Lab Zona de Contágio

Fonte: Wikiversidade

Site do Projeto: https://www.tramadora.net/zonadecontagio/

Sobre[editar | editar código-fonte]

Resumo/Abstract:

Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: “um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.

É uma iniciativa de confluências, um híbrido do coletivo Tramadora, Projeto Laboratório do Comum do Pimentalab/Unifesp, e da Rede Lavits.

Abertura do Projeto[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/03/25/laboratorio-zona-de-contagio/

Laroiê!

salve o mensageiro!

“Nós, que pensamos em “ideologia”, somos vulneráveis. Nós não possuímos os saberes pertinentes para identificar e compreender os dispositivos de captura e de produção de impotência. Ora, lá onde se pensa que os feiticeiros existem, aprende-se a reconhecê-los, a diagnosticar seus procedimentos, a se proteger deles, e ainda a contra-atacar” (I.Stengers).

Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: “um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.

O vírus é a entidade estrangeira que fala pelo nosso corpo, através dele, de sua vulnerabilidade e estupidez. Fala que nossas noções de “política” e de “progresso” ou “civilização” são débeis, inócuas. Faz com que sintamos a febre da Gaia Criatura como resposta imunológica às simplificações ecológicas e biológicas produzidas pelos modos extrativistas que seguem fazendo desertos em nome do “crescimento econômico”, “desenvolvimento”; que seguem produzindo muros, cercas, desejo de segurança e separação.

O medo da contaminação como forma de governo das vidas sempre foi a principal bio-tecnologia colonial, atualizada pelos regimes autoritários modernos. Tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemiológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança profilática passam a “denunciar” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o “Estado Forte” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em “Guerra”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

Estamos na encruzilhada Hobbes x Espinosa; o Estado e a hipótese do Comum! O momento em que desejamos que o Estado tome medidas de exceção de controle populacional em nome da segurança sanitária, é o momento em que renunciamos à nossa potência de cuidado da saúde coletiva. Seremos capazes de construir alternativas com nossa inteligência coletiva? Como ativar o Comum, a potência de produção da saúde entre todos, promovendo vínculos solidários de cuidado coletivo? Como infraestruturar as estratégias, dispositivos, tecnologias, diferenças, práticas e conhecimentos que possam dar lugar a essas formas de vida?

A natureza do poder se modificou de tal forma que hoje confunde-se com a própria vida. Está na paisagem da cidade e suas infraestruturas, nas centenas de dispositivos que conduzem nossa atenção, localização, nas catracas, na produção dos desejos e das frustrações; nas centenas de outros dispositivos que nos conduzem à novas formas de desempenho; novas formas de concorrência.

Os arranjos sociotécnicos ao mesmo tempo vigiam e controlam toda possibilidade de fuga com outros inúmeros dispositivos de neutralização preventiva. A algoritmização da vida bloqueia qualquer possibilidade de imprevisto, de acontecimento e abertura. O poder se organiza de forma imanente à vida e sua expressão de exterioridade é apenas uma expressão performativa e mais visível dele – ainda que nos pareça mais confortável imaginar que o Poder está lá, sentado em uma cadeira. “Uma perspectiva revolucionária já não tem a ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos”. Na metrópole, assinala o Conselho Noturno (2019), o que encaramos não é mais o velho poder que dá ordens, o poder que localiza-se desde uma exterioridade, mas uma forma de poder que logrou constituir-se como a ordem mesmo desse mundo. “A metrópole é o simulacro territorial efetivo de um mapa sem relação com nenhum território”

Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de corpos neoliberalizados, Zona de Contágio convida ao diálogo praticantes que desejam tensionar as modernas e habituais fronteiras entre ciência e política; entre corpos e pensamento. Assumir nossa debilidade existencial como ponto de partida para pensar os deslocamentos do político. Pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de“co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”; encontros. Ciência de contato. Saber qual território habitamos, qual é a terra que pisamos quando falamos “cidade”, quais as relações que a constituem, quais são os saberes desautorizados, os saberes sujeitados, os saberes das lutas que desejamos convocar? Uma ciência objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade. Uma ciência de combate que acontece entre corpos e suas diferenças.

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e intervenção na medida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social.

A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

Convocatória: Conspiremos! Um convite para um experimento coletivo de investigação[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/04/07/conspiremos-um-convite-para-um-experimento-coletivo-de-investigacao/

“Conspirar quer dizer respirar junto. E é disso que somos acusados.”

Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa coletiva e experimentação. Se o fortalecimento de governos tecno-autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social. Tudo é risco.

Estamos lançando uma investigação coletiva que se proponha a pensar agora pelos cortes que fazem atravessar corpos, a casa, o risco da respiração compartilhada, os novos arranjos da biovigilância, as tecnopolíticas de gestão do normal e do que excede. O poder é logístico, está por todos os lados. Por isso, uma ciência de risco precisa dar atenção aos “agenciamentos que geram transformações metamórficas em nossa capacidade de afetar e sermos afetados – e também de sentir, pensar e imaginar”.


Disparamos perguntas que nos implicam com o acontecimento covid-19[editar | editar código-fonte]

Pensar porque estamos obrigados, potencialmente infectados e febris. Diante dos intensos fluxos filosóficos, da saturação metafísica, semiótica, informacional, gostaríamos de propor uma desaceleração do pensamento; uma respiração diafragmática. Uma ciência de risco é objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade, os grandes esquemas conceituais. Uma ciência de risco é aquela que habita as encruzilhadas e as práticas de permanecer um pouco mais com a confusão.

Como primeiro movimento de um percurso incerto e aberto de investigação coletiva, desejamos criar conversas com praticantes que se sintam afetados por essas questões. Seja a partir de uma criação qualquer (texto, fotografias, áudios, vídeos, performances) compartilhada entre nós, ou de um fio investigativo que possamos juntos rastrear: os fios do provável (a reorganização dos poderes tecnototalitários e dos dispositivos reordenadores da vida); os fios do possível (as formas de cooperação, novos acordos coletivos, a luta contra as normalizações dos excessos e pelas muitas formas de recusa). Uma ciência menor que atua com a experimentação e a invenção de uma linguagem comum, pelos sentidos que dão passagem a uma experiência singular e coletiva.

Atenção às infraestruturas mínimas da vida coletiva que adquirem visibilidade e urgência – a metrópole é um grande dispositivo de renuncia sobre nossas próprias vidas. Como a vida na cidade e na casa é percebida no interior desse acontecimento? O que estamos fazendo das nossas vidas?

Rastrear os pequenos gestos, as formas de recusa nada épicas, os imperativos do desempenho que descem pelo ralo enquanto temos que dar conta da louça acumulada antes da próxima reunião online. Como nossa vida é agora interpelada pela lógica da produção e do fazer, pela culpa do contato ou do isolamento, como imaginam nossas resistências e invenções cotidianos para existir? Precárixs. Lançadas em uma correnteza de indeterminação; atentas para os modos diferenciais de tornar algumas vidas dignas de serem protegidas e outras não. Nossos corpos como infraestrutura invisível que sustenta toda a ficção do “homem livre empreendedor”. Para não “voltar ao normal!”; Para retomar a insistência da vida não a qualquer custo – mas uma vida que possa criar movimentos de abertura, uma que desliza e escapa de suas estabilidades e antigos compromissos, aquela que aposta nos riscos dos encontros.

Rastrear as decisões logísticas e tecnológicas que prometem “segurança”, “saúde” e “bem-estar”, “praticidade” e “desempenho” a despeito da nossa incapacidade de cuidarmos de nós mesmos; a despeito da nossa incapacidade de sustentar outras saídas. Assumir nossas vulnerabilidades compartilhadas. Como esse acontecimento nos releva os arranjos em que estamos enredados? Podemos habitar de outra forma a cidade, o mundo, a terra – não como “cidadãos”, mas como criaturas?

Somos convocados a oferecer provas de um bom comportamento como soldados de uma guerra que não é nossa. Interpeladas cotidianamente por dispositivo de mobilização de corpos e boas condutas. Alternativamente, quais são as novas alianças que estamos criando e que desejamos ainda criar? Uma ciência de risco é sempre uma ciência que hesita, uma ciência de retomada de uma inteligência coletiva e que funciona apesar e contra os chamamentos da nação, da pátria ou da grande Ciência e seus regimes de autoridade e verdade.


Protótipo 1 – como criar uma conversação em tempos de pandemia?[editar | editar código-fonte]

Explicações de um mundo “real”, assim, não dependem da lógica da “descoberta”, mas de uma relação social de “conversa” carregada de poder.

Neste primeiro movimento a idéia é que possamos nos relacionar através de nossas criações, formas de expressão sobre o experienciado, fragmentos coletados do mundo, situações vividas, sentidas, relatos, hesitações – sejam seus ou não.

Se você deseja entrar nesse barco, envie um email (tecnologia de desaceleração) para: conspire (arrob@) tramadora.net

Criamos um canal de transmissão no Telegram onde iremos proliferar os caminhos da pesquisa: https://t.me/tramadora

Há também uma página no Facebook: https://www.facebook.com/corpocontagio

Além do processo investigativo, realizaremos um ciclo de estudos insurgentes. Encontros virtuais para discussão de algum texto ou conversarmos com algumx convidadx. O primeiro encontro será dia 23/04, quinta-feira, a partir das 19:30hs, numa plataforma de videoconf [link com a programação será divulgado em breve]

Remar juntos é partilhar, partilhar alguma coisa, fora de qualquer lei, de qualquer contrato, de qualquer instituição[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/04/16/remar-juntos/

Carxs praticantes,

Partimos de algumas inquietações iniciais e problemas com os quais nos sentimos implicadxs nesse momento. Escrevemos alguns parágrafos na forma de uma proposição-convocatória para abrir a hipótese de uma Zona de Contágio. Como algumas pessoas não leram ainda o material recolocamos abaixo os links:

1. https://www.tramadora.net/2020/03/25/laboratorio-zona-de-contagio/

2. https://www.tramadora.net/2020/04/07/conspiremos-um-convite-para-um-experimento-coletivo-de-investigacao/

A proposta é simples: iniciar uma conversação entre todxs, uma prática investigativa coletiva, a partir da situação limite que estamos habitando.

