Sociologia e Comunicação/Aula 2

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"Será que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem-vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intricada. Como os homens conseguiam guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas."

(Graciliano Ramos. Vidas Secas)


"Mais adiante havia o depósito de garrafas, o caixote de madeira, o livro apodrecido de contadoria, um pano sujo e de novo a laranja. O olhar não era descritivo, eram descritivas as posições das coisas. Não, o que estava no quintal não era ornamento. Alguma coisa desconhecida tomara por um instante a forma desta posição. Tudo isso constituía o sistema de defesa da cidade. As coisas pareciam só desejar: aparecer - e nada mais. 'Eu vejo'- era apenas o que se podia dizer. (...) Estava olhando as coisas que não se podem dizer. (...) Mesmo o erro era uma descoberta. Errar fazia-a encontrar a outra face dos objetos e tocar-lhes o lado empoeirado. (...) Faltava a parte mais difícil da casa: a sala de visitas, praça de armas. Onde cada coisa esperta existia como para que outras não fossem vistas? tal o grande sistema de defesa. (...) As coisas eram difíceis porque, se se explicassem, não teriam passado de incompreensíveis a compreensíveis, mas de uma natureza a outra. Somente o olhar não as alterava."

(Clarice Lispector. A Cidade Sitiada )


Tá lá o corpo Estendido no chão/ Em vez de rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém…/ O bar mais perto depressa lotou/ Malandro junto com trabalhador/ Um homem subiu na mesa do bar/ E fez discurso pra vereador…/ Veio o camelô vender anel, cordão/ Perfume barato/ Baiana pra fazer pastel /E um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã/ Baixou o santo na porta bandeira/ E a moçada resolveu parar, e então…/ Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém…/Sem pressa foi cada um pro seu lado/ Pensando numa mulher ou no time/ Olhei o corpo no chão e fechei/ Minha janela de frente pro crime…/ Veio o camelô vender anel, cordão, perfume barato/ Baiana pra fazer pastel E um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã baixou o santo na porta bandeira/ E a moçada resolveu parar, e então…Tá lá o corpo estendido no chão…

(João Bosco e Aldir Blanc. De Frente pro Crime)