Educação na Web/Prevenções alternativas para o Zika

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Conversando com os professores[editar | editar código-fonte]

Público-alvo[editar | editar código-fonte]

As atividades que sugerimos aqui são apropriadas para alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Recentemente, se observou um rápido aumento no interesse por informações sobre o zika vírus e também a disseminação de boatos de como prevenir a infecção. Nosso objetivo é ajudar o professor do ensino básico a desmistificar, em sala de aula, os seguintes boatos sobre a prevenção da doença causada por esse vírus:

  1. Repelentes caseiros podem ser usados para evitar a picada do mosquito infectado.
  2. O consumo de álcool e outras drogas, além de má alimentação e gravidez, podem causar a doença.

Na aula anterior à desmistificação dos boatos sobre a prevenção do zika vírus, peça aos alunos que assistam, como lição de casa, o vídeo Microcefalia, do Doutor Drauzio Varella. Ele vai funcionar como nivelador dos conhecimentos prévios dos alunos, evitando que você tenha que abordar o que é o zika, o que ele pode causar e como é transmitido.

Boatos[editar | editar código-fonte]

Repelentes caseiros podem ser usados para evitar a picada pelo mosquito infectado[editar | editar código-fonte]

Esse boato aparece em várias matérias e vídeos. Como, por exemplo, este vídeo, onde um bombeiro ensinando a fazer um repelente com álcool e cravo-da-índia.

Argumento usado pelo boato[editar | editar código-fonte]

Existe uma crença comum de que os mosquitos se orientam através dos sentidos, por exemplo, o olfato. Dessa forma, substâncias com cheiro forte, como óleo de cravo e de citronela, poderiam funcionar como repelentes para mosquitos.

Motivações[editar | editar código-fonte]

O uso de repelentes caseiros é motivado por um medo de compostos sintéticos, que conduz o público geral a pensar que repelentes comerciais, por serem "compostos químicos" (no sentido leigo da palavra, ou seja, químicos industriais), causariam males em quem os usa, especialmente grávidas.

Fontes usadas pelo boato[editar | editar código-fonte]

O vídeo apresentado é uma fonte por si só, uma vez que um bombeiro, cargo que gera confiança quando o tema é saúde, está apresentando o repelente caseiro.

O consumo de álcool e drogas, a má alimentação e a gravidez podem causar a doença[editar | editar código-fonte]

Ambos os boatos apareceram em comentários no G1: consumo de álcool e drogas e não engravidar. O último também apareceu numa matéria jornalística com um título bastante estranho.

Argumento usado pelo boato e motivações[editar | editar código-fonte]

Álcool, drogas e má alimentação podem causar microcefalia, entre outras malformações fetais. Como o vírus zika também causa microcefalia, é comum que se faça a confusão. Da mesma forma, a severidade aumentada da febre zika em gestantes e a discrição dela em pessoas não gestantes (o que, inclusive, faz com que a doença seja confundida com a dengue) leva a crer que ela só seja contraída por gestantes.

Fontes usadas pelo boato[editar | editar código-fonte]

Os comentários não apresentam fontes, mas o título da notícia aponta um obstetra.

Contra-argumentos aos boatos[editar | editar código-fonte]

Repelentes caseiros podem ser usados para evitar a picada pelo mosquito infectado[editar | editar código-fonte]

Explicação[editar | editar código-fonte]

O olfato realmente é um dos sentidos mais importantes para que o mosquito possa procurar por novos alvos. Existem substâncias percebidas por receptores olfativos ou gustativos que podem agir como atrativas para o mosquito, como o ácido láctico e o dióxido de carbono liberado pela respiração. Substâncias repelentes possuem um modo de ação similar, ligando-se e interagindo com receptores olfativos e gustativos específicos do mosquito e mudando a sua atividade, produzindo o efeito repelente. O repelente de insetos mais comumente usado é o DEET (N,N-dietil-meta-toluamida), desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial e usado há aproximadamente 70 anos, considerado um repelente seguro. Entretanto, o medo de possíveis efeitos colaterais causados pelo DEET e uma quimiofobia geral resultaram no desenvolvimento de diversos repelentes de insetos sem DEET na sua composição, com uma variedade de ingredientes ativos.