Para entrar nesse barco basta mandar um email para: conspire(arrob@)tramadora.net

Contornando a saturação filosófica e os grandes esquemas conceituais que interpelam o acontecimento-Covid-19, queremos habitá-lo em sua dimensão experiencial, tecnomediada e que finalmente conecta velhas e novas tecnologias de domesticação e desempenho (da casa aos dispositivos que oferecem distração, praticidade e eficiência em um ambiente cada vez mais vigiado e controlado no qual se busca a todo custo bloquear a experiência como também todo o acontecimento).

Queremos praticar uma ciência de contato – ainda que seja desde o isolamento – e que atue na produção, sempre parcial e precária, de práticas e conhecimentos sobre questões que implicam a todos. Outras perguntas irão surgir no percurso. Desviar das rotas planejadas é sempre um sintoma de boa saúde para uma ciência de risco. Inventar novas e melhores perguntas que produzam uma comunidade de praticantes interessadxs em experimentá-las. O próprio desenho do laboratório e seu modo de pesquisar são problemas que fazem parte da nossa investigação.

Como seguir juntxs em tempos de pandemia? Como fazer de nossa vulnerabilidade o risco comum de uma dupla condição: uma política da experimentação e uma prática (onto)epistêmica corporificada, situada e que possa retomar nossa inteligência coletiva relacional de viver graças aos outros, de pensar graças aos outros. Nos importa pensar quem somos o “nós” contingencial desse percurso investigativo. Convidamos a uma prática para iniciar a conversa e experimentar sustentá-la por algum tempo (dois ou três meses?), atentos ao percurso, suas aberturas e possíveis desdobramentos.

Movimento 1: apresentação, interação assincrônica, criação e compartilhamento[editar | editar código-fonte]

Como cada um de nós é forçado a pensar pelo acontecimento covid-19? Como esse acontecimento dispara novos problemas, entendimentos e experiências e criações intuições?

“Essa experimentação é política, pois não se trata de fazer com que as coisas “melhorem”, e sim de experimentar em um meio que sabemos estar saturado de armadilhas, de alternativas infernais, de impossibilidades elaboradas tanto pelo Estado como pelo capitalismo. A luta política aqui, porém, não passa por operações de representação, e sim, antes, por produção de repercussões, pela constituição de “caixas de ressonância” tais que o que ocorre com alguns leve os outros a pensar e agir, mas também que o que alguns realizam, aprendem, fazem existir, se torne outros tantos recursos e possibilidades experimentais para os outros. Cada êxito, por mais precário que seja, tem sua importância” (I. Stengers).

Para nos apresentarmos, sugerimos agora que cada um compartilhe, de alguma forma, o modo pelo qual está habitando essa encruzilhada: um breve texto, fotografias, áudios, vídeos, performances. Um formato simples o suficiente para não produzir a sensação de “mais uma tarefa”; o prazer nos parece um bom indicador para essa breve produção.

Aqui podemos falar, a partir das nossas vidas e pesquisas, ou das duas coisas entrelaçadas, sobre os fios do provável ( de como sentimos, intuimos ou entrevemos a reorganização dos poderes tecnototalitários e dos dispositivos reordenadores da vida); e também sobre os fios do possível ( de como sentimos, intuimos ou entrevemos as formas de cooperação, novos acordos coletivos, a luta contra as normalizações dos excessos e pelas muitas formas de recusa). O material poderá ser enviado até o dia 22 de abril.

Sua postagem se tornará pública para outrxs pessoas que por lá passarem também.

Conversações Febris I: 23/04 as 19hs[editar | editar código-fonte]

Um encontro virtual, quinta-feira, dia 23 de abril das 19hs às 21hs, para conversarmos a partir de um texto que inspira nosso laboratório. Livro “No Tempo das Catástrofes”, cap.16, de Isabelle Stengers. Disponível aqui: https://www.tramadora.net/wp-content/uploads/2020/04/stengers-tempo-catastrofe-cap16.pdf

Um dia antes enviaremos o link para o ambiente virtual. Teremos alguns convidadxs pra disparar a conversa entre nós. Podemos combinar referências ao texto com o momento atual em diálogo com nossas produções/investigações (movimento 1).

Respiração diafragmática. Sem angústias ou ansiedade produtiva. A ideia é produzirmos um encontro entre praticantes de mundo em suspensão.

Bordas, confluências, conversações: percursos de uma investigação companheira[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/04/30/bordas-confluencias-conversacoes/

Após lançarmos uma convocatória para pessoas interessadas em integrar um percurso coletivo de investigação sobre o acontecimento Covid_19, realizamos uma primeiro movimento de aproximação entre nós. Criamos uma lista de email; fizemos um encontro virtual entre os que haviam se inscrito na lista para conversar a partir de um texto, trocar experiências e algumas expectativas e convidamos as pessoas a reagirem às algumas proposições na forma de um produção livre que foi compartilhada no site da Zona de Contágio.

>> Para quem quiser ainda embarcar na investigação coletiva como praticante, mande um email para: conspire [@rrob@] tramadora.net

>> Para quem quiser apenas acompanhar o processo temos: lista de telegram: https://t.me/tramadora ; instagram: https://www.instagram.com/tramadora_lab/; Facebook: https://www.facebook.com/corpocontagio/ ; twitter: https://twitter.com/_tramadora

Quando pensamos numa prática de laboratório partimos de algumas referências que informam o desenho e as práticas desse laborátório. Ele não é uma noção abstrata ou indeterminada. Referimo-nos a uma certa arquitetura, uma ética-política, uma prática experimental, uma perspectiva ontoepistêmica: uma ciência implicada de uma pesquisa-luta. Elementos esses que esperamos explorar nesse percurso investigativo.

Diante do que experienciamos nessa última semana, a partir da momento em que a Zona de Contágio foi ativada pela presença e participação de muitos de vocês, consideramos importante olhar para o que emergiu e tramar os próximos passos dessa investigação. O momento nos convoca a indicar algumas delimitações para a investigação e também a sugerir alguns protocolos para nossa cooperação. Essa mensagem está dividida em 3 tópicos:

1. Bordas e confluências de um percurso de pesquisa – onde indicamos as questões gerais da pesquisa e indicamos um próximo passo de perguntas e atividades para a pesquisa.

2. Conversões febris – sugestão de bibliografia para o próximo encontro no dia 7 de maio, as 19:00hs.

3. Protocolo Investigativista: ensaio de um conjunto de princípios e acordos pra organizar as formas de participação e as condições de colaboração.


Bordas e confluências de um percurso de pesquisa[editar | editar código-fonte]

Todas nós estamos aqui por algo que nos toca; quase todas estamos também já inseridas em percursos de investigação. Carregamos experiências, corpos e desejos singulares, heterogêneos. O desafio do laboratório é constituir uma composição entre singularidades apontando, entretanto, para algumas zonas de confluência comum para que assim possamos, de fato, experimentar um encontro – uma ciência-dança de contato e improvisação. Para dar consistência a essas zonas de confluência sugerimos algumas ações temáticas nas quais podemos pensar juntas, investigar, nos fazer melhores perguntas.

De forma simples: propomos rodadas investigativas em torno de problemas comuns. A produção do material a cada rodada será um cruzamento entre experiências, percepções localizadas, intuições sobre o mundo no qual estamos implicadas em uma conversa com reflexões trazidas por textos e outros pensamentos. Ao fim de cada rodada, poderemos então visualizar a constelação de novos problemas que surgem, novas pistas, outras encruzilhadas.

A Zona de Contágio se constitui a partir de duas tramas de investigação: Ciência dos dispositivos; Ciência de Retomada.

Por um lado, gostaríamos de praticar uma “ciência dos dispositivos” atenta aos rastros das formas de poder e como ele organiza nossas vidas; dispositivos de desempenho, controle, biovigilância; os arranjos e mediações sociotécnicas que conduzem nossas condutas. Os dispositivos de governo que prometem nos “salvar” de nós mesmos e de nos livrar da possibilidade de pensarmos juntos o que fazer com as nossas vidas e corpos. Uma ciência dos dispositivos parte da constatação de que o poder não está dando ordens desde os lugares mais espetaculares e evidentes, mas ele, sobretudo, está “fazendo funcionar”: os corpos, desejos, as formas de nos relacionar. Aqui podemos pensar sobre a expansão do “capitalismo de plataforma” no acontecimento-Covid; das tecnologias educacionais aos inúmeros dispositivos que organizam nossas cidades, a circulação de mercadorias e alimentos; pensar quem são os teletrabalhadores, os circuitos do “cognitariado”, os intercâmbios entre ideias de “livre iniciativa” e “empreendedorismo” com os discursos da economia de “startup” e de “inovação”; a maneira reticular como as tecnologias digitais compõem e organizam a vida ordinária, contrabandeando e alimentando um racionalidade econômica e uma ordem política.

Na mesma trama, também queremos praticar uma “ciência da retomada”: ” É precisamente porque nossos corpos são os novos enclaves do biopoder e nossos apartamentos as novas células da biovigilância é que se torna mais urgente do que nunca inventar novas estratégias de emancipação cognitiva e resistência e lançar novos processos antagônicos. Ao contrário do que se possa imaginar, nossa saúde não virá da imposição de fronteiras ou separação, mas de um novo entendimento da comunidade com todos os seres vivos, de um novo equilíbrio com outros seres vivos do planeta.“

Uma ciência de retomada pensa pelos saberes que nos foram expropriados. Como emerge nesse interstício e suspensão do mundo a percepção do Comum sequestrado – o que é (e pode ser) “saúde coletiva” e como essa “volta ao corpo” nos faz pensar sobre um mundo que já estava antes saturado por muitos lugares de asfixia? Como respirar juntos novamente? Um ciência que pense sobre o que pode ser retomado, tecnologias menores que potencialize nossa capacidade de agir e sentir o mundo vivo; formas não proprietárias, reapropriação das formas de reprodução da vida – da casa à infraestrutura urbana. Uma ciência que sustente formas de vida não-fascista e que investigue novos problemas porque não se contenta em apenas responder os problemas que nos colocam.

