Wikinativa/Fellype Rodrigues Braz (vivencia Guarani 2016 - relato de experiência)

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[Apresentação do relatório][editar | editar código-fonte]

Este exercício etnográfico é parte da avaliação da disciplina optativa ACH3707 - Seminários de Políticas Públicas Setoriais II, ministrada pelo Prof.º Dr. Jorge Alberto Silva Machado, do curso de Gestão de Políticas Públicas, oferecido pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), da Universidade de São Paulo. A disciplina está em sua segunda edição e, além da realização da viagem didática, conta também com aulas teóricas preparatórias.

Foi proposto em sala de aula, para a realização desta atividade, a observação participativa em um ambiente que fosse possível trabalhar os temas abordados pela disciplina. O local escolhido por mim foi a Aldeia Guarani Rio Silveira, localizada na cidade de Bertioga-SP. A visita à aldeia ocorreu entre os dias 28 e 31 de outubro de 2016.

[Justificativa do tema][editar | editar código-fonte]

De acordo com o relatório “O Brasil indígena” do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)[1], produzido em parceria com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a população indígena tem crescido desde 1991, sendo que no censo de 2010, 896 mil pessoas se declararam indígenas e apenas 57,7% (517 mil) moravam em terras indígenas oficialmente reconhecidas.

Atualmente a luta indígena se concentram na demarcação de terras e garantias de direitos que viabilizem a preservação, manutenção e desenvolvimento das aldeias indígenas no Brasil. Não é incomum notícias relatarem lutas e crimes envolvendo fazendeiros, grileiros e indígenas acerca da terra. A população indígena enfrenta ainda como desafio a baixa representação política, no âmbito legislativo nacional, por exemplo, não possuem representante eleito em exercício de mandato.

Tramita no Congresso Nacional a PEC 215, já aprovada pela Comissão Especial da Demarcação de Terras Indígenas, que transfere do Poder Executivo ao Congresso a atribuição de estabelecer limites às áreas indígenas, Quilombos e Unidades de Conservação. Além disso, permite empreendimentos de alto impacto socioambiental, como estradas e hidrelétricas, sem consultas às comunidades afetadas desses territórios. A proposta de emenda constitucional impactaria diretamente os processos de demarcação de território indígenas ainda não homologados e área demarcadas, cujos processos são questionados judicialmente.

[Preparação para a viagem][editar | editar código-fonte]

Foram realizadas 4 aulas preparatórias para a imersão na aldeia Guarani Rio Silveira. As aulas tinham como objetivo a compreensão de aspectos sociais e políticos relacionados à relação do contato de sociedades complexas com povos tradicionais, assim como seus problemas e contradições. Nestas aulas foram debatidas questões sensíveis da população indígena, tais como cidadania, direito a terra, preservação da cultural indígena e interação destes povos com o meio urbano. Além disso, os alunos se organizaram em grupos para a realização de oficinas na aldeia. Foram formados os grupos: “Arte”, “Agroecologia e Bioconstrução”, “Brincadeiras e Gincanas”, “Compreender a mulher indígena”, “Cultura e História Guarani”, “Esportes & Lazer” e “Intervenções Culturais”.

Além das aulas preparatórias, nos dias 24 e 25 de setembro foram realizadas visitas à Aldeia Guarani Tekoá, localizada nos arredores do Pico do Jaraguá em São Paulo. Esta visita tinha como objetivo estabelecer um primeiro contato com a cultura indígena Guarani e possibilitar a reflexão sobre as demandas sociais destas comunidades e sua interação com o meio urbano.

Pude pude ter contato com autores que discorreram sobre a rejeição da antropologia ao etnocentrismo, proveniente do “ ‘essencialismo’ (baseado na crença da existência de uma ‘essência universal’(...)” (LUTZ, 2012, p. 214). Esta experiência didática, proporcionada pela viagem, buscou um olhar mais “relativista”, buscando a compreensão das “construções culturais” em torno do tema.

[A viagem][editar | editar código-fonte]

O grupo partiu da EACH dia 28 de outubro, por volta das 09:30h em um ônibus da Universidade e percorreu cerca de 85 quilômetros até a aldeia. O dia estava ensolarado e os alunos demonstravam bastante ânimo para a realização da imersão.

Ao chegar na reserva indígena, era possível avistar uma placa indicando a demarcação da terra a partir daquele ponto. A aldeia está inserida na mata atlântica litorânea. Pela janela, passavam casas construídas com madeira e alguns moradores caminhando. O grupo foi recebido pelo pajé da aldeia em uma área próxima à casa de reza, onde era viável a montagem das barracas. A estrutura física era bastante simples, existia apenas um banheiro construído e dois pontos de água encanada. Mas o conforto era encontrado no contato direto com a natureza local.

Após a instalação do grupo tivemos a primeira interação com alguns moradores da aldeia. Nos foi servido um almoço preparado por mulheres da aldeia. Neste primeiro contato, refleti, com certa estranheza, sobre o fato de estarmos comendo linguiça embutida, servida com arroz e feijão. Após o almoço, os grupos se organizaram para a realização de atividades. O dia estava ensolarado e a temperatura agradável.

Os alunos estavam espalhados pelo espaço, as crianças corriam, pulavam corda e brincavam com alguns visitantes. O pajé da tribo, sentado em um banco próximo da casa de reza, observava o ambiente fumando seu cachimbo. Algumas mulheres ao fundo cuidavam de objetos utilizados no almoço.

