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Utilizador:Alissa Dias Praça

De Wikiversidade

Relatório de Pesquisa

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Identificação

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Título do trabalho:

"Memória, Resistência e Música no Período da Ditadura Militar: Uma História de Vida"

Integrantes do grupo:

  • Alissa Dias Praça
  • Caio dos Santos Vilas Boas
  • Glaucia Brito da Silva

Locais de pesquisa:

  • Entrevista oral com Cleunice Batista de Barros, Marília, São Paulo
  • Pesquisa bibliográfica sobre memória, identidade social e música como resistência, com base em Michael Pollak

Relatório

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Introdução

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Este relatório apresenta os resultados de uma pesquisa realizada por meio de uma entrevista com Cleunice Batista de Barros, testemunha viva do período da Ditadura Militar no Brasil. O estudo visa compreender como a memória e a música agem como instrumentos de resistência e preservação da identidade em situações limite.

O estudo aborda a reflexão teórica de Michael Pollak, que entende a memória não como simples registro do passado, mas como uma reconstrução contínua, atravessada por esquecimentos, silêncios e conflitos. Para Pollak, a memória individual e coletiva se moldam às necessidades do presente, funcionando como uma ferramenta de resistência e pertencimento social (Pollak, 1989).

O objetivo desta pesquisa é analisar, por meio da história de vida de Cleunice Batista de Barros, a construção da memória e o papel da música como formas de resistência durante a Ditadura Militar.

Objetivos específicos:

  • Investigar relatos de violência, abuso e repressão sofridos pela entrevistada
  • Compreender a função da música como resistência cultural e política
  • Refletir sobre a memória como instrumento de transmissão de experiências e identidade entre gerações

Desenvolvimento

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Contexto do início da vida

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Cleunice nasceu em 1957, sete anos antes do início da Ditadura Militar, na linha do trem do bairro de São Miguel Paulista, fruto do romance de seus pais, ambos legalmente casados com outras pessoas.

"Eu nasci na linha do trem, por conta do romance do meu pai e da minha mãe. Meu pai era negro, minha mãe portuguesa. Fugiram pra me ter." – Cleunice Batista de Barros

Infância durante a Ditadura

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O período era marcado pelo medo e vigilância constante. Após o AI-5 (1968), soldados eram presença frequente nas escolas e na vida cotidiana. Cleunice lembra da mudança da família de Cubatão para o ABC Paulista em busca de melhores oportunidades e segurança, após o pai dela agredir fisicamente o governador do estado da época, Ademar de Barros.

Abuso por parte do Exército

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Ainda criança, precisou trabalhar devido à escassez de alimentos. Em um episódio traumático, sofreu abuso físico durante uma vacinação forçada, evidenciando a violência exercida sobre corpos vulneráveis durante o regime.

"Um deles meteu a mão no meu vestido e abriu. Eu fiquei nua. [...] Se aquele coronel não tivesse aparecido, eles teriam feito coisa pior comigo." – Cleunice Batista de Barros

Censura e resistência cultural

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A entrevistada relata episódios de censura em práticas religiosas, na televisão e em conversas cotidianas. Ao mesmo tempo, a música se apresentava como uma forma de resistência e esperança.

"Eu adorava os festivais da canção… Geraldo Vandré, Chico Buarque, Gil, Caetano, Elis Regina. A música mostrava sem violência que o povo brasileiro sabia muito bem o que fazia." – Cleunice Batista de Barros

Concretização política e enfrentamento

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Cleunice destaca o valor da educação e da consciência política como formas de resistência, inclusive entre jovens estudantes.

"As pessoas de hoje em dia não fazem ideia da merda que é uma ditadura. [...] Eu acho engraçado quando falam em voltar com a ditadura. Eles não sabem o que estão pedindo." – Cleunice Batista

Reflexão geracional e valor da memória viva

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A entrevistada compara a consciência política de sua geração com a alienação atual, reforçando que a memória é ferramenta de resistência contra o esquecimento.

"Eu lutei pra que as coisas fossem como são, e agora querem voltar pra trás. [...] O povo precisa entender o poder que tem com o voto e com o estudo." – Cleunice Batista de Barros

Relação com Pollak

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O relato de Cleunice exemplifica o conceito de Pollak sobre o “não-dito”, lembranças dolorosas ou censuradas socialmente que, ao serem compartilhadas, recriam o sentido do vivido. O trauma, a resistência e a memória transmitida entre gerações demonstram o caráter político da memória.

Conclusão

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A entrevista revela que a memória é viva, afetiva e política. A música, a dor e as histórias de amor dão novo significado ao passado e explicam acontecimentos presentes, reafirmando identidade e resistência.

Concordando com Pollak, o ato de lembrar se torna um gesto de combate ao esquecimento e preservação histórica. Cleunice representa a memória das mulheres pobres e trabalhadoras, mostrando dimensões do período da Ditadura Militar que a história oficial tentou apagar.

