Saúde Planetária e Comunicação Humana/Conceitos em Saúde Planetária/Conceitos Iniciais/script
A iminência da crise climática evidenciou a necessidade de atenção acerca dos impactos das mudanças climáticas na saúde humana.[1]
Nesse contexto, a perspectiva da saúde planetária se desenvolve como um campo de estudo transdisciplinar voltado para compreensão e ação frente aos agravos à saúde ocasionados pela alteração sistemática do clima. Com a ideia norteadora de que a saúde do planeta não está separada da nossa própria saúde.[2]
Assim, mediante a análise da forma como as ações antropogênicas inferem no mundo natural, a exemplo do crescimento populacional, padrões de consumo, mudança no uso do solo e poluição global, a saúde planetária se caracteriza como um campo de estudo e intervenção transdisciplinar em defesa da sustentabilidade da vida no planeta Terra.[3]
Outros pontos avaliados pela saúde planetária tangem desde a relação entre perda de biodiversidade e os ciclos biogeoquímicos alterados, até a diminuição da qualidade do ar, acesso à água potável, qualidade nutricional, risco de lesões, exposição a doenças infectocontagiosas, incidência de desastres naturais, que de maneira direta e indireta prejudicam a qualidade de vida e a saúde humana.[4]
Saúde planetária constitui campo transdisciplinar emergente que reconhece a interdependência fundamental entre saúde humana e integridade dos sistemas naturais terrestres. Este paradigma representa mudança conceitual profunda em relação a abordagens tradicionais de saúde ambiental: ao invés de focar exclusivamente em exposições ambientais como riscos à saúde humana, saúde planetária compreende humanos como componentes de ecossistemas complexos, cuja saúde depende da manutenção de processos planetários dentro de limites seguros.
No contexto do Antropoceno, nova era geológica caracterizada pela influência humana dominante sobre clima, biogeoquímica e biosfera, a humanidade enfrenta desafio existencial de navegar desenvolvimento civilizacional dentro de "limites planetários" que definem espaço operacional seguro para prosperidade humana. O objetivo desta análise é elucidar os fundamentos conceituais da saúde planetária e do framework de limites planetários, baseando-se em evidências científicas verificadas e conectando esses conceitos às práticas de profissionais de saúde.
Conceituação e Evolução Histórica da Saúde Planetária
[editar | editar código]Saúde planetária é definida pela Comissão Rockefeller-Lancet como "a busca do mais alto padrão atingível de saúde, bem-estar e equidade em todo o mundo através da atenção judiciosa aos sistemas humanos, políticos, econômicos e sociais, que constroem o futuro da humanidade e dos sistemas naturais da Terra que definem os limites seguros dentro dos quais a humanidade pode florescer". Esta definição integra três componentes essenciais:
Saúde como fenômeno sistêmico: Reconhece que saúde individual e populacional emerge de interações complexas entre fatores biológicos, comportamentais, sociais, econômicos e ambientais, não podendo ser compreendida mediante reducionismo biomédico. Por exemplo, a epidemia de diabete mellitus tipo 2 reflete não somente genética individual ou "escolhas" de estilo de vida, mas sistemas alimentares industrializados dependentes de monoculturas intensivas em combustíveis fósseis, urbanização que elimina espaços para atividade física, mercadologia agressiva de ultraprocessados, estresse crônico de precarização laboral, e destruição de conhecimentos tradicionais sobre alimentação e movimento.
Equidade como imperativo ético central: Explicita que mudanças ambientais globais afetam desproporcionalmente populações que menos contribuíram para causá-las e dispõem de menor capacidade adaptativa. Enquanto 10% mais ricos da população global são responsáveis por aproximadamente 50% das emissões de gases de efeito estufa, populações de baixa e média renda, particularmente em África subsaariana, Sul da Ásia e pequenos estados insulares, sofrem impactos mais severos de eventos climáticos extremos, insegurança alimentar e doenças vetoriais emergentes. Princípios de justiça climática demandam que soluções priorizem proteção de vulneráveis e redistribuição de recursos.
Interdependência humano-natureza: Afirma que prosperidade humana não pode ser construída sobre degradação de sistemas naturais que fornecem serviços ecossistêmicos essenciais: ar limpo, água doce, solos férteis, clima estável, polinização, regulação de doenças, recursos medicinais, significado cultural e espiritual. A metáfora de Ailton Krenak - líder indígena brasileiro - sobre economia e humanidade como navio e tripulação ilustra essa interdependência: priorizar "economia" (navio) sobre pessoas e natureza (tripulação) é garantir o naufrágio coletivo.