Atualmente, circulam na internet diversos supostos meios alternativos de prevenção ao ataque de mosquitos, como, por exemplo: o uso de repelentes caseiros feitos com cravo da índia; óleos essenciais de citronela, copaíba e andiroba; além da ingestão de vitamina B1, ou tiamina, que faria com que a pessoa exalasse um odor repelente. Para testar a eficácia desses meios alternativos e compará-los com os efeitos de DEET, foram feitos diversos experimentos. Basicamente, as pesquisas utilizaram voluntários que colocavam as mãos em duas caixas com mosquitos. Em uma das mãos era aplicado o repelente testado e a outra mão permanecia sem repelente. Os resultados obtidos com a aplicação de repelentes caseiros naturais demonstraram que esses tratamentos alternativos não possuem uma alta eficácia, além de não permanecerem na pele por muito tempo, perdidos por evaporação devido a sua alta volatilidade[1].

Os boatos possibilitam a ocorrência de novos contágios, já que as pessoas podem pensar que estão protegidas ao utilizar essas alternativas. Atualmente, o método mais adequado e eficiente de prevenção aos ataques de mosquitos ainda é a utilização de repelentes que possuem DEET ou icaridina, na sua composição.[1]

Dicas para o bom uso de repelentes comerciais[editar | editar código-fonte]

  • Seguir as instruções do fabricante.
  • Aplicar apenas a quantidade necessária e somente nas áreas da pele descobertas, ou diretamente nas roupas. Reaplicar caso passe o tempo de proteção do repelente.
  • Não aplicar sobre feridas.
  • Ao aplicar no rosto, aplicar antes nas mãos e espalhar na face, evitando a aplicação direta que pode afetar mucosas, lábios e olhos.
  • Após a aplicação, lavar as mãos para evitar ingestão acidental e contato com os olhos.
  • Crianças não devem manipular repelentes e os mesmos devem ser guardados em um local fora do seu alcance.
  • Lavar os locais de aplicação após sair da área de exposição aos mosquitos.
  • Em caso de alergia, pare de usar o repelente, lave o local onde foi aplicado o repelente e, na ocorrência de uma alergia mais grave, procure auxílio médico.
  • Para crianças menores de dois meses de idade o ideal é usar um mosquiteiro, evitando o uso de repelentes.
  • Usar repelentes em spray em ambientes ventilados para evitar respirar o produto[2].

Comparação entre os repelentes disponíveis[editar | editar código-fonte]

Tradução livre feita pelos alunos que compuseram esta página, a partir do texto disponível em HealthyChildren.org.[2]

O que está disponível? Eficiência Por quanto tempo protege Precauções especiais
Repelentes químicos com DEET Considerado o melhor contra insetos que picam. 2 a 5 horas, dependendo da concentração do produto Tomar cuidado ao aplicar DEET em crianças pequenas.
Icaridina Em abril de 2005, os Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos recomendaram outros repelentes que podem funcionar tão bem quanto o DEET: repelentes com icaridina, óleo de eucalipto e soja. Esses repelentes têm uma duração de aproximadamente 10% a do DEET. 3 a 8 horas, dependendo da concentração do produto Apesar desses produtos serem considerados seguros, estudos a longo prazo não estão disponíveis. Além disso, estudos para testar sua eficácia contra carrapatos ainda precisam ser feitos. Reações alérgicas a óleos essenciais são raras, mas podem ocorrer.
Repelentes feitos com óleos essenciais de plantas (soja, eucalipto, citronela, etc) Em abril de 2005, os Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos recomendaram outros repelentes que podem funcionar tão bem quanto o DEET: repelentes com icaridina, óleo de eucalipto e soja. Esses repelentes têm uma duração de aproximadamente 10% a do DEET. Geralmente, menos de 2 horas Apesar desses produtos serem considerados seguros, estudos a longo prazo não estão disponíveis. Além disso, estudos para testar sua eficácia contra carrapatos ainda precisam ser feitos. Reações alérgicas a óleos essenciais são raras, mas podem ocorrer.
Repelentes químicos com permetrina Esses repelentes matam carrapatos assim que entram em contato com eles. Quando aplicados em roupas, duram mesmo após muitas lavagens Devem apenas ser aplicados em roupas, e não diretamente à pele. Podem ser aplicados a equipamentos usados ao ar livre, como sacos de dormir e barracas.

