Utilizador:CAIO DOS SANTOS VILAS BOAS
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Análise II sobre o filme Memórias do Cárcere (1984), Nelson Pereira Coutinho
Aqui está a ficha técnica completa do filme Memórias do Cárcere (1984):
unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
CÂMPUS DE MARÍLIA
Faculdade de Filosofia e Ciências
Disciplina: História do Brasil II
Prof. Paulo Eduardo Teixeira
ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME
Aluno/a:Caio dos Santos Vilas Boas
Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino
Título do Filme Memórias do Cárcere
Ano 1984
País Brasil
Gênero Drama biográfico
Duração 185 minutos (outras fontes citam 173 min ou 3h5m )
Direção Nelson Pereira dos Santos
Roteiro Nelson Pereira dos Santos (adaptação do livro homônimo de Graciliano Ramos)
Fotografia José Medeiros e Antonio Luiz Soares
Trilha sonora "Marcha Solene Brasileira" (variação do Hino Nacional por Louis Moreau Gottschalk, executada pela Orquestra Sinfônica de Berlim)
Elenco original Carlos Vereza (Graciliano Ramos), Glória Pires (Heloísa, esposa de Graciliano), Jofre Soares, José Dumont, Nildo Parente, Tonico Pereira, Wilson Grey
Produção Luís Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos e Lucy Barreto
Idioma original Português
Análise II sobre o filme Memórias do Cárcere (1984), Nelson Pereira Coutinho
Aqui está a ficha técnica completa do filme Memórias do Cárcere (1984):
unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
CÂMPUS DE MARÍLIA
Faculdade de Filosofia e Ciências
Disciplina: História do Brasil II
Prof. Paulo Eduardo Teixeira
ROTEIRO PARA ANÁLISE DE FILME
Aluno/a:Caio dos Santos Vilas Boas
Ciências Sociais – 2025 – Turma Matutino
Item Detalhes
Título do Filme Memórias do Cárcere
Ano 1984
País Brasil
Gênero Drama biográfico
Duração 185 minutos (outras fontes citam 173 min ou 3h5m )
Direção Nelson Pereira dos Santos
Roteiro Nelson Pereira dos Santos (adaptação do livro homônimo de Graciliano Ramos)
Fotografia José Medeiros e Antonio Luiz Soares
Trilha sonora "Marcha Solene Brasileira" (variação do Hino Nacional por Louis Moreau Gottschalk, executada pela Orquestra Sinfônica de Berlim)
Elenco original Carlos Vereza (Graciliano Ramos), Glória Pires (Heloísa, esposa de Graciliano), Jofre Soares, José Dumont, Nildo Parente, Tonico Pereira, Wilson Grey
Produção Luís Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos e Lucy Barreto
Idioma original Português
O filme conta uma história sobre quem?
O filme adapta um livro de memórias escrito por Graciliano Ramos,sobre a sua reclusão sem causa formal.
Quais são as personagens principais?
Graciliano Ramos,que se viu preso entre março de 1936 e janeiro de 1937, em Ilha Grande, no sul do Rio de Janeiro.
Qual delas mereceu a sua atenção?
Certamente,Graciliano Ramos. Primeiro, por causa da brilhante interpretação de Carlos Vereza, que, além de ter sido amplamente prestigiado pela crítica cinematográfica da época em que o filme foi lançado, passou por uma transformação física intensa: precisou raspar a cabeça, emagreceu 11 kg e fumar três maços de cigarro por dia para dar vida ao personagem principal, em nome da arte. Outro ponto de destaque do personagem de Graciliano Ramos é o fato de sua narrativa ser baseada em sua observação íntima (interna) dos acontecimentos do seu entorno e da sua perspectiva como escritor, sempre tomando notas para o seu livro vindouro. Esse relato em primeira pessoa demonstra a dignidade da personagem confrontada com o ambiente hostil e com as condições subumanas. O filme retrata a sua postura ativa de se manter são e, por meio do seu testemunho, relatar as condições sofríveis a que os detentos eram expostos e, com isso, provocar uma reflexão política sobre a situação dos presos políticos da época para a sociedade brasileira. As memórias de Graciliano Ramos servem como um retrato do autoritarismo brasileiro que persistiu ao longo do século XX, quando dissidentes dos regimes ditatoriais foram perseguidos. O filme retrata Graciliano Ramos como uma figura simpática e até admirada por suas habilidades como escritor, mas também como uma figura combativa, firme em seus ideais e não disposta a se submeter à opressão do Estado e do seu braço militar, que buscavam disciplinar os detentos de forma rígida e violenta. O ambiente carcerário, à sua maneira, é palco de conflitos com os militantes de esquerda que buscavam sobressair a prática partidária e política para manter acesa a chama da revolução. O filme também trata da posição ambígua de Graciliano Ramos durante a sua prisão quando, já combalido pela doença da úlcera, compra a cama de um detento por 5.000 réis e é comparado a um burguês por um militante preso já idoso.