“Si lo vemos bien, la biopolítica nunca ha tenido otro propósito: garantizar que nunca se constituyan mundos, técnicas, dramatizaciones compartidas, magias, en el seno de las cuales la crisis de la presencia pueda ser vencida, asumida, pueda devenir un centro de energía, una máquina de guerra”.


Proposição: Nessa rodada, a zona de confluência investigativa se dará em torno da experiência temporal e dos sentidos da presença.


Queremos olhar para a ambiguidade presente no acontecimento Covid19 entre a suspensão do tempo, um respiro (a paragem brusca da qual falou Latour aqui: https://www.tramadora.net/2020/04/16/remar-juntos/ e, por outro lado, uma experiência de tempo acelerado, asfixia, produzida pelos novos dispositivos de produtividade, desempenho, mobilização permanente. As fronteiras entre vida, prazer, trabalho encontram-se esfumaçadas. O tempo da domesticidade, aliás, é caracterizado pelo embaralhamento dessas fronteiras; os novos dispositivos do teletrabalho atuam também diante da nossa culpa civilizacional de experimentar o tempo livre; precisamos nos mostrar produtivos, disponíveis, enquanto as tecnologias digitais ampliam a mensurabilidade, o controle e a mobilização total de nossas vidas. A oferta ampla de entretenimento virtual parece querer nos salvar do desconforto do tempo suspenso e da catástrofe que estamos vivendo: “Tenemos que escoger si queremos seguir siendo un terminal del algoritmo de la vida que organiza el mundo o bien un interruptor de la pesadilla que nos envuelve”. O que significa “parar”? O que significa não poder parar, nunca? ” los lentos son perdedores!”.

Como pensar a rivalidade entre desempenho e experiência, conexão e relação, sacrifícios individuais e o prazer do encontro como imagem da luta de classes no capitalismo contemporâneo?

Para essa primeira rodada, sugerimos também a companhia dos dois textos da próxima Conversação Febril (a seguir).

Novamente, sugerimos que o material seja publicado como “comentário” no post do site: https://www.tramadora.net/?p=1823 até o dia 7 de maio. Sugerimos o movimento de ler com atenção aos comentários de outras praticantes, talvez algo te convoque para novos lugares, talvez haja o desejo de comentar, iniciar uma conversa.

Protocolo Investigativista (PIA)[editar | editar código-fonte]

Nessa experimentação, o próprio desenho do laboratório (infraestruturas, protocolos, métodos, documentos, artefatos etc) é parte da investigação. Encontrar a melhor forma de caminhar junto, de habitar problemas comuns e constituir um coletivo que sustente uma prática no tempo, exige muita mediação, cuidados, práticas e conhecimentos, uma verdadeira arte do pharmakon. Como evitar as práticas de pesquisa que convertem a participação em mecanismos de captura e extração? Como lidar com as armadilhas dos dispositivos autorais, sua economia e as divisões do trabalho que ela engendra? Como lidar com os regimes de propriedade, acesso e posse do conhecimento produzido? Muitos aqui estão habituados às iniciativas de colaboração, no campo científico ou artístico e sabem que essas perguntas não são triviais. A experiência indica que um boa estratégia para enfrentá-las é evitar os princípios abstratos e verificar na prática, caso a caso e de forma situada, qual é o desenho dos protocolos que desejamos estabelecer. Este protocolo de pesquisa coletiva também almeja atacar o problema de identidade e de fronteira que delimitam a Zona de Contágio: como evitar o fechamento identitário e bloquear a chegada do novo? Como manter a continuidade, o acúmulo das experiências, o reconhecimento e as mutualidades? Novamente, estamos diante de um problema das composições e pertencimentos, ligas e alianças. O Laboratório, nesse sentido, é também um experimento de uma tecnologia social de pertencimento. Desejamos conversar sobre este tema e vamos abrir uma página wiki pra edição colaborativa desse protocolo. Vamos publicar uma versão 1.0 e enviaremos outra mensagem com o link.

Conversações Febris II: Experiência do tempo e os sentidos da presença diante da pandemia - 7 de maio de 2020[editar | editar código-fonte]

https://www.tramadora.net/2020/05/05/ii-conversacao-febril-experiencia-do-tempo-e-os-sentidos-da-presenca-diante-da-pandemia/

Nessa conversa, queremos olhar para a ambiguidade presente no acontecimento Covid-19 entre a suspensão do tempo, um respiro (a paragem brusca da qual falou Latour aqui: https://www.tramadora.net/2020/03/29/imaginar-gestos-que-barrem-o-retorno-da-producao-pre-crise/ e, por outro lado, uma experiência de tempo acelerado, asfixia, produzida pelos novos dispositivos de produtividade, desempenho, mobilização permanente na reacomodação do capitalismo.

As fronteiras entre vida, prazer, trabalho encontram-se esfumaçadas. O tempo da domesticidade, aliás, é caracterizado pelo embaralhamento dessas fronteiras; os novos dispositivos do teletrabalho atuam também diante da nossa culpa civilizacional de experimentar o tempo livre; precisamos nos mostrar produtivos, disponíveis, enquanto as tecnologias digitais ampliam a mensurabilidade, o controle e a mobilização total de nossas vidas. A oferta ampla de entretenimento virtual parece querer nos salvar do desconforto do tempo suspenso e da catástrofe que estamos vivendo: “Tenemos que escoger si queremos seguir siendo un terminal del algoritmo de la vida que organiza el mundo o bien un interruptor de la pesadilla que nos envuelve”. O que significa “parar”? O que significa não poder parar, nunca? ” los lentos son perdedores!”.

Como pensar a rivalidade entre desempenho e experiência, conexão e relação, sacrifícios individuais e o prazer do encontro como imagem da luta de classes no capitalismo contemporâneo?

Sugerimos também a companhia dos dois textos para essa Conversação Febril (a seguir).

Video da sessão II - Tempo, Silêncios, Ritmos em Pandêmia[editar | editar código-fonte]

Vídeo editado da segunda conversação-investigativa e febril que conta com muita coisa bonita já produzida entre nós. Silêncios, contra-tempo, respiros coreográficos, todo um ritmo que soubemos inventar na esquiva algorítmica.

Link para video: https://www.tramadora.net/2020/05/27/tempo-silencios-ritmos-em-pandemia-video/

Entrevista Lavits_Covid19_#4: uma intrusão viral convoca novos saberes e novos modos de saber[editar | editar código-fonte]

Nos primeiros meses de 2020, o Brasil e o mundo foram acometidos pela pandemia do novo coronavírus. A intrusão viral fez surgir impulsos múltiplos: negação da ciência, criação de falsos dualismos entre manutenção da vida e economia, vigilância corporativa e entre pares, cuidado coletivo, discussão sobre papel do estado, solidariedade, desejos de explicação e temor foram apenas alguns dos sentimentos, discursos e práticas que emergiram, e seguem vivos, nesse período.

Habitar o acontecimento covid-19 foi a vontade que motivou a convocação da Zona do Contágio, um laboratório situado, de prática coletiva de uma ciência do risco, espaço de convergência de saberes e atores sociais diversos, que deseja mobilizar uma inteligência coletiva alternativa à vigilância e ao controle.

“Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e intervenção na medida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social”, descreve a convocatória.

Coordenado por Henrique Parra (Unifesp) e Alana Moraes (doutoranda no Museu Nacional – UFRJ), pesquisadores do Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento – da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membros da Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), o Laboratório Zona de Contágio é uma iniciativa de confluências, um híbrido do coletivo Tramadora, Projeto Laboratório do Comum do Pimentalab/Unifesp e Lavits. O Laboratório recebe o apoio da Lavits/Fundação Ford. A equipe da Zona de Contágio conta com a colaboração da antropóloga Bru Pereira e da cientista social Jéssica Paifer.

Fernanda Bruno, pesquisadora do MediaLab.UFRJ e membra da Lavits, entrevistou Henrique Parra e Alana Moraes sobre a iniciativa. O diálogo está transcrito a seguir e integra o quarto episódio da série Lavits_covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigilância.

LINK para a entrevista: http://lavits.org/lavits_covid19_4-uma-intrusao-viral-convoca-novos-saberes-e-novos-modos-de-saber/?lang=pt

Investigar dispositivos, controle e mobilização total em tempos de pandemia[editar | editar código-fonte]

POST: https://www.tramadora.net/2020/05/15/investigar-dispositivos-controle-e-mobilizacao-total-em-tempos-de-pandemia/

Seguimos tramando zonas de confluências entre os fios de uma ciência dos dispositivos e uma ciência de retomada.

Para a próxima Conversação Febril (21/05 – 19hs) gostaríamos de dar mais atenção para o acontecimento covid-19 como um experimento de novas técnicas de controle. Cartografar os movimentos do poder que não mais restringe, constrange, impossibilita, mas atua fazendo funcionar: mobiliza, engaja e conduz. Dispositivos de desempenho nos exigem provas de eficiência e sacrifício em longas jornadas. Novas formas de medir, qualificar, avaliar – a cidadania sacrificial também é policial e gerencial: todos vigiam, todos denunciam, todos avaliam os “serviços” e dão sua nota, todos participam e se sentem convocados em “fazer sua parte”. A vida imersa dentro do trabalho, o trabalho como forma permanente de auto-empreendedorização, mobilização total, uma sociedade de “capital humano”, vida convertida em “administração” e concorrência.

Os detratores agora são os improdutivos, vagabundos, aqueles que não são eficientes o suficiente, irresponsáveis. Pílulas para dormir, pílulas para acordar, muitas formas de neutralizar os sintomas. Uma nova arquitetura algoritmizada funcionando para ordenar, permitir as “melhores decisões”, as “melhores buscas”, evitar os imprevistos, os excessos, os erros. Resultados, relatórios, multitarefas. Ninguém precisa sair de casa agora: está tudo aqui na nova paisagem doméstica-produtiva-reprodutiva e de consumo que se tornou o “lar”.