O consumo de álcool e drogas, a má alimentação e a gravidez podem causar a doença[editar | editar código-fonte]

O vírus zika é transmitido por Aedes aegypti. Sendo assim, qualquer pessoa que seja picada por um inseto infectado pelo zika vírus poderia ser contaminada, independentemente de seus hábitos alimentares, consumo de drogas ou estar grávida ou não.[3] No entanto, é importante evitar o contágio por zika durante a gravidez sob risco de microcefalia e, durante o forte surto pelo qual estamos passando, a maior recomendação é para que se evite engravidar.[4]

É importante frisar, contudo, que o uso de drogas, inclusive álcool e cigarro, e a má alimentação durante a gravidez podem causar microcefalia. Ela também pode ser causada por automedicação e outras infecções, além do zika.[5]

Sugestões para abordar o assunto em sala de aula[editar | editar código-fonte]

Repelentes caseiros podem ser usados para evitar a picada pelo mosquito infectado[editar | editar código-fonte]

Antes de começar a explicação, levar óleos de citronela, andiroba, copaíba, cravo e eucalipto, e também os repelentes comerciais, para a sala de aula. Deixar que os alunos os toquem e sintam o cheiro, e pedir a eles que concluam o que todos eles têm em comum (o cheiro forte). Depois, pedir que respondam se os repelentes naturais são tão eficazes e recomendados quanto os comerciais e por quê. Depois dessa breve discussão, começar a explicação baseando-se nas informações abaixo. Não se esqueça de averiguar previamente se algum dos alunos é alérgico a repelentes e óleos essenciais! Essas alergias são raras,[2] mas podem ocorrer.

O consumo de álcool e drogas, a má alimentação e a gravidez podem causar a doença[editar | editar código-fonte]

Mostrar o ciclo de vida do Aedes aegypti aos alunos e questionar: o álcool, as drogas e a má alimentação das pessoas pode influenciar esse ciclo e aumentar o número e/ou a intensidade das infecções? Por quê? Iniciar a explicação sobre o boato a partir dessas respostas.

Como prevenir, de fato, o vírus zika?[editar | editar código-fonte]

O ideal seria que os alunos saíssem da sala de aula sabendo prevenir a infecção pelo vírus zika, não apenas cientes dos boatos. A principal forma de prevenção é evitar o acúmulo de água parada, já que o mosquito transmissor deposita os ovos em locais em que há água parada. Sendo assim, deve-se colocar areia nos vasos de plantas, verificar a caixa d’água para ver se não há larvas do mosquito e verificar os possíveis focos de água parada na região que a pessoa mora. Outra forma de prevenção é colocar telas nas portas e janelas, para evitar que o mosquito entre nas casas. Repelentes e venenos contra insetos também são válidos, desde que tenham eficácia comprovada.[3]

É importante notar que todas essas formas de prevenção têm como alvo a interrupção do ciclo de vida do Aedes aegypti, logo, também são eficazes contra a transmissão de dengue e chikungunya.

