Coletivo Cético M.Faraday

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Coletivo Cético M.Faraday
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Cama de pregos em exposição do Caminhão com Ciência

O Coletivo Cético M.Faraday é formado por estudantes e professores da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Seu principal objetivo é a defesa da autoridade da ciência[1][2] contra o obscurantismo, os negacionismos[3][4] e as pseudociências.[5] Ligado ao Programa Caminhão com Ciência, o coletivo faz popularização da ciência, promove o pensamento crítico[6][7] e, humildemente,[8][9] combate pseudociências, charlatanismos e demais obscurantismos anticientíficos na UESC.[10]

A atuação do coletivo é orientada pelas situações-limite de Paulo Freire[11] e baseada no ethos científico de Robert Merton,[12][13] nas ideias sistematizadas por Martin Gardner[14][15] e no realismo ontológico de Mario Bunge.[16]

Por que combater pseudociências?[editar | editar código-fonte]

Mario Bunge[17]

Cientistas e filósofos tendem a tratar superstição, pseudociência e até a anticiência como lixos inofensivos ou mesmo como adequadas para o consumo em massa; eles estão muito ocupados com sua própria pesquisa para se preocuparem com tais nonsenses. Tal atitude é muito lastimável pelas seguintes razões:

  • Superstição, pseudociência e anticiência não são resíduos que podem ser reciclados em algo útil; elas são viroses intelectuais que podem atacar qualquer pessoa, leiga ou cientista, ao ponto de adoecer toda uma cultura e torná-la contrária à pesquisa científica
  • A emergência e difusão da superstição, pseudociência e anticiência são fenômenos psicossociais importantes para serem investigados cientificamente e talvez mesmo usados como indicadores do estado de saúde de uma cultura
  • Pseudociência e anticiência são bons casos para testar qualquer filosofia da ciência
  • A dignidade de uma filosofia pode ser avaliada pela sua sensibilidade às diferenças entre ciência e não-ciência, ciência de alto e baixo nível, entre ciência viva e morta

John Ziman[18]

But parascientism is a dangerous disorder for the experienced scientist, tending to lower his sceptical guard, and often bringing out an extraordinary capacity for credulity and self-deception. To those who are afflicted by it, the only answer of the scientific community must be: come with reliable consensible evidence, come with sound argument, and we will be ready to be convinced - but until that day you must not expect us to put much faith in your claims, nor to give much support to a cause in which we do not really believe.

Robert Crease[1]

Pregar, denunciar ou gritar "Ciência funciona!" não irá ajudar. Nem atirar estatísticas, gráficos e tabelas. A melhor abordagem, na minha visão, é examinar as experiências dos pioneiros proponentes da autoridade científica, que enfrentaram poderosa resistência, arriscaram suas carreiras e até suas vidas e tiveram que desenvolver contraofensivas. Em meu último livro, The Workshop and World, eu descrevo o que eles podem nos ensinar sobre como confrontar o moderno negacionismo científico.

O ceticismo de Michael Faraday[editar | editar código-fonte]

Durante uma palestra sobre educação em 1854, Faraday afirmou:[19]

Among those points of self-education which take up the form of mental discipline, there is one of great importance, and, moreover, difficult to deal with, because it involves an internal conflict, and equally touches our vanity and our ease. It consists in the tendency to deceive ourselves regarding all we wish for, and the necessity of resistance to these desires. It is impossible for any one who has not been constrained, by the course of his occupation and thoughts, to a habit of continual self-correction, to be aware of the amount of error in relation to judgment arising from this tendency. The force of the temptation which urges us to seek for such evidence and appearances as are in favour of our desires, and to disregard those which oppose them, is wonderfully great. In this respect we are all, more or less, active promoters of error. In place of practising wholesome self-abnegation, we ever make the wish the father to the thought: we receive as friendly that which agrees with, we resist with dislike that which opposes us; whereas the very reverse is required by every dictate of common sense.

Aparato desenvolvido por Faraday para testar o efeito ideomotor nas mesas girantes.[20]

Em 1853 Faraday publicou um artigo científico na revista The Atheneum e uma carta no jornal The Times sobre a moda das mesas girantes. Faraday responsabilizou as deficiências no sistema educacional pelos equívocos no entendimento público do fenômeno.[21][20][22] Naquele ano Faraday havia recebido muitas correspondências tratando do assunto, mas a maioria foi destruída.[23]

Em uma das poucas correspondências que sobreviveu, datada de julho de 1853, Faraday revelou suas ideias sobre as mesas girantes a Christian Friedrich Schönbein, em uma carta que também tratava do recém descoberto ozônio:[24][25]

I have not been at work except in turning the tables upon table turners – nor should I have done that but that so many enquiries poured in upon me that I thought it better to stop the inpouring flood by letting all know at once what my views and thoughts were. What a weak credulous, incredulous, unbelieving superstitious, bold, frightened, what a ridiculous world ours is, as far as concerns the mind of man. How full of inconsistencies, contradictions and absurdities it is. I declare that taking the average of many minds that have recently come before me (and apart from that spirit which God has placed in each) and accepting for a moment that average as a standard, I should far prefer the obedience affections and instinct of a dog before it. Do not whisper this however to others. There is one above who worketh in all things and who governs even in the midst of that misrule to which the tendencies and powers of man are so easily perverted.