Nas universidades e escolas, tecnologias coorporativas mediando formas de aprendizagem e produzindo ambientes educacionais – o que é, de fato, uma “aula”? O que é, de fato, uma “produção relevante”? O que é, de fato, uma “experiência”? O que é, de fato, uma “avaliação”?

No chão da fábrica: trabalhadoras de saúde e suas tecnologias de cuidado e de guerrilha atuando pela desobediência, defendendo a saúde coletiva contra a necropolítica do Estado;

No chão da fábrica: escolas pensando sobre sua existência e reorganizando a possibilidade de uma comunidade escolar que está para além da sala de aula, mas acontece nessas práticas de cooperação, de viver junto, de sustentar um desejo coletivo atuando pela desobediência ao que ordena o Estado.

No chão da fábrica: os trabalhos mais mal-remunerados, mais precarizados, ligados aos cuidados são o que mais importam agora.

No chão da fábrica: as ruas da metrópole e os vagões lotados de ônibus e metrôs, os corpos pretos, precarizados, são os que habitam a zona do sacrifício e se deslocam para que a produção não seja interrompida, para que as infraestruturas permaneçam funcionando.

No chão de fábrica: constatamos que a família nuclear biológica heterossexual é o que amortece todo o colapso ao mesmo tempo que percebemos os limites de suas formas patriarcais, binárias, suas tecnologias de domesticação e controle que também fazem o gênero “funcionar”, “desempenhar”. Somos capazes de viver de outra forma?

O poder quer nos convencer que o “desemprego mata mais do que a pandemia” – no fundo, isso revela com total transparência o fato de que o trabalho se tornou uma chantagem e que a mobilização total é a única técnica de governo.

O medo do poder reside na nossa capacidade de poder viver sem ele: deponer los poderes que nos gobiernan coincide o tiende a coincidir con un hacer sin ellos, y viceversa.

Para adensar essa conversa gostaríamos de investigar, descrever e analisar coletivamente algumas manifestações e materializações dos dispositivos de controle em nossas vidas durante a pandemia. Como percebemos, sentimos e narramos o que se apresenta como atualização das formas de controle do trabalho, da vida, dos cuidados, das relações, dos afetos, dos corpos. Como funcionam esses mecanismos, suas solicitações, técnicas, formas de mensuração e avaliação? Como somos convidadas a nos criar, a fabricar um “eu” que funcione?


Sua postagem se tornará pública para outrxs pessoas que por lá passarem também.

  • Para inspirar esse percurso e a Conversação Febril do dia 21 de maio, as 19hs, indicamos alguns textos:

DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre Sociedade do Controle In: Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2007: http://www.somaterapia.com.br/wp/wp-content/uploads/2013/05/Deleuze-Post-scriptum-sobre-sociedades-de-controle.pdf

RODRIGUES, Pablo Manolo. Algoritmos y biomoléculas, 2020: https://www.tramadora.net/2020/05/15/algoritmos-y-biomoleculas/

PRECIADO, Paul. Aprendiendo del virus, 2020 Tradução: https://medium.com/textura/aprendendo-com-o-v%C3%ADrus-1f8542d3ed78

Conversações Febris III - 21/05[editar | editar código-fonte]

Nesta quinta-feira (21/5 as 19hs) conversaremos sobre Dispositivos, Controle e Mobilização Total em tempos de Pandemia (link abaixo) com a participação do colega Ricardo Teixeira.

Link para video: https://www.youtube.com/watch?v=hXkWPGY1i2g

Respirar: uma ciência dos contagiosamente vivos[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/06/02/repirar-uma-ciencia-dos-contagiosamente-vivos/

Mais um grupo de zap lotado de mensagens não lidas, outra página no facebook pra seguir, caixa de emails com 987 msgs não lidas, notificação de reunião agendada, duas lives imperdíveis no mesmo horário, recomendação de leitura enviada no grupo do trabalho, panela de pressão apitando, o meme sem graça enviado pelo colega, ninguém comentou a mensagem da convocatória do sindicato, celular sem espaço na memória, apagar rapidamente 2573 fotos, filha pede socorro pra entrar na sala virtual com a professora, impossivel abril o powerpoint enviado pelo chefe com as tarefas da semana. Nos solicitam para curtir, compartilhar, subir uma hashtag, assinar mais uma petição, ter uma opinião sobre a última polêmica, estar disponível, entrar em um novo grupo, nos mobilizar. Mais um jovem negro morto pela polícia, outra medida de precarização dos direitos aprovada pelo governo sem qualquer protesto, hoje 1048 mortos em decorrência do covid-19, uma reunião ministerial que nos faz entrever com assombro a transparência do funcionamento do poder.

Tudo na mesma tela, na mesma superfície, no mesmo ambiente, a mesma topografia, com a mesma velocidade.

“Não posso respirar!” A circulação da imagem de George Floyd, como um contra-feitiço, disparou uma onda inesperada de revolta nos EUA. Os corpos pretos são sensores de um mundo que não pode mais se sustentar, enunciam os caminhos de uma ciência de retomada e nos revelam a verdade da guerra em curso. “Não posso respirar” também contém as formas do possível, as imaginações de liberdade produzidas pela revolta contra os comandos do provável. Contagiosamente vivos.

Saturação, esgotamento, asfixia. O que significa poder respirar?

Neste momento, desejamos experimentar e investigar entre todxs uma dobra intensiva no percurso de habitar uma forma coletiva de pesquisa diante dessas muitas impossibilidades do encontro. Como, nessa condição de isolamento e de crescente mediação tecnológica, fabricar e sustentar novas alianças, inteligência e ação coletiva? Quais características (linguagens, sensibilidades, infraestruturas) devem estar presentes para sustentar uma conversação que é também um modo de conhecer?

Foi preciso aguardar alguns dias após nosso último encontro para enviar uma nova mensagem. Criar um breve silêncio, desaturar, fazer vazar, deixar o corpo vibrar um pouco mais com as palavras, as mensagens, a revolta e todos os acontecimentos da semana.

Como Laboratório de experimentação (ontoepistêmica e política) a Zona de Contágio vai adquirindo novos adensamentos e nos interpela sobre como seguir a investigação. Realizamos 3 encontros virtuais, criamos zonas de confluência entre linhas de investigação (ciência dos dispositivos e ciência de retomadas), compartilhamos produções, literaturas e começamos a estabelecer um vocabulário e sentidos compartilhados. Neste percurso um pequeno coletivo de pessoas, afetadas por questões intensificadas pelo acontecimento Covid-19 começou a fabricar novas alianças. Um “laboratório do comum” é inseparável da comunidade política transitória que emerge em torno de problemas comuns e das estratégias de luta que esses problemas provocam:

1) Regimes de conhecimento (as disputas em relação à ciência, os saberes menores e não autorizados, as ontoepistemologias dos saberes das lutas, corpos como sensores);

2) Regimes de poder que atualizam formas de controle; Biopoder-Biopolítica, dispositivos (novas formas de mobilização e desempenho, tecnologias de gênero e racializadoras/racistas, a relação entre a casa, o corpo, o prazer e a produção);

3) Regimes tecnopolíticos e tecnoestéticos (a complexidade tecnosomática; dataficação, algoritmização da vida e novos modos de extração e trabalho; alteração nos modos de associação, desejos e individuações tecnomediadas);

4) Transição societal e os limites do capitaloceno/plantationoceno/antropoceno (terra e o mundo vivo, relação entre viventes; extrativismo ampliado e formas cosmopolíticas de luta).

Essas dimensões dão forma a um amplo programa de investigação que atravessa de diferentes formas as motivações e desejos dos praticantes do Laboratório Zona de Contágio. Com a experiência desta breve trajetória, sentimos que o momento nos convida a uma nova dobra que contribua para intensificarmos as conversações entre nós. Isso nos leva, imediatamente, a pensar sobre as próprias condições exigidas para essa investigação: um problema relativo ao desenho do laboratório.

Em diversos espaços da vida, o isolamento físico e a crescente mediação das tecnologias de comunicação digital, radicalizaram uma mutação em curso. Há uma crise generalizada das formas de representação: nas dinâmicas de produção do real e verdadeiro; nas instituições das democracias representativas. Seja no âmbito no trabalho, em nossos coletivos políticos, nos espaços de ação institucional e familiar, sentimos um esgotamento da capacidade de produzir conhecimentos coletivos e sentidos compartilhados sobre o que nos passa e nos acontece. A própria arquitetura dos ambientes digitais nos agencia a emitir continuamente mais uma explicação, mais uma opinião, mais uma tomada de posição. Conversações implicadas, cumplicidades do pensamento e conspirações são mais raras. Estamos saturados de informações que produzem impotência, infelicidade e desorganização, bloqueiam a possibilidade da experiência, de sermos afetados pelo mundo.

Com uma Ciência de retomada, deslocamo-nos do representacionismo para uma política experimental. A Zona de Contágio nasce nessa encruzilhada que não separa o modo de conhecer dos modos de existência que desejamos fazer prosperar. Um laboratório é também um lugar onde se fabricam coisas. No primeiro encontro esboçamos o problema de um possível protótipo: um dispositivo de pesquisa coletiva, um arranjo para uma conversação em tempos de pandemia, como sustentar e fazer reverberar uma prática? Como produzir um encontro entre corpos e pensamentos, desejos, intuições diante de um terreno esgotado, cansado e de poros obstruídos? Como produzir espaços para o ritmo, o contra-tempo em um mundo cada vez mais cibertecnomediado?

Este meta-problema de investigação (desenho do laboratório) é um problema análogo àquele vivido em diferentes espaços da vida social (nos coletivos de trabalhadores, nas organizações sociais, em grupos ativistas etc). A crise de presença e a erosão das formas de vida em comum que agora sentimos de maneira radical é apenas um sintoma mais agudo do um modo de vida neoliberal que já vivíamos.

