Educação na Web/Agrotóxicos e Desnutrição como causa do surto de microcefalia

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Conversa com os professores[editar | editar código-fonte]

Monitoramento 15/11/2015 a 21/11/2015 - Casos suspeitos de microcefalia - Ministério da Saúde http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/novembro/24/COES-Microcefalias---Informe-Epidemiol--gico---SE-46---24nov2015.pdf
Monitoramento 22/11/2015 a 28/11/2015 - Casos suspeitos de microcefalia - Ministério da Saúde http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/novembro/30/coes-microcefalias---informe-epidemiol--gico---se-47.pdf
Monitoramento 29/11/2015 a 05/12/2015 - Casos suspeitos de microcefalia - Ministério da Saúde http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/dezembro/08/COES-Microcefalias---Informe-Epidemiol--gico---SE-48---08dez2015.pdf

O interessante desses boatos é que eles possuem uma base na realidade, o que os tornam desafiadores para contra-argumentar. Talvez seja proveitoso criar um debate com os alunos discutindo os pontos contra e a favor de cada ideia ou dar a eles as informações para discussão em grupo sobre a relevância de cada afirmação.

Ao ler o texto[editar | editar código-fonte]

Este boato afirma que os casos de microcefalia não são causados pelo vírus zika e sim pelas condições de alimentação do Nordeste. Ele é dividido em duas partes: uma afirma que a subnutrição é a causa da microcefalia e a outra afirma que agrotóxicos são os culpados.

Note que tanto o agrotóxico citado (2,4-D) quanto a desnutrição são de fato relacionados com microcefalia. Mas nenhum dos dois fatores aumentou subitamente entre 2014 e 2015 e portanto não se pode atribuir o surto de microcefalia nem a agrotóxicos nem a desnutrição.

Boatos[editar | editar código-fonte]

Os boatos dizem que surto de microcefalia é causado pelo uso de agrotóxico 2,4-D e/ou subnutrição materna. Esse boato é dividido em duas afirmações encontradas em páginas diferentes, mas que ambas tentam refutar a relação entre Zika Vírus e microcefalia ao responsabilizar outros possíveis causadores da má formação.

Afirmação 1: O surto está relacionado com o uso do agrotóxico 2,4 - D[1][editar | editar código-fonte]

Encontrado no site Notícias Naturais em publicação de 12 de novembro de 2015.

Afirmação 2: O surto está relacionado com um quadro de desnutrição no Brasil[2][editar | editar código-fonte]

Monitoramento 06/12/2015 a 12/12/2015 - Casos suspeitos de microcefalia - Ministério da Saúde http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/dezembro/15/COES-Microcefalias---Informe-Epidemiol--gico---SE-49---15dez2015---10h.pdf

Encontrado no site Hortolândia News em publicação de 30 de novembro de 2015.

O que é verdade?[editar | editar código-fonte]

Microcefalia tem outras causas além de Zika[editar | editar código-fonte]

Existem diversos fatores que podem causar microcefalia [3]: Fatores genéticos estão entre as principais causas, mas a doença também pode ter causas ambientais: está associada com uso de drogas (principalmente ingestão abusiva de álcool e tabaco) durante a gravidez e a infecção por diversos vírus e outros patógenos, como a toxoplasmose. De modo geral, a saúde da mãe durante toda a gestação pode influenciar nos riscos da criança ter microcefalia.

O uso de medicamentos também pode estar relacionado com o surgimento de teratogenias (deformidades na criança em formação durante a gravidez). Se usados nos primeiros três meses de gravidez, alguns anti-convulsantes podem causar o surgimento de teratogenias.[4]

Não tem nenhuma comprovação cientifica que relacione o agrotóxico e microcefalia[editar | editar código-fonte]

A microcefalia congênita é uma teratogenia, isto é, uma má-formação, que pode ser causada por diversos fatores. Há fontes que indicam o surgimento de danos teratogênicos relacionados à exposição (mesmo em diferentes níveis) do embrião ao agrotóxico ácido diclorofenóxiacético (2,4-D), principalmente em sua formulação comercial.[5][6][7]

