Temperaturas Paulistanas/Planejamento/Bom Retiro/Turma D

Fonte: Wikiversidade
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Grupo: Beatriz Magalhães Breno Zonta Gustavo Martini Leonardo Ramos Lucas Toso Raíssa Velten

Introdução

Conhecido pela força comercial, sobretudo na área da moda, o distrito do Bom Retiro teve um início completamente diferente do que se vê hoje: repleto de chácaras e sítios, era visto como zona de retiro das famílias mais abastadas da cidade, sendo que uma delas, a “Chácara Bom Retiro”, deu origem ao nome do bairro.

Os dois principais fatores que impulsionaram a urbanização do local foram a abertura da Estação de Ferro São Paulo Railway, em 1867, atualmente denominada Santos-Jundiaí, e a inauguração da primeira Hospedaria de Imigrantes da cidade, culminando no crescimento do número de indústrias instaladas no local e na ocupação das zonas residenciais por imigrantes, principalmente por italianos e portugueses, numa primeira fase, e depois por judeus, vindos a partir dos anos 20, que investiram nas indústrias têxtil da região.

Quase cem anos depois, a composição do bairro se tornou culturalmente miscigenada. As zonas residenciais se tornaram escassas, e o comércio têxtil dominou o bairro, que hoje é símbolo de moda e roupas à preço baixo na cidade. Atualmente, cerca de 80 mil pessoas passam diariamente pelo Bom Retiro, com destinos e interesses variados; mas o bairro notoriamente se tornou um dos maiores centros de comércio de São Paulo.

Em uma primeira visita, buscamos nos familiarizar com a região, e pudemos notar que embora os dados do CEM levem a crer que o bairro sofra baixa privação, há diversas pessoas aparentemente de baixa renda percorrendo as ruas, descompasso a ser investigado em nosso trabalho.

Focaremos também no modo que a notória e recente crise financeira no Brasil tem afetado o comércio do bairro, levando em conta que a maior parte da região é baseada na atividade comerciária.

Por fim, os dois pontos mais ocultos que lidaremos são o grande mercado de prostituição no local, fato por nós desconhecido antes da visita e ao qual pretendemos nos aproximar para averiguar a extensão e a influência da atividade no bairro; e os trabalhos em condições análogas à escravidão, principalmente nas indústrias têxtil, que ocasionalmente recebem denúncias de ilegalidades empregatícias.

Pontos do Questionário

O questionário será aplicado nas regiões do Parque da luz, Rua José Paulino, e Estação da Luz com moradores e prostitutas que frequentam o local e seus arredores, para pesquisar sobre o local ser uma das zonas de prostituição e tráfico de drogas. As entrevistas também serão feitas com comerciantes que se instalaram no Bom Retiro pela possibilidade de emprego e pelos baixos preços dos terrenos. Há, em maioria, italianos, judeus, sul-coreanos, gregos, lituanos e bolivianos.

Visão entrevistado

Entrevistamos o misterioso João Batista, 62, pedreiro e pintor. Ele revelou morar sozinho e sobreviver com verba do programa Bolsa Família. Na região mora há 15 anos, costuma se deslocar ao Parque da Luz a fim de descansar a cabeça. Mas vê importunável realidade na região: em razão da menor verba disponibilizada pela prefeitura nos últimos anos, o parque sobrevive pela vontade dos moradores. Abandonado pelo aparato público, tornou-se nele corriqueiros assaltos e depredações, como a quebra de estátuas presenciada por João há cerca de dois meses. O cenário estende-se do parque à região: para João, o distrito do Bom Retiro tornou-se mais perigoso recentemente e o comércio, coração da região há mais de século, sofre as vicissitudes da crise econômica com a qual o país lida nos últimos anos. João disse que os comércios de tecidos estão "fechando", mas não presenciamos cena que o comprovasse. Entretanto, pretendemos nos aprofundar jornalisticamente ali para que estas e outras dúvidas se esclareçam.

Cronograma

Nas datas 18/08, 20/08, 22/08, 24/08 visitaremos a região e aplicaremos o questionário. Estimamos decupar o que for preciso em 26/08 e tratar fotos, vídeos e áudios nos dias 18/08, 20/08, 22/08, 24/08.

