Ir para o conteúdo

Utilizador Discussão:Tchoy

O conteúdo da página não é suportado noutras línguas.
Adicionar tópico
De Wikiversidade

Caro Raimundo

Venho sempre para o Recife e Olinda para encontrar uma serenidade que a vida acadêmica não me possibilita.Mas uma serenidade e um repouso no meio do movimento porque você sabe muito bem que aqui e principalmente agora em janeiro/fevereiro, o agito dos tambores nao para. Africa na veia; e o modo de viver do recifence e dos outros próximos é indígena e africano. Todo mundo na rua sentado no chão. Em São Paulo só quem senta no chão são os miseráveis. E no budismo é tão importante sentar-se no chão. Viver no chão.Afinal, Buda ficou 40 dias sentado no chão e foi daí que veio a sabedoria dele.O carnaval está nas ruas. O colorido maracatú desfilando por todos os lados revelando a potência complexa e bela da cultura recifence e de resto, da cultura nordestina. É sempre muito bom passar alguns dias aqui e eu faço isto já um bom tempo. Bem, eu preciso entender melhor o que foi que voce falou pelo telefone e temos pouco tempo. Estou escrevendo, como te falei, um pequeno ensaio sobre os indigenismo das últimas décadas mas a partir da minha experiencia pessoal com os kraho porisso considero este ensaio uma breve etnografia. E esta etnogrfia me revelou coisas curiosas como por exemplo, a alma de certas ações que pareciam não etnocêntricas nas suas aparência. Assim, por exemplo agir de modo "platônico": modo este que pode ser descrito pela platônica frase de Glauber Rocha: "uma idéia na cabeça e uma camara não mão". Sinceramente, nunca ví frase tão platônica como esta. Mas não estou falando mal do querido Glauber mas sim, identificando o platonism vigente na nossa civilização. O indigenismo segue este mote: Uma idéia na cabeça e um projeto na mão. No início dos anos 80 eu fui para os kraho por intermédio do CTI e uma das idéias/ação era convencer os kraho a não irem para a cidade. Desenvolvíamos um discurso absolutamente desvairado pra cima deles. A cidade era o mal. E no entanto os kraho jamais deram bola pra esta idéia/ação. Pois a cidade, além de ser parte de um território que eles sempre identificaram como deles, - apesar da invasão - a usavam de um modo absolutamente kraho. O modo de circulação dentro da cidade, lugares frequentados, etc. O modo de relacionamento dentro da cidade, tanto entre eles como com a população branca, tudo isto, enfim fazia parte de uma estratégia de vida cujo fundamento sempre foi kraho. E no entanto, forçávamos a barra para eles não retornarem naquele lugar maldito e ponta de lança do capital ocidental maligno e devastador. Por certo, devastador. Somos testemunhas... Mas hoje vejo a coisa de um modo bem diferente. A cidade como território complementar, já necessário e claro, também lugar perigoso. Território sem lei, porque, segundo um velho krahô, o branco não guarda a lei na cabeça; ele precisa de polícia e advogado para cumprir a lei. Ele não a cumpre como um imperativo categórico, precisa de coação. Para o meu velho amigo isto não é lei. Então, a cidade é um lugar sem lei. É um lugar de perambulação escorregadio e traiçoeiro, mas é necessário hoje passar por este lugar. Afinal, estão acostumados a enfrentar as onças, porque não uma cidade. E aí vai... Afinal, o que eu quero dizer é que os antropólogos indigenistas dos anos 80 sempre seguiram o modelo característico e fundamental da filosofia politica ocidental e isto desde Platão que é idéia-projeto/Ação. Platão, Maquiavel, Marx, Lula.etc. todos seguem este modelito. Não podemos esquecer do idealismo rondoniano tão caro ao nosso ex-chefe da Funai, o Mércio Gomes, discipulo do Darci Ribeiro...ou o modelo inaugurado pelo CTI e outras entidades. Resgate de uma "comunidade sonhada" não pelos índios mas pelos ideólogos leitores de Pierre Clastres e outros. O primeiro projeto krahô tinha como mote a frase: "Retorno à abundância". Hoje eu pergunto: "Abundância de quem?" Os krahô continuam pobres e o CTI cresceu e enriqueceu. E isto vale para a maioria das Ongs e dispositivos afins. Mas eu não estou só querendo meter bronca. Também considero que este platonismo levou muitas pessoas a ter relações "reais" com os indígenas. Levou muita gente á vida, a simplesmente viver, partilhar amarguras, tristesas e alegrias com os índios. Então, também valeu. Mas, penso, é muito importante refletir e mapear etnograficamente esta experiencia dos anos 80, pois estes modelos apesar de falidos, agem sobre nós ainda hoje. Meu bom amigo, estou te enchendo o saco com tudo isto, mas é sobre isto que estou escrevendo. Uma etnografia que dê conta de um uma situação "entre mundos". Nada de fricção. Estou na espera do seu texto e da sua proposta de mesa. Um grande abraço Sergio

Iniciar uma discussão com o utilizador Tchoy

Iniciar uma discussão