respostas simples para questões complexas. Na comunicação científica, o risco é reforçar esse tipo de material ao citar sem contextualizar, ao buscar “outro lado” em debates que não possuem equivalência ou ao não explicar por que certas práticas foram descartadas pela comunidade científica.
Nesse âmbito, a ciência aberta ajuda a combater parte desse cenário porque amplia o acesso a dados, métodos e revisões. Quando informações sobre a construção do estudo estão disponíveis, fica mais fácil identificar se conclusões exageram o que os dados mostram. Afinal, transparência não elimina erros, mas dá ferramentas para que o comunicador compreenda em que fase o estudo se encontra e qual o nível de confiança que pode ser atribuído aos resultados. Isso se conecta diretamente com o que discutimos nas unidades sobre reprodutibilidade e revisão por pares.
Para quem comunica ciência, alguns sinais podem indicar práticas anticientíficas. Entre eles estão conclusões fortes baseadas em amostras pequenas, ausência de detalhes metodológicos, argumentos baseados apenas em autoridade, uso emocional da linguagem e a falta de referências. Outro sinal importante é quando diferentes estudos são apresentados como equivalentes, mesmo que só um tenha método sólido. O comunicador científico não precisa dominar estatística avançada, mas deve ser capaz de identificar quando um estudo é usado de maneira distorcida para sustentar posições prévias.
Por fim, comunicar ciência com responsabilidade significa reconhecer limites e explicar ao leitor a diferença entre afirmações sustentadas por dados e conteúdos que apenas se vestem de discurso científico. Não se trata de confrontar pessoas, mas de ajudar o público a entender quando um argumento se apoia em evidências e quando se apoia em estratégias retóricas. Ao assumir esse papel, o comunicador contribui para um debate mais claro e menos vulnerável a distorções que alimentam a anticiência. Esse cuidado protege a qualidade da informação e impede que ideias frágeis circulem como conclusões seguras.
Referências
- GOMES, Sally Ramos; ZAMORA, Maria Helena. Negacionismo: definições, confusões epistêmicas e implicações éticas. Ciênc. educ. (Bauru) 30. 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/FSd54cSMKQPSBcKtvxfWR3w/
- OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. Desafios epistemológicos da comunicação científica na contemporaneidade. 2020. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/comunicacao/desafios-epistemologicos-da-comunicacao-cientifica-na-contemporaniedade/
- OLIVEIRA, Thaiane. Desinformação científica em tempos de crise epistêmica: circulação de teorias da conspiração nas plataformas de mídias sociais. Revista Fronteiras - Estudos midiáticos 22(1):21-35, jan./abr. 2020. Disponível em: https://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/download/fem.2020.221.03/60747736/60763702
- QUESTÃO DE CIÊNCIA. Os excessos e falhas que atrapalham comunicação científica. 2020. Disponível em: https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2020/08/06/os-excessos-e-falhas-que-atrapalham-comunicacao-cientifica
- SOUZA, Daniel Victor Lima de; OLIVEIRA, Irlane Maia de. Pseudociências e os desafios atuais impostos ao ensino de ciências. Educação & Realidade, v. 49. 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edreal/a/xhbjYwtDffG8WygCxs6XZbr/
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