O produto é o terceiro agrotóxico mais usado no Brasil, sendo aplicado nas culturas de arroz, aveia, café, cana-de-açúcar, centeio, cevada, milho, pastagem, soja, sorgo e trigo como um herbicida seletivo. É classificado como tóxico e possivelmente cancerígeno para humanos.[8][9]

Relação entre subnutrição e microcefalia[editar | editar código-fonte]

Se presente desde a primeira infância, e especialmente caso tenha ocorrido crescimento retardado intra-uterino, é possível que ocorra comprometimento do desenvolvimento mental e crescimento cerebral, ocasionando microcefalia. A subnutrição durante a gravidez está entre os principais fatores causadores de microcefalia e deficiência de iodo é um agravante notável [10]. Além disso, um ganho não adequado de peso durante a gravidez quase dobra as chances de nascer um filho com microcefalia.[3]

Por que não é o bastante?[editar | editar código-fonte]

Aumento nos casos de microcefalia[editar | editar código-fonte]

Em boletim publicado pelo Ministério da Saúde [11] vemos que o número de casos de microcefalia permaneceu entre 139 (em 2011) e 175 (em 2012) de 2011 a 2014. Só em 2015, por outro lado, tivemos 1761 casos até o dia 5 de dezembro, dez vezes mais do que qualquer um dos anos anteriores.

Verificando os boletins publicados entre 24 de novembro [12] e 5 de dezembro de 2015 [13],vemos que nesse intervalo de 11 dias (apenas) foram registrados mais de mil casos de microcefalia.

Uso de agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

De acordo com a EMBRAPA [14], o uso de agrotóxicos aumentou em 700% ao longo dos últimos 40 anos, nada que se compare ao aumento súbito de casos de microcefalia em apenas um ano. Além disso, a maior concentração do uso de agrotóxicos no Brasil é na região Sudeste, não no Nordeste onde a maior parte dos casos ocorre.

Casos de subnutrição[editar | editar código-fonte]

O surto de microcefalia ocorre em uma época de chuvas onde o Aedes aegypti se reproduz com maior intensidade. No entanto, nessa mesma época os níveis de nutrição não tendem a cair.[15]

Além disso, as chances de uma mãe que não ganha peso adequadamente durante a gravidez ter o filho com microcefalia é 1,8 vezes maior do que de uma mãe que ganha peso adequadamente. Considerando que os casos de microcefalia no Nordeste aumentaram em 10 vezes, seria preciso que entre 2014 e 2015 o número de grávidas com esse problema de peso tenha aumentado absurdamente.[3] Esse aumento súbito não foi registrado, assim como o índice de desnutrição no Brasil vem diminuído ano a ano, sendo que desde 2005 o número total de desnutridos brasileiros já não é mais considerado estatisticamente significativo pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura)[16].




Subnutrição no Mundo - A cor branca indica que menos de 5% da população é considerada subnutrida (http://www.fao.org/hunger/en/)








Estimativa do custo-vida da microcefalia[editar | editar código-fonte]

Além da mortalidade, outro problema relacionado às doenças congênitas, como a microcefalia, são as complicações crônicas que impõe custos altos de tratamento. Estima-se que crianças com doenças congênitas representam até 30% de todas as hospitalizações pediátricas [17]. A estimativa de custo-vida médio por criança deve considerar, entre outros, a necessidade de estimulação precoce do desenvolvimento (geralmente com Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional), educação especial ou inclusiva, perda da produtividade por incapacidade ou morte e a diminuição da renda salarial familiar do responsável pelos cuidados da criança [18]. A este cálculo, devem ser adicionados também os custos psicossociais como trauma psicológico da família e as dificuldades de adaptação à sociedade “normal”, com grande risco de desestruturação familiar.