Assim, imaginamos que uma boa maneira de experimentarmos a construção deste protótipo seria pensarmos sobre quais são as perguntas que nos implicam com aquele conjunto de problemas enunciados acima em 4 grandes eixos. Pensar sobre novas perguntas que nos interessam é também realizar uma cartografia-investigativa do Comum entre nós. Um percurso de investigação situada em nossa experiência contemporânea tecnomediada pode nos ajudar a compreender um pouco mais sobre as condições de emergência de novas subjetivações políticas e novas individuações coletivas, a começar pela própria Zona de Contágio.

Para esse ciclo sugerimos alguns textos inspiradores

  • Partilhas sensíveis e essenciais em tempos pandêmicos [ou quando poderemos novamente ir ao teatro sem medo?], de Marina Guzzo: https://n-1edicoes.org/062
  • Economia psíquica dos algoritmos e laboratório de plataforma: mercado, ciência e modulação do comportamento. Fernanda Glória Bruno, Anna Carolina Franco Bentes, Paulo Faltay (PDF)

http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/download/33095/19357

Conversações Febris IV - 4 de junho[editar | editar código-fonte]

Link para video da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=fDgRcIIve7E

Inventar brechas, saturar os controles: educação, crise da presença e imaginações tecnopolíticas - 18 de junho de 2020.[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/06/14/inventar-brechas-saturar-os-controles-educacao-crise-da-presenca-e-imaginacoes-tecnopoliticas/

“Governar o comportamento de pessoas ou máquinas exige mecanismos de controle que assegurem a ordem, contrapondo a tendência à desorganização. A chave do governo (“conduzir a conduta”) é a informação. A informação é estatística por natureza e se organiza segundo as regras da probabilidade. Conhecer os padrões de conduta do presente nos permitirá predizer e guiar as ações futuras. A informação (já não o interesse) é a “linfa vital” da ordem cibernética. Portanto, a Hipótese Cibernética já não confia na racionalidade do indivíduo (muito imperfeito, limitado, ignorante de si mesmo), nem tampouco na tendência ao equilíbrio do conjunto (e sim, o contrário), senão que trabalha na construção deliberada e consciente de um novo entorno socia: um sistema-rede de nós transparentes, em conexão e desconexão permanente, organizado em torno da gestão ótima da informação. O capitalismo cibernético. O pesadelo” (Amador Fernández-Savater – O pesadelo de um mundo em rede).

Quase três meses de confinamento – para alguns. Nesse pouco tempo, já vivemos uma reconfiguração tecnopolítica expressiva de nossas vidas. A expansão do teletrabalho, suas arquiteturas, disposições e ambientes atuam agora pelo regime TINA: there is no alternative. O teletrabalho nos exige provas de eficiência e sacrifício em longas jornadas como se tivéssemos que compensar o fato de que finalmente podemos ficar em casa. Estamos vendo agora, por muitos dispositivos, novas formas de medir, qualificar, avaliar – uma nova cidadania do desempenho que também é uma cidadania policial e gerencial: todos vigiam, todos denunciam, todos avaliam os “serviços” e dão sua nota, todos participam e se sentem convocados em “fazer sua parte”.

Rapidamente as plataformas corporativas de ensino vão conformando um novo debate sobre a relação entre ensino e aprendizagem, sobre distância, conectividade, novas imagens de aprendizado, dispositivos de metrificação, organização e gestão do trabalho, avaliação e produção relacionados ao ensino. Os debates em torno das tecnologias de ensino à distância reforçam a ideia de que teremos que nos adaptar ao novo regime sociotécnico mais “eficiente”, mais correto e que eliminaria os desperdícios – sem dar a devida atenção para o fato de que agora chamam de desperdício o que costumávamos chamar de experiência. Os CEOS das grandes corporações de TI nos dizem que a sala de aula “perdeu o sentido” e que as relações educacionais podem ser muito mais eficientes dessa forma já que trata-se de produzir e fazer movimentar o “capital humano”. Edufactory cibernética, a redução de formas de conhecimento em “produção e gestão de conteúdo”.

Estamos atordoados diante da nossa brutal incapacidade coletiva de pensar alternativas sociotécnicas que possibilitem autonomia, radicalização democrática ou uma forma de experiência que não seja a do desempenho, das muitas formas de avaliação, certificação, controle e modulação existencial. E essa paralisia é também uma crise de presença diante das novas urgências. Estamos diante de uma escolha infernal: aderir ou recusar.

No entanto, desejamos fazer outras perguntas. É preciso abrir uma conversa epocal sobre o que significa uma aula, quais os sentidos da presença no que se refere à produção de conhecimento e os sentidos fortes da experiência que atravessam as formas de criação e de conhecimento. Qual é o papel da universidade e dos espaços de educação formal, como espaços de encontros de pensamento-luta, diante da corrosão absoluta dos sentidos democráticos que vivemos hoje? Essa corrosão se produz desde um entrelaçamento entre os novíssimos modos de extração neoliberal-cibernético com formas muito antigas de racismo neocolonial. Muito da arquitetura tecnoalgorítmica de vigilância, comando, controle, mas também de desempenho e de eficiência tem a ver com esse entrelaçamento.

Como redesenhar a pesquisa, o ensino universitário e escolar para uma lógica da conjunção? Que arranjos acadêmicos, investigativos, pedagógicos e de convívio poderiam ativar uma fratura que permita “pular os muros” da lógica proprietária do conhecimento, mas cair longe deles? Como manter, por algo despertado na quarentena, nossa capacidade de decifrar os signos segundo o desejo, liberando espaço para a vibração do desejo-pesquisa, desejo-educação, desejo-arte, desejo-luta?

Contra-pedagogias da encruzilhada: Não uma recusa técnica, mas uma tecnopolítica que sustente formas de existência não-fascistas, não-binárias, emaranhadas. Como pensar a corrosão democrática a partir da aposta na disputa dos regimes de conhecimento – as disputas em relação à ciência, os saberes menores e não autorizados, as ontoepistemologias dos saberes das lutas que possam reconfigurar nossas arquiteturas e espaços de conhecimento?

Como escapar das escolhas infernais?

Para essa #5 Conversações Febris, dia 18 de junho as 19hs, sugerimos também algumas leituras pra inspirar essa conversa.

Luiz Rufino Rodrigues Junior, Pedagogias das encruzilhadas, Revista Periferia, v.10, n.1, p. 71 – 88, Jan./Jun. 2018. https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/view/31504/

Antonio Lafuente: Elogio à sensorialidade da Cultura: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/elogio-a-sensorialidade-da-cultura/

PARRA, H.Z.M.; CRUZ,L.; AMIEL, T.; MACHADO,J. Infraestruturas, Economia e Política Informacional: o Caso do Google Suite For Education. MEDIAÇÕES, Londrina, v. 23 n. 1, p. 63-99, Jan./un. 2018. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/32320/pdf

Gigantes da tecnologia estão usando esta crise para colonizar o Estado: https://jacobin.com.br/2020/05/gigantes-da-tecnologia-estao-usando-esta-crise-para-colonizar-o-estado/

Naomi Klein, Coronavírus pode construir uma distopia tecnológica: https://theintercept.com/2020/05/13/coronavirus-governador-nova-york-bilionarios-vigilancia/

Giorgio Agamben: Réquiem para os estudantes: https://n-1edicoes.org/082

Conversações Febris V - 18 de junho[editar | editar código-fonte]

Link para video da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=_LDSqbn2G9U&t=28s

Zona de contágio: Como seguir? - Projeto coletivo de pesquisa; comunidade autônoma temporária.[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/07/01/zona-de-contagio-como-seguir-projeto-coletivo-de-pesquisa-comunidade-autonoma-temporaria/

Nos cinco encontros realizados tecemos caminhos, investigamos juntas a possibilidade de retomarmos o ritmo nos interstícios algorítmicos de novas verdades tecnológicas. Experimentamos convocações de presença, a possibilidade de respirar juntos em um ambiente de muitas saturações, comandos e novas disciplinas. Criamos encontros, narrativas, escritas, vídeos, performances, diálogos intensos.

Fizemos isso a partir de duas coreografias de pensamento: ciência da retomada e ciência dos dispositivos, movimentos investigativos de atentar tanto para os saberes minoritários, das lutas e conspirações dos viventes como também para as novas formas do poder que nos conduzem e paralisam. Nessa trajetória, 4 grandes dimensões de analise foram emergindo como fios que ajudaram a tramar uma investigação selvagem: regimes de conhecimento; regimes de poder; regimes tecnopoliticos e tecnoesteticos; transição societal e os limites do antropoceno/capitaloceno/plantationoceno.

Em nosso ultimo encontro, entretanto, mergulhamos de forma mais detida numa reflexão sobre a educação (formal e informal), universidade, escola, tecnologias, praticas e saberes em luta diante das reconfigurações do presente e das intensificações provocadas pela pandemia covid-19. Sentimos que neste ultimo encontro foi possível articular aquela tessitura intelectual que vinhamos nutrindo com uma discussão mais aterrada nas experiencias vividas sobre problemas comuns que nos afetavam. Talvez porque estejamos todxs de alguma maneira envolvidos com atividades educacionais, de pesquisa e criação (formais ou informais) e porque sentimos coletivamente os limites de muitos desses espaços para responder à crise total que habitamos hoje.

Por isso tudo pensamos em uma continuidade para a Zona de Contágio que pode se fazer como um experimento (um protótipo) de uma de rede de pesquisa entre as muitas experiências e práticas com que estamos implicadas; uma zona de confluência temporária entre as investigações e fazeres com que cada um aqui esta envolvido. A partir das discussões anteriores e sob um guarda-chuva generoso (educação) que emergiu em nosso ultimo encontro, listamos algumas temas que sentimos ressoar nas produções e atuações dos participantes desse percurso:

educação, regimes de conhecimentos e práticas minoritárias;  saberes das lutas; experimentos de Retomada;  educação, modos de subjetivação, tecnologias;  dispositivos de controle e (des)controle;    mediações técnicas, tecnológicas e algoritmos; regimes de sensibilidade, percepção, sensação e modos de conhecer;  ambiências e corpo, cidade, experiência X ambientes tecnomediados; campos experimentais de luta e direitos; práticas educacionais e ambientes/tecnologias digitais: o que pode ser uma aula?  Quais universidades? pluriversidades? territórios de luta e de produção de conhecimento.

