Reportagens do JOA/Anna Beatriz e Letícia

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Que chapéu?[editar | editar código-fonte]

Onde convivem a arquitetura do século XX e os problemas urbanos de hoje, o centro de São Paulo é um lugar que inspira reflexões entre passado e presente. Em meio às estações de metrô República, Anhangabaú e São Bento, encontra-se um diverso comércio: lojas de instrumentos musicais e de cabelos e perucas são permeadas por pequenos bares onde os caminhantes param para lanches rápidos. O Teatro Municipal, a Catedral da Sé e o Pátio do Colégio são pontos históricos que provocam a imaginação nos olhares mais atentos. Por vezes, no entanto, o forte cheiro de urina nos lembra que a realidade atual da metrópole é muito diferente daquela que romantizamos.

Procurando entender um pouco do que mudou nos últimos cem anos de São Paulo, saímos à procura da Chapelaria Paulista, uma das mais tradicionais lojas de acessórios da cidade. Mas ela não existe mais. A ampla loja se localizava na Rua Quintino Bocaiuva tendo sido inaugurada em 1914. Há aproximadamente um ano e meio, o número 94 deu lugar à Joalheria Paulista, nome que homenageia o comércio centenário que ali existia anteriormente. O público consiste agora em jovens em busca do par de alianças perfeito, seja de noivado ou namoro, de ouro ou prata. A história que os comerciantes das redondezas contam é que a Chapelaria Paulista teve suas portas fechadas em razão de um desabamento. No entanto, a atendente da joalheria, Tali Silva, logo explicou que o sumiço da chapelaria se deu pela queda na procura por chapéus. As vendas foram se tornando raras e o negócio não se sustentou. O desabamento realmente ocorreu, mas em circunstâncias diferentes: "Muitas pessoas falam que a loja fechou porque o teto caiu, mas na verdade foi uma parede que acabou cedendo durante a reforma da joalheria", esclareceu com seu batom rosa choque.

Seguimos em busca de outra chapelaria que pudesse nos mostrar um panorama do estilo de vida do início do século passado. No caminho, pedindo informações para ambulantes, ouvíamos sempre a questão: “afinal, que estilo de chapéu vocês procuram?”. Ao chegarmos a Esquina Chapelaria, estabelecimento que existe há 85 anos na Rua do Seminário, compreendemos tal inquietação. O gerente, Gerci Reis, informou-nos que apesar de existirem menos chapelarias hoje - há apenas 5 especializadas-, o público se concentrou. Agora, parte dos jovens procuram por boinas, enquanto os amantes do estilo country adquirem chapéus e botas que remetem a esse universo. Os preços variam. “Existem chapéus de 50 e de 500 reais”, disse o gerente com seu sotaque mineiro e olhar lento.

Na década de 1910, o chapéu era peça fundamental no guarda roupa dos cidadãos. São Paulo era a terra da garoa, com temperaturas mais baixas que as atuais. Além disso, os bondes e as carroças eram meios de transporte abertos, o que fazia com que a boa aparência fosse valorizada. Para Gerci, que trabalha há 16 anos na Esquina, foi a chegada dos carros que fez com que a venda de chapéus caísse. “Quando surgiu o automóvel, o chapéu começou a perder popularidade. É que ele bate no teto do carro, no banco, amassa…” Atualmente, são os homens que compram mais. “Mas no passado as mulheres usavam muito. Ficavam lindas as mulheres de chapéu”, suspirou o gerente.