Utilizador:Carmenlgb
Cantando a História do Brasil
[editar | editar código]A música como manifestação cultural de um povo ou de uma época é também reconhecida como documento histórico. Representa uma época, identifica um episódio, faz relação com a política ou a economia, representa determinado movimento social, conta a história de um povo, seja pelo estilo, pelos instrumentos musicais utilizados, pela letra de homenagem ou protesto.
Os livros didáticos de História citam ou apresentam letras de músicas relacionadas aos mais diversos fatos históricos. São músicas utilizadas como fonte histórica ou como ilustração do tema.
Para este trabalho foram selecionados cem livros de História do Brasil, destinados a alunos do 1º ano à 8ª série do Ensino Fundamental e alunos de Ensino Médio, aprovados para o Programa Nacional do Livro Didático do Ministério de Educação e encaminhado às escolas para análise e escolha pelos professores. O intuito é o de selecionar músicas relacionadas a fatos ou períodos da História do Brasil e verificar como e com que propósito são indicadas nos livros didáticos e utilizadas nas aulas de História. A proposta neste artigo é de que a música seja utilizada para reorganizar e (re)contextualizar o conteúdo em estudo integrando as músicas selecionadas na criação de arquivos digitais multimídia.
Como recurso didático, a música é utilizada também para interligar conceitos, ilustrando, complementando e enriquecendo as produções digitais. Os recursos tecnológicos utilizados na produção de arquivos digitais possibilitam a formação de espaços de aprendizagem mais ricos, estimulam a pesquisa, incentivam o compartilhamento de experiências, desenvolvem competências individuais e possibilitam o trabalho coletivo e colaborativo.
Da mesma forma emoção e intelecto são mutuamente interdependentes, articulados num sistema dinâmico e significativo. O pesquisador Henri Wallon (1981) considera a emoção como primeira linguagem. A palavra é outra forma de linguagem e talvez a mais marcante no desenvolvimento das funções mentais. MATURANA & VARELA consideram que a linguagem “modifica de maneira tão radical os domínios comportamentais humanos, possibilitando novos fenômenos como a reflexão e a consciência”. As duas vertentes da música: letra e som (ritmo), aliadas à iconografia e a outras fontes escritas, num processo de produção de conteúdos, são fortes indicativos para uma aprendizagem significativa especialmente se relacionadas a outras formas de linguagem: digital e midiática.
Tradicionalmente, o estudo da História visava o repasse dos fatos e acontecimentos registrados pelos mecanismos oficiais, quase que exclusivamente, sob o ponto de vista dos vencedores ou detentores do poder. Atualmente, uma nova visão de História possibilita a inclusão de uma variedade de fontes históricas, dentre elas, a música. Assim, a música em seus diversos ritmos e estilos passou a ser utilizada por muitos autores de livros didáticos.
Contextualizando
[editar | editar código]Dos cem livros analisados, 76% trazem transcrito a letra de músicas que apresentam algum aspecto da vida política, cultural e social do país ou que simplesmente, aparecem relacionadas ao tema proposto para estudo. Apenas 21% dos livros não fazem qualquer referência à música.
Apesar de não utilizarem a transcrição de letras em 3% dos livros didáticos, a música é tratada como conteúdo. Para os autores José Jobson Arruda em História Integrada – Do fim do século XIX aos dias de Hoje e Antonio Pedro em História da Civilização Ocidental - Geral e Brasil, a música é tema de estudo juntamente com outras formas de expressão artística, como a pintura e o cinema, bem como, a mídia que a veicula. Já Flávio Berutti, Adhemar e Faria Marques, no livro História: Os caminhos do homem - trazem a música como parte dos temas religião e cultura, com destaque para a negra e indígena. A música é vista como uma produção cultural das artes e da literatura e é tratada como conteúdo.
