Vilaró, Carlos Páez
Carlos Páez Vilaró, nascido em Montevidéu, Uruguai, em 1º de novembro de 1923, foi uma figura multifacetada e central na arte do Rio da Prata e no cenário internacional. Sua trajetória artística, que se estendeu até o último dia de sua vida, é notável pela sua versatilidade em contraposição à tendência à especialização, de certo modo característica da civilização tecnológica. Ele foi pintor, reconhecido muralista, gravador, cineasta, compositor, escritor e ceramista. Adicionalmente, também era escultor e músico uruguaio. Vilaró não se limitou a um único meio, abrangendo pintura, cerâmica, escultura, artes gráficas, música, literatura e cinema, e expandiu sua arte para espaços públicos, objetos utilitários, arquitetura, e para além do Uruguai, viajando e exibindo sua obra internacionalmente. Sua visão era de uma Obra de Arte Total. Páez Vilaró faleceu em Casapueblo, Punta del Este, Uruguai, em 24 de fevereiro de 2014, aos 90 anos.
Páez Vilaró foi um artista autodidata. Nascido em uma família culturalmente rica, ele era o caçula de três irmãos. Seu pai era o Dr. Miguel Páez Formoso, um proeminente advogado, catedrático na Universidade da República, autor de diversos livros de história americana, e redator da Constituição da República de 1917. Esse americanismo paterno foi, segundo as fontes, seguramente transmitido aos filhos.
Marcado por uma forte vocação artística, Vilaró partiu em sua juventude para Buenos Aires. Lá, ele inicialmente trabalhou em uma fábrica de fósforos e velas. Posteriormente, vinculou-se ao meio das artes gráficas, desempenhando-se como aprendiz tipógrafo (cajista de imprenta) em uma gráfica de grande importância nas regiões de Barracas e Avellaneda. Essa experiência o colocou em contato com desenhistas destacados da época. Seus primeiros trabalhos artísticos foram quadros sociais que retratavam o trabalho nas fábricas. Em seguida, sua inspiração se voltou para o universo do tango, bares, cabarés e a milonga.
No final da década de 40, Páez Vilaró regressou a Montevidéu. Sua arte passou a ser profundamente motivada pelo tema do candombe e da comparsa afro-oriental. Ele estabeleceu um vínculo íntimo com a vida do conventillo “Mediomundo”, situado na rua Cuareim 1080 (hoje Zelmar Michelini), onde instalou seu ateliê. Desse conventillo saía a comparsa lubola Morenada, da família Silva.
O artista se entregou plenamente a esse ambiente, pintando centenas de obras e dezenas de cartões inspirados nesse entorno. As cenas retratadas incluíam lavadeiras, velórios, Natal, mercados e bailongos sob a luz da lua. Sua participação na cultura afro-uruguaia ia além da pintura: ele compunha candombes para as comparsas, dirigia coros, decorava seus tambores e incentivava intensamente essa expressão folclórica. Em sua vasta trajetória, ele manteve firmemente sua lealdade ao tema afro-uruguaio. Por cinquenta anos, Páez Vilaró levava seu tambor de Casapueblo a Montevidéu no primeiro sábado (ou sexta-feira) de fevereiro para desfilar nas Llamadas, tendo participado nos últimos tempos com a comparsa C1080.
Páez Vilaró pertenceu a uma notável geração de artistas uruguaios que incluía Juan Ventayol, Manuel Espínola Gómez, María Freire, Raúl Pavlotzky, Rómulo Aguerre, Alfredo Testoni, Washington Barcala, Hilda López, Américo Spósito, Jorge Damiani e seu próprio irmão Jorge.
Ele foi o fundador do Taller de Artesanos e, em 1959, fundou o "Grupo 8" (ativo entre 1958 e 1962), junto com Óscar García Reino, Miguel Ángel Pareja, Raúl Pavlovtzky, Lincoln Presno, Américo Spósito, Alfredo Testoni e Julio Verdié. O objetivo do grupo era incentivar a arte experimental e exibir obras em conjunto, rompendo fronteiras.
Esgotado o tema do conventillo, Páez Vilaró iniciou uma longa jornada que o levou primeiro ao Brasil, especificamente à Bahia, inspirado pelos amigos Vinicius de Moraes e Jorge Amado. Posteriormente, ele seguiu para países onde a negritude era fortemente presente, como Senegal, Libéria, Congo, Camarões e Nigéria, além da República Dominicana e Haiti.