Imaginamos para o próximo semestre enveredar numa investigação coletiva entramada pelas praticas de cada um em torno de problemas confluentes. Nesta quinta-feira (02/07) gostaríamos de conversar sobre essa ideia e também sobre como realizá-la. Inicialmente, pensamos em seguir com encontros quinzenais neste mesmo dia/horário pra compartilharmos nossas experiências e também produzirmos coisas juntxs. Gostariamos de intensificar a documentação coletiva que já estamos praticando e quem sabe produzir um livro coletivo ao final do ano, sintetizando um tanto do que estamos criando e ainda vamos produzir durante o próximo semestre. A realização de podcasts, experimentações corpograficas, sonoras e audiovisuais também são desejadas!

Conversações Febris VI - 07 de julho[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=krmBxgYTJ7U


Retomadas: Ciências terranas & Tecnopolíticas & Fabulações[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/07/23/retomadas-ciencias-terranas-tecnopoliticas-fabulacoes/

Passadas algumas semanas de nosso ultimo encontro, queremos retomar a conversa para organizarmos um novo ciclo de atividades da Zona de Contagio a partir de agosto. As agendas já estão sendo engolidas pelo trabalho e demandas da vida. Urge sinalizar alguns horizontes de confluências pra que possamos abrir espaço para novos encontros.

Seguindo a disponibilidade inicial, pensamos em manter as quintas-feiras (19hs `as 21hs) como um momento de encontro para a realização de atividades e produções coletivas (conversações febris, entrevistas; produção audiovisual, podcast, leituras e estudos coletivos etc). Um período reservado para respirarmos juntos, trocarmos experiências e também experimentarmos outras linguagens na criação e produção de conhecimento.

Seguiremos investigando as questões que emergiram e que ganharam consistência em nosso percurso do semestre anterior; tramando nas encruzilhadas entre as ciências dos dispositivos e as ciências das retomadas. Nossa investigação também implica numa meta-investigação sobre as formas de pesquisa e coprodução de conhecimentos [uma síntese do percurso pode ser consultada aqui]

A Zona de Contágio pode se fazer como um experimento (um protótipo) de uma de rede de pesquisa entre as muitas experiências com que estamos implicadas; uma zona de confluência temporária entre as investigações e fazeres com que cada um aqui esta envolvido. Imaginar, inventar, conectar outros fazeres (ensino, pesquisa e extensão),  modos de produção de conhecimento, ciências e tecnologias, alianças entre espaços educacionais formais e não formais, experimentações de linguagens, transbordamentos e produções contra-disciplinares.

Se os regimes hegemônicos de produção de conhecimento, ciência e tecnológica e a configurações atuais de suas instituições (universidades e escolas) são parte do problema que hoje enfrentamos (crise ambiental, covid-19, as muitas formas de reprodução do colonialismo, racismo e desigualdades); quais seriam então os desenhos possíveis de outros modos de conhecer (e suas instituições) que apontem para rotas de fuga do capitaloceno e das formas renovadas de dominação e exploração? Que tipo de conhecimento somos capazes de produzir na contramão do “realismo político” e das novas estratégias de controle? Onde aterrissar?

*O que pode ser uma universidade terrana no tempo das catástrofes?

*O que pode ser uma aula?

Até lá receberemos materiais audiovisuais, textos, fotografias, audios que possam contribuir para inaugurar esse novo ciclo de conversas. Os materiais podem ser publicados diretamente como comentários neste post ou enviados para o email conspire [arroba] tramadora.net

Os CEOS das grandes corporações de TI nos dizem hoje que a sala de aula “perdeu o sentido” e que as relações educacionais podem ser muito mais eficientes quando inteiramente mediadas pelas plataformas digitais, já que trata-se de produzir e fazer movimentar o “capital humano”. Edufactory cibernética, a redução de formas de conhecimento em “produção e gestão de conteúdo”. No entanto, desejamos fazer outras perguntas, contar outras histórias. É preciso abrir uma conversa epocal sobre o que significa uma aula, quais os sentidos da presença no que se refere à produção de conhecimento e da ciência e os sentidos fortes da experiência e do encontro que atravessam as formas de criação e de conhecimento – para além das disputas pelas grandes Verdades. Qual é o papel da universidade e dos espaços de educação informal como zonas de sinérgicas de pensamento-luta, diante da corrosão absoluta dos sentidos democráticos que vivemos hoje? Como podemos nos apropriar de outras tecnicidades que intensifiquem a experiência ao invés de neutralizá-las?

***

Sugerimos dois textos de inspiração para essa conversação febril:

TORNAR-SE SELVAGEM, Texto de Jerá Guarani: https://piseagrama.org/tornar-se-selvagem/

ONDE ATERRAR? Texto de Bruno Latour: https://piseagrama.org/onde-aterrar/

Conversações Febris VII - 13 de agosto[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=zPR1-7wIM1s


Onde aterrar? Saberes de retomada & Ciências de um mundo por vir.[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/08/26/onde-aterrar-saberes-de-retomada-ciencias-de-um-mundo-por-vir/

A Zona de Contágio vem se constituindo como um lugar de confluência entre pesquisadores e todes interessadxs na Guerra das Ciências, mas também nas lutas e práticas de conhecimento do mundo por vir. No próximo encontro vamos falar sobre saberes de retomada e produção de conhecimento terrano – pensar os enlaces entre territórios de autonomia e universidades, possíveis tecnologias do Comum que possam fazer frente ao novo regime de extração e reconfiguração do mundo após (e durante) o acontecimento pandêmico.  

Se os regimes hegemônicos de produção de conhecimento, ciência e tecnologia e as configurações atuais de suas instituições (universidades e escolas) são parte do problema que hoje enfrentamos (crise ambiental, covid-19, as muitas formas de reprodução do colonialismo, racismo e desigualdades intensificadas por certos arranjos tecnopolíticos extrativistas); quais seriam então os desenhos possíveis de outros modos de conhecer (e suas instituições) que apontem para rotas de fuga do capitaloceno-plantationoceno e das formas renovadas de dominação e extração? Que tipo de conhecimento somos capazes de produzir na contramão do “realismo político” e das novas estratégias de controle possibilitadas pelo capitalismo do desastre e suas novas cercas e profilaxias?  Como ativar, acompanhar e retomar as práticas do Comum, não proprietárias, que podem fazer frente às dinâmicas neocoloniais do “screen new deal” no plantationoceno diante da crise sanitária que finalmente nos faz constatar a indiscernibilidade entre “ciências sociais” e “ciências naturais” e os limites urgentes das nossas formas de vida? Como essa retomada pode também reconfigurar nossas agendas e institucionalidades de pesquisa, ensino e extensão perturbando as fronteiras das universidades e fazendo do conhecimento uma prática de encontros atravessada pelo mundo vivo?

“A nossa avaliação é que, neste exato momento, estamos vivenciando uma das maiores possibilidades de um fim desse mundo eurocristão, monoteísta, colonialista e sintético. Esse mundo está chegando ao fim. Não é à toa que estamos vivendo esse desespero, essa grande confusão. Mas, por incrível que pareça, estamos vivendo também uma nova confluência”

textos sugeridos:

Somos da Terra de Antônio Bispo dos Santos: https://piseagrama.org/somos-da-terra/

Tornar-se selvagem de Jerá Guarani: https://piseagrama.org/tornar-se-selvagem/

(Micro)políticas da vida em tempos de urgência do Grupo de Pesquisa Cidade e Trabalho: https://www.reflexpandemia.org/texto-59

Conversações Febris VIII - 27 de agosto[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=zvOy9RkdXxk

Testemunho e vidência: Observações (em nome próprio) sobre relações raciais na universidade.[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/09/08/testemunho-e-videncia/

Nossa próxima conversação febril será com Uirá Garcia, professor e pesquisador da UNIFESP. Uirá abrirá uma conversa sobre sua experiência como professor negro na universidade perseguindo caminhos de vidência, desviando das imagens hiper-saturadas. Seguimos pensando sobre tecnopolíticas de retomada – o que pode ser a produção do conhecimento? Como podemos imaginar uma universidade habitada por multiplicidades, saberes , corpos e lutas contra-coloniais? Quais imagens de pensamento se abrem?

O cinema de vidência, para Deleuze, é aquele que nos dá a ver: nos permite ver o imponderado, o que hesita e excede. A vidência, para o filósofo, nos mostra “o tempo que sai dos eixos, e se apresenta em estado puro”; nos mostra “a imagem inteira e sem metáfora, que faz surgir a coisa em si mesma, literalmente, em seu excesso de horror ou de beleza, em seu caráter radical ou injustificável, pois ela não tem mais de ser ‘justificada’, como bem ou como mal” (DELEUZE, 1990, p. 31).

Conversações Febris IX - 10 de Setembro[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=LqiumIdA0TM

Habitar um futuro que não repetirá o passado[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/09/18/habitar-um-futuro-que-nao-repetira-o-passado/

O mundo como uma imensa teia de coreografias de existências em que os seres constituem-se mutuamente e ao mesmo tempo constroem o futuro. Para alianças com aqueles que não pensam como nós, que não pensam como humanos, ou que não pensam, precisaremos ser, além de eticistas-bricoleurs, coreógrafos.

