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Varejão, Adriana

De Wikiversidade

Adriana Varejão é uma influente artista brasileira. Nascida no Rio de Janeiro, Brasil, em 1964, ela é uma figura central na arte contemporânea global, cuja obra é amplamente reconhecida e discutida em contextos que exploram o conceito de "Admirável Mundo Novo". Varejão é conhecida por uma prática artística que engloba diversas mídias, incluindo pintura, escultura, instalação e desenho, e que se aprofunda na investigação da história do Brasil e do legado do colonialismo. A artista mantém sua base no Brasil, onde vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sua trajetória é marcada por um extenso currículo (CV), que documenta seu reconhecimento global através de inúmeras exposições solo, exposições coletivas e projetos públicos. O trabalho de Varejão é notável por examinar a síntese cultural resultante dos encontros históricos e coloniais, empregando estratégias visuais que frequentemente incorporam a iconografia do período colonial.

Início da Vida e Formação Acadêmica

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A formação artística de Varejão começou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, uma instituição proeminente no Rio de Janeiro, que ela frequentou de 1983 a 1985. Esta base formal preparou o terreno para sua exploração da pintura. Em 1986, Varejão começou a se aprofundar no meio da pintura a óleo. Nesta fase inicial de sua carreira, ela se dedicou a uma reinterpretação visual intensa de temas históricos e religiosos brasileiros. Especificamente, ela reimaginava, utilizando uma técnica de impasto espesso, os afrescos barrocos ornamentados e as relíquias religiosas que adornavam as igrejas do século XVIII em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil. Esta imersão inicial no Barroco e na iconografia histórica brasileira estabeleceu uma base temática que ela viria a subverter e criticar em trabalhos posteriores.

O Ponto de Virada e a Crítica Eurocêntrica

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Um ponto de inflexão decisivo no desenvolvimento artístico de Varejão ocorreu em 1992, quando ela empreendeu uma viagem significativa. A artista passou três meses viajando pela China, dedicando-se ao estudo aprofundado de cerâmicas da dinastia Song (960–1279 EC) e da pintura clássica chinesa de paisagem. Essa jornada ao Oriente foi crucial, pois a levou a reconsiderar profundamente as narrativas históricas dominantes. A partir dessa experiência, Varejão começou a analisar como as narrativas eurocêntricas frequentemente distorcem ou até apagam as histórias e a importância de diversos métodos e motivos artísticos não ocidentais. Como resultado direto dessa crítica epistemológica, Varejão iniciou uma nova e poderosa série de pinturas. Nessas obras, a iconografia familiar ao público — como mapas, imagens religiosas ou cenas de gênero colonial — é sistematicamente interrompida. Essas interrupções visuais tomam a forma de simulações de feridas sangrentas e extrusões carnudas (fleshy extrusions), ou se manifestam como subversões narrativas mais sutis que minam a estabilidade da imagem colonial.

Temática Central: Antropofagia e Absorção Cultural

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O trabalho de Varejão a partir desse período, marcado pela ruptura e pela exposição da carne, faz uma referência explícita à violência e ao erotismo inerentes à história brasileira. Essa abordagem se alinha ao espírito da antropofagia, um conceito fundamental dentro do modernismo brasileiro. A antropofagia é um conceito que resgata os rituais canibais do povo Tupi, transformando o tabu social do canibalismo em um totem simbólico de absorção cultural no contexto do Brasil pós-colonial. Assim, o trabalho de Varejão não apenas critica o colonialismo, mas propõe uma digestão e reemissão da cultura importada, conforme o ideal antropofágico. Central à sua investigação artística está a representação do corpo. Varejão utiliza a representação de pele, carne e órgãos para explorar temas complexos e essenciais à identidade nacional, como a miscigenação, o desejo e o trauma histórico.

