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Desinformação científica
Por isso, reduzir o problema às chamadas fake news é insuficiente. A desinformação científica inclui também práticas como o negacionismo, a fabricação de falsas controvérsias, o uso seletivo de evidências e abordagens midiáticas que reforçam ambiguidade ou sensacionalismo. Um exemplo recorrente ocorre quando estudos isolados, com resultados preliminares ou metodologicamente frágeis, são apresentados como se colocassem em dúvida consensos científicos amplamente estabelecidos, como acontece em debates sobre vacinas, mudanças climáticas ou tratamentos de saúde.
Nessas situações, a ciência não é negada de forma explícita. Pelo contrário, sua própria linguagem é mobilizada para gerar confusão. Termos técnicos são usados fora de contexto, opiniões minoritárias ganham destaque desproporcional e o desacordo, que faz parte do processo científico, é apresentado como sinal de incerteza generalizada. O resultado é o enfraquecimento da compreensão pública da ciência, não pela mentira direta, mas pela fragmentação da informação e pela distorção do debate científico.
Esse tipo de dinâmica mostra por que a desinformação científica não se espalha apenas por conteúdos falsos, mas também por narrativas aparentemente plausíveis, que se apoiam na autoridade simbólica da ciência para produzir dúvida, desconfiança ou polarização no espaço público.
Essas estratégias ganham força em ambientes digitais marcados por circulação acelerada, segmentação de públicos e forte mediação algorítmica. Plataformas digitais organizam o acesso à informação a partir de critérios como engajamento, popularidade e recorrência, o que tende a favorecer conteúdos emocionalmente carregados, simplificados ou polarizados. Nesse contexto, informações científicas passam a competir com narrativas que exploram medo, indignação ou desconfiança, muitas vezes com maior capacidade de circulação.
A ciência torna-se um alvo recorrente porque ocupa um lugar simbólico central na vida social. Decisões relacionadas à saúde, ao meio ambiente, à tecnologia e à economia frequentemente se apoiam em argumentos científicos. Questionar a ciência, enfraquecer sua credibilidade ou apresentar suas conclusões como suspeitas passa a ser uma forma indireta de disputar políticas públicas, valores sociais e posições de poder. Assim, temas científicos deixam de ser apenas informativos e passam a integrar conflitos mais amplos do debate público.
Além disso, a própria natureza do conhecimento científico contribui para essa vulnerabilidade. A ciência trabalha com incertezas, revisões e graus variados de evidência. Quando esses elementos são retirados de contexto, podem ser usados para sugerir que “nada é confiável” ou que “tudo é opinião”.
O lugar do jornalismo científico
Quando esse tipo de leitura se consolida, o jornalismo científico passa a operar em um terreno especialmente sensível. Ao mesmo tempo em que precisa lidar com a complexidade do conhecimento científico, enfrenta um ambiente informacional marcado por pressões de velocidade, visibilidade e engajamento. Nesse contexto, decisões editoriais ganham peso ainda maior, pois a forma como a ciência é enquadrada pode contribuir tanto para esclarecer quanto para aprofundar confusões já existentes.
Um dos riscos recorrentes está na romantização da ciência e de seus porta-vozes. Ao tratar cientistas como autoridades incontestáveis ou ao atribuir credibilidade automática a determinadas fontes, o jornalismo pode reforçar uma imagem quase mística da ciência, distante de seus processos reais. Essa postura dificulta a compreensão pública do funcionamento científico e abre espaço para frustrações e desconfiança quando surgem revisões, controvérsias ou mudanças de orientação.
Outro limite importante aparece nas abordagens que recorrem ao sensacionalismo ou à ambiguidade para captar atenção. A apresentação de resultados preliminares como descobertas definitivas, a ênfase exagerada em conflitos pontuais ou a falsa equivalência entre posições desiguais dentro da comunidade científica podem reforçar a ideia de que a ciência é permanentemente instável ou contraditória. Em vez de aproximar o público do debate científico, essas práticas acabam por enfraquecer sua compreensão e alimentar narrativas de desinformação.
Então, o que fazer com o problema?
Diante desse cenário, enfrentar a desinformação científica exige ir além de respostas pontuais ou soluções imediatas. Iniciativas de verificação de fatos cumprem um papel importante ao corrigir informações falsas ou distorcidas em circulação, mas sua atuação é limitada quando o problema envolve disputas mais profundas sobre confiança, autoridade e legitimidade do conhecimento científico. Corrigir um conteúdo não garante, por si só, a reconstrução da credibilidade da ciência no espaço público.
O enfrentamento da desinformação científica passa também pelo fortalecimento das instituições responsáveis pela produção e comunicação do conhecimento. Universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e instituições de saúde precisam ocupar de forma contínua os espaços de circulação digital, não apenas em momentos de crise. A presença regular, transparente e acessível contribui para reduzir o distanciamento entre ciência e sociedade e para criar referências confiáveis em meio ao excesso de informação.
Além disso, iniciativas voltadas à competência em informação ganham relevância nesse contexto. Capacitar a população para compreender como a ciência funciona, reconhecer fontes confiáveis, identificar recortes enganosos e interpretar informações em circulação é parte fundamental desse processo. Esse esforço não se limita ao sistema educacional formal, mas envolve ações integradas entre comunicação, ciência e políticas públicas.
Nesse conjunto de estratégias, o jornalismo científico ocupa um lugar específico. Seu papel não está apenas em desmentir informações falsas, mas em construir narrativas que contextualizem o conhecimento científico, explicitem processos, tornem visíveis as incertezas legítimas e diferenciem controvérsias reais de falsas disputas. Ao fazer isso de forma consistente, o jornalismo contribui para um debate público mais qualificado e para a redução dos efeitos da desinformação científica no ambiente digital.
O conteúdo desta aula foi baseado na pesquisa de Miréia Figueiredo, feita em 2020, como bolsista do CEPID NeuroMat.
Referências
- SANTOS-D'AMORIM, Karen; CÔRBO, Dayo de Araújo Silva. O que os estudos sobre desinformação na ciência da informação brasileira têm a nos dizer? Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte. 2024
- ANÇANELLO, Juliana Venancio; CASARIN, Helen de Castro Silva; FURNIVAL, Ariadne Chloe. Competência em Informação, fake news e desinformação: análise das pesquisas no contexto brasileiro. Revista Em questão, Porto Alegre. 2023
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