Temperaturas Paulistanas/Planejamento/Tatuapé/Turma B

Fonte: Wikiversidade
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Integrantes do grupo

Carolina Moraes, Gabriel Nunes, Julia Benini, Victoria Franco

1. Planejamento: Distrito do Tatuapé

Pertencente à subprefeitura da Mooca, o bairro do Tatuapé está localizado na Zona Sudeste de São Paulo, que englobando as Zonas Leste 1 e 2 formam a macro-zona conhecida como Zona Leste.

A gênese da região remonta aos anos 1550 e 1560, quando o fidalgo e explorador português Brás Cubas — fundador da vila de Santos e governador por duas vezes da Capitania de São Vicente (1545-1549 e 1555-1556) — subiu do litoral em direção ao Planalto Paulista. Ultrapassada a Serra do Mar, Cubas e os enviados da coroa portuguesa se depararam com o Ribeirão Tatuapé (o qual hoje em dia se encontra canalizado) em junção com o Rio Tietê, onde armaram acampamento e estabeleceram um pequeno rancho de casas de taipa de pilão, criação de bovinos e porcos, cultivo de cana, hortaliças e uvas. Assim, nascia o Tatuapé. Embora a origem etimológica do nome seja controversa, ela remete à língua tupi, significando “caminho dos tatus”, ou então, em uma versão não tão literal, “caminho mais curto para chegar ao Tietê’.

Entre os séculos XVII e XIX, a região se destacou pela produção vinícola, mas foi somente na passagem para o século XX, com a chegada de Benedito Marengo — italiano cujo sobrenome foi dado a uma das principais padarias do bairro — que a economia se desenvolveu no local. No entanto, o setor primário deu lugar ao setor secundário com a chegada da ferrovia. Dessa maneira, foram estabelecidas nos limites do Tatuapé grandes indústrias como Itautec, Souza Cruz, Grupo Vicunha, Química Duperial e a Tecelagem Tatuapé.

Apesar de hoje em dia grande parte do comércio estar confinada em Shopping Centers (Shopping Tatuapé e Shopping Metrô Boulevard Tatuapé), o bairro possui efervescentes zonas comerciais, como é o caso dos arredores da Praça Sílvio Romero e da Rua Tuiuti. Um dos fatores que levaram a esse êxodo comercial pode ser atribuído ao sistemático processo de verticalização, decorrente do crescimento da especulação imobiliária nas últimas duas décadas. Mas, ao contrário do que é divulgado em veículos como o jornal online Alô Tatuapé, e em uma matéria do portal G1 datada de 30 de julho de 2011, a verticalização e a proliferação de enclaves fortificados não causam o aumento exponencial da densidade demográfica no bairro. O que se observa, de acordo com indicadores do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é, na verdade, uma redução populacional na região nas últimas três décadas (de 89.389 em 1980 para 75.481 em 2010).

O Tatuapé ainda lidera o IDH da Zona Sudeste e da macro-zona Leste. Com índices muito elevados (0,936), o bairro configura na 14ª colocação de melhores IDHs de toda a capital paulista. Sozinho, o distrito supera as subprefeituras da Sé, Ermelino Matarazzo, Itaquera, Penha, São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Guaianases, São Miguel Paulista, Aricanduva, Ipiranga, Vila Prudente, Butantã, Lapa, Casa Verde, Jaçanã, Santana, Vila Maria, Freguesia do Ó, Perus, Pirituba, Jabaquara, Campo Limpo, Socorro, Cidade Ademar, M’Boi Mirim, Parelheiros e a própria subprefeitura da Mooca, onde o bairro está inserido.

O distrito é constituído majoritariamente por grupos de setores censitários de baixa e muito baixa privação, com maioria de idosos. Contudo, o bairro possui ao menos três assentamentos urbanos informais dispersos pela região. São eles: comunidade Michelon e Pau Queimado, ambas localizadas no Parque São Jorge; e a Teleatlas, na Vila Gomes Cardim.

2. Aplicação dos questionários

Em menos de 10 minutos caminhando do metrô Tatuapé está a Praça Silvio Romero, local que escolhemos como ponto de partida para aplicar os questionários. Lá, acontecem feiras de artesanato semanais e diariamente recebe kombis de cachorro quente.