Como termina o filme? O que você achou sobre ele e por quê?
O filme termina com Graciliano Ramos libertado após 10 meses de prisão e sendo levado para o Rio de Janeiro. Como o filme é uma adaptação cinematográfica da obra Memórias do Cárcere, o final do filme foi condizente com o que é apresentado no livro, que realmente acaba sendo um desfecho inconclusivo sobre a vida de Graciliano Ramos após a sua prisão, principalmente por ter sido publicado como uma obra póstuma e inacabada.
Tema de Fundo – Tese
1.Quais são os temas tratados no filme?
O autoritarismo é o tema que permeia a narrativa,desde o pano de fundo da perseguição que Graciliano sofreu quando foi demitido do seu posto de diretor da Associação Cultural de Alagoas em decorrência de seu apoio a ideias comunistas. A pressão política se tornou insustentável a partir do momento em que a Intentona Comunista de 1935 não logrou êxito. Nesse momento, Graciliano é preso, vítima da onda repressiva instaurada pelo regime de Vargas. Uma ditadura se alardeia durante a República. Mesmo na época em que o filme foi finalizado, nos estertores da ditadura instaurada em 1964 pelos militares, o filme enquadra a supressão das liberdades democráticas e sua imagética espelha como essa condição é permanente na história política nacional, encontrando ecos e paralelos com diferentes períodos. As estratégias de controle da memória nacional sobre esses eventos também encontram lugar no filme quando o diretor do presídio manda confiscar os escritos e notas que Graciliano cultivou durante o seu confinamento. Apesar de ter sido uma tentativa infrutífera, revela os modos operantes das autoridades quando o estado de direito é suprimido em nome de alguma hegemonia ditatorial. Nesse ponto, o filme mostra como a extrema direita, contra seus inimigos, flerta sempre com os ideais fascistas de controle social através do silenciamento de seus opositores políticos em nome de um totalitarismo que não conjuga com a identidade nacional plural do povo brasileiro. O filme ajuda a ilustrar como o Estado Novo varguista foi um período de sombras e de vazio da representatividade política. Graciliano faz intensos questionamentos sobre as mudanças no plano econômico que o país sofreu, que beneficiaram com o desenvolvimento desigual algumas regiões do país em detrimento de outras que ficaram à margem do crescimento econômico, sendo essa uma das evidências das complexidades que os problemas nacionais impõem aos governantes e que persistem durante todo o século XX e também no XXI. O diretor Nelson Pereira dos Santos também se mostra crítico ao pensamento hegemônico das elites políticas, mas principalmente da sociedade brasileira. A síntese paradoxal que o cineasta parece evidenciar foca sempre nos contrastes das personalidades das personagens e como esse é um reflexo da verdadeira sociedade brasileira: uma sociedade em que os cidadãos livres não têm seus direitos respeitados e muitas vezes sequer concretizados em função da luta entre as classes.
2. Em que cena compreendeu o tema do filme?
Na cena em que os soldados invadem a casa de Graciliano Ramos para levá-lo ao convés do navio.Vemos a rápida despedida de sua esposa e filhos. A cena é retratada de maneira muito sóbria pelo diretor para mostrar como Graciliano é uma figura admirável e íntegra, que não se corrompeu diante das ameaças contra sua vida e a integridade de sua família, mas também como ele, dono de suas ideias, mais do que cristalinas, se revelou uma figura heróica que enfrenta a prisão de cabeça erguida, ao mesmo tempo ciente de que sua maneira de pensar estava sendo proibida, assim como suas pretensões intelectuais eram consideradas altamente perigosas por parte da sociedade que apoiava o regime varguista e o cerceamento das liberdades de expressão. A cena é emblemática pois mostra como uma voz altissonante, contrária, é retirada do jogo político, mas também como uma voz de expressão cultural é rechaçada, silenciada e transformada em uma não forma de comunicação. O autoritarismo, nessa cena, é o culminar de uma série de reflexões políticas que permeavam a vida nacional e que tinha como porta-voz Graciliano Ramos, acompanhada de sua postura de insurreição e contraponto crítico. Graciliano era conhecido por refletir não apenas sobre as paisagens do agreste, mas também sobre a alma do povo. Do ponto de vista do seu encarceramento, o autor teve a sua visão esmaecida por esses agentes externos, mesmo que, por um momento, tenha tido posta à prova a sua lucidez e resiliência.