Bibliografia

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POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, jul. 1992. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/1941/1080. Acesso em: 03 de Novembro de 2025

BARROS, Cleunice Batista de. Entrevista sobre memória e música durante a Ditadura Militar. Entrevista concedida a Alissa Dias Praça. São Paulo, 5 nov. 2025. [Gravação em áudio, 35 min]. Link: https://drive.google.com/file/d/1pOmVElRyr8uqxvi7gan1ZRWV85y95Sb8/view?usp=drivesdk

Comentário sobre dificuldades encontradas

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  • Fase inicial – Organização do grupo:*

A dificuldade inicial consistiu em alinhar horários e definir responsabilidades de forma equilibrada, garantindo a participação de todos.

Houve uma cisão no grupo original, resultando na formação de dois grupos distintos. A divisão ocorreu por divergências pessoais.

  • Fase intermediária – Distribuição de tarefas e escolha do método:*

Durante a execução, surgiram desafios na escolha do método de coleta, pois era necessário adaptar a entrevista ao perfil da entrevistada, permitindo que expressasse suas memórias espontaneamente e sem constrangimentos.

  • Fase final – Apresentação dos resultados e apreciação do projeto:*

Na fase final, o desafio foi organizar e integrar os relatos da entrevista com a fundamentação teórica de Pollak, equilibrando narrativa, análise e interpretação crítica.

  • Sugestões para aprimoramento do projeto:*

Planejar reuniões de acompanhamento regulares Preparar roteiros flexíveis para entrevistas, garantindo liberdade de expressão Utilizar ferramentas digitais para organização e análise de dados

Rock e Resistência: Juventude e Música Durante a Ditadura Militar

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Alunos: Alissa Dias Praça, Caio dos Santos Vilas Boas e Glaucia Brito da Silva

Curso: Ciências Sociais

Período: Matutino (Alissa e Glaucia) / Noturno (Caio)

Professor: Paulo Eduardo Teixeira  

Introdução

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O período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) representou uma era de profunda repressão política e transformação social. Nesse contexto, a juventude desempenhou um papel duplo e sequencial: primeiro, como agente de resistência frontal ao regime e, posteriormente, como protagonista de um sentimento de desencanto e ceticismo durante a lenta transição para a democracia. Este trabalho tem como objetivo analisar essa trajetória, explorando como as formas de engajamento e expressão cultural dos jovens evoluíram ao longo dessas duas décadas, com foco especial no movimento estudantil e no rock nacional dos anos 1980. A hipótese central é que a transição de um ativismo militante para um ceticismo roqueiro não representa uma simples apatia, mas uma resposta complexa ao fracasso do projeto de esquerda revolucionária, à repressão estatal e às crises econômicas. Para esta análise, recorre-se à dissertação “Brasil mostra a tua cara”: rock nacional, mídia e a redemocratização política (1982-1989), de Paulo Gustavo da Encarnação, que investiga historicamente a relação entre música, mídia e política neste período crucial.

Desenvolvimento

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A ausência de preconceitos, teoricamente, torna a música e o rock um sinônimo de liberdade. O lema do rockin’ roll evoca um poder maior do que um simples lema: é uma forma afirmativa de rejeição às normas impostas e uma expressão de autonomia. “Sexo, drogas e rock and roll”. A miscigenação, a liberdade de corpos, mentes e atitude são as forças que deram à luz ao estilo musical mais transgressor do século passado.

Mesmo durante as primeiras dores do parto, o rock se mostrou capaz de questionar o mundo a sua volta, acordar a consciência, criticar padrões, protestar contra injustiças e convocar indivíduos ao redor de ideias transformadoras. Essa mesma premissa se faz presente no movimento estudantil: ambos contrariam o silêncio e a conformidade impostas pela sociedade, desafiando o domínio cultural e as estruturas do mundo ao redor.

No Brasil, a movimentação estudantil sempre se ergueu contra as desigualdades. Historicamente, seu principal alvo de denúncias foi o discurso elitista que dificulta o acesso dos mais pobres à educação, tratando-a mais como um privilégio do que como um direito. Essa lógica perpetua a marginalização social e com isso, formar cidadãos menos informados, tomados pelo senso comum e mais suscetíveis a serem utilizados como massa de manobra política conservadora.

A contestação é a diretriz principal do rock desde seus primórdios. Ele nasceu de uma mescla de ritmos brancos e negros em uma sociedade racista, e sua rebeldia sempre foi uma arma contra o machismo e o conservadorismo. O estilo pertencia, e ainda pertence, a jovens insatisfeitos com as regras e cansados de segui-las.