É interessante que os alunos consigam chegar sozinhos a essas conclusões. Para isso, dividir a turma em grupos de pelo menos 4 e não mais que 10 alunos e apresentar a eles o problema de Dona Ana descrito abaixo, de preferência entregando uma cópia para cada grupo. Dar pelo menos 20 minutos para que discutam o problema e cheguem a medidas que podem ser tomadas para evitar a contaminação de Maria Elisa e dos outros membros da família de Dona Ana pelo vírus zika, sem mudar os hábitos da família. Caso os alunos tenham dificuldades, reforçar a explicação sobre a presença dos cachorros, do reservatório de água e do fato de que o Aedes aegypti, transmissor dos vírus causadores de dengue, zika e chikungunya, se reproduz em água parada, não necessariamente limpa.

O problema da Dona Ana[editar | editar código-fonte]

Dona Ana, 58 anos, mora numa casa com mais quatro pessoas: seus três filhos - Isaura, de 12 anos; Mateus, 16 anos; e Maria Elisa, 27 anos - e o namorado de Maria Elisa, Rafael, de 23 anos. O marido da Dona Ana faleceu. E, atualmente, ela recebe sua aposentadoria e uma pensão pela morte do marido, as quais, junto com o salário de Maria Elisa e Rafael, sustentam os cinco membros da família, mais os dois cachorros, Brenda e Caramelo. Como a água está escassa, uma vez por semana, Dona Ana e sua família vão até a fonte mais próxima e trazem muitos baldes de água, com os quais enchem dois reservatórios de 100 litros, que utilizam durante sete dias.

Semana passada, Dona Ana viu no jornal que uma nova doença está circulando pelo país, o vírus zika. No começo, ela não se preocupou muito, porque ouviu falar que o zika causa apenas uma forma leve de dengue em pessoas saudáveis; no entanto, Maria Elisa veio lhe dizer que está desconfiando que esteja grávida, já que sua menstruação está vinte dias atrasada. Como não tinham dinheiro para comprar um teste de gravidez, Dona Ana e Rafael levaram Maria Elisa até a unidade de saúde mais próxima para fazer o exame de sangue. 

Enquanto esperava pela filha, Dona Ana perguntou a uma agente de saúde se o vírus zika era perigoso para gestantes, e a agente respondeu que sim, porque podia causar microcefalia em bebês, ou seja, a criança podia nascer com problemas no desenvolvimento do cérebro. Preocupada, Dona Ana começou a procurar formas de prevenir que a filha fosse infectada com o vírus, já que a agente de saúde lhe disse que o crucial era que Maria Elisa não pegasse zika nos três primeiros meses da gestação.

Se você fosse um agente de saúde, e sabendo que o vírus zika é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, que medidas de prevenção indicaria para Dona Ana? Discuta com o seu grupo e levante pelo menos duas medidas.

Material recomendado[editar | editar código-fonte]

  1. Nosso site (leitura mais aprofundada sobre esse tópico)
  2. BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, Secretaria de Vigilância em Saúde − Ministério da Saúde, Volume 46 N. 26 - 2015. 
  3. DUFFY, Mark R. et al. Zika virus outbreak on Yap Island, federated states of Micronesia. New England Journal of Medicine, v. 360, n. 24, p. 2536-2543, 2009. (em inglês)
  4. KUNO, Goro et al. Phylogeny of the genus Flavivirus. Journal of virology, v. 72, n. 1, p. 73-83, 1998. (em inglês)

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. 1,0 1,1 RODRIGUEZ, S. D., DRAKE, L. L., PRICE, D. P., HAMMOND, J. I., & HANSEN, I. A. (2015). The Efficacy of Some Commercially Available Insect Repellents for Aedes aegypti (Diptera: Culicidae) and Aedes albopictus (Diptera: Culicidae).Journal of Insect Science, 15(1), 140.
  2. 2,0 2,1 2,2 https://www.healthychildren.org/English/safety-prevention/at-play/Pages/Insect-Repellents.aspx
  3. 3,0 3,1 http://www.ioc.fiocruz.br/dengue/textos/infografico.html
  4. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1708319-apos-surto-de-microcefalia-medicos-desaconselham-a-engravidar-agora.shtml
  5. http://drauziovarella.com.br/noticias/microcefalia-orientacoes-as-gestantes/