Das 76 obras que transcrevem letras de música como fonte histórica, 13 trazem a música também como conteúdo. Destacam a vida e a obra de alguns compositores brasileiros, em especial Heitor Vila Lobos e Chiquinha Gonzaga. A cada capítulo da história do Brasil, os livros didáticos trazem como parte do conteúdo, aspectos da produção musical. Quando trata do Brasil Império, por exemplo, destaca que a igreja controlava a produção cultural e primava pela música erudita enquanto o ritmo alegre das músicas indígenas e africanas era coibido. Entre índios e escravos africanos, os que possuíam dons musicais eram selecionados para aprender a música dos brancos e cantar em festas e igrejas. Ao tratar do período da escravidão, destacam a resistência da música africana e a influência que teve na música popular brasileira. Os livros destacam também o contexto em que surgiram as cirandas, o choro, o samba, a valsa, o frevo, a congada, bem como a rejeição ou aceitação dos diferentes ritmos, pela elite social de cada época. Destacam ainda, os movimentos como a Era do Rádio, a Bossa Nova, a Música de Protesto, a Jovem Guarda, a Era dos Festivais, o Tropicalismo, a expansão da indústria fonográfica, a utilização da tecnologia na produção musical nos anos 70 e a explosão da discothêque. De cada movimento musical listam os compositores e cantores de maior sucesso com suas músicas de maior destaque. Nas décadas de 80 e 90 fazem referência a diversidade e a mistura de ritmos: O Rock Nacional, o Reggae, o Funk, o Rap, o Hip Hop, a música sertaneja, o forró, o axé-music e o pagode. Uma característica da produção musical do final do século XX e início do século XXI que não aparece no conteúdo dos livros didáticos é o fato de que, em busca de sucesso rápido, muitas músicas eram compostas por refrões apelativos e com duplo sentido. Associadas a estilos dançantes, estas músicas, muitas vezes, deixavam a desejar em relação à estética e a qualidade (BRANDÃO & DUARTE, 2008, p.145).
Nos temas introdutórios, como a contagem do tempo, a história pessoal de cada educando, a escola e o estudo, alguns livros didáticos transcrevem letras de várias músicas que abordam estes temas. Ao tratar da organização familiar, por exemplo, três autores diferentes utilizam a letra da música 'Família[1]' composta por Arnaldo Antunes e Toni Bellotto, gravada pela banda Titãs.
[1] -DREGUER & TOLEDO, 2000, p. 119; VESENTINI; MARTINS; PÉCORA, 2009, p. 29; SCHMIDT, 2002, p.50.
Música e História no Brasil
[editar | editar código]Partindo para temas específicos da História do Brasil, a alegoria que Caetano Veloso faz das grandes navegações portuguesas na música Pindorama[1]' aparece relacionada ao descobrimento do Brasil. A marchinha História doBrasil[2], composta por Lamartine Babo para o carnaval de 1934, a música folclórica Peixinhosdo Mar6 cantado tradicionalmente pelos marujos e gravada por Milton Nascimento e a música Bodas[3]' de Milton Nascimento com Ruy Guerra também aparecem transcritas quando o tema é o Descobrimento do Brasil. Ainda sobre o descobrimento e a ocupação do litoral brasileiro, dois livros transcrevem a letra da música Notícias do Brasil[4] de Milton Nascimento e Fernando Brant. Para deter o avanço português em direção ao litoral Sul do Brasil, o governo espanhol incentivou a formação das reduções Jesuíticas conhecidas como Sete Povos. Este é o tema da música Tiaraju de Barbosa Lessa.
Nas missões dos Sete Povos, nasceu um dia Sepé/ Trazendo uma cruz na testa, cicatriz, sinal de fé/ Quando o sol batia nele, esta cruz resplandecia/ Por isso lhe deram o nome Tiajaru, a luz do dia/ Quando o exército de Espanha e Portugal chegou aqui/ Pra expulsar dos Sete Povos toda gente Guarani/ Tiaraju, que era cacique, reuniu seus guerreiros/ E sem medo dos canhões atacou só com lanceiros.[...] (PILETTI & PILETTI, 1997, p.122).
A Música Chegança de Antonio Nóbrega e Wilson Freire canta as diversas tribos indígenas que habitavam as terras brasileiras. Outras músicas relacionadas ao tema e transcritas nos livros didáticos são: Todo dia era dia de índio[5]' de Jorge BenJor; Índio[6] de Caetano Veloso; Tu Tu Tu Tupi[7]' de Hélio Ziskind.
A visão deturpada e preconceituosa do índio aparece na música 'Baila comigo de Rita Lee quando expressa o desejo de ser índio para “Ser um bicho preguiça”, poder “Viver pelado, pintado de verde” e “Num eterno domingo”. (MACEDO & OLIVEIRA, 1996. p 34). Os autores propõem que os alunos a comparem com o lamento do índio pelas riquezas naturais perdidas com a colonização na música Índios[8]' de Renato Russo.