O segundo local escolhido é o largo do Bom Parto. Aos finais de semana, a praça dá lugar a atividades ao ar livre, como aulas coletivas de ginástica, o que pode permitir que os entrevistados estejam mais abertos a perguntas.

3. Divisão das responsabilidades e cronograma

Todos os integrantes do grupo participarão das etapas do trabalho (administração da página no Wikiversidade, aplicação do questionário, elaboração da planilha com os resultados, entrevistas e/ou grupo focal e elaboração da reportagem). Para a aplicação do questionário, o grupo se dividirá em duplas.

Os questionários serão elaborados durante as aulas de Metodologia nos dias 9 e 23 de agosto e serão aplicados nos dias 27 e 28 do mesmo mês no período da manhã e da tarde nas regiões escolhidas.

4. Temas a serem abordados na pesquisa

Como temas a serem abordados nas pesquisas de campo, escolhemos assuntos ligados a políticas públicas e questões sociais que reflitam a percepção dos moradores da região sobre os candidatos às Eleições 2016, incluindo opiniões políticas e partidárias. Procuraremos as consequências do intenso processo de verticalização da subprefeitura, analisando como essa questão é recebida pelos moradores, principalmente após a revisão na Lei de Zoneamento durante a gestão Haddad, e como isso afeta o fluxo de automóveis na região. Passaremos pela instalação de ciclovias como parte do Plano Diretor Cicloviário Integrado, considerando as possíveis mudanças que elas causaram na dinâmica social do Tatuapé. Além disso, procuraremos sobre a rede de transporte público da região. Pesquisaremos sobre o crescimento de pessoas em vulnerabilidade social, sabendo que, entre os anos 2000 e 2015, houve um aumento de aproximadamente 7.500 pessoas em situação de rua, de acordo com o Censo de 2015 realizado pela Fipe, a serviço da Prefeitura de São Paulo. Com uma taxa de crescimento anual de 5,14% (entre 2000 e 2009) e 2,56% (entre 2009 e 2015), a subprefeitura da Mooca — onde está localizado o distrito do Tatuapé — consta como a segunda região da capital paulista com os maiores índices apontando esse tipo de vulnerabilidade social. No âmbito educacional, as perguntas passarão pela percepção da qualidade de ensino, tanto de colégios particulares, como o Agostiniano Mendel, como os públicos, como o João Borges. Como a população do Tatuapé é majoritariamente idosa, exploraremos a demanda por infraestrutura relacionada a saúde voltada especialmente para essa população.

O questionário será aplicado em todas as pessoas, independente do gênero com o qual se identifiquem. Os entrevistados poderão ser trabalhadores, desempregados, estudantes e aposentados, entre 18 anos ou mais.

5. Referências bibliográficas

Mapa vulnerabilidade social do distrito da Mooca produzido pelo Centro de Estudos da Metrópole. Disponível em:<http://www.fflch.usp.br/centrodametropole/cemsas/1.3.25.Mooca.pdf>

Dissertação de mestrado "Tatuapé: a valorização imobiliária e a verticalização residencial no processo de diferenciação sócio-espacial", de Taisa de Costa Endrigue. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16137/tde-14052010-090603/pt-br.php>

Dados de população Recenseada, Projetada, Taxas de Crescimento Populacional e Densidade Demográfica do Município de São Paulo, Subprefeituras e Distritos Municipais. http://infocidade.prefeitura.sp.gov.br/htmls/7_populacao_recenseada_projetadataxas_de_c_1950_638.html

Texto "Bairro do Tatuapé", da biblioteca Cassiano Ricardo. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_a_l/cassianoricardo/index.php?p=135>

Matéria "Tatuapé mais verde: parques e vegetação do bairro fazem parte da floresta urbana", do AloTatuapé. Disponível em: <http://alotatuape.com.br/tatuape-mais-verde-parques-e-vegetacao-do-bairro-fazem-parte-da-floresta-urbana/

CENSO DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA DA CIDADE DE SÃO PAULO, 2015. Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/assistencia_social/observatorio_social/2015/censo/FIPE_smads_CENSO_2015_coletivafinal.pdf>

Matéria "No caminho do tatu (a pé), do Estado de S. Paulo. Disponível em: <http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,no-caminho-do-tatu-a-pe,1767069>

Livro: Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, de Aziz Ab’Saber. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=HoS3z4E-UhAC&pg=PA179&dq=ribeir%C3%A3o+tatuap%C3%A9&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi29eenmr_OAhUGHpAKHWqDCaMQ6AEIJTAA#v=onepage&q=ribeir%C3%A3o%20tatuap%C3%A9&f=false>

6. Questionário aplicado

1) Nome? ________________

2) Quantos anos você tem?

