Utilizador:Fatima Bissoto
Capítulo 1'
Concepções de língua e linguagem
Comumente utilizamos língua e linguagem indiferentemente, como se fossem sinônimos, entretanto há diferenças entre elas apesar de estarem intimamente ligadas. A língua é uma parte essencial da linguagem. “É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (SAUSSURE, 2006, p. 17).
De acordo com o linguista suíço, Ferdinand de Saussure, a língua é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, cuja existência se dá em virtude de uma espécie de acordo entre os membros de uma coletividade. Conhecer o funcionamento da língua exige aprendizado. A linguagem, por outro lado, apresenta uma dimensão social e uma dimensão individual. Ela é não só um sistema de sinais convencionais utilizados pelo homem para se comunicar, como também uma forma do indivíduo expressar seu pensamento.
Segundo Luria (1986) o surgimento da linguagem é um dos fatores decisivos que determinaram a passagem da conduta animal para a atividade consciente do homem. Nas primeiras etapas, a linguagem estava ligada aos gestos, aos sons inarticulados cujos significados dependiam da situação, dos gestos e da entonação. Gradualmente foi sendo elaborado um sistema de códigos que designava ações e objetos. Depois esse sistema começou a diferenciar as características das ações, dos objetos e as relações entre eles. Finalmente foram formados códigos sintáticos complexos.
No início a linguagem esteve estreitamente ligada à prática e depois, gradativamente, foi se separando dela. O sistema de códigos passou a ser suficiente para transmitir qualquer informação.
Como resultado da história social, a linguagem transformou-se em instrumento decisivo do conhecimento humano, graças ao qual o homem pode superar os limites da experiência sensorial, individualizar as características dos fenômenos, formular determinadas generalizações ou categorias. (LURIA, 1986, p. 22)
Na teoria de Vigotski, a linguagem, assim como o pensamento, ocupa um lugar central. Para este autor, a linguagem tem duas funções: intercâmbio social e pensamento generalizante, sendo que esta última função é que torna a linguagem um instrumento de pensamento. A linguagem fornece os conceitos e as formas de organização do real.
Em relação à origem da linguagem e do pensamento Vigotski estudou o desenvolvimento da espécie e o desenvolvimento do indivíduo, analisando semelhanças e diferenças nesse processo. Nesse sentido, observou que o pensamento e a linguagem têm origens diferentes e desenvolvem trajetórias diferentes, independentes, tanto no desenvolvimento filogenético como no desenvolvimento individual (ontogenético), sendo que em um determinado momento a linguagem e o pensamento se unem. Inicialmente, na fase pré-verbal o pensamento é mais prático, assim como na linguagem pré-intelectual, esta tem uma função social e de alívio emocional. Nesse processo, essa união entre linguagem e pensamento ocorre em função da necessidade de intercâmbio entre as pessoas no trabalho. Com isso, o pensamento se torna verbal e a linguagem racional. O surgimento do pensamento verbal e da linguagem como sistema de signos é um momento crucial no desenvolvimento da espécie humana, momento em que o biológico se transforma no sócio-histórico.
No desenvolvimento do indivíduo, desde o nascimento, ocorre um processo semelhante ao descrito para a história da espécie. Antes da linguagem e do pensamento se associarem, existe, também na criança, uma fase pré-verbal no desenvolvimento do pensamento e uma fase pré-intelectual no desenvolvimento da linguagem. Em um determinado momento do desenvolvimento (por volta dos dois anos) o percurso do pensamento se encontra com o da linguagem. Enquanto na filogênese, o impulso para isso foi o da necessidade de intercâmbio durante o trabalho, na ontogênese esse impulso é dado pela inserção da criança na própria cultura. A interação com membros mais maduros da cultura, que já dispõem de uma linguagem, é que vai propiciar o salto qualitativo para o pensamento verbal, passando a predominar na ação psicológica tipicamente humana.
Por meio da linguagem o homem interage com os valores socioculturais, apropriando-se do legado das gerações que o precederam. Para Vigotski, a linguagem é uma atividade criadora e constitutiva do conhecimento e, portanto, transformadora. Assim, “a aquisição e o domínio da escrita como forma de linguagem acarretam uma crítica mudança em todo o desenvolvimento cultural da criança” (SMOLKA, 2001, p. 57).
Referências
LURIA, Alexander Romanovich. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria. Porto Alegre: Artmed, 1986.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 27. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2001.'