Curso básico de Literatura Brasileira

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Uma breve apresentação[editar | editar código-fonte]

Detalhe do Planisfério de Cantino (1502), mostrando a parte do Brasil que os portugueses conheciam até então.


Neste curso, vamos abordar cronologicamente algumas obras representativas da literatura brasileira, buscando compreendê-las em sua dimensão histórica (tanto como uma resposta artística aos acontecimentos do passado, em que ela apareceu, quanto em suas relações com o nosso presente, para o qual ela sugere muitos questionamentos). Não esqueceremos também de observar suas particularidades enquanto obra de arte - porque a literatura é uma arte feita com palavras e, quando os autores e autoras constroem seus textos, fazem escolhas para que esses textos criem certos efeitos e certos sentidos. Tentaremos seguir desde os primórdios da colonização, no século XVI, até os dias atuais. Sendo assim, convido você a acompanharmos essas reflexões sobre nosso país e sobre nós mesmos, que a literatura apresenta de modo tão único!

Como estudaremos a literatura?[editar | editar código-fonte]

Por "Literatura Brasileira" vamos entender o que se produziu de poesia, prosa de ficção, romance, conto, novela, letras de canções, no nosso país, desde 1500 até hoje (no caso daqueles anos de 1500, até mesmo as cartas e as descrições de viagens que os europeus escreveram são considerados para o estudo da literatura). Então, você vê que é muita coisa feita, durante um bom tempo... Como organizar esse volume de escritos, para um estudo sistemático?


Essa é uma discussão importante entre os próprios estudiosos da História da Literatura, uma disciplina que surge no século XIX. De lá para cá, muito se discutiu sobre como fazer esse estudo, e, aqui, eu vou resumir um pouco (mas bem pouco mesmo!) dessa discussão, até mesmo para justificar como nós vamos estudar a literatura brasileira. Há, basicamente, dois modelos principais para o estudo da História da Literatura: o que privilegia as características do "estilo" (Barroco, Neoclássico, Romântico, etc.) e o que privilegia o contexto histórico.

A periodização por "estilos" (ou os "Estilos de Época")[editar | editar código-fonte]

Afrânio Coutinho, estudioso da literatura brasileira (1911-2000)

Esse modelo foi muito utilizado por bastante tempo, tanto nas obras de História da Literatura, quanto na escola, no ensino de literatura. A ideia básica é a seguinte: durante um determinado espaço de tempo, digamos, cem anos, é possível perceber que a cultura (a pintura, o teatro, a filosofia, a dança, a música, a moda e, é claro, a literatura) se apresenta de uma maneira específica, que é diferente do que veio antes e é diferente do que vem depois. Essa maneira específica é um "estilo" daquele tempo, daquela época, e a diferencia das demais épocas (por exemplo, há uns quarenta anos, na década de 80, o estilo era bem diferente do de hoje, 2020, e bem diferente do estilo "anos 60"...). Com o passar dos anos, aquele estilo vai decaindo, até que surge um outro, que se mantém por anos, décadas ou séculos, até que ele também decai e outro estilo surge, e assim sucessivamente. Nesse modelo, estudar a literatura é identificar as características comuns e gerais que se aplicam a diversas obras individuais, em um determinado intervalo de tempo. Por exemplo, as obras de arte e a literatura do século XVII até meados do século XVIII (de 1600 até mais ou menos 1750) têm diversas características comuns: o uso de contrastes fortes entre claro e escuro, a tematização da morte, a representação religiosa, entre outras. Essas características são reunidas no termo "Barroco", que vira o "estilo barroco". Depois de 1750, observa-se que as obras e a literatura apresentam outras características, que serão reunidas em um outro estilo: o "Neoclássico". E o processo segue. Assim se apreende o que seria o "estilo de época", que é "quando um dado período da história literária [impõe] um modo de escrever muito codificado e segundo normas colectivas", de acordo com Carlos Ceia[1].

