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Ciência e Filosofia

Conteúdo

O que é ciência e por que isso importa para o jornalismo?

A pergunta que guia a unidade pode parecer simples. Mas é justamente por ser aparentemente óbvia que ela merece abrir este módulo. Porque a resposta que damos a ela muda tudo. Muda o jeito como contamos a ciência, o tom das manchetes, a forma de lidar com controvérsias e até a expectativa que criamos no leitor. Se a ciência for entendida como um catálogo de verdades eternas, o jornalismo tende a funcionar como vitrine: exibir certezas acabadas, embaladas e prontas para consumo. Mas, se a vemos como uma prática histórica, coletiva e em constante revisão, o jornalismo deixa de ser tradutor literal de artigos científicos e passa a ser mediador de processos, mostrando tentativas, erros, disputas e acordos.

A ciência é, sim, uma forma singular de produzir conhecimento, mas não é neutra, nem livre de valores. Ela é construída por comunidades, mediada por instituições, moldada por interesses e sujeita a revisões. Essa visão é fundamental para que o jornalismo científico vá além da simples “tradução” de artigos acadêmicos.

Ciência como prática social: paradigmas, redes e cultura científica

Thomas Kuhn, em seu livro “A estrutura das revoluções científicas”, desmontou a ideia de que a ciência progride de forma linear. Segundo ele, o conhecimento científico avança por mudanças de paradigma, ou seja, períodos de ciência “normal” são interrompidos por crises que levam a revoluções conceituais. Isso significa que teorias consideradas fortes hoje podem ser abandonadas amanhã. Para o jornalismo, essa noção é essencial. Afinal, ela explica por que a ciência vive de incertezas e por que manchetes do tipo “a verdade definitiva” são enganosas.

Karl Popper, por sua vez, defendia que a ciência se diferencia por ser falseável, ou seja, nenhuma teoria pode ser provada de forma absoluta; ela só sobrevive enquanto não for refutada. Esse ponto é crucial para jornalistas. Quando uma pesquisa “confirma” algo, ela apenas reforça uma hipótese dentro de um contexto, não estabelece uma verdade eterna. Ignorar isso pode gerar confusão no público e alimenta discursos negacionistas, que exploram as revisões da ciência como sinal de fraqueza.

Bruno Latour amplia essa discussão ao mostrar que a ciência não é apenas um conjunto de ideias, mas uma rede sociotécnica. Instrumentos, laboratórios, agências de fomento e até disputas políticas participam da produção do conhecimento. Quando o jornalismo cobre um artigo sem considerar quem financiou a pesquisa ou quais interesses estão em jogo, ele reforça a ilusão da neutralidade científica.

Por fim, Carlos Vogt introduz a noção de cultura científica, entendida como um conjunto de práticas, valores e linguagens que circulam socialmente. O jornalismo é um ator central nessa espiral de cultura científica, porque ajuda a definir como a sociedade percebe a ciência: como um campo distante e inacessível ou como uma prática integrada à vida cidadã.

Por que isso muda a prática jornalística?

Entender essas dimensões muda radicalmente a forma de fazer jornalismo científico. Se aceitamos que a ciência é provisória e atravessada por interesses, a cobertura não pode se limitar a divulgar descobertas; ela precisa mostrar processos. Exemplos:

  • Em vez de escrever “Cientistas provam que café faz bem”, o jornalismo pode narrar o caminho: como o estudo foi feito, quais margens de erro existem, como ele dialoga com pesquisas anteriores.
  • Em pautas sobre vacinas, deixar claro que consensos se constroem coletivamente, evitando dar espaço a vozes isoladas em nome de um “falso equilíbrio”.
  • Em casos de retratação de artigos (como durante a pandemia), mostrar que corrigir erros não é sinal de fragilidade, mas parte do funcionamento da ciência.

Esse entendimento também ajuda a enfrentar a desinformação científica. Negacionistas exploram justamente a visão equivocada de que a ciência deve oferecer certezas absolutas. Um jornalismo crítico mostra que a força da ciência está em sua capacidade de se corrigir. E que isso é um valor, não um defeito.

É importante deixar bem claro ainda que o jornalista científico, portanto, não é um mero tradutor de jargões. Ele é um mediador crítico, capaz de:

  • contextualizar resultados;
  • mostrar dúvidas sem sensacionalismo;
  • investigar relações entre ciência, poder e sociedade;
  • aproximar o público dos bastidores da produção científica.

Esse é o ponto de partida para um jornalismo científico que fortaleça a democracia e a participação social.

Referências

  • FERREIRA, Isabela Tosta. Estratégias discursivas para a comunicação científica: dilemas entre o jargão e a metáfora. Anagramas. 17(2), 1-15. 2023.
  • KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.
  • LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo, Editora UNESP, 2000.
  • POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

Conteúdos audiovisuais

Quiz

Caro(a) aluno(a), lembre-se que o quiz é uma autoavaliação.

1

Por que é problemático afirmar que “a ciência provou” em uma reportagem?

Porque essa frase reforça a ideia de que a ciência é neutra e imutável.
Porque não há consenso científico sobre nenhum tema.
Porque as teorias científicas nunca passam por revisões.
Porque essa linguagem só deve ser usada por cientistas.

2

Segundo Kuhn, o avanço científico ocorre principalmente:

Pela acumulação linear de fatos comprovados.
Por mudanças de paradigma que reconfiguram teorias anteriores.
Por debates exclusivamente éticos dentro da academia.
Pela influência da mídia na divulgação de descobertas.

3

Qual é um dos riscos de aplicar o princípio jornalístico dos “dois lados” a temas científicos já consolidados?

Tornar a reportagem mais longa e complexa.
Favorecer a compreensão do público leigo.
Produzir falso equilíbrio e dar visibilidade a posições sem base científica.
Reduzir a credibilidade dos especialistas envolvidos.

4

Qual é o papel do jornalista científico na mediação entre ciência e sociedade?

Traduzir jargões de forma simples, mesmo que haja perda de rigor.
Reproduzir as descobertas científicas sem questionamentos.
Atuar como mediador crítico, contextualizando resultados e aproximando o público.
Defender sempre o ponto de vista dos cientistas.

5

Por que o uso de metáforas na divulgação científica deve ser feito com cautela?

Porque elas sempre comprometem a credibilidade da informação.
Porque podem simplificar conceitos, mas também gerar interpretações equivocadas.
Porque a linguagem científica deve ser 100% literal.
Porque o público rejeita recursos expressivos na comunicação científica.

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