O encontro entre o gospel, blues e o rhythm and blues americanos foi essencial para a concepção do rock. Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe, Little Richard e Fats Domino são reconhecidos como os precursores na mescla e metamorfose desses estilos em algo novo e rebelde. Desde riffs de guitarra eletrizando a alma da juventude, até uma mulher negra desafiando as convenções em templos religiosos, os primeiros passos no engatinhar do rockin’ roll já deixavam evidente ao que ele veio: provocar, questionar e quebrar os tabus da sociedade da época.

Além de criar o som do rock, os artistas produzem o desejo de liberdade e rompimentos de paradigmas. Mais tarde, o embranquecimento desse gênero musical seria uma estratégia das grandes gravadoras para tentar fazer uso do poder político do rock. O diálogo profundo entre o rock e o movimento estudantil ocorre devido ao objetivo central do nascimento do rock: o combate ao racismo, ao autoritarismo e à exclusão. Ambos expressam a resistência de forma coletiva, combatendo estruturas sociais que tem por objetivo limitar o poder de criação, de fala e de existência.  

O grito de rebeldia é o ponto de convergência entre o movimento estudantil e o rock. Ambos são formas distintas de dizer “não” e conter o autoritarismo enraizado na nossa sociedade capitalista. Tanto um quanto o outro agem como espinhos na pata da sociedade por estimularem o pensamento crítico. Por conseguinte, tentativas de silenciamento e delimitação do movimento são constantes, rotulando-os como anarquia, “baderna” ou “vagabundagem”.

Durante os anos 1950, o rock foi trazido à América Latina por artistas como Ritchie Valens através de canções como La Bamba, que mesclavam com muita propriedade a rebeldia ao ritmo e o idioma latino. A seguir, outros grupos como Los Teen Tops apresentaram covers das canções norte-americanas de sucesso, incorporando o ritmo ao lazer da juventude latina. O fenômeno global veio em 1963, quando Os Beatles marcaram geração ao apresentarem a música como forma de expressão política e social. Exemplos claros são as músicas: Revolution (1968), All Your Need Is Love (1967), Blackbird (1968), Come Together (1969, Imagine (1971), A Day In The Life (1967), Helter Skelter (1968), ou Eleanor Rigby (1966).

No Brasil, a Ditadura Militar perseguiu com igual afinco o movimento estudantil e a produção musical. A promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5) em 1968 marcou o início dos "Anos de Chumbo", período em que a censura não se limitava apenas ao âmbito universitário, chegando aos festivais, às músicas e à expressão cultural dos jovens.

Uma revolução estética nacional surgiu nesse cenário: o Tropicalismo. Nascido da fusão entre os ritmos brasileiros e elementos do rock, o movimento foi marcado pela presença de artistas cujas mentes eram campos férteis para críticas sociais sofisticadas. Artistas como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Caetano Veloso usaram suas canções para contestar o regime, muitas vezes recorrendo a metáforas e alegorias para escapar da censura. A canção "Pra não Dizer que não Falei das Flores" (Caminhando), de Vandré, tornou-se um hino de protesto, exemplificando a íntima ligação entre a arte engajada e a resistência política organizada.

Além disso, o Tropicalismo incorporava guitarras elétricas, colagens sonoras e letras ambíguas para driblar a censura e questionar o moralismo da época.

A evidência do diálogo entre o movimento estudantil e o rock era cristalina. Enquanto os músicos tropicalistas usavam o palco como meio de protesto, o movimento estudantil combatia a repressão nas universidades e nas ruas. O lema dito por Caetano Veloso: “é proibido proibir”, no Festival Internacional da Canção em 1968, ecoou no espírito dos estudantes como uma rejeição em coletivo à dominação imposta pelo regime militar. A liberdade de criação e expressão era exigida pelos artistas da época, enquanto os jovens reivindicavam democracia e liberdade de pensamento.

Apesar do movimento estudantil não contar com muitos artistas tropicalistas diretamente, seus destinos se cruzaram no caminho da luta pela liberdade. O rock e o tropicalismo, em especial, são gêneros musicais que agiam como símbolo de resistência: a insubmissão se fazia presente em cada nota de guitarra e em cada verso audacioso. Ao contrário do estado, o rock jamais tentou silenciar ideias, corpos e histórias, o rock sempre foi o grito da juventude e a arte tropicalista amplificou esse clamor. Por essa definição, o rock compartilhava ideais similares aos do movimento estudantil, principalmente, a de reestruturar uma nação pela força do pensamento crítico e da criatividade.

Entrando nos anos 1980, com o começo da abertura política ao fim dos anos 1970, o Brasil adentrou uma fase de grave crise econômica, marcada pelo esgotamento da ditadura. O cenário favoreceu o rock nacional e deu voz à juventude, como: Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs e Engenheiros do Hawaii. Essa geração traduziu seu desencanto e ceticismo em relação às instituições e promessas de transformação política.