Quando esse modelo foi aplicado ao estudo da literatura brasileira, tivemos um quadro panorâmico mais ou menos como o que segue (como exemplo, faremos até a terceira geração do modernismo):

Exemplo de periodização por estilos de época
Estilo Características Obra/Ano de início Ano de fim
Literatura de informação/Jesuítica Voltada para informar ao reis europeus sobre o que os viajantes encontravam nas terras a que tinham chegado; voltada também para a catequese dos indígenas (como o teatro do padre José de Anchieta) A Carta de Pero Vaz de Caminha (1500) 1600 (não se pode dizer que a literatura de informação "acaba" em 1600, porque ela se mantém por todo o período colonial e até depois. Porém, após 1600, aparecem outros tipos de obras, como a poesia)
Barroco Uso de recursos estilísticos como o "cultismo" e o "conceptismo" em suas composições em verso e em prosa; explora os contrastes entre luz e sombras, vida e morte, desejo e culpa, espírito e carnalidade; Prosopopeia, de Bento Teixeira (1600) 1768
Arcadismo/Neoclassicismo Recusa dos recursos barrocos, vistos como obscuros; elogio da natureza como ideal de simplicidade e felicidade; uso intenso da mitologia greco-romana em sua composição; uso da figura do "pastor" como personagem ou pseudônimo dos poetas; Obras, de Cláudio Manoel da Costa (1768) 1836
Romantismo Recusa do Arcadismo e de seu uso mitológico; busca por mito nacionais (indígena); valoriza a expressividade do sujeito poético, dando vazão ao eu "original" do poeta; Suspiros poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães (1836) 1881
Realismo-Naturalismo (prosa)

Parnasianismo (poesia)

Recusa do subjetivismo romântico; valorização da objetividade e da análise crítica; aproximação do objetivismo científico (em especial no caso do Naturalismo); predomínio da prosa; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e O Mulato, de Aluísio de Azevedo (os dois romances publicados em 1881);


Sinfonias, de Raimundo Correa (poesia parnasiana) (1883)



1900
Simbolismo Recusa do objetivismo presente no Realismo, no Naturalismo e na poesia do Parnasianismo; busca por experiências transcendentais, espirituais, por meio da Arte; retomada de certo subjetivismo romântico, tematizando a loucura, a dor, a morte; Broqueis e Missal, de Cruz e Sousa (1893) (O Simbolismo alimenta muito da arte das vanguardas e do modernismo da primeira metade do século XX, tanto que é difícil estabelecer um ano de "fim" do movimento. Antes, diz-se que ele se dilui nas linguagens vanguardistas, como o expressionismo, o surrealismo, o abstracionismo, e outras).
Pré-modernismo Entre o fim do século XIX e início do século XX, surgem obras que guardam parentesco com os estilos realista, naturalista, parnasiano, simbolista e até romântico, mas com traços que as diferenciam entre si e daqueles estilos. Por uma "falta de unidade", esse momento não tem um nome específico, mas obras representativas. Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902): guarda relações com a tradição realista-naturalista, mas mescla a literatura com o jornalismo de modo inédito;


Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto (1909): o autor guarda relação com o realismo e com o romantismo, mas elabora uma obra de forte crítica social;


Eu, de Augusto dos Anjos (1912): o poeta dialoga com o parnasianismo, com o simbolismo e com o romantismo, mas apresenta um experimentalismo de linguagem que o aproxima das vanguardas, como o expressionismo.

1922
Modernismo (1a. Geração) Busca redefinir amplamente a literatura brasileira, a partir de uma nova "descoberta" de uma cultura brasileira autêntica; diálogo intenso com as vanguardas europeias; algumas vertentes apresentam um nacionalismo renovado. Semana de Arte Moderna (1922) 1928
Modernismo (2a. Geração, ou Geração de 30) Inserção intensa da arte e da literatura no debate político; predomínio da prosa (romance); retorno a uma certa tradição realista; A Bagaceira, romance de José Américo de Almeida (1928) 1945
Modernismo (3a. Geração, ou Geração de 45)


Obs.: Alguns autores consideram este momento o início do Pós-Modernismo.

Busca retornar a formas poéticas mais tradicionais, contra o experimentalismo das gerações anteriores e contra o predomínio da prosa realista dos de 30; afasta-se do engajamento político;

busca explorar temas mais subjetivos e/ou transcendentais;

As Imaginações, de Lêdo Ivo (1944);


Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector (1944)

Esse é o modelo mais presente nas histórias da literatura brasileira. A obra de Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil,[2] uma das mais importantes no campo da história literária, se baseia nessa periodização por estilos. O modelo busca ser didático, mas recebeu muitas críticas ao “compartimentar” as obras em espaços de tempo bem delimitados – o que não corresponderia à complexidade histórica.