Nesse périplo internacional, ele pintou centenas de obras, realizou inúmeras exposições e deixou sua marca em grandes murais. Ele produziu obras em adesão à luta que os africanos iniciavam por sua libertação. Elementos como a máscara, o fetiche, o escudo, o remo ou o grafismo passaram a fazer parte de sua mensagem artística.
Durante a década de 50, Páez Vilaró teve encontros significativos com grandes nomes da arte moderna. Ele conheceu Picasso, Dalí, De Chirico e Calder em seus respectivos ateliês. Ele também conviveu com o Prêmio Nobel Albert Schweitzer no leprosário de Lambaréné. Picasso o impressionou ao convidá-lo a passar revista de sua obra em sua residência-ateliê “Villa California”, nos Alpes Marítimos. Incentivado por Jean Cassou, diretor do Museu de Arte Moderna de Paris, Páez Vilaró apresentou sua obra na Maison de l'Amérique Latine. A repercussão dessa exibição resultou em exibições subsequentes na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Contribuições Cinematográficas e Geográficas
Além da pintura e da escultura, Páez Vilaró dedicou-se ao cinema. Ele percorreu inúmeras ilhas dos Mares do Sul pintando, escrevendo e filmando.
• Pulsación (1964): Seu último longa-metragem como cineasta, caracterizado por imagens livres e com a participação de artistas franceses (o Equipo de Hierro). O filme foi musicalizado por Piazzola.
• Batouk: Integrando a Expedição Francesa “Dahlia” na África, ele atuou como co-roteirista do documentário “Batouk”, que abordava o período do colonialismo até a independência. O filme foi distinguido com a honra de encerrar o Festival de Cannes em 1967.
Casapueblo: A Arquitetura como Obra de Arte Total
Ao retornar ao Uruguai em 1969, Páez Vilaró continuou a construção de sua obra-arquitetônica mais emblemática: Casapueblo. O projeto foi iniciado em 1959, em Punta Ballena.
Casapueblo é uma “escultura habitável”. Foi modelada em seus estágios iniciais com suas próprias mãos e com a ajuda de pescadores. A construção funcionou como sua casa, ateliê e estúdio, e se transformou em um símbolo do lugar. Hoje, o local abriga um Museu-Taller e um hotel. O ateliê do artista se situava na cúpula maior de Casapueblo. A estrutura progressiva de Casapueblo expressa sua visão artística que transcende os limites tradicionais da pintura, cerâmica ou escultura, sendo essencialmente arquitetura, ambiente vivido e uma obra de arte total. A rota panorâmica de Punta Ballena leva hoje o nome de Carlos Páez Vilaró.
Muralismo e a Arte Pública
Uma de suas principais preocupações era tornar a pintura acessível ao público em geral. O muralismo foi um veículo poderoso para a arte pública.
• “Raíces de la Paz”: Seu mural mais monumental. Originalmente concebido para o túnel da sede da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington D.C.. Inaugurado em 1960, a obra media cerca de 162 metros de extensão, sendo considerada na época a mais longa do mundo. Tinha aproximadamente 155 metros de comprimento por cerca de 2 metros de altura. A execução levou um mês, com a ajuda de estudantes da Corcoran Art e da Faculdade de Arte de Maryland. Nele, Vilaró plasmou cenas relacionadas à integração social, cultural e econômica dos países americanos, sublinhando o respeito à liberdade de expressão, de culto e de ideais. O mural teve que ser repintado em 1975 devido a danos provocados pela umidade. Essa obra é um marco na arte pública e para a presença de artistas latino-americanos em escala internacional.
Vilaró também criou murais importantes na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, nos aeroportos internacionais de Panamá e Haiti, e em hospitais do Chile e da Argentina. Em 1972, após a chamada Tragédia dos Andes, ele pintou um mural no hospital de Santiago, no Chile, como parte de sua "campanha da cor para a dor", retribuindo a solidariedade do povo chileno.
Atividades Binacionais e Integração de Mídia (Pós-1970)
A partir de 1970, Páez Vilaró viveu alternadamente no Uruguai, Brasil e Estados Unidos.
• Nova York: Radicou-se em Nova York, instalando seu ateliê em um pent-house na Quinta Avenida. Inspirado pela vida e cores dos supermercados, ele preparou uma série de obras e colagens em Manhattan, utilizando caixas e todo tipo de materiais encontrados na rua. Seu entusiasmo pelo patim sobre rodas o levou a dedicar a maior parte de seus quadros nova-iorquinos a esse tema.