3. Qual o problema que foi tratado mais demoradamente?
As condições degradantes como eram tratados os presos políticos durante o Estado Novo após a insurreição comunista de 1935,especialmente como militantes de esquerda foram postos lado a lado com assassinos, ladrões, analfabetos e pessoas pertencentes às classes mais baixas, que não eram considerados cidadãos de pleno direito pelo Estado brasileiro da época. O diretor Nelson Pereira Gonçalves se envolve muito durante as filmagens nessa dinâmica entre os presos para expor o contraste entre aquelas parcelas da população que estavam unidas e organizadas em prol de mudanças sociais e melhorias de vida para as populações mais pobres, como agricultores sem-terra e operários ultra explorados pelo sistema capitalista de produção, e aqueles que já estavam de tal maneira à margem da sociedade que eram tratados como subumanos e não tinham perspectivas de emancipação de sua condição de exclusão total do processo de desenvolvimento econômico que o país já atravessava.
C) Ritmo e Montagem
1. Qual consequência o chamou sua atenção e o impactou? Por quê?
A cena final,em que, ao som do Hino Nacional, após Graciliano Ramos ser libertado da prisão, o barco segue viagem rumo ao Rio de Janeiro. Porque ela faz um paralelo com o início do filme, em que o Hino Nacional também estava tocando, quase na totalidade, durante longos minutos. Considero a cena emblemática justamente porque traz e incita essa discussão sobre civilidade e patriotismo na vida republicana nacional, ao mesmo tempo em que a democracia é derrotada e o favorecimento de algumas elites donas do poder, que também são capazes de se apropriar dos símbolos pátrios em nome de uma nação ou da construção de uma identidade nacional totalmente subjugada a uma ordem ditatorial. A cena ilustra a confusão a que um comunista como Graciliano Ramos estava submetido: em meio à defesa de seus ideais, ele foi julgado como um traidor, um inimigo a ser combatido pelo seu próprio governo. Essa contradição é parte de uma nação que experimentou pouquíssimos períodos de normalidade política, onde a democracia vigorou de fato. No entanto, ao longo do filme, os revolucionários comunistas sempre fizeram questão de saudar os novos prisioneiros cantando o Hino Nacional, tanto como forma de protesto, mas também de afirmação e de apropriação dos símbolos pátrios que, de fato, não pertencem somente a um lado do espectro político. Para mim, a cena também mostra como a identidade nacional, que de fato sobrepuja a propaganda dos regimes totalitários e antidemocráticos, é constituída essencialmente da pluralidade e diversidade que a compõem.
2. Houve algo no filme que aborreceu? Em que parte do filme? Eram cenas de diálogo de ação?
Apesar de a adaptação do filme ser bem extensa, o diretor suprimiu vários personagens que estavam presentes no livro de forma um pouco arbitrária, que porém não tornou a obra em si incompreensível, mas certamente serviu para condensar a narrativa no personagem Graciliano Ramos.
3. Qual cena não foi compreendida muito bem por você? Por quê?
O filme termina de maneira abrupta,sem uma continuação, o que condiz com o livro original no qual se baseia. No entanto, confesso que o corte final, mostrando Graciliano andando e jogando o livro que posteriormente cairá da embarcação que leva os libertos para o Rio de Janeiro, me causou uma certa angústia em relação ao seu significado real, muito além do mero campo da especulação. Gostaria de saber exatamente a visão do diretor sobre a cena. Se eu houver uma versão do filme com comentários do diretor que surja no futuro não tão distante, ou pelo menos eu espero que essa versão especial, em algum acervo, esteja guardada a sete chaves e um dia dê à luz das graças.