( ) Até 19 anos

( ) 20 a 30 anos

( ) 31 a 40 anos

( ) 41 a 50 anos

( ) 51 a 60 anos

( ) 60 a 70 anos

( ) mais de 70 anos

3) Qual seu gênero? _____________

4) Qual o seu estado civil? ____________

5) Qual seu nível de escolaridade? ____________

6) Você mora no Tatuapé?

( ) Não

( ) Sim. Há quanto tempo? ___________

7) Onde você morava antes de vir para o Tatuapé? ____________

8) O que te impulsionou a mudar para o Tatuapé? ____________

9) Você mora em que tipo de moradia?

( ) Casa térrea

( ) Sobrado

( ) Apartamento

( ) Outro tipo de moradia. Qual? ______________________

10) Com quantas pessoas você mora? ______________

11) Você trabalha atualmente?

( ) Não, desempregado

( ) Não, aposentado

( ) Sim. Com o que você trabalha? ______________

12) Em qual bairro você trabalha? _________

13) Qual meio de transporte você utiliza para chegar até lá?

( ) Carro

( ) Bicicleta

( ) Transporte público

( ) A pé

14) Você tem filhos?

( ) Não.

( ) Sim. quantos? ________

15) Seus filhos frequentam ou frequentaram escolas públicas ou particulares? ____________

16) Por que você optou por colocá-los em tal (particular ou pública) rede de ensino?

_______________________________________________________________________

17) Se você tivesse que recomendar uma escola para os filhos de um amigo estudar, qual seria? _______________

Por quê? ______________________________________________

18) Você tem amigos na região?

( ) Sim

( ) Não

19) Quantas vezes se encontram?

( ) Semanalmente

( ) Quinzenalmente

( ) Mensalmente

( ) Semestralmente

( ) Anualmente

20) O que você faz nas suas horas livres?

_______________________________________________________________________

21) Você tem plano de saúde particular?

( ) Sim. Por quê? ____________

( ) Não

22) Na última vez que você precisou de atendimento, você recorreu ao SUS ou ao convênio?

( ) SUS

( ) Convênio

23) Quantas vezes você utilizou os serviços do SUS?

( ) Nunca usou

( ) Uma a duas vezes

( ) Três a quatro vezes

( ) Mais de quatro vezes

24) Qual local de atendimento do SUS você já utilizou? _________

25) Como você classificaria o serviço do SUS?

( ) Péssimo

( ) Ruim

( ) Regular

( ) Bom

( ) Excelente

26) Como você classificaria o policiamento no Tatuapé? Por quê?

( ) Péssimo

( ) Ruim

( ) Regular

( ) Bom

( ) Excelente

27) Como você classificaria a preservação dos parques e praças do Tatuapé?

( ) Péssima

( ) Ruim

( ) Regular

( ) Boa

( ) Excelente

28) O que você pensa sobre o transporte público?

( ) Péssimo

( ) Ruim

( ) Regular

( ) Bom

( ) Excelente

29) Você se sente seguro no Tatuapé?

( ) Sim

( ) Parcialmente seguro

( ) Não

30) O que mais te incomoda no bairro? _________________

31) O que você faria para melhorar isso? _____________________

32) Gosta do Tatuapé? ___________________

33) Sendo morador do Tatuapé, como você olha a cidade de São Paulo?

_______________________________________________________________________

34) Que pergunta não fizemos que você acredita que deveríamos ter feito?