Atribuição de responsabilidade

Roteiro das perguntas: Todos Aplicação do questionário: Todos Decupagem, redação e revisão dos textos: Gustavo Martini Fotos e vídeos: Raíssa Velten e Beatriz Magalhães Pesquisa de dados: Todos

Temas Prostituição, condições pós-crise; Comerciários, condições pós-crise, dificuldades, adaptação; Enfoque especial na produção têxtil; Infraestrutura, apoio prefeitura, distribuição de recursos;


Bibliografia

www.bomretironamoda.com.br%2Fsobre-o-bom-retiro%2F&h=oAQEqtqmU pt.wikipedia.org%2Fwiki%2FBom_Retiro_(bairro_de_S%25C3%25A3o_Paulo)&h=oAQEqtqmU www.prefeitura.sp.gov.br%2Fcidade%2Fsecretarias%2Fmeio_ambiente%2Fparques%2Fregiao_centrooeste%2Findex.php%3Fp%3D5757&h=oAQEqtqmU almanaque.folha.uol.com.br%2Fbairros_bom_retiro.htm&h=oAQEqtqmU

Programação do Grupo

30/08 - Resultado do questionário da planilha;

06/09 - Analisar os dados dos questionários, preparar as entrevistas de profundidade/ grupo focal e elaborar a pauta da reportagem;

20/09 - Publicar a reportagem.

Questionário

Você mora nesse bairro?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 9
Não 20

Se sim, há quanto tempo?

OPÇÕES QUANTIDADE
Até 5 anos 2
De 6 a 10 anos 2
De 11 a 15 anos 0
De 16 a 20 anos 3
Mais de 20 anos 2
Não respondeu 20

Se não, como passou a frequentar o bairro?

OPÇÕES QUANTIDADE
Trabalho 16
Lazer 3
Passagem 1
Não respondeu 9

Desde seu primeiro contato com o bairro, ele:

OPÇÕES QUANTIDADE
Melhorou 7
Piorou 13
Sem mudanças 9

Quais as principais mudanças?

OPÇÕES QUANTIDADE
Maior acesso à transporte público 4
Tipos de habitação 6
Comércio 7
Obras 5
Grupos que frequentam o local 6
Violência 6
Sem mudanças 12

Quais os principais problemas?

OPÇÕES QUANTIDADE
Segurança 10
Oferta de serviços 5
Economia local 9
Preservação 8
Moradores de rua 8
Altos preço imobiliário 2
Limpeza 18
Não respondeu 3

Quais as melhores características do Bom Retiro?

OPÇÕES QUANTIDADE
Localização 11
Gastronomia 4
Ofertas 3
Acesso a servidores públicos 4
Áreas de Lazer 6
Culturas diversas 8
Tranquilidade 7
Não respondeu 4

Você considera o Bom Retiro um local com acesso a atividades culturais?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 22
Não 2
Não respondeu 5

Você trabalha atualmente?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 15
Não 4
Não respondeu 10

Caso trabalhe no bairro, atua em qual área?

OPÇÕES QUANTIDADE
Comércio ambulante 3
Lojas 7
Restaurantes 1
Produção têxtil 1
Prostituição 3
Outros 10
Não respondeu 4

Em qual área trabalhava anteriormente?

OPÇÕES QUANTIDADE
Comércio ambulante 2
Lojas 5
Restaurantes 2
Produção têxtil 1
Prostituição 0
Outros 11
Não respondeu 8

Com qual idade começou a trabalhar?

OPÇÕES QUANTIDADE
Menos de 12 anos 6
Entre 12 e 16 anos 13
Entre 17 e 20 anos 8
Mais de 20 anos 1
Não respondeu 1

Há quanto tempo está no seu trabalho atual?

OPÇÕES QUANTIDADE
Menos de 1 ano 8
Entre 1 e 5 anos 10
Entre 6 e 10 anos 2
Entre 11 e 15 anos 0
Mais de 16 anos 1
Não respondeu 8

Qual sua renda mensal?