Os moradores da aldeia preservaram sua língua nativa, mas falam e compreendem bem o português. As crianças se comunicam entre si em guarani, mas se direcionam aos alunos em português, elas têm consciência desta diferença linguística e parecem lidar bem com o fato. No ambiente com os alunos estavam as crianças, o pajé, em alguns momentos o cacique da aldeia, um índio jovem que aparentemente fazia o papel de “guarda” e algumas poucas mulheres adultas que pouco falavam ou interagiam. Era difícil ver pessoas jovens/adolescentes e idosas participando destas interações.

Vale destacar que, apesar de viverem com recursos urbanos limitados, não recebem saneamento básico, por exemplo, muitos indígenas possuem aparelho celular e televisão, é possível notar antenas em cima das casas, e são bastante informados. Algumas crianças possuíam celulares e ouviam música, sobretudo do gênero “funk carioca”. A água utilizada dentro da aldeia é proveniente de um rio, que passa pela reserva, muito bem conservado e de águas cristalinas.

Durante as noites o grupo de alunos era convidado a compartilhar do momento de integração dos membros da aldeia na casa de reza. Os rituais foram conduzidos em guarani, os moradores da aldeia utilizavam roupas com penas e pinturas corporais e utilizavam o tabaco de forma mais intensa nesta ocasião.

Nos demais dias, desenvolvemos outras atividades, fizemos uma trilha para uma cachoeira dentro da reserva em que fomos guiados pelo pajé, por um indígena mais jovem e na companhia de muitas crianças, todos meninos. Pude notar que as crianças, além de brincarem com os alunos durante a trilha, muitas vezes buscavam interagir com uma pessoa específica. Enquanto eu caminhava sozinho, um menino de aproximadamente 8 anos se colocou ao meu lado e fez uma observação sobre a serra ao fundo da paisagem, “você viu que bonito?”, eu respondi que sim e perguntei como ele chamava aquela serra em guarani, conversamos um pouco sobre a imagem, sobre o caminho e sobre o nosso destino. Durante a caminhada pude notar também que alguns índios homens jovens passavam pela estrada com frequência, em bicicletas, carregando palmitos que são cultivados dentro da aldeia. As mulheres jovens e adolescentes, assim como as mulheres idosas, foram menos vistas durante a estadia.

Foto: Arco e flecha do Pajé da aldeia, tirada durante a trilha.

Houve uma tentativa de interação com o grupo de mulheres indígenas. Esta atividade foi programada pelo subgrupo “Compreender a mulher indígena”. Ouvindo este subgrupo de alunas posteriormente, me foi relatado que o pajé não permitiu que as mulheres indígenas se reunissem sozinhas com as alunas. A atividade foi realizada com a presença dele que respondeu a maior parte das perguntas que eram direcionadas às mulheres da aldeia.

Eu fazia parte do subgrupo “Intervenções Culturais”, propomos uma atividade com papel, tintas e pinceis para as crianças. Os desenhos refletiam, em sua maioria, elementos da natureza e formas humanas. Uma criança em especial me chamou bastante atenção, ela devia ter cerca de 4 ou 5 anos e sua interação com o material era uma das mais intensas. Suas pinturas eram realizadas com as mãos cheias de tinta, no papel, no próprio corpo e no corpo dos alunos que estavam monitorando a atividade.

Dificilmente conseguirei expressar o sentimento da relação com os moradores da aldeia, não se trata da relação com o “outro”, mas sim da identificação e do sentimento de um “nós”. As diferenças expressas nos traços faciais, nas vestimentas, no modo de vida ou língua não estabelecem uma barreira que nos diferenciam como seres humanos. Judith Butler utiliza os conceitos de Levimas para definir que “o humano não é representado pelo rosto. Pelo contrário, o humano é indiretamente afirmado exatamente nessa disjunção que torna a representação impossível, e essa disjunção é exprimida na representação impossível” (BUTLER, 2011, p. 27).

As políticas públicas atuais para as populações indígenas têm um caráter “restaurativo”, de tentar amenizar os danos causados pela sociedade moderna a esses povos. E este sentimento compensatório latente se manifesta muitas vezes em expressões infantilizadas, como “aí que lindos os indiozinhos, você viu?”. Didier Fassin estabelece que existe este “momento de compaixão [compassionate moment]” em que a “questão social” torna-se uma “questão moral” (FASSIN, p.4). Os mesmos povos que antes foram vistos como populações primitivas, catequisáveis e merecedores do extermínio para que a sociedade branca moderna pudesse se desenvolver, agora despertam a empatia devido as situações precárias e conflituosas que muitas vezes enfrentam para resistirem vivos, cultura e fisicamente.

Ultrapassar esta barreira dos sentimentos socialmente construídos acerca das populações indígenas é o primeiro passo para a formulação de políticas públicas não apenas compensatórias, mas justas e adequadas às demandas destas populações.

[Referências][editar | editar código-fonte]

BUTLER, Judith. Vida precária. Contemporânea. n. 1 p. 13-33. 2011

FASSIN, Didier. Beyond good and evil - questioning the anthropological discomfort with morals. Anthropological Theory, SAGE Publications, v. 8. 2008

LUTZ, Catherine. Entrevista – Antropologia com emoção. Mana, 2012.

MOUTINHO, Laura. 2012. Sobre danos, dores e reparações. Apud TRAJANO FILHO, Wilson. Travessias antropológicas: estudos em contextos africanos. ABA Publicações, 2012.


[1] Disponível em: http://www.funai.gov.br/arquivos/conteudo/ascom/2013/img/12-Dez/pdf-brasil-ind.pdf