• São Paulo: No Brasil, ele fundou o Taller de Artesanos. Trabalhou com tapeçarias e desenhou o Club de Polo Helvetia. Realizou séries de pinturas nessa cidade que ficaram em coleções particulares.
• Buenos Aires e Tigre: Viveu catorze anos em Buenos Aires. Seu ateliê argentino, Bengala, era uma antiga casa de madeira na região de Tigre e servia como uma extensão de seu estúdio no Uruguai. Vilaró autodenominava-se “Pintor del medio del río” (Pintor do meio do rio), confirmando essa identidade ao dividir sua atividade entre seus dois ateliês de Tigre e Uruguai. Mesmo sem ser arquiteto, durante esse período construiu, além de sua própria casa, uma capela multicultos em um cemitério privado em San Isidro.
Páez Vilaró integrou a pintura a diversos objetos da vida cotidiana e veículos, incluindo aviões, patrulheiros, ônibus (colectivos) e barcos. Um exemplo notável é o veleiro-escola “Capitán Miranda”, que ostenta o sol de Páez Vilaró em suas velas.
Ele realizou exposições retrospectivas de grande porte na Biblioteca Nacional de Beijing, no Opera House do Cairo e no Palacio de la Creatividad em Alexandria, a convite dos respectivos governos.
Bibliografia do Artista e Crítica de Arte
Bibliografia e Escritos (Memórias e Reflexões): Páez Vilaró se dedicou à literatura, escrevendo livros de memórias e textos reflexivos sobre arte e vida. Entre seus livros, destaca-se Arte y parte (1999), no qual ele revisa sua vida e obra.
Recepção Crítica: A crítica sobre a criação artística de Páez Vilaró foi diversificada.
• Rafael Squirru: Poeta e crítico de arte argentino, fundador e primeiro Diretor do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires (MAMBA). Em 1960, Squirru apresentou a exposição de Vilaró na Galería Rubbers, sob os auspícios do MAMBA. Squirru destacou a versatilidade do artista, notando que Vilaró foi inicialmente reconhecido como ceramista, e só mais recentemente valorizado como um destacado pintor rioplatense.
• Nelson Di Maggio: Crítico severo em relação à sua produção. Embora reconhecesse a experimentação permanente de Vilaró, Di Maggio, autor de Artes visuales en Uruguay: diccionario crítico (2013), considerava a série Plac Art — apresentada na oitava Bienal de São Paulo — como o melhor de sua produção.
• José Pedro Argul: Crítico de arte que, em contraste com Di Maggio, elogiou a série Plac Art. Argul escreveu Proceso de las Artes Plásticas del Uruguay: Desde la época indígena al momento contemporáneo (1975).
Reconhecimento e Legado Final
O artista recebeu diversas honrarias ao longo de sua vida. Em 2003, foi distinguido como Ciudadano Ilustre de Montevidéu, e em 2005, recebeu o prêmio “Artista de las dos orillas” do Conselho da legislatura de Buenos Aires.
O velório de Carlos Páez Vilaró ocorreu inicialmente na Sede de Agadu e, posteriormente, no Salão dos Passos Perdidos do Palácio Legislativo. O cortejo final seguiu ao ritmo de tambores e fez uma pausa simbólica no antigo conventillo Mediomundo.
A vida de Carlos Páez Vilaró, marcada pela experimentação constante e pela união indissolúvel entre a arte popular (candombe) e a alta cultura internacional, serve como um exemplo de como a arte total pode ser uma manifestação contínua e expansiva da existência. Assim como Casapueblo foi modelada organicamente pelas suas próprias mãos sobre os acantilados que olham para o mar, sua carreira foi uma construção fluida, integrando a cor, a arquitetura e o som em uma única expressão monumental.
Referências
• Site da Casapueblo.
• Di Maggio, N. (2013). Artes visuales en Uruguay: diccionario crítico. Montevideo. Zonalibro.
• Argul, J.P. (1975). Proceso de las Artes Plásticas del Uruguay: Desde la época indígena al momento contemporáneo. Montevideo. Barreiro y Ramos S.A..
• Páez Vilaró, Carlos. Arte y parte (1999).
• Squirru, Rafael. "Carlos Páez Vilaró." In Carlos Páez Vilaró. Catálogo de Exposição, Buenos Aires: Galería Rubbers, 1960.