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7. Relação das respostas

Dos 44 entrevistados, 18 se identificam com o gênero masculino e 26 com o feminino. Desses 18 homens, cinco são solteiros, quatro são viúvos e nove são casados. Quanto às mulheres, onze são solteiras, catorze são casadas e uma é divorciada. Entre eles, quatro homens têm mais de 70 anos; três têm entre 61 e 70; dois têm entre 51 a 60; quatro têm entre 41 e 50; um tem de 31 a 40; e quatro têm de 20 a 30. Já em relação ao gênero feminino, uma das entrevistadas afirmou ter menos de 19 anos; cinco têm de 20 a 30 anos, cinco têm de 31 a 40; seis delas têm de 41 a 50; nove têm entre 51 e 60; e uma mulher tem de 61 a 70 anos.

Já no que diz respeito à escolaridade, os homens apresentam menor escolaridade em relação às mulheres abordadas. Dos entrevistados, um homem frequentou o colégio até a quarta série; um tem ensino superior incompleto, dois têm superior completo, dois têm o Ensino Fundamental completo; cinco têm o Ensino Médio completo; um tem até o terceiro ano do Ensino Fundamental I; e apenas três homens têm pós-graduação. No entanto, três mulheres têm o Ensino Fundamental II completo; seis têm Ensino Médio completo; nove delas têm diploma universitário; quatro não concluíram a faculdade; três são pós-graduadas; e uma delas tem mestrado.

Dos 18 homens entrevistados, seis não moram no bairro do Tatuapé e o restante sim; enquanto, por parte das mulheres, 11 não vivem na região. Cinco delas vivem em sobrados e nove em apartamentos. O restante não respondeu a essa questão. Três dos entrevistados homens vivem em sobrados; cinco em apartamento e três em casas térreas. As demais não falaram sobre o tipo de moradia. Dos homens que vivem no bairro localizado no distrito da Mooca, somente dois deles não estabeleceram vínculos afetivos com ninguém na região. Desses, três encontram os amigos semanalmente; um, semestralmente; outro, mensalmente; e três encontram os amigos diariamente. Já as mulheres apresentaram maiores traços de sociabilidade que os homens. Todas têm amigos no Tatuapé, sendo que somente uma delas os encontra quinzenalmente; duas, anualmente; uma, semestralmente; quatro, mensalmente; enquanto seis encontram os amigos semanalmente.

Duas das mulheres moram com mais de uma pessoa; quatro delas convivem com outras duas; três delas dividem casa com outros três indivíduos; duas vivem com quatro pessoas; quatro moram com cinco. As outras não falaram sobre o assunto. Contudo, os homens abordados são mais sozinhos que as mulheres no que diz respeito à moradia. Cinco deles vivem sozinhos; dois vivem com uma pessoa, e outros dois com mais duas pessoas. Um deles mora com quatro pessoas, e outro com cinco. Os outros 7 entrevistados não tocaram no que diz respeito ao número de pessoas com quem moram.

Quanto à questão da empregabilidade, doze dos 18 entrevistados trabalham, e os outros seis são aposentados. Três mulheres estão desempregadas e as outras 23, empregadas. Cinco mulheres usam carro para ir trabalhar, três usam o transporte coletivo e duas vão a pé. Dos homens, um vai a pé, um usa o transporte coletivo e outros 7 se locomovem de bicicleta. Os demais não responderam.

A média de filho por homem entrevistado é maior que a das mulheres, sendo que dois homens não têm filhos; sete deles têm dois filhos; e três têm três filhos. O restante não deu resposta acerca disso. Quatro mulheres não têm filhos; seis têm apenas um filho; uma delas têm dois; e três têm três filhos. As demais não falaram sobre o assunto. Levando isso em conta, duas das pessoas que se identificaram com o gênero feminino optaram por colocar os filhos em escolas públicas; no entanto, oito delas decidiram colocá-los em em colégios privados. Dois homens colocaram os filhos dele em escolas particulares; cinco em escolas públicas e três colocaram os filhos tanto em escolas públicas quanto privadas.