Críticas diretas à desigualdade, a apatia da sociedade e ao autoritarismo inundavam as canções. Uma nova forma de protesto, menos utópica e mantendo o cunho político, se fazia presente em músicas como “Ideologia”, de Cazuza, “Geração Coca-Cola”, da Legião Urbana, e “Inútil”, do Ultraje a Rigor. A resistência era evidente por meio do ceticismo coletivo e servia como antídoto a alienação do período histórico. O questionamento era feito através da ironia, sofisticada demais para entendimento dos órgãos de censura. O desencanto do povo foi expresso através do rock dos anos 80 e o transformou em grito crítico de uma juventude, que mesmo desiludida, se recusava a se render à apatia.

Considerações Finais

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A trajetória da juventude brasileira da ditadura à redemocratização é um testemunho das complexas relações entre política e cultura. O percurso analisado – que vai da resistência organizada do movimento estudantil e da MPB, passa pela rebeldia existencial da contracultura e deságua no ceticismo do rock dos anos 1980 – revela uma adaptação constante das formas de contestação face ao contexto político e social.

A desilusão retratada pelas bandas de rock na década de 1980 não foi um abandono da crítica, mas sua transmutação. Diante do fracasso da luta armada, da violência repressiva do Estado e de uma crise econômica avassaladora, a geração pós-AI-5 encontrou na cultura uma via para expressar seu mal-estar com a política tradicional, suas instituições e as promessas não cumpridas da redemocratização. Trabalhos acadêmicos como o de Encarnação (2009) reforçam que o rock nacional desse período foi um fenômeno midiático complexo e profundamente político, que forneceu o vocabulário e o soundscape para que uma geração interpretasse seu tempo .

Dessa forma, tanto o engajamento dos anos 60 quanto o desencanto dos anos 80 podem ser lidos como respostas profundamente políticas de jovens que, em seus respectivos contextos, buscaram entender e transformar a realidade ao seu redor, usando a música e a cultura como seus principais instrumentos de reflexão e protesto.

Referências

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Brasil Brasil! Part 2: Tropicalia Revolution. Direção: BBC Studios. BBC, 2018. Documentário.

ENCARNAÇÃO, Paulo Gustavo da. "Brasil mostra a tua cara": rock nacional, mídia e a redemocratização política (1982-1989). 2009. 192 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, 2009. Acesso aberto. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/93362. Acesso em: 04 nov. 2025 .

Música Brasil mostra tua cara: análise e interpretação da letra. Cultura Genial. Disponível em: https://www.culturagenial.com/musica-brasil-mostra-tua-cara/. Acesso em: 04 nov. 2025.

Quebra Tudo: A história do Rock na América Latina. Direção: Bruno de Almeida. Netflix, 2020. Documentário.

Rock nacional foi a voz política da geração 80. UFMG, 16 set. 2019. Disponível em: [https://ufmg.br/comunicacao/noticias/rock-nacional-foi-a-voz-politica-da-geracao-dos7j7u

Resumo de Aula - Entrega: 13/10

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Aluna: Alissa Dias Praça

Curso: Ciências Sociais

Período: Matutino  

Professor: Paulo Eduardo Teixeira  

Obra: O negro no mundo dos brancos — Florestan Fernandes

Introdução

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Como parte das atividades da disciplina de História do Brasil II, esse trabalho tem como objetivo analisar o pensamento de Florestan Fernandes sobre a introdução da população negra na sociedade brasileira após o fim da escravidão. O trecho selecionado, que vai das páginas 104 a 130 da obra “O negro no mundo dos brancos”, traz reflexões sobre o racismo estrutural, a falsa ideia de democracia racial e os mecanismos de exclusão que ainda limitam o acesso da população negra ao chamado “mundo dos brancos”.

Desenvolvimento

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Nas páginas 104 a 130 de “O negro no mundo dos brancos”, o professor Fernandes aprofunda sua análise sobre a situação do negro na sociedade brasileira depois da abolição da escravidão. Ele mostra que, mesmo com a liberdade legalmente conquistada, a população negra continuou sendo excluída dos principais espaços econômicos, políticos e culturais. Essa exclusão se manteve através de formas mais sutis de discriminação, conhecidas como “barreiras da cor”.

Essas barreiras aparecem em comportamentos e costumes do dia a dia que valorizam o padrão branco como modelo de civilização e comportamento. Dessa forma, o negro que busca ascender socialmente acaba precisando se adaptar a esse “mundo branco”, muitas vezes deixando de lado aspectos importantes de sua cultura e identidade. Fernandes chama esse processo de “integração forçada”, pois o negro só é aceito quando se adequa aos modos e valores do grupo dominante.

O autor também critica o “mito da democracia racial”, muito disseminado no Brasil, que tenta passar a ideia de uma convivência harmoniosa entre as etnias. Para ele, essa crença esconde desigualdades profundas e impede que o racismo estrutural seja reconhecido e combatido. A negação do racismo, segundo o professor Fernandes, é uma das principais formas de manter os privilégios dos brancos.