A literatura e a vida social[editar | editar código-fonte]

Um outro modo de estudar a literatura é relacioná-la à vida social de um período histórico. Essa proposta foi consagrada no Brasil por autores como Sílvio Romero, no século XIX, e Antonio Candido, no século XX. Um forma de relacionar os dois pontos (período histórico e literatura) poderia ser como demonstrado na seguinte tabela:

Período histórico Produção literária
Brasil colônia abarcaria a literatura de informação e jesuítica (séc. XVI) como registro dos primeiros contatos comerciais, políticos e culturais dos europeus com os povos nativos; a literatura do barroco (séc. XVII) como registro da sociedade nordestina açucareira e suas dinâmicas políticas e culturais (com destaque para a poesia satírica de Gregório de Matos); e, por fim, a literatura do arcadismo/neoclassicismo (séc. XVIII), como registro da construção de uma consciência política crítica da sociedade brasileira contra o sistema colonial e do início da percepção de uma identidade brasileira (que teria seu ápice no movimento da Inconfidência Mineira, do qual importantes poetas brasileiros teriam participado).
Independência/Império com destaque para o Romantismo, como expressão literária da Independência política e consolidação do esforço de construção de uma identidade nacional; para o Realismo-Naturalismo, como crítica da sociedade burguesa e urbana brasileira.
Brasil República a literatura ainda como construção de um sentimento nacionalista, mas também como crítica social (com destaque para Lima Barreto). O modernismo e o projeto de releitura da identidade brasileira, no contexto de centenário da Independência (1922). A geração de 30 e a denúncia das desigualdades regionais e sociais do Brasil moderno e das contradições de uma nação que busca o desenvolvimento.
Antonio Candido (1918-2017), autor da Formação da Literatura Brasileira


Nessa perspectiva, não se enfatiza a busca pelas características de estilo, mas sim como o texto literário que é produzido em determinada época se insere nas dinâmicas sociais dessa época. Um estudo clássico que adota essa visão é a Formação da Literatura Brasileira[3], de Antonio Candido, obra na qual o estudioso observa como a literatura do fim do século XVIII e início do século XIX participa da construção do nosso senso de identidade nacional, ou seja, como sociedade que é diferente de Portugal e que não se vê mais como "extensão" da metrópole.

Esse modelo também recebeu várias críticas ao longo do tempo, pois, segundo os seus críticos, reduziria a arte a mero documento da história. Desse modo, o objeto artístico perderia sua particularidade, sua capacidade de criar um efeito de beleza, e se tornaria apenas um registro de dinâmicas sociais...

Mas, afinal, as obras literárias são "estilo artístico" ou são "documento"?[editar | editar código-fonte]

Eis um dilema para o qual mesmo os que estudam a literatura profissionalmente têm dificuldade em encontrar uma única resposta. Afrânio Coutinho (2009) apresenta assim a duplicidade da obra de arte:


Com ser de natureza estética, o fato literário é histórico, isto é, acontece num tempo e num espaço determinados. Há nele elementos históricos que o envolvem como uma capa e o articulam com a civilização – personalidade do autor, língua, raça, meio geográfico e social, momento; e elementos estéticos, que constituem o seu núcleo, imprimindo-lhe ao mesmo tempo características peculiares, que o fazem distinto de todo outro fato da vida [...]: tipo de narrativa, enredo, motivos, ponto de vista, personagem, linha melódica, movimento, temática, prosódia, estilo, ritmo, métrica, etc. [...] Na organização da obra de arte, estes últimos elementos formam o "intrínseco’, enquanto os primeiros constituem o "extrínseco".[4]


Assim, a obra é arte (ou seja, é dotada de características especiais que a configuram como artística) e é também história (pois se inscreve e participa de um contexto histórico). O que as metodologias de estudo da História da Literatura fizeram por bastante tempo foi enfatizar ora um aspecto, ora outro. Nos melhores casos, porém, conseguem combinar os dois. E é isso o que vamos tentar fazer em nossos estudos.