Historicamente, o conceito foi antecipado por Van Rensselaer Potter na década de 1970 ao propor "bioética global" como "ética da terra, ética que salva-vidas, ética da população, ética do consumo" baseada em reconhecimento de que "sobrevivência do ecossistema total é a prova de um sistema de valores". Fritz Jahr, em 1927, havia empregado o termo "bioética" para designar ética das relações entre humanos e não-humanos, perspectiva marginalizada pela subsequente dominância de bioética médica focada em indivíduos. Na América Latina, desenvolvimento de bioética ambiental integrou movimentos por justiça socioambiental, conectando defesa de territórios tradicionais, direitos de povos originários e resistência a modelos extrativistas de desenvolvimento.
2. Framework de Limites Planetários
[editar | editar código]O conceito de limites planetários, proposto por Johan Rockström e colegas em 2009 e refinado por Will Steffen em 2015, identifica nove processos do sistema terrestre cuja perturbação além de limites específicos pode desestabilizar o Holoceno - estado climático relativamente estável dos últimos 11.700 anos que possibilitou o desenvolvimento da civilização agrícola. Os nove processos são:
1. Mudança Climática: Limite definido por concentração atmosférica de CO₂ <350 ppm (atualmente ~420 ppm) ou forçamento radiativo <1 W/m² (atualmente 2.3 W/m²).
Estado: limite ultrapassado. Impactos sobre saúde incluem ondas de calor, eventos extremos, doenças vetoriais, insegurança alimentar.
2. Integridade da Biosfera: Duas dimensões: (a) diversidade genética, taxa de extinção <10 extinções/milhão/espécies/ano (atualmente 100-1000 vezes maior); (b) diversidade funcional, manutenção de grupos funcionais críticos.
Estado: limite ultrapassado em ambas as dimensões. Perda de biodiversidade compromete serviços ecossistêmicos incluindo polinização agrícola, purificação de água, regulação de pragas e doenças, descoberta de fármacos.
3. Mudança no Sistema Terrestre: Percentual de floresta remanescente por bioma deve permanecer >75% (floresta boreal) a >85% (floresta tropical).
Estado: limite ultrapassado em alguns biomas. Desmatamento causa alterações hidrológicas regionais, liberação de carbono estocado, perda de habitat, emergência de zoonoses.
4. Uso de Água Doce: Consumo de água doce azul (rios, lagos, aquíferos) <4000 km³/ano globalmente, com limites específicos por bacia hidrográfica.
Estado: dentro do limite globalmente, mas ultrapassado em várias bacias regionais. Escassez hídrica afeta saneamento, higiene, produção alimentar, gerando doenças diarreicas, conflitos [15].
5. Ciclos Biogeoquímicos: (a) Nitrogênio - aplicação <62 Tg/ano (atualmente 150 Tg/ano); (b) Fósforo - fluxo para oceanos <11 Tg/ano (atualmente 22 Tg/ano).
Estado: ambos os limites ultrapassados. Excesso de nutrientes causa eutrofização de águas (proliferação de algas tóxicas, zonas mortas oceânicas), poluição de água potável (metaemoglobinemia infantil).
6. Acidificação Oceânica: Estado de saturação de aragonita ≥80% do nível pré-industrial (atualmente ~84%).
Estado: aproximando-se do limite. Dissolução de estruturas carbonáticas compromete recifes de coral (biodiversidade marinha, proteção costeira), moluscos (segurança alimentar).
7. Carga de Aerossóis Atmosféricos: Profundidade óptica de aerossóis <0.25 regionalmente.
Estado: limite ultrapassado no Sul da Ásia. Aerossóis causam doenças respiratórias/cardiovasculares, perturbam padrões de monções afetando agricultura.
8. Depleção de Ozônio Estratosférico: Concentração de ozônio >276 Dobson Units.
Estado: dentro do limite globalmente após Protocolo de Montreal. Depleção de ozônio aumenta radiação UV com riscos de câncer de pele, catarata, imunossupressão.
9. Introdução de Entidades Novas: Inclui poluentes orgânicos persistentes, metais pesados, plásticos, nanomateriais, organismos geneticamente modificados.
Estado: não quantificado globalmente devido à diversidade de substâncias. Exposições causam câncer, disrupção endócrina, neurotoxicidade.