O sociólogo mostra que a questão racial está diretamente ligada à questão de classe. A maioria da população negra permanece nas camadas mais pobres, com menos acesso ao poder político, renda e educação. Mesmo quando há mobilidade individual, essa entrada no “mundo dos brancos” acontece de forma limitada e sempre sob vigilância simbólica, o negro pode ser aceito, mas dificilmente é plenamente integrado.

Ao longo do texto, o professor Fernandes demonstra que o racismo brasileiro é estrutural e institucionalizado. Sua superação, portanto, não depende apenas de atitudes individuais, mas de mudanças profundas nas relações sociais, econômicas e culturais do país.

Desde as reflexões do professor Fernandes até atualmente, a sociedade brasileira passou por transformações significativas no debate racial. Políticas de ação afirmativa, como as cotas raciais nas universidades e concursos públicos, começaram a ser implementadas a partir dos anos 2000, específicamente falando em 2003 na UERJ, em 2004 na UNB e em 2012 e 2014 virou oficialmente lei a ser cumprida, representando um marco importante no reconhecimento das desigualdades históricas denunciadas por Fernandes.  

Essas medidas representaram um avanço importante, mas, apesar delas, muitos dos problemas apontados por Florestan continuam presentes.

O racismo estrutural ainda se manifesta na baixa representação política, na violência policial, na desigualdade de renda e na persistência de discriminações culturais. Dessa forma, a análise de Fernandes permanece atual ao mostrar que a verdadeira integração social do negro no “mundo dos brancos” exige mais do que oportunidades formais: requer mudanças profundas nas estruturas de poder, nos valores e nas práticas cotidianas da sociedade brasileira.  

Ao compararmos o contexto das décadas estudadas por Florestan com o cenário contemporâneo, é possível perceber que houve avanços institucionais, mas a luta por igualdade plena segue sendo pauta central do movimento negro e da reflexão sociológica no Brasil.  

Conclusão

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O trecho analisado reforça a importância de entender o racismo no Brasil como um fenômeno histórico e estrutural, e não apenas como um problema moral ou individual. Florestan Fernandes evidencia as contradições de uma sociedade que se diz igualitária, mas continua reproduzindo desigualdades herdadas do período escravocrata. Suas reflexões seguem fundamentais para compreender como o “mundo dos brancos” ainda impõe limites à cidadania plena da população negra.

Bibliografia

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FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2007.  

---ROTEIRO ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME - 06/10

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Aluna: Alissa Dias Praça

Curso: Ciências Sociais – 2025

Turma: Matutino ( X ) Turma Noturno (   )

Instituição: Unesp – Faculdade de Filosofia e Ciências

Disciplina: História do Brasil II

Professor: Paulo Eduardo Teixeira

==OLGA - FICHA TÉCNICA==

Título do Filme: Olga

Ano: 2004                  

País: Brasil

Gênero: Drama Histórico/Biografia

Duração: 138 minutos

Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Rita Buzzar, baseado no livro de Fernando Morais

Fotografia: Ricardo Della Rosa

Trilha Sonora: Marcus Viana

Elenco: Camila Morgado (Olga Benário Prestes), Caco Ciocler (Luís Carlos Prestes), Fernanda Montenegro (Leocádia Prestes), Leona Cavalli (Maria), Renata Jesion (Elise Ewert Sabo), Osmar Prado (Getúlio Vargas), Floriano Peixoto (Filinto Muller), entre outros

Produção: Rita Buzzar / Globo Filmes / Nexus Cinema e Vídeo

Idioma original: Português

==DINÂMICA DA NARRATIVA==

Idéia Inicial

O filme conta a história de Olga Benário, uma militante comunista alemã nascida filha de um advogado alemão, que lutou contra o regime nazista.

A história começa nos anos 1920 na Alemanha, mostrando como a jovem Olga se rebela contra os padrões idealizados por sua família e se envolve com o movimento comunista, visando combater o avanço das injustiças provocadas pela fascismo na Europa.

Ao lado de companheiros comunistas, Olga participa de ações arriscadas e acaba sendo perseguida pela polícia. Olga foge para Moscou, onde recebe treinamento politico e militar.

Mais adiante, Olga recebe a missão de proteger e acompanhar Luís Carlos Prestes, lider da Coluna Prestes e uma das principais figuras da esquerda latino-americana. Prestes está na Rússia após ser exilado, devido às opiniões de sua coluna.

Ao longo do caminho para o Brasil, a relação de Olga e Luís Carlos, inicialmente distante e profissional, se transforma em algo a mais e eles se tornam amantes. Olga vê em Prestes um idealista capaz de libertar o povo brasileiro, e ele se encanta com a força e inteligência dela.