A conversa pretende seguir tateando o mundo em que vivemos a partir das consequências ambientais-societais-biológicas da emergência do Antropoceno e como ele nos interpela em nossos modos de existência e regimes de conhecimento. Renzo propõe pensar a emergência do Antropoceno também a partir das “transformações radicais na tecnosfera com o advento da inteligência artificial”. Diante dos novos conflitos e possibilidades, Renzo convoca imagens sobre coexistência e coabitação que habitam os movimentos da dança:

“Vivemos em um momento no qual libertar humanos de seus grilhões através da denúncia deixou de ser suficiente (apesar de ainda necessário); é preciso participar dos processos de construção de mundos; isso necessita ser algo maior do que o humano”

A dança fala sobre movimento em equilíbrios sempre instáveis e impermanentes e “talvez seja por isso que a dança tenha sido usada, em inúmeras culturas no decorrer dos tempos, como estratégia de conexão existencial entre coisas desiguais, como humanos e deuses, humanos e ecossistemas, humanos e animais, e humanos em situação de diferença (de gênero, por exemplo)”. Pensar o mundo como tramas de coreografias de coexistência, simbioses e novos movimentos de futuro.

textos de referência para a conversa:

https://piseagrama.org/habitar-um-futuro-que-nao-repetira-o-passado/

https://piseagrama.org/onde-aterrar/

Conversações Febris X - 24 de Setembro[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=1dX_y54TFOw

O que pode uma ciência terrana diante do fim do mundo como conhecemos?[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/10/05/o-que-pode-uma-ciencia-terrana-diante-do-fim-do-mundo-como-conhecemos/

Convite à investigação coletiva face ao acontecimento pandêmico

Durante os últimos seis  meses na Zona de Contágio, produzimos um espaço de reflexão, intercâmbio de experiências, circulação de textos, relatos e perspectivas face à emergência pandêmica. Como Laboratório de experimentação (onto-epistêmica e política) a Zona de Contágio vem se constituindo como um lugar de confluência entre pesquisadores, criadores e todas interessadas na Guerra das Ciências, nos novos embates e controvérsias que se relacionam com as tecnologias na produção de mundos, política e natureza, mas também nas lutas e práticas de conhecimento do mundo por vir.

Orientados por dois grandes eixos: Ciência dos Dispositivos e Ciências de Retomada, pensamos sobre a reorganização dos poderes tecnototalitários e algoritmizados das nossas vidas, casas, universidades e cidades no que diz respeito ao “isolamento social”, trabalho remoto, “educação à distância”; domesticidade e o conjunto de relações que nos constitui; Refletimos também sobre produção de saberes e conhecimentos não proprietários que se voltam à terra, ao ritmo, ao corpo, às muitas formas de cooperação para pensar, produzir e sustentar tecnologias do Comum nos interstícios do Capitaloceno e sua tecnopolítica.

Nos próximos quatro meses (6 encontros), e a partir dos experiências e conhecimentos que tivemos nesse período, gostaríamos de nos concentrar na sistematização e produção de uma investigação coletiva que possa se desdobrar em uma publicação (on-line).

A idéia é que cada pessoa (ou mais de uma) poderá propor e realizar um ensaio-investigativo para compor a publicação final. Pensamos em algo simples, curto, e que não conflita com todos os outros trabalhos e tarefas que já temos que dar conta, mas que expresse o encerramento de um ciclo de trocas e pensamentos que experimentamos na Zona de Contágio.

Partiremos de uma pergunta comum:

O que pode uma ciência terrana diante do fim do mundo como conhecemos?

A cada encontro, gostaríamos de adensar esse processo pensando juntas as etapas que compõem a fabricação do conhecimento coletivo face ao acontecimento pandêmico: definição de eixos temáticos; formas de pensar problemas e como permanecer um pouco mais com eles; modos de interrogar as formas modernas de separação entre sujeitos e objetos  no que diz respeito à produção de conhecimento.

Como a experiência pandêmica nos força a pensar? Como ela interroga e transforma o quê e como conhecemos? O que pode ser uma ciência que perturbe e desloque tanto as formas de produzir “pensamento crítico” a partir de “denúncias”, quanto as formas de produzir ciência como verdades incontestáveis. Também desejamos experimentar a confusão de fronteiras disciplinares (“ciências da natureza”, “ciências sociais”; “ciências humanas”). Desejamos refletir sobre pressupostos científicos como controvérsias: afinal, o que é um “fato”? ; Como produzir “evidências”? Como fazer da linguagem, do movimento e formas estéticas elementos fundamentais na produção e circulação de conhecimento? Como produzir uma ciência implicada e com habilidade de nos permitir responder às questões urgentes que nos interpelam? Como produzir uma ciência localizada que seja ao mesmo tempo incômoda aos poderes constituídos? Quais alianças ontoepistemológicas precisamos criar para produzir verdades cúmplices entre formas de luta e  produção de conhecimento capazes de assumir a guerra de mundos que vivemos?

Conversações Febris XI - 08 de Outubro[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão: https://www.youtube.com/watch?v=JlMKGA_7Eyg

Monocultura[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/10/16/monocultura/

Em nosso ultimo encontro conversamos sobre a realização de uma pesquisa e publicação coletiva e discutimos uma proposta de organização para os próximos 5 encontros. A seguir, apresentamos um possível roteiro para esta caminhada investigativa a partir do que emergiu neste último encontro.

Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.

Para cada encontro teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.

Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio).

Conversações Febris XII - 22 de Outubro[editar | editar código-fonte]

Link para vídeo da sessão:

Monocultura II: Notas sobre Monocultura – Investigações I[editar | editar código-fonte]

Post:https://www.tramadora.net/2020/10/28/monocultura-investigacoes-i/

“A empresa monocultora foi o motor da expansão europeia. As chamadas plantations produziram a riqueza – e o modus operandi – que permitiu aos europeus dominarem o mundo. Fala-se em tecnologias e recursos superiores, mas foi o sistema de plantation que tornou possível as frotas marítimas, a ciência e mesmo a industrialização. As plantations são sistemas de plantio ordenado realizado por mão de obra de não proprietários e direcionados à exportação. As plantations aprofundam a domesticação, reintensificando as dependências das plantas e forçando a fertilidade. Tomando de empréstimo da agricultura de cereais promovida pelo Estado, investiu-se tudo na superabundância de uma só lavoura. Mas faltou um ingrediente: removeu-se o amor. Ao invés do romance conectando as pessoas, as plantas e os lugares, os monocultores europeus nos apresentaram o cultivo pela coerção” A. Tsing

tomar a imagem da monocultura a partir das diferentes figurações e construir uma paisagem comum sobre a monocultura: o que estamos falando ou estamos vemos quando pensamos em monocultura? Quais são seus elementos constitutivos?

Lembrei do Hijikata Tatsumi. Era dançarino de Butô ou Ankoku Butô (“dança das trevas”). Aí, num dos diários dele, cacei uma citação agora: “É dito que Deus não existe no Japão, mas o que substitui Deus, por exemplo, é a vida cotidiana – ela existe ao nosso redor e os japoneses são capazes de captá-la. Só não se deve enganar o cotidiano. E os japoneses são dotados de uma capacidade de lidar com esse conflito (…). O conceito de carne é anárquico entre os japoneses”(HIJIKATA apud UNO, 2018:138).


a carne é o excesso. excesso e desobediência ao corpo orgânico/biológico

Quem escreve sobre Tatsumi Hijikata é o filósofo Kuniichi-Uno, amigo do dançarino de Akita, última província antes da ilha de Hokkaido. Hijikata emigra para Tóquio no contexto dos deslocamentos de camponeses, agricultores e povos indígenas do norte do Japão para as províncias industriais. Deslocamento marcante no início período Meiji até os anos do pós-guerra. Em Tóquio ele se envolve com os movimentos filosóficos  e cria o butô, uma metamorfose contínua do corpo. Hijikata tinha características étnicas dos povos do norte do Japão: o que o fazia ser tido como um “caipira” em Tóquio. Citação do diário de Hijikata, sobre o processo de uma coreografia que chamou de Dançarina Doente: “Em 1938, nas regiões de monocultura do nordeste (Tôhoku), existia uma espécie de oclusão anal. O grito (das crianças) estava silenciado na cultura preservada. Esse grito é um acompanhamento importante de minha dança hoje. Foi um grito primitivo do qual eu posso rir, hoje, após doze anos de vida em Tokyo. Eu saboreio esse grito e o fundo de gestos ritualizados através das minhas observações da vida cotidiana. Eu invento os passos moldados de nossos dias a partir da terra negra onde dançar não é voar. Meu mestre de dança é a terra negra do Japão” (HIJIKATA apud UNO, 2018: 33).  

traz a lembrança de como somos pensados pelas bactérias. De como o intestino é um segundo cérebro,  o lado visceral da gente. E na boca vai mastigando cada vez menos sabores. Paragens no paladar. Paragens na pluralidade de alimentos possíveis advindas da Revolução Verde. Um mundo preenchido de pasto, soja, milho, cana, trigo e mais meia dúzia de plantas industrializadas até em sua genética. A monocultura dentro do boca reduz as possibilidades da flora intestinal. [cont...]

Domesticidade[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/10/31/a-casa-domesticidade/

“A pandemia me forçou a habitar o mesmo lugar de uma forma radicalmente diferente. Agora já não habito o mesmo mundo.”

A experiência pandêmica nos proporcionou o colapso sincrônico entre as escalas planeta-casa-corpo. Fronteiras e divisões que pareciam fixas se atualizam e se reconfiguram; revelando sua falácia e artificialidade. O contágio, o transbordamento, as interdependências estão por toda parte. A situação nos convoca a inventar outros corpos, outros regimes de sensibilidades, outras formas de ser e conhecer.

A suspensação inicial da rotina, nos primeiros momentos da pandemia, visibilizou a fina trama das infraestruturas das cidades, da casa e dos trabalhos invisíveis que sustentam a vida comum.

Com a  continuidade da situação pandêmica, a organização da vida previamente existente se intensifica através de velhos e novos dispositivos de governo da nossa existência. Entre o mito da casa-refúgio e o vivido na casa-fábrica-escola-prisão há uma pletora de experiências com os mecanismos de controle mas também de criação de novos ritmos, desvios, alianças e insubmissões: devir-selvagem.