Atividades[editar | editar código-fonte]

  • Reuniões semanais
    • Seminários, palestras e discussões sobre a literatura
    • Metas e objetivos de atuação
    • Integração com coletivos internos (Observatório Astronômico, Coleções Científicas, Programas de pós-graduação)
    • Estratégias e procedimentos
    • Planejamento
  • Divulgação e popularização
  • Integração do pensamento crítico nas atividades Caminhão com Ciência[26]
  • Elaboração de aparatos experimentais para o Caminhão com Ciência[27][28]
  • Colaborações interinstitucionais (McGill Office for Science and Society, Instituto Questão de Ciência)
  • Participação em eventos científicos e pseudocientíficos
  • Discussões em grupo virtual (WhatsApp)
  • Popularização da ciência na Wikipédia e demais plataformas Wiki[29][30] (Apoio: Wiki Movimento Brasil)
  • Registro e notificação de pseudociências na UESC via ação direta junto a Colegiados, Departamentos e demais instâncias
  • Apoio a estudantes interessados em estudar pseudociências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Na Wikipédia[editar | editar código-fonte]

Ceticismo
Livros
Biografias
Popularização da ciência
Biodiversidade
Pseudociências

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. 1,0 1,1 Crease, R.P. 2019. The rise and fall of scientific authority — and how to bring it back. Nature 567, 309-310.
  2. Thorp, H.H. 2020. Editorial: Persuasive words are not enough. Science, 368(6498):1405. "The only way to win this fight is to harness the same sophisticated tools in the name of science that are being used to tear science down. With social media companies afraid to challenge the misinformation machine, even when their own platforms are being misused, the task is daunting. But we can at least move on from the idea that if we could just find those perfect, persuasive words, everyone would suddenly realize that facts are facts with no alternatives."
  3. Oreskes, N. The False Logic of Science Denial. Scientific American 323, 2, 75 (August 2020).
  4. Oreskes, N., Conway, E.M. 2010. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. New York: Bloomsbury Press.
  5. Hansson, S.O. Science and Pseudo-Science, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2017 Edition), Edward N. Zalta (ed.).
  6. Sagan, C. 2006. O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras. "Além de nos ensinar o que fazer na hora de avaliar uma informação, qualquer bom kit de detecção de mentiras deve também nos ensinar o que não fazer. Ele nos ajuda a reconhecer as falácias mais comuns e mais perigosas da lógica e da retórica. Muitos bons exemplos podem ser encontrados na religião e na política, porque seus profissionais são freqüentemente obrigados a justificar duas proposições contraditórias."
  7. Sloan, R.P. 2006. Blind faith: the unholy alliance of religion and medicine. New York: St. Martin’s Press.
  8. Lilienfeld, S.O. 2020. Intellectual Humility: A Guiding Principle for the Skeptical Movement? Skeptical Inquirer, Volume 44, No. 5 "One of skepticism’s leading voices, astronomer and science writer Carl Sagan, expressed these worries decades ago: “The chief deficiency I see in the skeptical movement is its polarization: Us vs. Them — the sense that we have a monopoly on the truth; that those other people who believe in all these stupid doctrines are morons; that if you’re sensible, you’ll listen to us; and if not, to hell with you. This is nonconstructive. It does not get our message across” (Sagan 1996)."
  9. Hess, D.J. 1993. Science in the New Age: The Paranormal, Its Defenders and Debunkers, and American Culture. Madinson, The University of Wisconsin Press. p. 90. "... e os céticos às vezes utilizam estratégias retóricas, como desmascarar e ridicularizar, que também violam os ideais do decoro científico."
  10. Crease, R.P. 2019. The Workshop and the World: What Ten Thinkers Can Teach Us About Science and Authority. New York, W. W. Norton & Company, Inc.
  11. Freire, P. 2019. Pedagogia do Oprimido, 63ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p.133. "Esta forma de proceder se observa, não raramente, entre homens de classe média, ainda que diferentemente de como se manifesta entre camponeses. Seu medo da liberdade os leva a assumir mecanismos de defesa e, através de racionalizações, escondem o fundamental, enfatizam o acidental e negam a realidade concreta. Em face de um problema cuja análise remete à visualização da "situação-limite", cuja crítica lhes é incômoda, sua tendência é ficar na periferia dos problemas, rechaçando toda tentativa de adentramento no núcleo mesmo da questão. Chegam, inclusive, a irritar-se quando se lhes chama a atenção para algo fundamental que explica o acidental ou o secundário, aos quais estão dando significação primordial."