O que mais me chamou atenção nesse ponto foi a conversa entre Olga e o capitão do navio, pois fica evidente o medo que ela sente apenas com a possibilidade de um alemão, que também está presente na conversa, suspeitar que Olga seja judia.

Ao chegarem ao Brasil, o relacionamento de Olga e Prestes se fortalece cada vez mais, principalmente durante os acontecimentos que levaram a Intentona Comunista de 1935. O fracasso da movimentação contra o regime de Getúlio Vargas ocorre rapidamente, deixando o espectador com um crescente sentimento de aflição. A prisão dos aliados de Prestes deixa evidente a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento.

A prisão de Olga, ainda no início de sua gestação, nos leva a um ambiente em que a maioria das presas eram mulheres instruidas e que estavam nesse ambiente por simplesmente discordarem do regime atual. Nessas cenas, a forte repressão governamental é escancarada, isso sem falar, na total falta de humanidade ao entregar Olga como “um presente de Vargas a Hitler”.

Olga é vítima de um ato de submissão brasileira ao regime nazista e nos proporciona uma de várias cenas emocionantes desta obra. Seu encarceramento forçado no navio que ruma pata a Alemanha, demarca o início da “queda” na montanha-russa emocional para o espectador.

As seguintes cenas produzem, com eficiência, altos níveis de aflição ao espectador. Com destaque para a morte da amiga de Olga e o momento em que sua filha, Anita, é retirada de seus braços a força.

Em sequência da separação, Olga é enviada a um campo de concentração e, mesmo com as condições desumanas, permanece demonstrando dignidade e força. Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, em 1942 Olga é transferida para outro campo de concentração e executada em uma câmara de gás.

Esses momentos finais do filme foram muitos emocionantes para mim e me trouxeram as lágrimas. Percebi que muitos dos acontecimentos observados no filme se alinham com a situação atual da Palestina. Isso se mostra algo perturbador, tendo em vista que o alvo das perseguições durante a Segunda Guerra Mundial, atualmente, assumiu o papel do algoz.

O filme encerra mostrando Luís Carlos Prestes sobrevivendo no Brasil e, anos mais tarde, reencontrando a filha Anita, que cresceu conhecendo a história heroica da mãe. E deixa uma sensação de que mesmo após quase um século, as refleções trazidas pelo filme ainda são muito atuais.

Tema de Fundo – Tese

O tema central é a luta política e ideológica, a repressão do governo durante o Estado Novo, a perseguição nazista, os direitos humanos, e a força feminina diante das adversidades.

O tema de fundo ficou claro para mim durante a primeira cena do filme, quando Olga é pega em meio a um conflito contra a polícia alemã. Todavia, a cena da deportação de Olga grávida, deixa o perigo do nazismo mais palpável e evidencia a simpatia do governo Vargas ao nazismo.

O problema mais tratado é a repressão aos movimentos comunistas e o autoritarismo de Vargas.

O filme descreve muito bem os protagonistas, mostrando tanto o lado humano quanto o político de cada um, o que dá uma incrível profundidade à história.

Ritmo e Montagem – Edição

A cena que mais chamou minha atenção foi a separação de Olga e sua filha Anita. É uma das partes mais emocionantes do filme, porque mostra a dor de uma mãe que sabe que talvez nunca mais verá a filha.

Logo depois, há um certo alívio ao ver que a tia e a avó de Anita estão junto da criança e poderão cuidar dela adequadamente.

A cena que fiquei em dúvida foi a do embarque de Olga no navio, quando dizem “o senhor vai embarcar as duas prisioneiras”, pois pensei se tratar de Olga e sua filha. Depois percebi que as “duas” são Olga e sua amiga Elise.

Mensagem

A mensagem é a importância da coragem, da luta por justiça e da resistência diante da tirania.

O que é proposto é totalmente aceitável, pois reforça valores humanos e históricos essenciais: liberdade, dignidade e resistência.

Na minha opinião, o filme se dirige principalmente a estudantes, professores e pessoas interessadas em história, política e direitos humanos, mas também a quem valoriza histórias reais de resistência.

Relação com a disciplina de História do Brasil

O filme agrega muito para compreeção do contexto político da Era Vargas, a Intentona Comunista de 1935 e as relações entre o Brasil e a Alemanha nazista.

Ele mostra como o autoritarismo de Vargas perseguiu os movimentos de esquerda e como o país se alinhou, em certos momentos, a políticas de repressão semelhantes às da Europa fascista.

Esse filme ajuda na formação crítica porque nos faz pensar sobre os abusos do poder, os direitos humanos e a importância da memória histórica.

Resumo da Aula do Dia 15/09 - Movimento Feminista no Brasil

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Disciplina: História do Brasil II  

Professor: Paulo Eduardo Teixeira  

Curso: Ciências Sociais (Matutino)

Instituição: Unesp de Marília - SP. 2025.