OPÇÕES QUANTIDADE
Menos de 1 salário mínimo 3
Entre 1 e 5 salários mínimos 21
Entre 6 e 10 salários mínimos 2
Mais de 10 salários 1
Não respondeu 2

Quantas horas você trabalha diariamente?

OPÇÕES QUANTIDADE
De 4 a 6 horas 6
De 7 a 9 horas 16
De 10 a 12 horas 3
Mais de 12 horas 0
Não respondeu 4

Quantas horas você dorme diariamente?

OPÇÕES QUANTIDADE
Menos de 4 horas 0
De 4 a 6 horas 13
De 7 a 9 horas 13
Mais de 9 horas 1
Não respondeu 2

Você possui carteira assinada?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 19
Não 8
Não respondeu 2

Como você classificaria seu trabalho?

OPÇÕES QUANTIDADE
Péssimo 3
Regular 7
Bom 11
Ótimo 6
Não respondeu 2

Você mora em casa própria?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 17
Não 12

Quantas refeições faz por dia?

OPÇÕES QUANTIDADE
1 3
2 5
3 10
4 6
5 4
6 0
Não respondeu 0

Qual o valor médio gasto em uma refeição?

OPÇÕES QUANTIDADE
Menos de 5 reais 0
De 5 a 10 reais 3
De 10 a 15 reais 3
De 15 a 20 reais 13
De 20 a 25 reais 5
Acima de 25 reais 1
Não respondeu 5

Qual seu grau de escolaridade?

OPÇÕES QUANTIDADE
Ensino Fundamental incompleto 5
Ensino Fundamental completo 3
Ensino Médio incompleto 3
Ensino Médio completo 9
Ensino Superior incompleto 4
Ensino Superior completo 4
Pós-Graduação 0
Sem resposta 1

Você é descendente de imigrantes?

OPÇÕES QUANTIDADE
Sim 9
Não 22

Se sim, qual nacionalidade?

OPÇÕES QUANTIDADE
Italiana 4
Japonesa 0
Chinesa 0
Portuguesa 1
Boliviana 1
Outros 3
Não respondeu 20

Dos 29 entrevistados de nossa pesquisa, 20 não moram no bairro e mais da metade frequenta-o à trabalho. A avaliação do mesmo não é positiva: 13 pessoas avaliam que o bairro piorou desde o primeiro contato que com ele tiveram. Os problemas mais vezes manifestados foram a limpeza e segurança do local; e as melhores características ressaltadas, a localização e diversidade cultural do bairro.

Entre os que trabalham no bairro, 7 exercem função no ramo comercial (lojas), 4 são vendedores autônomos e 3 são prostitutas. Em maioria, o ingresso no mercado de trabalho aconteceu entre 12 e 16 anos; tendo também quem o fez prematuramente, antes dos 12 anos.

A estabilidade do trabalho das pessoas não é alta: dos 29 entrevistados,18 estão há menos de 5 anos em seus empregos, sendo que 8 deles sequer completaram o primeiro ano. 21 dos 29 perguntados recebem de 1 a 5 salários mínimos (entre 880 e 4400 reais), sendo 19 deles registrados com carteira assinada.

A maioria dos questionados alegou trabalhar entre 7 e 9 horas diárias – havia lá, também, quem manifestou trabalhar mais de 10 horas por dia, tempo que excede o limite imposto pela legislação trabalhista.

Enquanto 3 pessoas consideram seu trabalho péssimo, 24 estão satisfeitas com seu emprego, sendo que 6 delas o classificaram como ótimo.

O acesso à alimentação é razoável: 20 fazem mais de 3 refeições por dia e 3 sobrevivem com apenas uma; já à educação, é limitado: 11 não terminaram o ensino médio e apenas 4 possuem ensino superior completo. Relativo à moradia, 17 dos 29 possuem casa própria.

Tendo em vista a alta relação do bairro do Bom Retiro com o terceiro setor, regularizado ou não, decidimos realizar um grupo focal guiado pelo tema "Condições de Trabalho no Bom Retiro". A partir deste assunto pretendemos desenvolver tópicos como o dia a dia do comércio regulamentado - salários, carga horário, salubridade, benefícios -,  do comércio ambulante - rotina de constante fuga dos órgãos fiscalizadores, produção por dia e por época -, mudanças na área trabalhista com o governo Temer, desregulamentação do trabalho, permanências ou mudanças no bairro do Bom Retiro, histórico de trabalho de cada entrevistado; eleições 2016 e quais seriam as mudanças na área trabalhista.