O Materialismo Histórico: O Azulejo e as Fissuras

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Após o seu retorno da China, Varejão começou a colecionar ativamente exemplos de arte popular regional brasileira, incluindo ex-votos e, de forma mais significativa, azulejos. Os azulejos são ladrilhos de terracota vidrada que têm origem árabe, mas que se tornaram a forma de decoração mais amplamente utilizada na arte nacional portuguesa desde a Idade Média. Varejão ficou fascinada pelo azulejo e pelo seu legado no Brasil, percebendo-o como uma poderosa metáfora para a miscigenação cultural, que foi tanto forçada quanto voluntária. Essa fascinação deu origem à sua série seminal Azulejão (Grande Azulejo), iniciada em 1988. Para criar o suporte dessas pinturas, Varejão desenvolveu uma técnica laboriosa. Ela aplica uma camada espessa de gesso viscoso sobre a tela estendida horizontalmente. Enquanto o gesso seca lentamente, as rachaduras que se formam naturalmente na superfície do material produzem uma cartografia detalhada de fissuras superficiais profundas. Os primeiros Azulejões frequentemente apresentavam fragmentos de esquemas maiores e eram dispostos em vastas grades de narrativa interrompida. Já as obras singulares mais recentes, de maior escala, abandonam a grade para apresentar superfícies sísmicas que são percebidas simultaneamente como abstratas, geológicas e corpóreas. A artista tem se dedicado a trabalhos em tela e escultura que se baseiam nesses ladrilhos portugueses.

Séries Notáveis: Línguas, Incisões e Saunas

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Além do trabalho com azulejos, Varejão desenvolveu outras séries marcantes que exploram a interseção entre arquitetura, corpo e trauma.

  • Línguas e Incisões (1997–2003): Esta série é caracterizada pelo seu foco na ruptura e na abertura. Nela, a artista retrata feridas abertas em superfícies que simulam elementos arquitetônicos, como paredes. Essas feridas funcionam simbolicamente como rupturas e aberturas na superfície da história e da identidade.
  • Saunas (1998–2003): Nesta série, Varejão explora espaços físicos específicos, as saunas, que são carregados de significados simbólicos. As obras investigam espaços associados ao desejo, à limpeza e, paradoxalmente, à doença.

Reconhecimento Recente e Legado

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Adriana Varejão é uma artista de reconhecimento global. Seu legado é continuamente celebrado e registrado em seu extenso currículo, que lista detalhadamente suas contribuições para exposições e projetos públicos ao redor do mundo. Um marco recente em sua carreira foi a exposição individual realizada em 2023 no MASP (Museu de Arte de São Paulo). A exposição, intitulada Adriana Varejão: Suturas, Fissuras, Ruínas, ressaltou a profundidade de sua obra, que lida constantemente com a fragmentação e a reconstituição da história brasileira. O trabalho de Varejão permanece um pilar nas discussões sobre a cultura pós-colonial. Assim como a antropofagia simboliza a absorção da cultura estrangeira para criar uma nova identidade, a técnica de Varejão de romper as superfícies dos azulejos e das paredes para expor o substrato carnudo e traumatizado funciona como uma metáfora visual para a história sísmica do Brasil, que é simultaneamente abstrata, geológica e intensamente corpórea.

Referências

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NERI, Louise. Admirável Mundo Novo: Os Territórios Barrocos de Adriana Varejão, 2001. In: Adriana Varejão. Takano Editora Gráfica, São Paulo, 2001. [documento PDF]. Disponível em: http://www.adrianavarejao.net/media/textos/neri_admiravel_mundo_novo.pdf. Acesso em: 30 nov, 2025

Adriana Varejão. Gagosian, 2021. Disponível em: https://gagosian.com/artists/adriana-varejao/. Acesso em: 30 nov, 2025

SUZIGAN, Adriana Milanez. Arte Contemporânea na Herança Portuguesa. Recima21, Santa Catarina, 2021. Disponível em: https://recima21.com.br/recima21/article/view/1811/1339. Acesso em: 30 nov, 2025.

HEEREN, Alice. Adriana Varejão: Cutting through layers of Brazilian History. Artelogie, [en ligne], 2013. Disponível em: https://journals.openedition.org/artelogie/5796#authors. Acesso em: 30 nov, 2025.

TAVEIRA, Carlos Vinícius da Silva. As fronteiras e os usos da história na produção artística de Adriana Varejão. 2016. Tese (Doutorado) - Literatura, Cultura e Contemporaneidade, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: https://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/1213294_2016_completo.pdf. Acesso em: 30 nov, 2025.

ADRIANA VAREJÃO. Victoria Miro, (s.d.). [documento PDF]. Disponível em: https://www.victoria-miro.com/usr/documents/artists/biography_document_EN/25/varejao-cv.pdf. Acesso em: 30 nov, 2025.


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