Integrantes: Alissa Dias Praça Caio dos Santos Vilas Boas Glaucia Brito da Silva

Introdução

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A desigualdade social, a repressão política e as transformações graduais na estrutura brasileira marcaram o contexto histórico em que surgiu o movimento feminista brasileiro nos anos 1970. A sociedade da época vivia em um regime autoritário militar imposto a partir do golpe de 1964, que preconizava a restrição de liberdades civis e controlava a vida política. A necessidade de contrariar essa opressão fez com que as mulheres se organizassem em torno de reivindicações de direitos, não apenas femininos, mas também em coalizão com outras causas políticas, culturais e sociais que faziam frente ao regime imposto.

Desenvolvimento

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O sistema de educação e o mercado de trabalho sofreram uma expansão excludente, devido a uma chamada “distensão lenta e gradual", promovida pelos governos militares anteriores. Esse fator proporcionou reivindicações e participação ativa por parte das mulheres, que conseguiram adentrar novas camadas sociais da vida pública. Nesse período foi possível observar que o nascimento do feminismo brasileiro se deu sobretudo em camadas médias urbanas ligadas a espaços culturais e universitários, se alastrando mais adiante para movimentos de bairro e camadas mais populares. No entanto, diversos setores observaram esse avanço de forma negativa. Para a direita, o movimento era perigoso para a sociedade devido a sua “imoralidade”. Já para a esquerda, era tido como incapaz de enfrentar a luta de classes dentro do capitalismo por se tratar de um reformismo burguês. Independente de ideologia, uma conotação pejorativa, “antifeminina”, era associada pela população ao feminismo.

Duas grandes vertentes tinham destaque no movimento feminista. A primeira procurava diversificar e trazer debates sobre pautas sociais, assim como a ocupação de locais culturais, políticos e econômicos. O caráter dessa vertente dialogava com estruturas de poder pré-existentes e era mais institucional. Já a segunda, tinha suas raízes em debates científicos e em universidades. Nesses espaços a necessidade de ruptura da mulher com os estigmas que determinavam o “seu lugar” na sociedade era o foco de reflexão, assim como questões de identidade e subjetividade.

Por duas razões principais, a ditadura militar agravou impasses nas estruturas feministas. Em primeiro lugar, a busca por liberdade individual e autonomia compunham o teor libertário feminista, entrando em choque com a luta política contra a opressão do estado. Em segundo, havia o fator das divisões sociais, pois cada mulher habitava em contextos diferentes e mesmo que a fala referente a “representar todas as mulheres” fosse proposta, elas atravessaram desigualdades econômicas, sociais, políticas e em relação à cultura. O que significa que a realidade delas não era compartilhada e suas prioridades eram distintas. A violência simbólica citada por Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender o dilema, pois inconscientemente os dominados internalizam o discurso do dominador, se tornando coniventes com sua própria situação de dominação. Os valores do patriarcado eram absorvidos pelas mulheres, que reproduziam comportamentos que mantinham sua própria subordinação.

Mesmo com todas as dificuldades, o importante papel contra a ditadura militar também foi atribuído ao feminismo brasileiro. As denúncias de autoritarismo eram engrossadas pela mobilização feminina, buscando o retorno da democracia. Um grande marco nesse cenário, foi a criação de instituições com o objetivo de defender os direitos das mulheres. Dentre as conquistas, observamos a equiparação de direitos entre maridos e esposa no casamento e a institucionalização do divórcio.

No entanto, não é possível entender de forma homogênea o feminismo brasileiro. Um dos pontos cruciais seria o papel da mulher negra nesse contexto histórico. Essa reflexão traz à tona o fato de que a maioria dos avanços obtidos beneficiaram grandemente mulheres brancas e de classe média.

Segundo Lélia Gonzalez, a emancipação da mulher branca muitas vezes foi feita às custas da exploração da mulher negra. O desfavorecimento econômico possui um vínculo profundo com a condição da mulher negra dentro do sistema capitalista brasileiro.

Com essa realidade em mente, dois conceitos foram trabalhados por González para explicar essa realidade: a economia competitiva, formada por baixos rendimentos, instabilidade e desigualdade na inserção de trabalhadores, e o da economia monopolista, que se caracteriza pela integração e estabilidade dos trabalhadores em empresas de alta renda. Dentre as mulheres negras, o primeiro cenário era o mais comum com salários indignos, ausência de garantias e trabalhos precários.

Observando a questão racial através do tempo, é possível compreender as raízes por trás dessa desigualdade desde os tempos da colonização brasileira. O empreendimento colonial utilizava técnicas de castigo para submeter as mulheres escravizadas, inclusive por meio da violação sexual. O papel das mulheres negras, nesse sentido, não se resumiu ao de amas de leite ou genitoras dos filhos bastardos dos senhores, elementos que assinalam o perfil miscigenado da suposta democracia racial preconizada por Gilberto Freyre, mas também foi fundamental na resistência contra a escravidão e a destruição da cultura dos africanos escravizados.