Iremos conversar, a princípio, com Maria Aglaide, vendedora ambulante; Noeli, vendedora de loja que já trabalhou em condições análogas à escravidão; Flávio, morador de rua que está sempre próximo ao letreiro do Bom Retiro; Almir, entregador de um mercado coreano; Josimar, artista de rua aos domingos. Outros nomes a serem procurados.

Grupo focal gravado no bairro do Bom Retiro no dia 17/09/2016 por Raíssa Velten

O que diz o silêncio do Bom Retiro?[editar | editar código-fonte]

As luzes - e, principalmente, a falta delas - em um bairro tradicional do imaginário de São Paulo[editar | editar código-fonte]

O passageiro que desembarcar na Estação da Luz poderá ter a impressão de que cruzou o espaço-tempo em direção ao passado. Diferente da maioria das estações que compõem a malha ferroviária de São Paulo, toda a estrutura e arquitetura interna da Luz é uma reminiscência concreta do final do século XIX. Um ambiente que nos transporta, de maneira sensorial, a uma época em que a capital paulista recolhia as bonanças trazidas pela exportação do café e o consequente início da industrialização. Todo o perímetro do edifício é uma ilustração de como a cidade vinha tomando ares europeus e abrigando uma elite econômica-cultural cada vez mais latente e empolgada. O próprio nome do bairro que abriga a estação – Bom Retiro – traz, em si, a ideia do que o lugar representava: um retiro repleto de chácaras e sítios onde as famílias mais abastadas faziam sua morada. Um cenário onde a paisagem bucólica – hoje tão rara – começava a cruzar com as modernidades do século.  

Ao passar por um dos portões de saída, talvez o passageiro comece a perceber a transição do tempo, pois o que se encontra ao redor da estação é uma paisagem na qual os elementos do passado são impactados pela realidade social atual. E, com “elementos do passado”, nos referimos a algumas pequenas características do bairro que podem passar despercebidas pelos mais apressados.

O Parque da Luz, localizado na avenida Tiradentes, logo à frente do complexo ferroviário, parece concentrar várias particularidades que são demonstrações perfeitas desse contraste entre a realidade e o romantismo. A sua entrada, onde as barras de ferro delimitam o espaço do parque, percebe-se a presença de personagens que acabam sendo a personificação de toda a aura romântica do lugar: artistas, músicos, prostitutas e imigrantes. São personagens que sempre estiveram por lá, mas foram vividos por intérpretes diferentes ao passar dos anos. Cada intérprete com sua história pessoal, em sua própria realidade. São essas perspectivas pessoais que, ao serem colocadas em conjunto num mesmo cenário, entrelaçam-se e interagem em uma relação constantemente afetada por questões de ordem política, social e econômica.

Rua José Paulino Bom Retiro

No velho esqueleto de ruas do Bom Retiro, a complexa sinestesia personifica-se em um idoso romântico, recentemente deixado de lado num valoroso asilo, mas qualquer.  Dentro de si mora o encanto e a memória, mas também o descaso, à deriva, da região. De cabelos brancos, rosto sujo, enrugado, e pupilas desgastadas, o velho é retrato de um recanto de belos retalhos, como o manto multicultural de imigrantes que ali se estabeleceram após a inauguração das estradas de ferro, ou idêntico aos músicos de terceira idade que, aos sábados e domingos, afinam a viola, a voz e a memória na avenida principal de um parque cheio de Luz. Seu aroma antigo é mistura da gastronomia globalmente diversa com o suor das ruas movimentada (veja só!). Das vendas ruidosas à declaração da diversidade, a composição perfeita para uma região que assim adora se auto intitular - pois, de fato, costuma ser. Configurou-se, titubeante, como ponto convergente e pluralístico; comércio, transporte e dinâmica de centro. A energia vital para a saudabilidade de seu corpo é o movimento caótico de ambulantes e lojistas, imigrantes moradores e brasileiros trabalhadores ou trabalhadores brasileiros, que no decorrer de suas raízes são, como a pátria-mãe, rastros da imigração.