A mistura corpo-casa-planeta cria novos conflitos sobre velhos divisores. Queremos descrever e narrar as práticas pelas quais o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho torna-se cada vez mais indistinto; contar como o público-estatal e o privado-capitalista se organizam na trama casa-família-estado-corporação; Que corpo a casa faz? Como a casa se torna uma rígida fronteira que separa o “dentro” do “fora”?  investigar as atualizações da monocultura – plantation – em arquiteturas e formas de habitar que produzem o regime heterossocial, seus corpos, seus funcionamentos generificados; sentir como o desenho da forma-cidade, suas infraestruturas e assimetrias se manifestam a partir de uma experiência onde morar já não é a mesma coisa.

Domesticidade é a noção disparadora do próximo encontro investigativo da Zona de Contágio (05/11).

Quinta-feira 05/11 às 19hs

Sobre o percurso:

Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.

Em cada encontro, neste ciclo final, teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.

Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio).

Para este encontro da próxima quinta-feira (05/11) ativaremos uma segunda trama em torno da noção de Domesticidade.

Até lá queremos trocar materiais que possam compor o encontro: imagens, textos, outras pesquisas, áudios, vídeos, conversações, artefatos que possamos seguir desdobrando em criações até a ativação da próxima trama. Para essas trocas mais ágeis que compõem os encontros podemos utilizar a lista de email ou o grupo do telegram: https://t.me/joinchat/EZE_-BhA66VjK78XV4Pmcw

Enviaremos aqui também um link para o drive que serve como repositório de materiais (fragmentos, rascunhos ou criações finalizadas) para a investigação coletiva e publicação final:https://owncloud.labjor.unicamp.br/index.php/s/fomtepVNz3EHmSn

Como seguir criando perguntas e narrativas que habitem a Pandemia Covid19 com a radicalidade que ela nos força a pensar, mantendo a abertura e a vibração deste acontecimento? Como investigar coletivamente resistindo à paralisia das formas institucionais de pesquisa, nos aliando com lutas e movimentos da vida e da terra que não estão na universidade?

Desejamos que o exercício criativo seja inspirado pelos afetos que constituímos e que sustentaram a formação desse coletivo improvável e implicado em problemas comuns. Queremos insistir na experimentação ontoepistemológica que atravessou a realização de todos os nossos encontros e pretendemos que essa publicação dê consistência a este corpo-sensor-coletivo capaz de deslocar a política do sensível, criando outras condições de sensibilidade, percepção, objetividade e análise. Neste fazer, outros fatos e evidências são fabricadas simultaneamente à constituição do laboratório enquanto uma comunidade política e epistêmica temporária.

Conversações Febris XIII - 05 de Novembro[editar | editar código-fonte]

https://www.youtube.com/watch?v=ogqdUtpmS6k

Cosmotécnicas & Tecnopolíticas[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/11/17/cosmotecnicas/

A intrusão viral covid-19 produziu uma série de atravessamentos e colapsos nos nossos modos de ser e estar no mundo. Colapsos mundificadores e modificadores de escala que nos lembram que mesmo entre tantos humanos, existem escalas que nos perfuram e nos invadem, escalas moleculares-bacterianas-virais-simbióticas-parasitárias, escalas que atrelam o menor dos organismos aos Estados nações, ao capitalismo moderno e suas inúmeras plantations, à vida nas ruas da cidade ao #FiqueEmCasa, ao aqui e agora.

Experimentamos também, junto ao luto (ou falta dele) de milhares de mortos pela covid19,  uma incapacidade coletiva de habitar este acontecimento naquilo que ele nos interroga sobre as cumplicidades entre os diferentes regimes de poder (cispatriarcal, colonial, racista, antropocêntrico, capitalista, …); e naquilo que ele nos incita acerca dos modos pelos quais somos parte do problema a ser respondido.

Que agora, boa parte do debate público esteja limitado aos conflitos em torno da produção da vacina, é um sintoma de que os sentidos da vida (individual e coletiva) neste planeta estão reduzidos a um problema biomolecular, cujo tabuleiro está sendo construído e definido na confluência da Ciência&Tecnologia Corporativa e das disputas geopolíticas, uma aliança capitalista infernal entre corporações privadas e estados nacionais.

Interrogar a crise sanitária-ambiental como um problema da nossa civilização, implica em insistir na radicalidade das relações de interdependência entre diferentes processos que participam da criação do fenômeno covid19.

É preciso considerar as longas cadeias produtivas e seus arranjos sociotécnicos: do vírus à plantation transnacional; da extração de minério colonial para a confecção de chips e celulares; do agro-tôxico-transgênico-negócio ao prato na mesa; das infraestruturas de comunicação, as mediações algorítmicas e as interfaces da modulação existencial; das biomoléculas à informatização da vida; das turbinas de Belo Monte, das vidas submersas à tomada 110V de nossas casas.

Retomar a vida, reconquistar a possibilidade de um futuro não programado, florescer mesmo ali onde o solo é radioativo, acontece ali onde se cultiva e se avança tateando, ao mesmo tempo inventando, sustentando e defendendo um território comum. Para acompanhar essas tramas e desvios, nutrimos uma ciência dos dispositivos que investiga os poderes e suas técnicas, ao mesmo tempo em que praticamos uma ciência das retomadas, através de perguntas de nos implicam com os grandes problemas e que ampliam nossas potência de imaginar, desejar e criar.

Em nossos fazeres cotidianos e em ações de diversas coletividades, há diversas experiências de tensionamento da monocultura técnica e tecnológica que organiza nossas vidas. Há uma pluralidade de éticas-estéticas (decoloniais, antiracistas, contra-heterossocial…) que se atualizam em formas de vida, e cada uma delas é indissociável da produção e da sustentação de um mundo comum e suas infraestruturas. Há, portanto, cosmotécnicas distintas que produzem mundos diferentes.

Cosmotécnicas e tecnopolíticas: investigar e narrar as experimentações e lutas de fabricação de mundos.

Quinta-feira, 19 de novembro as 19hs


Conversações Febris XIV - 19 de Novembro:

https://www.youtube.com/watch?v=DNew-vUeksM

Respirar e Políticas do Vivente[editar | editar código-fonte]

Post: https://www.tramadora.net/2020/12/01/respirar-e-politicas-do-vivente/

Em nosso próximo encontro da Zona de Contágio, dia 3/12, às 19h,  vamos conversar em torno do tema: “Respirar e políticas do Vivente”

Em seu último ensaio, Brutalisme, Achille Mbembe lança algumas pistas importantes para pensar o mundo de emergências confluentes em que vivemos hoje. Se a humanidade se constitui como força geológica planetária, ele diz, não podemos mais falar em “história”, mas, a partir de agora, toda história é necessariamente geo-história – incluindo a história dos poderes.

Mbembe chama atenção também para a dimensão molecular e química desse processo. A toxicidade, o filósofo defende, é uma dimensão estrutural do presente que afeta não apenas a terra, as águas, criaturas, mas também os corpos humanos. Visto por esse ângulo, a função dos poderes contemporâneos é a de, como nunca antes, tornar possível a extração. É uma “dialética da demolição”, da “criação destruidora” que alveja os corpos, os nervos, o sangue e o cérebro de humanos e outras criaturas: “um gigantesco processo de despejo, remoção, evacuação forçada”.

A asfixia também tem sido a arma das “forças de segurança” e policiais contra os corpos pretos; arma de contenção e administração de zonas de mortes. O mundo pandêmico, produzido pelas novas tecnologias e ciências da monocultura e do extrativismo é também o mundo “balcanizado” das grandes metrópoles, fabricado, por sua vez, por tecnologias racializadas de vigilância e extermínio. De George Floyde até João Beto Freitas; passando pelo mapa racializado dos que mais sofreram pela crise sanitária que vivemos: o que está em jogo é uma evidência escandalosa da impossibilidade de respirar.

A respiração é uma condição do vivente que revela sua mutualidade constitutiva: a inspiração de uma pode ter sido a expiração de outra.  Desde uma perspectiva atmosférica não é  mais possível conceber corpos individualizados, encerrados e acabados – o que constitui a comunidade sempre precária e instável dos viventes é uma delicada interdepedência ecológica em movimento e variações permanentes: só pensamos o mundo porque somos o mundo e somos o mundo quando respiramos com ele. Por isso, a impossibilidade de respirar pode também ser entendida como o esgotamento das possibilidades que o mundo colonial tem de permitir as tramas que sustentam a respiração dos viventes. Esse mundo está em combustão – diz Mbembe – cabe a nós nos implicarmos, em meio às cinzas e à fumaça, na tarefa da vida: a tarefa de investigar o que restou, o que está danificado, o que pode ser recuperado, o que precisa ser abandonado – e o que pode ainda “vingar”, como se diz das plantas. O que será necessário para retomarmos a terra e sua capacidade de sustentar a respiração? Como seria pensar uma política que expressasse uma nova sensibilidade subversiva a partir dessa comunidade instável e precária dos viventes? Quais coreografias de revoltas, lutas, pensamentos para que a força de conspirar – como respirar junto – possa ser retomada? Quais as novas conflitualidades que emergem a partir da criação de uma política respiracionista (e suas tecnologias e ciências) contra aqueles que asfixiam e interrompem a possibilidade ecológica da vida interespecífica com suas ciências, tecnologias e poderes de extração?


Conversações Febris XV - 03 de Dezembro:

https://www.youtube.com/watch?v=wfisPRQjBCw


Produções, trabalhos e comentários enviados[editar | editar código-fonte]

Remar Juntas[editar | editar código-fonte]


Bordas e Confluências[editar | editar código-fonte]

Investigar Dispositivos, controle e mobilização total[editar | editar código-fonte]

Respirar: uma ciência dos contagiosamente vivos[editar | editar código-fonte]

Retomadas: ciências terranas, tecnopolíticas e fabulações[editar | editar código-fonte]


Artigos e ensaios (re)publicados no blog-site[editar | editar código-fonte]