Sociologia e Comunicação Cásper/Linguagem e Sociedade/Atividade I
ATIVIDADE I - Reflexões sobre as atividades
[editar | editar código]Vamos analisar e responder a cada uma das questões propostas, relacionando-as com os conceitos estudados e aprofundando a reflexão. A ideia é mostrar como os temas da construção social, linguagem, memória e narrativas se conectam com situações cotidianas, literárias e midiáticas.
1) "O universo é feito de histórias, não de átomos." – Trecho do poema "The Speed of Darkness" de Muriel Rukeyser (1913-1980).
2) "Conhecemos a tendência da mente de remodelar toda experiência em categorias nítidas, cheias de sentido e úteis para o presente. Mal termina a percepção, as lembranças já começam a modificá-la: experiências, hábitos, afetos, convenções vão trabalhar a matéria da memória." – Ecléa Bosi, Memória e Sociedade.
3) Sobre a relação entre memória individual e memória coletiva, vamoa plicar as cinco dimensões, mencionadas no texto, ao caso da Copa de 2022: Poderíamos pensar o mesmo sobre a Copa de 2026
a. Valores e perspectivas compartilhados Como os valores sociais influenciam a memória e a narrativa sobre a Copa de 2022?
Desde sua escolha como sede, a Copa do Mundo do Catar esteve envolta em debates sobre direitos humanos, exploração trabalhista e questões de gênero e sexualidade. Diferentes sociedades interpretaram esses temas de formas diversas, dependendo de seus valores culturais.
Exemplo:
Para muitas organizações internacionais e torcedores ocidentais, a Copa de 2022 foi marcada por críticas à falta de direitos para trabalhadores migrantes e à repressão de minorias LGBTQ+ no Catar. Já para setores do mundo árabe e muçulmano, a realização do torneio foi vista como um marco de afirmação cultural e política, desafiando a centralidade europeia e americana no futebol global. Essa diferença de perspectiva mostra como valores culturais orientam narrativas sobre um mesmo evento, impactando a memória que ficará associada a ele.
b. Convenções e padrões narrativos Como a narrativa sobre a Copa foi moldada por convenções do futebol?
O futebol é uma fábrica de narrativas, e a Copa de 2022 seguiu um roteiro clássico:
A trajetória do herói – Grandes craques carregam seleções rumo à glória. A surpresa do azarão – Pequenas seleções desafiam potências. O drama da derrota e da redenção – Times tradicionais caem, mas heróis emergem.
Exemplo: A Argentina e Lionel Messi personificaram a narrativa do herói e da redenção. Messi, criticado durante anos por não vencer uma Copa pelo seu país, finalmente conquistou o título, solidificando sua posição na história do futebol.
Essa narrativa não surgiu espontaneamente, mas foi construída pela mídia e pelos torcedores, reforçando uma estrutura convencional de grandes épicos esportivos.
c. Enquadramento de memórias Como os quadros sociais influenciam a forma como eventos da Copa são lembrados?
O que torna um momento inesquecível no futebol? Muitas vezes, não é apenas a qualidade técnica de um jogo, mas como ele é enquadrado nas narrativas coletivas.
Exemplo:
A vitória do Marrocos sobre a Espanha e Portugal foi narrada como um momento histórico, não apenas pelo aspecto esportivo, mas por sua carga simbólica. Como primeira seleção africana a chegar às semifinais, a conquista foi enquadrada como um marco para a representatividade do futebol africano e árabe. No Brasil, a eliminação para a Croácia nos pênaltis foi narrada dentro da memória traumática de derrotas passadas, reforçando a ideia de um "fantasma dos pênaltis" e uma fragilidade psicológica em momentos decisivos. Esses enquadramentos não são neutros, mas sim orientados pelos discursos e valores culturais de cada contexto.
d. Identidade e pertencimento Como a linguagem do futebol construiu um senso de pertencimento na Copa de 2022?
O futebol é um dos maiores símbolos de identidade nacional e coletiva. A linguagem usada para descrever times e jogadores reforça esse pertencimento.
Exemplo:
O Brasil é tradicionalmente chamado de "país do futebol", e sua identidade está profundamente ligada ao desempenho da seleção. Expressões como "jogo bonito", "camisa pesa" e "copero" são construções linguísticas que reforçam a autoimagem do futebol brasileiro. Durante a Copa de 2022, os torcedores marroquinos usaram a frase "África e mundo árabe unidos" para expressar que sua campanha não era apenas de um país, mas de uma região historicamente subestimada no futebol mundial. Esses exemplos mostram como a linguagem cria laços emocionais e históricos, tornando a memória esportiva coletiva e afetiva.
e. Dinâmicas de poder e privilégio Quais narrativas foram amplificadas e quais foram silenciadas?
Apesar do sucesso da Copa, houve claras disputas sobre quais narrativas seriam dominantes na memória do torneio.
Exemplo:
A FIFA e os organizadores tentaram enfatizar a modernização do Catar, evitando debates sobre questões de direitos humanos. As seleções europeias, que planejaram protestos pró-direitos LGBTQ+, receberam pressão da FIFA para não realizá-los, revelando o jogo de poder sobre quais vozes podem se manifestar no palco global do futebol. Enquanto o título da Argentina foi amplamente celebrado, o papel do Catar como primeira nação árabe a sediar uma Copa foi menos destacado em algumas narrativas ocidentais. Isso mostra como o que é lembrado e o que é esquecido não depende apenas dos fatos, mas das estruturas de poder que determinam quais histórias serão amplificadas.
f. Representações: gênero e raça nas mídias
ONU Mulheres Brasil. TODXS: Um manual de comunicação inclusiva. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2022/03/UA_TODXS10_Final-PORT.pdf. Acesso em: 23 jul. 2024.
g. "É aí que se encontra uma diferença radical entre a memória humana e aquela dos computadores. Estes, lembra-nos Claude Simon, possuem uma memória, mas são desprovidos de lembranças. Por outro lado, os acontecimentos memorizados não se integram em um sentido, não são objeto de representações..." (Candau, 2021 p. 62)
4.)Por que Computadores não têm Representações? (Limitações da IA Atual)
Falta de embodiment (corporeidade):
Sistemas computacionais não têm experiências físicas ou sociais que deem grounding (ancoragem) aos dados. Um modelo de LLM (ex.: GPT-4) "fala" sobre dor, mas não sente dor.
Ausência de intencionalidade:
Dados em computadores são passivos — só ganham sentido quando interpretados por um humano (ex.: um dataset de tweets só vira "discurso de ódio" quando categorizado por pessoas).
Dependência de frameworks humanos:
Até mesmo sistemas de IA generativa (ex.: Diffusion Models, Transformers) operam com correlações estatísticas, não com compreensão genuína. Eles não "sabem" que "gato" é um animal, apenas que a palavra aparece em certos contextos.
Avanços Recentes: Rumo a Representações Computacionais?
Ainda que computadores tradicionais não tenham representações no sentido humano, áreas como:
Cognitive Computing (ex.: IBM Watson): Tenta simular processos de decisão baseados em contexto.
Redes Neurais com Memória Associativa (ex.: Hopfield Networks): Emulam rudimentos de reconstrução de padrões.
Neuro-símbolico (AI Simbólica + Deep Learning): Combina lógica formal com aprendizado estatístico para gerar estruturas semânticas mais ricas.
Porém, mesmo esses sistemas não reproduzem a subjetividade humana — eles apenas aproximam-se de comportamentos interpretativos.
Para um computador, o passado é um registro. Para um humano, é uma história.