Michel Gomes carrega, em seu marco de 27 anos, o policial da classe média brasileira e recentemente teve o prazer de conhecer o Retiro. Junto a sua esposa, desfruta já há um ano os sabores de cantinas gregas e italianas, as descobrindo - e se descobrindo - aos poucos. É um assíduo cliente da “Ouro Branco”, localizada na famosa Rua dos Italianos. De careca reluzente e na companhia de “Petit”, a cadelinha que rosna por ciúmes, Michel é morador há pouco tempo, mas já entendeu um pouco da dinâmica sinestésica tão característica do local. À noite, o paladar descobre um pouco das delicias internacionais. Pelo rondar da madrugada, a audição, arguta, percebe o som de máquinas a trabalhar. Meia noite, uma hora da manhã.

“Um grupo de oito pessoas vindas da Bolívia, incluindo um adolescente de 17 anos, foi resgatado de condições análogas à escravidão pela fiscalização dedicada ao combate desse tipo de crime em áreas urbanas. A libertação ocorreu no último dia 19 de junho. Além dos indícios de tráfico de pessoas, as vítimas eram submetidas a jornadas exaustivas, à servidão por dívida, ao cerceamento de liberdade de ir e vir e a condições de trabalho degradantes. O grupo costurava para a marca coreana Talita Kume, cuja sede fica no bairro do Bom Retiro, na zona central da capital.” Fonte: http://justificando.com/2015/10/23/20-marcas-da-industria-textil-que-foram-flagradas-fazendo-uso-de-trabalho-escravo/

Quando questionado se alguma vez ouviu boatos sobre labutas análogas à escravidão, a percepção declara algo que a apuração já o fez: o Bom Retiro é uma faca de dois gumes. O policial de certo desconhece Noeli, mas já ouviu falar de sua personagem. A peruana, mãe de dois filhos, chegou a trabalhar em uma confecção coreana, onde exercia seu ofício como costureira de 10 à 12 horas por dia. Ganhava menos de um salário mínimo. Só entendeu a gravidade da situação quando dali saiu e foi contratada para vender havaianas, alpargatas e botas na loja “Chinellaria”, localizada no número 348 da rua Ribeiro de Lima.

Sem dúvidas, um idoso doente. Sua energia vital emerge, mas as articulações já não são mais as mesmas. Suas ruas falavam tão alto que até a própria voz era inaudível. Conversavam, eram pistas para um formigueiro de toda gente. Ele agora grita baixo, como o comércio o faz.

21 de dezembro de 2015: a chama alaranjada se espalhou pela parte interna do Museu da Língua Portuguesa e aventou ao céu uma espessa fumaça cinza, sinalizando o incidente à população local, que inalava impressionada o ardido cheiro de desastre. Demorou mais de sete meses para que a entrada principal fosse reaberta aos 250 mil passageiros, segundo a CPTM, que a utilizam diariamente para se deslocar.

Indiretamente, o fogo ardeu na José Paulino: segundo o marreteiro Renato Vitorino, 47 anos, as sacoleiras(os) acostumadas(os) a visitar a rua para comprar em atacado pararam de o fazer, diminuindo as vendas das confecções de janeiro a março. Fechado o acesso principal, só seria possível acessar a José Paulino passando pelos arredores da Cracolândia, o que afastou grande parte das(os) consumidoras(os), tanto pelo medo quanto pela praticidade, que deixou de existir.

De acordo com um levantamento de 2015 da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro, são 1600 lojas no bairro, sendo 1400 delas também fabricantes de roupa. O comércio da região chega a empregar diretamente 50 mil pessoas, movimentando cerca de R$ 3,5 bilhões. Em março de 2016, diversas confecções tiveram de enxugar seus custos enquanto outras não resistiram ao momento econômico e fecharam suas portas, segundo consulta do Diário do Comércio. Houve, com isso, uma queda de aproximadamente 30% na produção da coleção outono-inverno em relação a 2015, ainda segundo a pesquisa.