Dentre os livros analisados não foram encontradas músicas compostas pelos indígenas, nem como referência, nem como documento histórico. No entanto, hoje é possível encontrar gravações de tribos indígenas. Quem visita, por exemplo, a aldeia indígena Yynn Moroti Wherá ou Águas Limpas ou Claras, em Português, às margens da BR 101, em Biguaçu, na grande Florianópolis – SC, pode adquirir o CD Nheé Garai Mara Eyn, na tradução Canto Sagrado Sem Fim, Gravado pelo grupo Nuvens Azuis, com treze canções milenares que conheceram com seus ascendentes da tribo Guarani.
Historicamente, desde 1962 os povos indígenas organizam-se em movimentos de luta por seus direitos à terra. A luta pela posse da terra tem sido muito grande, também nos últimos anos, através do movimento “sem terra”. Maria Raquel Apolinário Melani, no livro da 3ª série do Projeto Pitanguá escolheu a música Fome come[9]' de Sandra Peres e Paulo Tatit que faz parte do CD Canções Curiosas: Palavra cantada. O diálogo, em ritmo de embolada onde vizinhos disputam a propriedade da terra na música A Cerca do grupo Skank, parece ser bem adequada. “Meu camarada, eu moro aqui do lado/ O terreno que tu cerca, já ta cercado/[...]” (MARINO & STAMPACCHIO, 2002. p 27). Outra música apresentada é Cio da Terra[10]' de Milton Nascimento e Chico Buarque, mas existem outras que podem ser incluídas pelos alunos e professores, tal como: O sal da terra de Jota Quest.
A ocupação do território brasileiro formando uma nação pela composição de três raças é retratada na canção de Cassiano Ricardo intituladaHistória para criança.
[...] Primeiro a manhã indígena/ Saiu da montanha espessa/ Trazendo um cocar vermelho/ sobre a cabeça; / Depois o dia marítimo/ Das velhas naus portuguesas/ Saltou de dentro das ondas/ Qual pássaro branco/ Ruflando a asa enorme/ Das velas retesas;/ E a noite africana por último,/ Que chegou amarrada/ No porão do navio/ Com os seus orixás/ Com seus amuletos [...] (CHARLIER, & SIMIELLI, 2009, p. 63)
Sobre a luta pela liberdade, a escravidão e o preconceito dela advindos, a pobreza e a miséria resultante da abolição diversas músicas aparecem transcritas nos livros didáticos, entre elas: 'Liberdade, Liberdades[11], samba enredo da escola Unidos da Tijuca; Cem anos de liberdade: realidade ou ilusão?[12], samba enredo composto por Hélio Turco, Jurandir e Alvinho; Mão da Limpeza[13]' de Gilberto Gil; Zumbi[14]'de Jorge Benjor; A cor do Homem[15]' de Milton Nascimento e Fernando Brant; O Haiti, é aqui[16]' de Gilberto Gil e Caetano Veloso; Revanche[17]'de Lobão e Bernardo Vilhena.
A música O Canto dos Escravos que pode ser encontrado em CD com a Interpretação de Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme na Coleção Memória Eldorado. Ela traz palavras e expressões utilizadas na época podendo, inclusive, ser trabalhada nas aulas de Língua Portuguesa. “Muriquinho piquinino, / Ô parente, / Muriquinho piquinino/ De quissamba no cacunda/ Purugunta adonde vai, / Ô parente. / Purugunta adonde vai, / Pru quilombo do Dumbá/” (LIMA, 2006, p 105).
A influência da cultura africana pode ser encontrada em dezena de outras músicas e se apresentam de diversas maneiras. Podem ser encontradas das canções de ninar e cantos de improviso presentes nas festas como a congada e na capoeira aos ritmos que emergiram em outras partes do planeta e foram incorporadas na música brasileira, como o jazz, o reggae, o funk e o rap.
O filme Quilombo, dirigido por Carlos Diegues é uma boa indicação tanto em relação à parte histórica quanto a musical. A trilha sonora do filme coube a Gilberto Gil e foi reeditada em CD em 2002. Com 17 faixas, muitas incidentais e apenas três com letra, pode trazer o som do quilombo para a sala de aula.
Tratando especificamente do preconceito racial, podendo incluir também toda forma de preconceito, diversos autores de livros didáticos utilizam letras de músicas como texto de apoio. Dentre elas: 'Voz Ativa[18]' de Mano Brown; Racistas otários[19]' de Brown e Ice Blue; Racismo é burrice[20] com Gabriel, o Pensador; Pappers reais[21]' de Marcelo D2; além de Deveres e Direitos, composta por Toquinho e Elifas Andreato, transcrita no livro Travessia História, destinado aos alunos de 1ª série e diz: “Crianças, / Viver sem preconceito é bem melhor [...] Não olhem religião, nem raça”.(FONSECA & SÍMON, 2006, p.126).