O conceito de limites planetários estabelece "teto ambiental" dentro do qual humanidade deve operar. Combinado com "fundação social" de necessidades humanas básicas (conceito desenvolvido por Kate Raworth como "economia donut"), define espaço seguro e justo para desenvolvimento humano - entre privação social e ultrapassagem ecológica.
Transição para o Antropoceno e Determinantes da Insustentabilidade
[editar | editar código]O Antropoceno - termo proposto para designar nova época geológica caracterizada pela influência humana dominante sobre sistemas terrestres, marca ruptura fundamental com o Holoceno, período de 11.700 anos de relativa estabilidade climática que possibilitou desenvolvimento agrícola e civilizacional. Marcadores estratigráficos propostos para início do Antropoceno incluem: radionuclídeos dispersos globalmente por testes nucleares atmosféricos (meados do século XX), microplásticos ubíquos em sedimentos, alterações na composição isotópica da atmosfera por combustão fóssil, e extinções em massa documentadas no registro fóssil.
A "Grande Aceleração" pós-1950 demonstra crescimento exponencial simultâneo de indicadores socioeconômicos (população, PIB, consumo de energia, água, fertilizantes) e indicadores do sistema terrestre (CO₂, metano, temperatura, acidificação oceânica, perda de florestas tropicais, biodiversidade). Esta sincronia revela que prosperidade material das últimas décadas foi construída sobre exploração insustentável de recursos naturais e externalização de custos ambientais para ecossistemas e gerações futuras.
Determinantes históricos e estruturais: A trajetória que conduziu à crise planetária contemporânea tem raízes profundas no colonialismo europeu iniciado no século XV. Como explicita o documento de referência: "A Modernidade colonial europeia chegou à América Latina de maneira imposta há um pouco mais de quinhentos anos. A estratégia de dominação dos conquistadores obrigou um modo de organizar e pensar o mundo que vigora até os dias de hoje". Este modelo estabeleceu:
- Dualismo humano-natureza: Concepção de humanos como externos e superiores à natureza, legitimando dominação e manipulação sem limites. Contrastava radicalmente com cosmologias de povos originários que compreendiam humanos como parte integrante de redes de interdependências vitais.
- Extrativismo estrutural: Sistema econômico baseado em exportação de "natureza" (metais, madeira, monoculturas) das colônias para centros imperiais, configurando divisão internacional do trabalho que persiste em formas neocoloniais contemporâneas.
- Racismo ambiental: Hierarquização de humanidades ("civilizados" vs "primitivos") que justificou genocídios, escravização e expropriação territorial, estabelecendo padrões de vulnerabilidade diferencial a danos ambientais que se perpetuam através de segregação urbana, localização de indústrias poluentes em territórios marginalizados, e negação de direitos territoriais indígenas.
A Revolução Industrial do século XVIII intensificou esse modelo através da descoberta de "energia fóssil fantasma", vastos estoques de carbono acumulados ao longo de milhões de anos, liberados em século e meio, que possibilitou crescimento econômico aparentemente ilimitado desconectado de produtividade biológica anual. O capitalismo contemporâneo aprofunda insustentabilidade através de: (a) imperativo de crescimento infinito em planeta finito; (b) desconto temporal que subvaloriza futuros distantes; (c) falha em contabilizar externalidades ambientais; (d) concentração de riqueza que desconecta elites de consequências de suas pegadas ecológicas.
4. Saúde Planetária na Prática: Implicações para Sistemas e Profissionais de Saúde
[editar | editar código]O paradigma de saúde planetária transforma compreensão e prática da saúde em múltiplas dimensões:
Reconceituação etiológica: Doenças não transmissíveis, responsáveis por 71% das mortes globais - devem ser reconceituadas como "condições socialmente transmissíveis" ou, mais precisamente, "condições socioambientalmente determinadas". Raciocínio clínico deve incorporar determinantes ambientais: asma exacerbada por poluição atmosférica de tráfego urbano dependente de combustíveis fósseis; diabetes em trabalhadora rural forçada ao sedentarismo após perda de safra por seca climática; hipertensão agravada por estresse de deslocamento populacional pós-enchente.
Prevenção quaternária planetária: Além de prevenir doenças através de modificações de comportamento individual, profissionais devem proteger pacientes e comunidades de iatrogenias sistêmicas - danos causados por sistemas econômicos e políticos insustentáveis. Exemplos incluem: (a) advocacia contra instalação de indústrias poluentes próximas a comunidades; (b) oposição a desmatamento que aumenta doenças vetoriais; (c) promoção de sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis em contraposição a ultraprocessados.
