Ir para o conteúdo

Utilizador:Tales Duarte

De Wikiversidade
ANÁLISE DO FILME "ZUZU ANGEL"

O filme baseado em fatos reais da vida de Zuzu Angel é um ótimo exemplo para mostrar para nós, o quão perversos eram os responsáveis pela ditadura aqui no Brasil. É também mostrar o quão cegas e desinformadas as pessoas eram, e às vezes nem por culpa própria, e sim pela manipulação de informações. O filme mostra que a ditadura só mostrava suas caras para aqueles que perderam entes queridos ou para aqueles que se levantavam para lutar e acabavam sendo vítimas do sistema ditatorial.

Zuleika de Souza Netto foi uma estilista brasileira, nascida em 5 de junho de 1921 e também uma importantíssima figura feminina na luta contra a ditadura. Ficou famosa tanto aqui no Brasil quanto no exterior pela busca de Stuart Angel, seu filho. Além de Stuart, Zuzu teve mais 2 filhos com um norte americano, e eventualmente, acabou se separando dele e criando os filhos sozinha na maior parte do tempo, fato que era um problema, pois na época não era bem-visto uma mulher ser divorciada, ainda mais com filhos. Stuart tinha que ouvir coisas na escola como: "Sua mãe é vagabunda" e "você não tem pai". Com certeza abala qualquer criança. Ao passar do tempo, especificamente em 1971, Zuzu atingiu seu auge profissional, nacionalmente e internacionalmente, o que levou ela a ganhar um bom dinheiro e viver uma vida tranquila, como se nada estivesse acontecendo no Brasil, o interessante é que para ela realmente nada demais estava acontecendo naquele momento. Enquanto isso, o jovem Stuart formava dias próprias opiniões e traçava seus próprios objetivos, sabia que o que estava acontecendo no Brasil não era certo, começou a frequentar manifestações nas ruas e protestar fortemente contra a repressão. Em uma cena, Zuzu encontra Stuart em seu quarto, junto com Sônia, namorada dele. Os dois estavam estudando, Zuzu parecia incomodada, pois já sabia do que se tratava, política. Alguns minutos adiante no filme, em uma pequena discussão entre mãe e filho, Stuart se autodeclara militante político socialista, ao lado da namorada, enquanto Zuzu diz que isso é bobagem e que a ditadura militar não é um problema tão grande quanto eles acham, então ela se declara contra essa resistência deles. Mais adiante no filme, Stuart ia aumentando sua militância e nota-se que Zuzu sabia que tudo isso traria algum problema grande para Stuart, por isso ia no sentido contrário, e não estava errada. Um dia após chegar em casa, ela recebe um telefonema desconhecido de um homem, dizendo: "O Paulo caiu, o Paulo caiu", por um momento ignorou, e depois lembrou que o filho o usava o codinome "Paulo" para se esconder da perseguição que já sofria. Sua preocupação foi grande, e a partir daí a busca por ele se iniciou, ela queria saber o que havia acontecido e onde Stuart estava preso. Ela se junta com seu advogado, e o primeiro lugar que vai procurar Stuart é na base do exército, acreditando que ele possa estar preso lá. Zuzu se encontra com um dos generais e ele diz que Stuart não está lá, mas leva Zuzu até a base para mostrá-la pessoalmente, e ainda por cima, às garante mentirosamente que se o filho dela estivesse preso no exército, ele seria tratado de acordo com a Convenção de Genebra, que é uma série de tratados que garantem os direitos humanos. Zuzu passa por todas as celas e não encontra o filho, chega até perguntar para os presos se já viram o garoto. A partir daí, o desespero toma conta. Ela pergunta ao advogado se o fato dele ter nacionalidade estadunidense não ajudaria (com o pai longe para comprovar, ficaria difícil) ou se habeas corpus não faria efeito (governo pode interrogar um suspeito por 45 dias sem precisar prestar nenhum tipo de conta).


A partir desse momento tudo começa a ficar ruim, Zuzu vai até a aeronáutica, confronta militares mesmo assim não acha o filho, ele também não estava na base naval. Uma parte interessante do filme é que Zuzu apela para um padre em determinado momento e a fala dele é a seguinte: "Minha filha, os rumores de torturas e do que acontece nas prisões são apenas propagandas comunistas, não se deixe cair". Isso mostra muito o quão alienadas eram as pessoas, e, nesse momento, Zuzu já percebia que tudo que ela achava sobre a ditadura era errado, a verdadeira face do sistema se mostrava cada dia mais. Após muita procura, o pior dia de sua vida chegava, quando ela recebe uma carta sobre a morte de Stuart. A carta vinha de um amigo de cela dele, especificando o que houve com Stuart, na carta dizia que ele foi interrogado e torturado, na aeronáutica. Os militares estavam atrás de Carlos Lamarca, um dos líderes da luta armada contra a ditadura, Stuart se recusou a entregá-lo e morreu torturado nas mãos do exército. Como sabemos, a aeronáutica negou até os dentes, e dizia sempre que Stuart nunca havia pisado naquele lugar, o fascismo trabalha com mentiras, pois apenas mentiras sustentaram o fascismo. Ela tenta publicar a carta para desmascarar a face de todos os envolvidos na morte do filho e é censurada, seu ódio cresce muito. Nessa parte do filme fez sentido para mim que você só enxergava a ditadura se você fosse a vítima ou se algum ente querido fosse a vítima, e muitas pessoas até hoje acham que não existiu ditadura porque viviam em uma bolha boa demais para saírem. Na parte final, Zuzu é abordada por um ex-militar rancoroso, e ele propõe uma ajuda a ela. Ele sabia o que havia acontecido com Stuart e iria depor a favor dela, se ela apresentasse um plano bom, para que ninguém se prejudicasse e eventualmente as coisas vão se caminhando para dar certo. O ex-militar junta fotos e dados sobre tudo que ocorreu no assassinato de Stuart pelos militares, os documentos chegam em sua mão, nessa altura, ela já estava sendo perseguida e corria risco de morte e aí que ela faz a jogada que às deixou viva na memória até hoje. No dia 8 de abril de 1976, Zuzu produz um documento dizendo "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho", e deixa o documento nas mãos de ninguém mais que Chico Buarque de Holanda, pedindo que publicasse se algo acontecesse. Infelizmente, a busca por justiça de Zuzu termina com sua morte uma semana depois, no dia 14 de abril de 1976, em um acidente de carro no Rio de Janeiro, um acidente orquestrado pelos militares. Segundo o filme, no carro ela carregava todas as provas da tortura, e nunca foram achados.

Na minha análise, nunca é tarde para perceber que precisamos lutar contra a opressão, e toda luta é válida. Assistindo, percebemos as mentiras de um governo autoritário, a desvalorização da palavra feminina, a manipulação da informação enganando uma nação inteira, a cegueira de um povo confortável em seus apartamentos caros, a perseguição incessante aos que lutavam pela democracia. Cada história como essa de Zuzu, constrói um dos piores momentos da história do Brasil, que ainda hoje é mal interpretado e às vezes dado como inexistente.