  12. Ziman, J.M. 1996. Reliable Knowledge: An Exploration of the Grounds for Belief in Science. Cambridge, Cambridge University Press.
  13. Reis, V.M.S., Videira, A.A.P. 2013. John Ziman e a ciência pós-acadêmica: consensibilidade, consensualidade e confiabilidade. Scientiae Studia, 11(3), 583-611.
  14. Richards, D. 2010. Martin Gardner (1914–2010). Science 329 (5988):157. "A pivotal article was “The Hermit Scientist” (Antioch Review, 1950) in which Gardner critiqued three examples of pseudoscience that were very much in the news: the wild theories of writer Immanuel Velikovsky proposing Earth’s near collision with other planets; the public craze with unidentified flying objects; and the idea of a metaphysical mind-body relationship touted by the science fiction author L. Ron Hubbard. Gardner’s opinions on these topics led to his book In the Name of Science (1952; retitled Fads and Fallacies in the Name of Science in 1957), and its impact increased until the 1970s."
  15. Singmaster, D. 2010. Martin Gardner (1914–2010). Nature 465 (7300):884. "In 1952, Gardner published In the Name of Science (later renamed Fads and Fallacies in the Name of Science). In this seminal book on debunking pseudoscience, he exposed many fallacies, including theories that the Earth is flat or hollow, and various pseudoscientific speculations regarding pyramids, phrenology, UFOs and creationism. He was a founder of the Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal — now the Committee for Skeptical Inquiry. Later, he was a regular contributor to the committee's journal, the Skeptical Inquirer, producing the monthly column 'Notes of a fringe watcher' from 1983 to 2002."
  16. Bunge, M. 1989. Ethics: The Good and The Right, Treatise on Basic Philosophy. Springer Netherlands.
  17. Bunge, M. 1984. What Is Pseudoscience? The Skeptical Inquirer 9, 36–46.
  18. Ziman, J.M. 1996. p.148.
  19. Royal Institution Lecture On Mental Education (6 May 1854). In: Faraday, M. 1859. On mental education. Experimental Researches in Chemistry and Physics. London, Taylor & Francis. p. 475.
  20. 20,0 20,1 Faraday, M. Table turning. The Illustrated London News. 16 de julho de 1853.
  21. Faraday, M. 1859. Table-turning In: Experimental Researches in Chemistry and Physics. London, Taylor & Francis. p. 381-391
  22. Andersen, M., Nielbo K.L., Schjoedt, U., Pfeiffer T., Roepstorff, A., Sørensen, J. 2018. Predictive minds in Ouija board sessions. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 18:577–588.
  23. James, F.A.J.L, Faraday, M. 1991. The correspondence of Michael Faraday. Vol. 4.. London: The Institution of Electrical Engineers p. xxx-xxxii: "As with letters written before his Times letter, the attrition rate of letters arguing against Faraday was high and few have survived."
  24. Kahlbaum, G.W., Darbishire, F.V. (eds.) 1899. The letters of Faraday and Schoenbein 1836-1862, London, Williams & Norgate. p. 214-215.
  25. Schwarcz, J. 2019. The Right Chemistry: Superstition, spiritualism and the "ideomotor response". Office for Science and Society, McGill University.
  26. Mahner, M., Bunge, M. 1996. Is religious education compatible with science education? Science & Education 5, 101–123.
  27. Stuchi, A.M., Paz, W.L., Vaz, L.S., Jardim, F.R.G., Shinomiya, G.K., Fábio Monteiro, F.A.M. 2019. “O Martelo de Thor Magnético: Associação de um Experimento de Física do Caminhão com Ciência com Super Heróis Usando Project Based Learning”. A Física na Escola 17 (2): 65–74.
  28. Massena, E.P., Guzzi Filho, N.J., & Sá, L.P. 2013. Produção de casos para o ensino de Química: uma experiência na formação inicial de professores. Química Nova, 36(7), 1066-1072.
  29. Thompson, N., Hanley, D. 2018. Science Is Shaped by Wikipedia: Evidence From a Randomized Control Trial MIT Sloan Research Paper No. 5238-17.
  30. Callis, K.L.; Christ L.R., Resasco J., Armitage D.W., Ash J.D., Caughlin T.T., Clemmensen S.F., Copeland S.M., Fullman T.J., Lynch R.L., Olson C., Pruner R.A., Vieira-Neto E.H., West-Singh R., Bruna E.M. 2009. Improving Wikipedia: educational opportunity and professional responsibility. Trends in Ecology & Evolution, 24(4):177-179. ISSN 0169-5347. PMID 19269059.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Sites

Vídeos[editar | editar código-fonte]

Dez pensadores inspiradores[editar | editar código-fonte]

Robert P. Crease. 2019. The Workshop and the World: What Ten Thinkers Can Teach Us About Science and Authority. New York, W. W. Norton & Company.

Publicações[editar | editar código-fonte]