D) Mensagem
1. O que é proposto pelo filme é aceitável ou não? Por quê?
Sim,é aceitável. Principalmente por se tratar de um relato produzido em primeira pessoa, baseado em uma obra literária autobiográfica, partindo da perspectiva de um preso político de uma ditadura que emergiu no cenário político brasileiro num período em que as principais potências europeias aderiram ao fascismo como forma de combater o comunismo, adotando todo tipo de prática contra seus inimigos políticos, como tortura, prisão, assassinato e exílio. Fatores que são amplamente aceitos pela historiografia nacional e internacional e que tiveram ampla influência na conduta dos políticos brasileiros, já que o Brasil era um país atrasado economicamente e historicamente produtor de matéria-prima para exportação, ou seja, um terreno fértil para que os comunistas convencessem o proletariado e os trabalhadores rurais de sua condição de exploração e marginalidade no mercado internacional de trabalho. Um fator que incomodava o getulismo em especial mas que era inegável. O Brasil era um país continental e subdesenvolvido, para não dizer paupérrimo, muito aquém das riquezas que aqui é acolá são propaladas como objeto de orgulho nacional. Na verdade implicitamente o filme busca questionar o papel que o nacionalismo como ideologia de Estado
em forjar uma identidade comum a todos os brasileiros como um ethos que conformava todas as diferenças e disparidades de características regionais, de poder aquisitivo entre as classes nacionais, de escolaridade, de direitos e cidadania quase como que num simulacro de governabilidade entronizado na figura do líder máximo - Vargas. Em que a sociedade está apartada das suas mazelas e existe o ideal de brasileiro, trabalhador honesto, que mata um leão por dia para ser um vencedor na vida. Nessa fantasmagoria de tipos padronizados. O homem provedor da família e a boa esposa submissa emulam os valores de uma convivência pacífica e harmoniosa em que a família é o centro da vida humana e os sinais de rebelião são vistos como obscenas tentativas de desestabilizar os pilares da sociedade de bem. O ethos nacional conservador tende a prosperar e conquistar corações e mentes. Rechaçando qualquer alternativa de governo em prol das classes subalternas, que são eternos objetos da misericórdia cristã do homem comum. Como um sentimento de pena que um padre em certa cena transforma em caricatura no filme.
2. A quem o filme se dirige, em sua opinião?
Principalmente àqueles que buscam entender como os regimes de exceção atuaram para proibir o discurso e à livre manifestação de grupos da esquerda, principalmente revolucionária, ainda que na perspectiva mais unilateral do escritor Graciliano Ramos, mas também como uma forma de resgatar a memória dos presos políticos e estabelecer a sensibilidade humana para com aqueles que foram violentados nos porões da ditadura.
E) Relacione com a disciplina de História do Brasil
1.Qual a contribuição do filme para sua compreensão da disciplina e do ponto estudado?
O filme apresenta um diálogo entre a escrita literária de Graciliano Ramos e a visão cinematográfica do diretor Nelson Pereira dos Santos,retratando com certa fidedignidade um período histórico da República brasileira. Os personagens e a sua caracterização, seja o modo de vestir, de falar, de pensar, de se expressar com palavras, são extremamente representativos daquele período da história nacional - os anos 30 -, assim como também funciona como uma investigação sobre a verdadeira natureza das prisões como instrumentos de disciplina dos indivíduos considerados indesejados pela sociedade e ambientes onde não há possibilidade de recuperação e integração desses indivíduos no seio da sociedade, mas apenas de instrumento fatalista de abandono e morticínio promovidos pelo Estado. O fato de o filme elencar todas as características da sociedade, das pessoas da época e da política como ela funcionava naquele período é extremamente relevante para a discussão da sociedade brasileira atual, que se desenvolveu de maneira excludente, desigual e patrimonialista. O Estado é visto como defensor da lei e da ordem, mas o poder executivo advém sem a participação popular efetiva, afunilando os rumos que a nação deve seguir e a devida liberação democrática. O filme ajuda a refletir como esse estado de coisas é de fato atual e precisa ser mudado urgentemente. O filme ajuda a fornecer essa perspectiva mais abrangente do ponto de vista histórico. A punição aos militares que forneceram apoio e sustentação a esses regimes ditatoriais deve ser posta à luz e de forma veemente discutida, para o bem da sobrevivência da democracia no país e das liberdades conquistadas com muito sangue e lágrimas de inocentes.
2. Relacione a contribuição desse trabalho para sua formação.
Foi de suma importância.Tornou-me ainda mais capaz de analisar o Estado Novo varguista como um período de crescimento econômico capitaneado por esforços estatais em prol de oligarquias, mas também como um período de supressão de direitos e de propaganda estatal impregnada nos órgãos de comunicação públicos, que ajudaram a mascarar aquele período para uma parte da população como uma época de estabilidade e bom desempenho econômico, mas que colocou o trabalhador no centro da vida nacional de forma impostora, pois jamais ressuscitou o debate público, o serviço público e a condição de exploração dos negros, das mulheres e dos mais pobres numa sociedade marcada pelos contrastes entre as classes sociais.