8. Reportagem

O impulso vertical no Tatuapé[editar | editar código-fonte]

Como aumento do número de edifícios e a baixa densidade demográfica se articulam no distrito de maior IDH da Zona Leste de São Paulo[editar | editar código-fonte]

Caminhar entre as ruas Euclides Pacheco e Azevedo Soares, como lembra dona Matilde, era receber carícia da terra, afundar os pés, sujar as roupas, ver as marcas do andar dos cavalos estampadas no chão. Até 1940, as ruas do Tatuapé eram de terra e, nelas, havia plantações. Plantações contornadas por casas pequenas, que não roubavam o protagonismo do horizonte. Era tempo em que se via os telhados das moradias, cuja cor poderia ser descrita se toda essa cena não estivesse impressa em preto e branco. Ver uma foto do Largo Nossa Senhora do Bom Parto nos anos 30, frente ao mesmo local em 2016 é vertiginoso. A transformação espacial é marcante.

Hoje, o lugar convida os olhos a acompanharem os edifícios em direção ao céu. Céu que poderia fazer com que esquecêssemos da agitação de todo o bairro, mas se mantém cada vez mais distante; os prédios levam à estreiteza do olhar. Não demora a sermos interrompidos por buzinas. Não demora ao cheiro da poluição, que se faz cinza no ar, nos intimar a rastrear os carros. São muitos. Parecem verbalizar a pressa. Frustram-se por não conseguirem se fazer ágeis e buzinam. Os ouvidos não dão conta da efervescência das ruas. Nem os olhos. Ir ao Tatuapé durante a semana é tentativa de acompanhar o caminhar das pessoas, que andam rápido e logo escapam do olhar. Entram e saem dos vários comércios, dos shopping, da estação de metrô. Não parecem ver uns aos outros e, se veem, o contato se desfaz no instante seguinte. A busca é por um olhar que atravesse este com menos efemeridade, um olhar que talvez aceite uma breve conversa, que não se recuse antes mesmo de ser abordado. Este olhar avista Joel.

De cima para baixo[editar | editar código-fonte]

Joel preferiu esconder o sobrenome. A vida monótona de um senhor de 63 anos se resume a jogar dominó e baralho com os amigos diariamente, na praça Nossa Senhora do Bom Parto. Entre uma pergunta e outra do questionário, deixou escapar mais do que as respostas sugeridas pelas alternativas. Contou sobre a infância no campo, com os cinco irmãos, e como conseguiu superar a miséria, até fazer parte do DOPS — Departamento de Ordem e Política Social, órgão extinto em 1983, responsável por censurar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime vigente, principalmente na época da ditadura militar. Lembrou com orgulho do tempo de soldado e apontou para a ineficiência da polícia no bairro, utilizando as memórias daquele tempo bom, como Joel disse, para fazer a comparação. Contou, também, que se incomodava com a presença dos moradores de rua no Tatuapé. Fala que poderia ser atribuída não só a Joel, mas a tantos outros que cederam mais do que instantes a este olhar — apesar da movimentação, das buzinas, da pressa, dos comércios, do metrô, e até mesmo do céu, que se fazia azul, limpo, apertado, longe.

Pergunta-se a Joel:

— O que você acha que pode ser feito para melhorar essa situação?

E ele, como se estivesse compartilhando um segredo, conta:

— A polícia tem que colocar todos para trabalhar.

Antes que pudesse prosseguir com o cochicho, foi interrompido. Um homem de tronco desnudo e chinelos nos pés esticou a mão direita para nós, em silêncio. Movendo a saliva da boca para o ar, Joel reclamou "Aí, tá vendo?". O morador de rua fechou as mãos deixando o indicador em riste, declarando: "Sou tão humano quanto você".

Para Igor Mossinato, de 23 anos, há, sim, um aumento da população de rua, mas define o Tatuapé como um bairro mais policiado do que a média e, portanto, diz que essa situação não contribui para um aumento da criminalidade na região. O jovem, diferentemente do que mostra Joel, percebe uma relação amistosa entre os residentes do bairro e os moradores de rua que o ocupam.

Segundo um censo realizado pela Fipe/Usp (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) a pedido da gestão Fernando Haddad (PT) em 2015, a subprefeitura da Mooca é a que mais concentra pessoas em situação de rua depois da Sé. São, estimativamente, 842 moradores, o equivalente a 11,2% do total da população de rua da cidade de São Paulo.