É considerado um caso de microcefalia quando o perímetro cefálico do neonato possui valor menor que dois desvios padrão ou mais do que a média para determinada faixa etária e sexo, ou seja, menos de 32 cm de perímetro ao nascer com 9 meses. É uma anomalia geralmente pré-natal e congênita. Em 2015 houve um surto de microcefalia no Brasil, afetando principalmente o Nordeste. Oficialmente o surto foi associado ao vírus Zika transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. https://web.archive.org/web/20151215164821/http://www.noticiasnaturais.com/2015/11/microcefalia-herbicida-24-d-pode-estar-ligado-ao-surto-da-condicao-no-nordeste-do-pais/
  2. https://web.archive.org/web/20151215164958/http://www.hortolandianews.com.br/o-zika-virus-nao-e-a-causa-principal-da-microcefalia-27680/
  3. 3,0 3,1 3,2 Krauss, M. J., Morrissey, A. E., Winn, H. N., Amon, E., & Leet, T. L. (2003). Microcephaly: an epidemiologic analysis. American journal of obstetrics and gynecology, 188(6), 1484-1490.
  4. Bjørling-Poulsen, M., Andersen, H. R., & Grandjean, P. (2008). Potential developmental neurotoxicity of pesticides used in Europe. Environmental Health, 7, 50.
  5. Aronzon, C. M., Sandoval, M. T., Herkovits, J. and Pérez-Coll, C. S. (2011), Stage-dependent toxicity of 2,4-dichlorophenoxyacetic on the embryonic development of a South American toad, Rhinella arenarum. Environ. Toxicol., 26: 373–381. doi: 10.1002/tox.20564
  6. Gomes, J., Lloyd, O. L., & Hong, Z. (2008). Oral exposure of male and female mice to formulations of organophosphorous pesticides: congenital malformations. Human & experimental toxicology, 27(3), 231-240.
  7. López, S. L. et al. (2012). Pesticides used in South American GMO-based agriculture: A review of their effects on humans and animal models. Advances in Molecular Toxicology, 6, 41-75.
  8. International Agency for Research on Cancer,(2015). IARC Monographs evaluate DDT, lindane, and 2,4-D. [s.l: s.n.]. Disponível em: <http://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2015/pdfs/pr236_E.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2015.
  9. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (2014). OFÍCIO Nº 90/2014/NEAD - MDA, Reavaliação Toxicológica dos agrotóxicos a base de 2,4-Diclorofenoxiacético (2,4-D). Diponível em: <http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2014/04/Dossie_GEA-ANVISAmar2014.pdf> Acesso em: 15 de dez. de 2015.
  10. Cao, X. Y., Jiang, X. M., Dou, Z. H., Rakeman, M. A., Zhang, M. L., O'Donnell, K., ... & DeLong, G. R. (1994). Timing of vulnerability of the brain to iodine deficiency in endemic cretinism. New England journal of medicine,331(26), 1739-1744. Acesso em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7984194
  11. Portal da Saúde. (2015). Ministério da Saúde divulga novos casos de microcefalia. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/21164-ministerio-da-saude-divulga-novos-casos-de-microcefalia> Acesso em: 16 de dez.de 2015.
  12. Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública Sobre Microcefalias (2015). Informe Epidemiológico Nº 01/2015, Monitoramento dos casos de microcefalias no Brasil.
  13. Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública Sobre Microcefalias (2015). Informe Epidemiológico Nº 03/2015, Monitoramento dos casos de microcefalias no Brasil.
  14. http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/agricultura_e_meio_ambiente/arvore/CONTAG01_40_210200792814.html
  15. Viana, D. V., & Ignotti, E. (2013). A ocorrencia da dengue e variacoes meteorologicas no Brasil: revisao sistematica. Revista Brasileira de Epidemiologia16(2), 240-256.
  16. Food and Agiculture Organization of the Unitaded Nation. (2015), The State of Food Insecurity in the World 2015. Disponível em: <http://www.fao.org/hunger/en/> Acesso em: 16 dez. 2015.
  17. COLVIN, L.; BOWER, C. A retrospective population-based study of childhood hospital admissions with record linkage to a birth defects registry. BMC Pediatrics, v. 9, n. 32, May 2009.
  18. CASE, A. P.; CANFIELD, M. A. Methods for developing useful estimates of the costs associated with birth defects. Birth Defects Research. Part A, Clinical and molecular teratology, v. 85, n. 11, p. 920-924, Nov. 2009.