Prescrição de cobenefícios: Intervenções que simultaneamente melhoram saúde individual e planetária devem ser priorizadas: transporte ativo (reduz doenças cardiovasculares, emissões de carbono, poluição atmosférica), dietas baseadas em plantas (reduz riscos cardiometabólicos, emissões do setor pecuário, uso de água e terra), cessação tabágica (benefícios sanitários conhecidos, redução de poluição e emissões). Estudos de modelagem estimam que transição para dietas saudáveis e sustentáveis poderia prevenir 11 milhões de mortes anuais e reduzir emissões alimentares em até 70%.
Atenção Primária à Saúde como lócus privilegiado: A APS possui características que a posicionam singularmente para operacionalizar saúde planetária: capilaridade territorial, longitudinalidade de cuidado, orientação familiar e comunitária, competência cultural, tradição de intersetorialidade e enfoque ecossistêmico. Como afirma McWhinney, importante teórico da medicina de família: profissionais de APS têm "papel essencial na defesa do ambiente saudável para seus pacientes", devendo transitar de "enfoque tradicional" (fragmentado) para "enfoque ecossistêmico" (integrado).
Xie e colaboradores propõem framework para integração de ações climáticas na APS, identificando oportunidades de intervenção em múltiplos setores: energia (eficiência energética em unidades de saúde, transição para renováveis), transporte (incentivo a transporte ativo, otimização de deslocamentos), agricultura (promoção de agroecologia, hortas comunitárias), construção (design bioclimático), planejamento reprodutivo (acesso a contracepção, redução de gravidez indesejada).
Síntese e Desafios da Implementação
[editar | editar código]A tradução de conceitos de saúde planetária e limites planetários em práticas concretas de sistemas de saúde enfrenta barreiras epistemológicas, institucionais, políticas e econômicas significativas. A medicina e saúde pública contemporâneas foram constituídas sob paradigma biomédico reducionista que fragmenta corpo humano em órgãos e sistemas, isola doenças de contextos socioambientais que as produzem, e responsabiliza indivíduos por condições estruturalmente determinadas. Currículos de formação profissional em saúde raramente incluem conteúdos de ecologia, ciências climáticas, determinantes socioambientais ou justiça ambiental, produzindo profissionais conceitualmente despreparados para compreender saúde como fenômeno ecossistêmico.
Institucionalmente, sistemas de saúde são organizados em torno de tratamento de doenças agudas e manejo de condições crônicas individuais, com financiamento, métricas de desempenho e estruturas de carreira que não reconhecem ou recompensam atividades de advocacia política, transformação de determinantes estruturais ou colaboração intersetorial. Profissionais que tentam incorporar perspectivas de saúde planetária frequentemente enfrentam sobrecarga (adicionando responsabilidades a sistemas já saturados), falta de ferramentas práticas e protocolos, ausência de suporte institucional, e resistência de gestores focados em indicadores convencionais.
Politicamente, ação efetiva sobre determinantes planetários da saúde requer confrontação de interesses econômicos poderosos - indústrias de combustíveis fósseis, agronegócio industrial, ultraprocessados, tabaco, automóveis - que exercem influência desproporcional sobre políticas públicas através de lobby, financiamento de campanhas, captura regulatória e produção de desinformação científica. Profissionais e organizações de saúde que se posicionam publicamente sobre questões climáticas e ambientais frequentemente são acusados de extrapolar mandato profissional ou politizar saúde, quando na realidade estão cumprindo obrigação ética de proteger saúde populacional.
A complexidade dos sistemas socioecológicos desafia capacidades analíticas convencionais: interações não-lineares, limiares de mudança abrupta (tipping points), retroalimentações positivas e negativas, efeitos de escala e emergência significam que abordagens reducionistas falham em capturar comportamento sistêmico. Modelagens integradas que acoplam clima, ecossistemas, sistemas alimentares, saúde humana e economia requerem expertise interdisciplinar, dados de alta qualidade em múltiplas escalas temporais e espaciais, e capacidade computacional sofisticada - recursos limitados na maioria dos contextos.