Quem também sente na pele a recessão econômica do bairro é Cássia Fernandes Silva, 18 anos, que há oito meses produz e distribui artesanatos a vendedores ambulantes do Bom Retiro. Cássia começou a trabalhar quando o acesso principal já estava interditado e desde então reclama do discreto movimento dos consumidores no bairro. Disseram a ela, contudo, que durante a Copa do Mundo de 2014, a questão foi diferente - mesmo com a situação econômica já abarcada pela crise.

A necessidade determina o esforço: repetindo o exemplo do crescimento de consumidores durante a Copa, aumentou-se o envio de policiais militares ao bairro recentemente, segundo percebeu Cássia, porque “as eleições estão chegando”. Mas a artista se engana ao insinuar a falta de ética da prefeitura em aumentar o contingente policial: compete ao governo do estado, e não à prefeitura, a atividade da polícia militar. A despeito de sua confusão, curiosa é a desconfiança da jovem com o poder público, misturada com a voz embargada com que reitera o perigo do local - sentimento compartilhado pelo casal Michel e Vanessa, ambos de 27 anos.

Dois dos 29 entrevistados que nos responderam um questionário sobre o bairro, reclamaram nele não haver uma oferta satisfatória de espaços culturais, mesmo com a presença no distrito da Pinacoteca do Estado, a Oficina Oswald de Andrade e o próprio Museu da Língua Portuguesa, fechado desde dezembro pelo governo estadual. Porém, por outro lado, faz sentido criticar a produção cultural do bairro: de 2014 a 2016, o valor despendido pelo estado para a área da cultura caiu de 929 para 823 milhões de reais; em contramão a prefeitura elevou de 337 para 501 milhões. A porcentagem destinada à cultura em relação ao orçamento total do estado é inferior a meio por cento.

Engordando a lista de descasos notáveis e notórios da região, a sujeira divide espaço com a ambientação do Bom Retiro. Saindo das vias de grande movimento e visibilidade, ao entrar um pouco mais a fundo, no coração do bairro, é possível encontrar verdadeiros lixões a céu aberto. A rica produção têxtil, que movimenta quase por totalidade o comércio do bairro, joga, impensavelmente, seus dejetos nas ruas. Retalhos de tecidos e lixos descartados pelos transeuntes fora dos locais adequados entopem os bueiros e mares de detritos tomam conta. Sem opções, os moradores de rua são obrigados a conceber a sujeira como seu habitat. São muitos os desabrigados que acolhem o Bom Retiro como seu lar, vindos, muitas vezes, sem rumo após a dispersão recente da cracolândia, projeto meramente sanitizante.

Dormem os desabrigados, em maioria, sob a profunda escuridão. Chega a ser irônico o fato de um dos grandes problemas do bairro que abriga a estação da Luz ser a penumbra que se espalha a noite, com a fraca iluminação do lugar. Com o clima soturno, a segurança se compromete, virando tema de reclamação de um terço dos entrevistados. No Parque da Luz, marco central do bairro, a fiscalização foi se deteriorando. Antes vigiado por uma empresa particular, o local agora fica aos olhos da guarda municipal, presente, segundo frequentadores assíduos das banquetas do Parque, apenas nos períodos “de pico” do dia.

A apontada e criticada falta de segurança, contudo, não impede a saudável reunião diversificada de pessoas nos entornos dos espelhos d’água, bancos, mesas e aparelhos de musculação. Se sentados na parte central do Parque podemos observar grupos de idosos a conceber rodas de um belíssimo sertanejo de raiz aos finais de semana, em pé - ou deitados sobre os bancos de malhação - fazem presença os joviais esportistas da academia ao ar livre presente no local, com seus pesos improvisados, feitos de concreto maciço em latas de tinta velhas. Prostitutas ariscas à exposição jornalística se acanham em falar de sua profissão - sobre o bairro, tudo bem -, assim como vendedores ambulantes trocam apenas meias palavras, com olhares alheios aos do entrevistador, sempre alerta à chegada do rapa. Uma senhora com seus filhos, inclusive, recusa a entrevista não por falta de disposição ou assunto, mas pelo receio de precisar correr às pressas da polícia, arrastando as crianças e as mercadorias, e deixar a prosa sem uma conclusão.