Nos quilombos e nas senzalas, as mulheres exerceram o papel de guardiãs das manifestações culturais africanas. O Quilombo dos Palmares foi introduzido como figura de herói e símbolo da luta pela libertação no imaginário popular, graças à oralidade na transmissão de histórias que perpetuaram sua memória. González cunha o termo “pretoguês” para definir as modificações na língua portuguesa ao longo do tempo, com a introdução de palavras originárias das línguas africanas umbundu e kimbundu no linguajar das crianças brancas, por meio da interação com as mães pretas que as educavam nos modos de “ser, sentir e pensar” do povo negro.

No entanto, a condição subalternizada das mulheres negras estendeu-se por todo o século XX, principalmente por meio da superexploração de seus corpos e mentes no âmbito da população economicamente ativa, relegadas à função de empregada doméstica ou de prostituta, da naturalização da pobreza e do desamparo no mercado de trabalho, devido ao racismo estrutural fundante da sociedade brasileira. O racismo velado é praticado por meio de códigos de aparência e conduta inalcançáveis para as mulheres negras, em função de sua condição material e da posição social a que pertencem.

A discriminação contra negros é frequentemente negada em um movimento de denegação freudiana, para evitar a culpabilização branca perante a sociedade. Como contraponto, a autora cunha o termo “amefricanidade” para designar a identidade político-cultural que conecta as experiências de escravização dos ameríndios nativos e dos africanos trazidos pelo tráfico negreiro para o continente. Nesse processo de colonização e pós-colonização, as mulheres não brancas são as maiores vítimas; portanto, a luta anticolonial perpassa o resgate da herança cultural que a África legou à América Latina.

Por séculos, um conjunto opressor de práticas culturais e sociais visa restringir a possibilidade de ascensão da população negra. Observando a questão econômica, homens e mulheres negros tinham reconhecimentos como parte importante da população ativa economicamente, mas continuavam a ser acusados de não ter “mérito” suficiente para avançar. Gonzales frisa como a indiferença a estigmas racistas era justificada pelo grupo racial dominante, acusando os negros de alcoolismo, irresponsabilidade, preguiça e infantilidade. O confinamento da população negra a papéis subalternos era reforçado por esses estereótipos.

Para além da questão racial, as questões de gênero depositavam uma maior pressão sobre as mulheres negras. Os reflexos do período escravocrata, citados anteriormente, se perpetuaram no imaginário do povo brasileiro. No século XX, a principal fonte de renda dentre as mulheres negras ainda era voltada para atividades mal remuneradas ou trabalhos domésticos, como cozinhas, fábricas, faxinas, além de serviços informais como prostituição, coleta de recicláveis ou venda de produtos.

As mudanças sociais das últimas décadas favoreceram, em sua maioria, as mulheres brancas, excluindo a mulher negra do processo de modernização conservadora imposto após 1964. A maioria das mulheres negras estava em fábricas, na casa de patroas brancas, cuidando de filhos que não eram seus, com salários baixos e condições indignas, nas favelas, nas ruas e lutando pela sobrevivência, enquanto algumas conquistaram espaços em sindicatos, movimentos organizados e universidades.

Em 1978, o surgimento do Movimento Negro Unificado foi um divisor de águas, pois foi criado por setores da classe média negra das Cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O MNU proporcionou espaços de fala e escuta, onde as mulheres negras contribuíram para a política de forma ativa, dando força não só para a luta contra o racismo, mas também contra o sexismo que depressiava suas experiências dentro do próprio feminismo.

Considerações finais

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O estudo demonstra que o movimento feminista brasileiro não foi um processo homogêneo ocorrido nos anos 1970. Representou avanços simbólicos e institucionais importantes, como a conquista de direitos civis, a abertura de debates e a participação na luta contra a ditadura. Também revelando limites profundos, principalmente no que diz respeito à inclusão de mulheres negras e pobres. Para entender a trajetória do feminismo, precisa-se reconhecer as contradições: enquanto poucos se beneficiavam da conquista, muitas continuavam a margem, sustentando a sociedade e a economia do país com seu trabalho invisível.

O feminismo brasileiro da década de 1970 deve ser compreendido em sua complexidade, pois foi um movimento que abriu caminhos, mas que também deixou de considerar experiências fundamentais, que somente mais adiante, com o fortalecimento do movimento negro, puderam ser valorizadas e reconhecidas.

Referências

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  1. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização: Flávia Rios; Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
  2. SOUZA, Roberta Bandeira de. Duas contribuições de Lélia Gonzalez para a consolidação de um feminismo decolonial antirracista. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 47, n. 2, p. e02400174, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2024.v47.n2.e02400174. Acesso em: 10 out. 2024.