Apesar desses desafios, movimento global crescente de profissionais, estudantes, organizações e instituições acadêmicas está mobilizando-se para posicionar saúde no centro da ação climática. Declarações de emergência climática foram adotadas por British Medical Journal, Lancet, 40+ revistas médicas globalmente, Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA), Conselho Internacional de Enfermagem (ICN), e associações nacionais em dezenas de países. Iniciativas como Planetary Health Alliance congregam 350+ instituições acadêmicas trabalhando em educação, pesquisa e advocacia; Health Care Without Harm mobiliza setor de saúde globalmente para descarbonização e resiliência climática.
Recomendações para Profissionais de Saúde e Formuladores de Políticas
[editar | editar código]Diretrizes para Integração Conceitual e Prática
[editar | editar código]Profissionais de saúde devem desenvolver "alfabetização planetária" - compreensão básica de: (1) conceitos fundamentais de ciência climática e ecologia; (2) limites planetários e status atual; (3) vias causais entre perturbações planetárias e saúde humana; (4) distribuição desigual de vulnerabilidades e impactos; (5) soluções baseadas em cobenefícios; (6) papel e responsabilidades de profissionais de saúde. Esta alfabetização deve informar:
Anamnese ampliada: Incorporação sistemática de perguntas sobre: qualidade do ar residencial/ocupacional; acesso a alimentos nutritivos e água potável; exposição a eventos climáticos extremos; condições de moradia e transporte; níveis de estresse relacionados a insegurança econômica/climática.
Raciocínio clínico ecossistêmico: Consideração rotineira de determinantes ambientais e climáticos na formulação diagnóstica. Exemplo: criança com asma mal controlada, cabe investigar poluição atmosférica domiciliar (fogão a lenha, mofo por umidade) e externa (proximidade a vias de tráfego intenso), não apenas aderência a medicação.
Identificação de populações vulneráveis: Mapeamento territorial de sobreposições entre vulnerabilidades climáticas (áreas de inundação, ilhas de calor urbano, proximidade a indústrias) e vulnerabilidades sociais (pobreza, segregação racial, acesso limitado a serviços) para priorização de intervenções preventivas.
Protocolos de Ação em Diferentes Níveis
[editar | editar código]Nível individual (consultório/clínica):
- Orientação sobre cobenefícios em consultas (ex: prescrição de transporte ativo, orientação alimentar baseada em plantas)
- Desprescrição de intervenções de alto impacto ambiental quando alternativas efetivas existem (ex: preferência por inaladores de pó seco vs dosimetrados que contêm gases de efeito estufa potentes)
- Minimização de desperdício clínico (exames desnecessários, polimedicação)
Nível organizacional (unidades de saúde, hospitais):
- Transição energética (solar, eficiência)
- Gestão sustentável de resíduos (redução, segregação, reciclagem)
- Cadeias de suprimento sustentáveis (medicamentos, equipamentos, alimentos)
- Planos de preparação para emergências climáticas (ondas de calor, inundações)
- Criação de comitês de sustentabilidade com representação multiprofissional
Nível sistêmico (políticas de saúde):
- Incorporação de indicadores de saúde planetária em sistemas de vigilância (ex: morbidade atribuível a ondas de calor, doenças vetoriais emergentes, impactos de poluição atmosférica)
- Financiamento de pesquisa sobre determinantes socioambientais e efetividade de intervenções baseadas em cobenefícios
- Integração de saúde planetária em políticas de recursos humanos (educação permanente, competências profissionais)
- Articulação intersetorial formal (saúde-meio ambiente-transporte-agricultura-planejamento urbano)
Estratégias de Educação e Capacitação
[editar | editar código]Educação profissional: Integração dos 12 princípios transversais de educação em saúde planetária propostos por Stone e colaboradores em currículos de graduação e pós-graduação em todas as profissões de saúde.
- Sistemas naturais da Terra sustentam saúde humana
- Antropoceno representa desafio e oportunidade sem precedentes
- Perturbações ambientais afetam desigualmente os vulneráveis
- Limites planetários definem espaço operacional seguro
- Pensamento sistêmico é essencial para compreender complexidade
- Saúde planetária requer conhecimento e ação interdisciplinares
- Conhecimentos indígenas e tradicionais são valiosos
- Transformação cultural e comportamental é necessária
- Saúde planetária requer liderança e advocacia
- Inovação deve ser guiada por sustentabilidade e equidade
- Evidências científicas devem informar políticas
- Esperança e agência são fundamentais para ação
Educação comunitária: Campanhas de comunicação pública devem conectar saúde cotidiana a determinantes planetários através de narrativas localizadas e acionáveis. Mensagens efetivas:
(a) destacam benefícios tangíveis imediatos ("ar mais limpo hoje reduz ataques de asma em crianças") vs benefícios abstratos distantes ("estabilidade climática em 2100");
(b) utilizam mensageiros confiáveis (profissionais de saúde locais, líderes comunitários);
(c) evitam alarmismo paralisante, enfatizando agência e soluções;
(d) enquadram questões climáticas como questões de saúde, não apenas ambiente.