Alô Tatuapé![editar | editar código-fonte]

Em 2015, um trecho da matéria Verticalização acelerada do “Tatuapé compromete qualidade de vida dos moradores” no jornal online do bairro Alô Tatuapé apresentou a seguinte informação:

“Atualmente, 20 anos depois [referindo-se a uma entrevista com um empresário na década de 90], os problemas são diferentes e às poucas empresas que atuavam no Tatuapé se juntaram gigantes do ramo imobiliário para explorar a região, com isso o bairro cresce vertiginosamente, trazendo como consequências o trânsito cada vez mais caótico ou a constante agressão ao lençol freático devido ao número excessivo de construções.”

De 2004 a 2011, a verticalização espalhou-se por todo o território paulistano; o Tatuapé registrou 4,83% do total construído no período. De 2000 a 2010, 43,55 milhões de metros quadrados de áreas destinadas a residências verticais foram acrescidas à cidade. Isso representa, segundo a Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio), cerca de 276 mil novos apartamentos.

Ao contrário do que foi divulgado, a verticalização não causa o aumento exponencial da densidade demográfica no bairro. O que se observa, de acordo com indicador do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é uma redução populacional na região durante as últimas três décadas: de 89.389 mil pessoas em 1980 para 75.481 em 2010.

Considerando os números apontados, nota-se que o Tatuapé — assim como a cidade de São Paulo em geral — é vertical, mas não é denso. Tomando forma a partir de enclaves fortificados e do transbordamento metropolitano, a cidade tem baixo coeficiente de aproveitamento, cerca de 1,20. Esse número, se multiplicado pela área de um terreno, aponta a quantidade máxima de metros quadrados passíveis de serem construídos — ou seja, somando a área de todos os pavimentos de qualquer lote em São Paulo, a construção não pode, praticamente, ultrapassar a área do terreno. A ocorrência disso se dá muito em função do sistema de transportes adotado historicamente: a priorização do uso do automóvel em vez dos transportes coletivos.

Uma [faceta] do processo de verticalização caracteriza-se pelos condomínios fechados, que se fazem presentes principalmente na Zona Leste e Sudoeste em torno das estações de metrô, como é o caso do Tatuapé e do Jardim Anália Franco.

Geralmente com apartamentos de alto padrão, esses complexos murados tem nomes em língua estrangeira, cuidadosamente pronunciados pelos moradores que os ocupam. Apesar da redução do tamanho dos apartamentos, oferecem espaço gourmet, fitness center e piscinas.

Porém,  o analista de controladoria Igor Mossinato, morador do Tatuapé há 12 anos,  observa que esse processo de crescimento vertical não é puramente residencial: “Já tem um processo de verticalização comercial no bairro, que já tá acontecendo há algum tempo. O Shopping Metrô Tatuapé tá com um projeto de uma torre que são cinquenta ou sessenta andares, que vai misturar hotel, academia, comercial, residencial, empresarial, tudo numa coisa só. O plano da prefeitura a longo prazo é que do metrô Carrão ao Tatuapé seja um corredor único verticalizado de centro comercial. Os dois metrôs vão alimentar esse centro.”

De baixo para cima[editar | editar código-fonte]

Esse processo crescente de verticalização nas últimas duas décadas no Tatuapé não leva só à estreiteza da vista em direção ao céu, eliminando as perspectivas cidadãs, que, por vezes, se revoltam com o processo de destruição de bairros residenciais. O olhar mantém-se estreito em direção ao outro — especialmente àquele cujas paredes invisíveis foram construídas com o cobertor surrado. Se houver sorte, para além do cobertor existem pedaços de papelão que constroem o teto dessa casa: a rua. Para os moradores de rua, caminhar entre Euclides Pacheco e Azevedo Soares é ser agredido pelo asfalto, sujar os pés, mal ter roupas, ver o rastro das borrachas dos carros enegrecendo ainda mais a imundice do pavimento. É fingir que, fora, existe um dentro. Para Joel e tantos outros, caminhar entre as ruas Euclides Pacheco e Azevedo Soares é sentir a dureza do asfalto amortecida pelos sapatos, que tratam de poupar os pés da sujeira do chão. É estampar o solo com marcas de pneus.

Link para o áudio do grupo focal: https://drive.google.com/file/d/0BxKbKWhkSX3hMDl1Y2wtZG1XckE/view[editar | editar código-fonte]