Em nosso curso, vamos privilegiar a relação entre os textos e seus contextos históricos, uma vez que a compreensão dos temas e também de algumas características dependem muito desse conhecimento prévio. Mas, quando lermos as obras, os poemas, os contos, iremos também ter atenção ao modo como esses textos constroem seus sentidos, que são uma visão particular do mundo que os cerca. Afinal, a obra é produto de escritores e escritoras que fazem determinadas escolhas artísticas para construí-la. Eles se usam de técnicas que são do mundo da arte. Lembre-se disso: UM TEXTO NÃO É APENAS O QUE ELE DIZ, MAS TAMBÉM COMO ELE DIZ. Esse é um lema de ouro para quem estuda literatura!

Textos de ontem, questões de hoje[editar | editar código-fonte]

Para encerrar essa discussão inicial, gostaria de ressaltar algo que será fundamental em nossos estudos: articular os textos literários ao nosso presente, à atualidade dos acontecimentos em nosso país e no mundo. Como veremos em outros momentos, as obras - a Carta, do século XVI; a poesia de Gregório de Matos, do século XVII - se relacionam não apenas com a sua própria história, aquela que "ficou" para trás... Usei "ficou" assim, entre aspas, porque muito do que esses textos disseram se comunicam aos dias de hoje e instigam muitos debates. Por exemplo, a Carta de Caminha já apresenta o que seria a "vocação" histórica do Brasil como país agroexportador e prevê os rendimentos que a Coroa portuguesa poderia obter da exploração dos minérios... Você vê como até hoje vivemos uma realidade que Pero Vaz de Caminha apontou, lá em 1500. Portanto, quase nada do que as obras literárias disseram "ficou" realmente no passado. Veremos o quanto os assuntos tematizados pela "velha literatura" são atualíssimos!

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. CEIA, Carlos. "Estilo". In: E-Dicionário de Termos Literários. Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/?s=estilo. Acesso em: 07/07/2020.
  2. COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil (vol.1). 7a. ed. São Paulo: Global, 2004.
  3. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira - momentos decisivos. 9a. ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 2000.
  4. COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil (vol.1). 7a. ed. São Paulo: Global, 2004. p. 9

Alguns links externos, para mais leituras![editar | editar código-fonte]

Iniciação à literatura brasileira, por Antonio Candido (apesar da visão hoje muito questionável sobre o "primitivismo" das culturas indígenas brasileiras, Candido explora a problemática de nossa literatura ser fruto de uma imposição cultural e da violência colonial, chamando a atenção para o processo complexo de adequação entre a realidade do Brasil e a linguagem literária europeia trazida para cá).

Definição e caracteres da literatura brasileira, por Afrânio Coutinho (também partindo do problema do "transplante" de uma cultura literária europeia para as Américas e de toda a discussão acerca da busca por identidade cultural brasileira, Coutinho vai afirmar que a nossa literatura se estabelece enquanto "brasileira" quando atinge a forma de um estilo reconhecível, que é sua e que tem diferenças com relação aos estilos europeus. Coutinho, então, defende que o estudioso da literatura deve atentar às características e evolução dessas formas e estilos).

Por que ler os clássicos?, por Wilton José Marques (nesse texto bem curto, o autor chama atenção para a leitura dos clássicos da literatura. Reconhecendo sua dificuldade, também observancomo a leitura dessas obras pode ser um grande caminho para instigar a reflexão sobre a realidade e sobre nós mesmos).

Por que ler os clássicos?, por Ana Lourenço (aqui, a escritora mostra como os velhos clássicos alimentam muitos produtos de nossa cultura contemporânea. Os filmes "O diário de Bridget Jones" e "O Rei Leão", por exemplo, são baseados em obras clássicas da literatura: "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, do século XVIII, e "Hamlet", de Shakespeare, do século XVI! Além disso, sua leitura tem muitas outras vantagens, como a melhoria do vocabulário e serem excelentes meios de conhecimento).

Boas leituras, e ate o próximo tópico, onde veremos a Carta de Caminha! (clique no link para ir direto ao tópico)