Decretada extinta a escravidão, a imigração européia marca outra fase da história brasileira. Mirna Lima, no livro Porta Aberta da 3ª série, transcreve, já traduzido para o português, a música que fazia propaganda do Brasil na Itália. [...] “Emigramos para a terra prometida, / Ali se encontra ouro como areia. / Logo, logo estaremos no Brasil” (LIMA, 2005, p96). As músicas italianas Itália bela, mostre-se gentil[22]' e Mérica, Mérica[23]'(América, América – em português), assim como versos anônimos cantados por imigrantes italianos e alemães, também fazem parte do rol de documentos históricos usados nos livros didáticos. Já os compositores Milton Nascimento, Fernando Brant e Chico Alencar, na música Sonho imigrante, retratam as belezas do Brasil e a esperança que os imigrantes tinham de encontrar uma vida melhor, quer fossem italianos ou alemães, espanhóis ou portugueses. (FONSECA & SÍMON, 2006, p 980).
A influência de tantas etnias na composição do povo brasileiro aparece na música Lourinha Bombril uma composição de Diego Blanco e Bahiano na versão de Herbert Vianna.
[...]Essa crioula tem o olho azul. / Essa lourinha tem cabelo bombril./ Aquela índia tem sotaque do sul/ Essa mulata é da cor do Brasil.// A cozinheira ta falando alemão/ A princesinha ta falando no pé/ A italiana cozinhando feijão/ A americana se encantou com Pelé// Häagen-dazs de mangaba/ Chateau, canela-preta/ Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta/ Caboclo presidente/ Trazendo a solução/ Livro pra comida, prato pra educação [...] (BUENO & BOSCHILIA, 2005, p.08) e (MORENO & FONTOURA, 1997, p.124).
As trovas e versos populares, de composição anônima, também são utilizados como referência textual em várias obras relacionadas a diversos temas, principalmente no período do Brasil Colônia. Muitas canções populares como a 'Toada Mineira[24]' ou o Lundu de Pai João[25] cantam o árduo trabalho realizado pelos mineradores, tropeiros e escravos. Retratam a revolta contra as injustiças, a exploração e toda série de dificuldades. Como exemplo, os versos cantados pela milícia comandada pelo capitão mestiço Pedro Cardoso no Recife, por volta do ano de 1823 que mostram a revolta contra os portugueses e senhores de terra, os primeiros chamados de Marinheiros e os grandes fazendeiros de caiados. “Marinheiros e caiados/ Todos devem se acabar/ Porque só pardos e pretos/ O país hão de habitar/” (RIBEIRO & ANASTÁCIA, 1996, p. 96) e (SANTIAGO, 2006, p. 255).
Muitos dos versos de composição anônima, utilizados como fonte histórica nos livros didáticos analisados, são resgate de versos cantados pelos escravos durante o cultivo da lavoura ou dançado nas senzalas, ao som de tambores, após um árduo dia de trabalho. Outros estão relacionados às revoltas comandadas ou com participação dos escravos, como a Sabinada e a Balaiada, ou ainda, à religião e festividades como a Congada. São encontrados também, versos que criticam feitos políticos, como a corrupção na corte ou a coroação de D. Pedro.
Quem furta pouco é ladrão, / Quem furta muito é barão, / Quem furta e não esconde, / Passa de Barão a Visconde // Furta Azevedo no Paço, / Targini rouba no erário; / E o povo aflito carrega/ Pesada cruz ao calvário.
Por subir Pedrinho ao trono, / Não fique o povo contente/ Não pode ser boa coisa/ Servindo pra mesma gente (COTRIM, 2005, p. 86 e 387).
No quadro abaixo outros versos populares, de composições anônimas, relacionadas à revoltas ocorridas no Brasil, principalmente no período da República dos Coronéis.
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Versos da Canção popular: | ||||
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“Debalde tentam plantar/ O jugo da escravidão/ Jamais pode verdear/ Em Baiano coração/ Escravidão só se deseja/ O coração dos tiranos/ Só liberdade convém/ Ao coração dos Baianos[...]”.(SANTIAGO, 2006, p.270).
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“O Balaio chegou. / O Balaio chegou. / Cadê o branco? / Não há mais branco/ Não há mais sinhô”.(RODRIGUE, 2002, p.163).
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