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O uso da imagem no jornalismo científico
Nesse contexto, a imagem não funciona apenas como registro do real ou como complemento informativo. Ela organiza percepções, orienta leituras e participa ativamente da construção de sentidos sobre o mundo. Quando pensamos em ciência, isso se torna ainda mais relevante, já que muitos fenômenos científicos não são diretamente observáveis e dependem de mediações visuais para serem compreendidos, explicados ou debatidos socialmente.
A questão que se coloca, então, é se a forma como a ciência utiliza imagens acompanha essas transformações do universo visual contemporâneo. Em muitos casos, observa-se um descompasso entre a complexidade das imagens que circulam socialmente e o uso ainda restrito e ilustrativo do visual na difusão científica. É a partir desse desajuste que se torna possível refletir sobre o papel da imagem no jornalismo científico e sobre outras maneiras de pensar e produzir visualmente o conhecimento.
Seguindo essa linha, é comum que a imagem na difusão científica seja utilizada principalmente como apoio ao texto. Gráficos, fotografias e esquemas aparecem, muitas vezes, para ilustrar algo que já foi explicado em palavras, reforçando uma ideia previamente construída pelo discurso textual. Nesse formato, a imagem cumpre uma função didática básica, ajudando na visualização de dados ou processos, mas raramente assume autonomia na construção do sentido.
Essa hierarquia entre texto e imagem não surge por acaso. A ciência historicamente reconheceu o texto como forma legítima de registro e validação do conhecimento, enquanto a imagem ocupou um lugar secundário, associada à demonstração ou à exemplificação. Mesmo em contextos de divulgação, essa lógica se mantém, fazendo com que imagens sejam tratadas como complemento e não como linguagem capaz de organizar o pensamento científico ou estimular novas perguntas.
No entanto, quando a imagem é reduzida a esse papel ilustrativo, parte de seu potencial comunicativo se perde. Em um ambiente marcado por múltiplas formas de visualidade, limitar a imagem a repetir o que já está escrito pode gerar distanciamento e dificultar o engajamento do público. Esse uso restrito também contribui para um descompasso entre a complexidade dos fenômenos científicos e a maneira como eles são apresentados visualmente, abrindo espaço para refletir sobre outras formas de pensar a imagem na comunicação da ciência.
Texto e imagem na experiência social
Esse descompasso entre a complexidade do conhecimento científico e o uso limitado da imagem pode ser melhor compreendido quando olhamos para como a cultura visual se transformou ao longo do tempo. Pesquisadores como Josep Català propõem pensar essa relação a partir de mudanças históricas na forma como texto e imagem organizam a experiência social. A ideia central é que não lidamos mais com imagens do mesmo modo que em períodos anteriores, e insistir em modelos antigos de visualidade tende a empobrecer a comunicação.
Durante muito tempo, predominou uma cultura em que a imagem buscava representar o real de maneira direta e transparente. Nesse contexto, a imagem era vista como uma reprodução fiel do mundo, com pouca margem para reflexão ou interpretação. Ela funcionava como algo que se olha rapidamente, sem exigir envolvimento mais profundo, reforçando uma postura passiva do observador. Essa lógica ajudou a consolidar um uso da imagem voltado à mimese, à ilustração do texto e ao espetáculo visual.
Esse tipo de imagem, ainda muito presente na difusão científica, costuma se apresentar como neutra e objetiva, escondendo o fato de que toda representação envolve escolhas. Ao tratar a imagem como um espelho do real, perde-se a oportunidade de explorar seu potencial para expor processos, relações e modos de pensar. É a partir dessa limitação que se torna possível avançar para outra forma de compreender a visualidade na comunicação da ciência, mais alinhada com o modo como hoje produzimos e interpretamos imagens.
A imagem tradicional
A partir desse modelo, consolidou-se um uso da imagem marcado por funções bastante específicas. Em vez de operar como espaço de reflexão, a imagem passou a cumprir tarefas delimitadas, como confirmar visualmente uma informação, organizar dados de forma simplificada ou tornar um conteúdo mais acessível. Sua atuação ocorre dentro de margens bem controladas, com pouca abertura para questionamento ou interpretação própria.
Nesse arranjo, a imagem tende a reforçar sentidos já estabelecidos, não a produzi-los. Ela aparece como elemento de apoio, organizada para conduzir o olhar de maneira previsível e reduzir ambiguidades. Esse tipo de visualidade favorece leituras rápidas e diretas, mas limita a possibilidade de explorar processos, relações ou camadas de significado mais complexas envolvidas nos fenômenos científicos.
Esse padrão também se articula a uma experiência visual baseada na observação passiva. O observador é convidado a olhar, reconhecer e seguir adiante, sem necessidade de interação ou envolvimento mais profundo. Embora esse modelo tenha sido funcional em determinados contextos, ele entra em embate com as formas contemporâneas de produção e circulação de imagens, que exigem outras maneiras de ver, interpretar e pensar visualmente.
Diante desse embate entre um modelo visual ainda dominante e as formas contemporâneas de produção e circulação de imagens, torna-se evidente a necessidade de repensar o lugar do visual na comunicação da ciência. As imagens continuam presentes, mas já não respondem do mesmo modo às expectativas de quem as produz nem de quem as observa. É nesse deslocamento entre práticas consolidadas e novas formas de ver que se abre espaço para outras maneiras de compreender a imagem, menos subordinadas ao texto e mais atentas às transformações do olhar na sociedade atual.
A imagem complexa
No contexto do jornalismo científico, essa mudança de perspectiva abre espaço para pensar a imagem como parte ativa do processo de comunicação do conhecimento. Em vez de funcionar apenas como apoio visual, a imagem passa a organizar informações, sugerir relações e orientar percursos de leitura, convidando o público a explorar dados, processos e conexões. É esse deslocamento que Josep Català descreve como imagem complexa, uma forma de visualidade que não se limita a mostrar resultados, mas participa da construção do entendimento, articulando texto, visual e interação de maneira integrada.
Ao deslocar a imagem para esse lugar ativo, o jornalismo científico amplia suas possibilidades de mediação com o público. A visualidade deixa de servir apenas à explicação de resultados e passa a acompanhar processos, incertezas e relações que fazem parte da produção do conhecimento científico. Essa abordagem não elimina o texto nem simplifica a ciência, mas cria outras formas de acesso e compreensão, mais compatíveis com a complexidade dos fenômenos e com os modos contemporâneos de leitura visual.
Ao pensar a imagem a partir dessa perspectiva, a comunicação da ciência deixa de tratar o visual apenas como recurso auxiliar e passa a reconhecê-lo como parte do próprio processo de construção do conhecimento. No jornalismo científico, isso implica assumir a imagem como linguagem, capaz de mediar sentidos, tornar visíveis processos e dialogar com a complexidade dos fenômenos científicos. Para além de aprimorar a aparência visual da ciência, trata-se de repensar como imagens, textos e dados podem operar juntos para ampliar a compreensão pública da ciência em um contexto marcado por novas formas de ver, interpretar e interagir com a informação.
O conteúdo desta aula foi baseado na pesquisa de Giulia Ebohon, feita entre 2017 e 2018, como bolsista do CEPID NeuroMat.Você também pode usar o botão de edição no canto superior direito de uma seção para editar seu conteúdo.