Mobilização e advocacia: Organizações profissionais de saúde devem posicionar-se publicamente sobre políticas climáticas e ambientais, fornecendo testemunho técnico baseado em evidências sobre impactos sanitários de diferentes opções políticas. Histórico demonstra que profissionais de saúde exerceram papel decisivo em avanços de saúde pública prévios (abolição de escravidão, controle de tabaco, segurança no trânsito, armas) e possuem credibilidade pública elevada para influenciar opinião e política.
Colaboração Interdisciplinar e Transformação Sistêmica
[editar | editar código]Operacionalização de saúde planetária requer transcender silos disciplinares e setoriais através de "saúde em todas as políticas", abordagem que reconhece que determinantes primários da saúde residem fora do setor de saúde (educação, transporte, habitação, agricultura, energia, trabalho) e requer governança integrada. Exemplos de políticas intersetoriais com cobenefícios para saúde e planeta:
Sistemas alimentares: Transição de sistemas industriais intensivos em combustíveis fósseis, água, terra e emissões de metano para sistemas agroecológicos diversificados, locais e baseados em plantas. Cobenefícios: redução de doenças cardiometabólicas, menor pegada ambiental, segurança alimentar resiliente, emprego rural, preservação de biodiversidade agrícola.
Mobilidade urbana: Redesenho de cidades para priorizar transporte ativo (caminhar, pedalar) e transporte público elétrico sobre automóveis individuais. Cobenefícios: redução de sedentarismo/obesidade, menos poluição atmosférica e sonora, diminuição de acidentes de trânsito, maior coesão social, emissões reduzidas.
Energia: Transição rápida de combustíveis fósseis para renováveis (solar, eólica). Cobenefícios: redução dramática de poluição atmosférica (7 milhões de mortes anuais), menor contaminação de água por mineração, acidentes ocupacionais reduzidos, empregos em setor renovável, energia descentralizada resiliente.
Natureza urbana: Expansão de áreas verdes (parques, corredores ecológicos, tetos/paredes verdes). Cobenefícios: redução de ilhas de calor, saúde mental melhorada, espaços para atividade física, purificação de ar, gestão de águas pluviais, biodiversidade urbana.
Implementação efetiva requer mecanismos institucionais que transcendam estruturas governamentais convencionais: conselhos intersetoriais de saúde planetária com representação de múltiplos setores governamentais, sociedade civil e academia; orçamentos intersetoriais que financiem iniciativas integradas; métricas de desempenho que capturem impactos transversais; capacitação de profissionais em colaboração intersetorial.
Finalmente, transformação sistêmica requer confrontar questões de poder, justiça e modelos de desenvolvimento. Como afirmam as Comissões Lancet sobre Saúde Planetária e Sindemia Global: sistemas políticos e econômicos atuais, caracterizados por governança deficiente, busca desenfreada de lucros e engenharia comercial do consumismo, são incompatíveis com saúde planetária. Construção de futuros sustentáveis e equitativos demanda reimaginação de relações entre humanos e natureza, entre diferentes grupos humanos, e entre presente e futuro, projeto profundamente político que profissionais de saúde têm responsabilidade ética de apoiar.
Referências
- ↑ Myers SS, Frumkin H. Planetary health: protecting nature to protect ourselves. Washington, DC: Island Press; 2020.
- ↑ Steffen W, Richardson K, Rockstrom J, Cornell SE, Fetzer I, Bennett EM, et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science. 2015 Jan 15;347(6223):1259855–5. doi: https://doi.org/10.1126/science.1259855.
- ↑ Costello A, Abbas M, Allen A, Ball S, Bell S, Bellamy R, et al. Managing the health effects of climate change. The Lancet. 2009 May;373(9676):1693–733. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(09)60935-1.
- ↑ Watts N, Amann M, Arnell N, Ayeb-Karlsson S, Belesova K, Berry H, et al. The 2018 report of the Lancet Countdown on health and climate change: shaping the health of nations for centuries to come. The Lancet. 2018 Dec;392(10163):2479-514. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)32594-7.