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Os primeiros financiamentos de P&D e sua chegada ao Brasil
Se a Unidade 1 nos mostrou que a ciência não acontece no nada, mas dentro de sistemas institucionais e sociais, esta unidade tem como foco desvendar como esses sistemas começaram a ser financiados, como se consolidaram no Brasil e por que entender esse processo é essencial para quem comunica ciência.
A ciência como conhecemos hoje, institucionalizada, profissional e, em muitos casos, dependente de recursos públicos, é uma construção relativamente recente. Até o século XIX, a produção de conhecimento era algo restrito a elites, universidades religiosas e corporações comerciais. A ideia de que o Estado deveria financiar ciência como um bem público ganhou força a partir da consolidação dos estados modernos e foi acelerada pelas guerras mundiais e pela industrialização.
Um marco importante nesse processo foi o relatório Science: The endless frontier, publicado em 1945 pelo engenheiro e conselheiro científico Vannevar Bush, nos Estados Unidos. O texto defendia que o investimento contínuo em ciência básica era essencial para o progresso econômico, militar e social. Esse documento serviu de base para a criação da National Science Foundation (NSF) em 1950, considerada até hoje um dos pilares do sistema americano de fomento.
Na Europa, o processo ocorreu quase da mesma maneira, ainda que com variações. A criação do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) na França, em 1939, consolidou um modelo centralizado de apoio estatal à pesquisa. No Reino Unido, a Royal Society exerceu um papel-chave ao longo dos séculos, sendo responsável por uma série de políticas e subsídios científicos.
E o Brasil nisso tudo?
No Brasil, o apoio à ciência surgiu de forma tardia e intermitente. Durante o período colonial e imperial, a produção científica era dispersa e pouco valorizada. Foi com a chegada da corte portuguesa, em 1808, que instituições foram criadas, como a Academia Real Militar (1810), o Museu Nacional (1818) e a Imprensa Régia, marcando o início de uma estrutura institucional de ensino e pesquisa.
Mas foi no século XX que o país começou a organizar um sistema nacional de fomento mais consistente. A fundação da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 1916 teve papel simbólico importante, ainda que com atuação restrita. A virada de cenário veio em 1951, com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que passaram a estruturar programas de apoio à pesquisa e formação de recursos humanos especializados. A criação da FAPESP, em 1962, inaugurou o modelo das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, que hoje operam em vários estados brasileiros. Mesmo durante a ditadura militar (1964–1985), houve significativa expansão do sistema universitário e crescimento do financiamento à pesquisa, ainda que guiado por interesses estratégicos do regime, como a tecnologia nuclear, a informática e a agroindústria.
A partir dos anos 1990, o cenário mudou novamente. Políticas orientadas por organismos multilaterais, como o Banco Mundial, passaram a influenciar fortemente os rumos da ciência no Brasil. Ganhou força um modelo de avaliação por produtividade, ênfase em internacionalização e foco em desempenho quantificável.
Diferente dos Estados Unidos, onde o setor privado responde por quase 70% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, no Brasil o sistema ainda é fortemente sustentado por recursos públicos. Isso tem suas vantagens, como certa autonomia acadêmica, mas também o torna vulnerável a cortes orçamentários e ciclos políticos.
Nos últimos anos, esse modelo tem enfrentado crises profundas. Cortes recorrentes nos orçamentos da CAPES, CNPq e FAPs; a precarização das carreiras científicas; a diminuição de bolsas e editais; a fuga de pesquisadores para o exterior; e tentativas de ingerência ideológica nos critérios de fomento têm dificultado a continuidade de projetos e redes de pesquisa consolidadas.
Por que isso importa para o jornalismo científico?
Essa trajetória deixa claro que o financiamento da ciência não é um detalhe técnico ou um pano de fundo irrelevante; ele é, na realidade, uma dimensão central para quem atua na comunicação científica. Afinal, um jornalista bem informado sobre o funcionamento dos sistemas de fomento é capaz de construir narrativas mais complexas e responsáveis. Ele pode, por exemplo, explicar ao público por que certas pesquisas recebem mais destaque que outras, ou como interesses políticos e econômicos influenciam diretamente as agendas científicas nacionais. Pode também revelar conflitos de interesse que envolvem universidades, empresas e agências de financiamento, além de contextualizar cortes de verbas, identificar mudanças nas regras dos editais e apontar as desigualdades regionais que estruturam o acesso aos recursos públicos.
Compreender essas engrenagens permite, a quem comunica ciência, sair da superfície dos resultados científicos e mergulhar em seus bastidores. Ou seja, entender quem decide o que será financiado, com quais critérios e com quais implicações para a sociedade. Isso exige familiaridade com editais, políticas públicas, instituições de fomento e seus jogos de poder. E mais, exige sensibilidade para traduzir tudo isso de forma acessível, sem perder a densidade crítica.
Em um cenário marcado pela desinformação, pelo negacionismo e pelos ataques à ciência, essa mediação se torna ainda mais urgente. Falar apenas sobre descobertas, métodos e resultados não basta. É preciso também trazer á luz as estruturas que sustentam, ou sabotam, essas descobertas: quem as financia, com que interesses, com que critérios de prioridade e com quais efeitos sociais. Essa é uma das tarefas mais fundamentais do jornalismo científico comprometido com o interesse público.
Referências
- BOURDIEU, Pierre. Sobre o Estado: cursos no Collège de France (1989-1992). Tradução de Luiz Sérgio Henriques. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
- BUSH, Vannevar. Science The Endless Frontier. Revista Brasileira de Inovação, Campinas, 2014. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rbi/article/view/8649079. Acesso em: 22 jul. 2025.
- DAGNINO, Renato Peixoto. Ciência e tecnologia no Brasil: o processo decisório e a comunidade de pesquisa. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
- DANTES, Maria Amélia M. Uma história institucional das ciências no Brasil: transformações na área da História da Ciência nas últimas décadas do século XX abriram novas possibilidades para a História Institucional da Ciência. Ciência e Cultura, v. 74, n. 3, p. 1-14, jul./set. 2022. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252022000300009. Acesso em: 22 jul. 2025.
- FAPESP. O financiamento à pesquisa científica. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-financiamento-a-pesquisa-cientifica/. Acesso em: 22 jul. 2025.
- SCHWARTZMAN, Simon. Um espaço para ciência: a formação da comunidade científica no Brasil. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2001. 276 p. Disponível em: https://livroaberto.ibict.br/handle/123456789/757. Acesso em: 22 jul. 2025.
- SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA. Desafio do Brasil em 2025 é deslanchar com os investimentos necessários para o desenvolvimento científico e social do país. Disponível em: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/desafio-do-brasil-em-2025-e-deslanchar-com-os-investimentos-necessarios-para-o-desenvolvimento-cientifico-e-social-do-pais/. Acesso em: 22 jul. 2025.
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