Educação Aberta/Metodología de la investigación

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HERNANDÉZ SAMPIERI, Roberto; FERNÁNDEZ COLLADO, Carlos; BAPTISTA LUCIO, Pilar. Metodología de la investigación. 6ª ed.  Mc Graw Hil, México, 2014.

Coleta e análise de dados qualitativos[editar | editar código-fonte]

O processo qualitativo não é linear nem sequencial como o processo qualitativo. As etapas constituem mais bem ações que efetuamos para cumprir com os objetivos da investigação e responder as perguntas do estudo; são ações que se justapõem, além de ser iterativas ou recorrentes.

Amostragem, coleta e análise são atividades quase paralelas.

A coleta de dados a partir de um enfoque qualitativo[editar | editar código-fonte]

A coleta de dados – O que se busca em um estudo qualitativo é obter dados (que se tornarão informações) de pessoas, seres vivos, comunidades, situações ou processos em profundidade; nas próprias “formas de expressão” de cada um.

Ao se tratar de seres humanos, os dados que interessam são conceitos, percepções, imagens, crenças, pensamentos etc. Esta classe de dados é muito útil para capturar e entender os motivos subjacentes, os significados e as razões internas do comportamento humano. Também não se reduzem apenas a números para ser analisados estatisticamente.

A coleta de dados ocorre nos ambientes naturais e cotidianos dos participantes ou unidades de análise. Mas qual é o instrumento de coleta de dados no processo qualitativo? O próprio investigador. É o investigador quem, por meio de diversos métodos ou técnicos, recolhe os dados (é ele quem observa, entrevista, revisa documentos, conduz sessões etc.). Não apenas analisa, como é o meio de obtenção da informação. Por outro lado, na pesquisa qualitativa os instrumentos não são padronizados, mas se trabalha com múltiplas fontes de dados. Ademais, são coletados dados de diferentes tipos: linguagem escrita, verbal ou não verbal, condutas observáveis e imagens. O maior desafio do pesquisador consiste em se introduzir (inserir) no ambiente e mimetizar-se com este, mas também em captar o que as unidades ou casos expressam e adquirir uma compreensão profunda do fenômeno estudado.

Que tipos de unidades de análise podem ser incluídas no processo qualitativo, além das pessoas ou situações (casos)? Lofland et al. (2005) propõe várias unidades de análise que não do microscópico ao macroscópico, ou seja, do individual ao social:

  • Significados
  • Práticas
  • Episódios
  • Encontros
  • Papéis
  • Díades
  • Grupos
  • Organizações
  • Comunidades
  • Subculturas
  • Estilos de vida
  • Processos

O papel do investigador na coleta dos dados qualitativos[editar | editar código-fonte]

Na pesquisa qualitativa, os investigadores devem estabelecer formas inclusivas para descobrir as múltiplas visões dos participantes e adotar papeis mais pessoais e interativos com eles. O investigador deve ser sensível, genuíno e aberto, e nunca esquecer por que estão no contexto. Adota uma postura reflexiva e procura minimizar a influência que sobre os participantes e o ambiente poderia exercer suas crenças, fundamentos ou experiências de vida associadas com o problema do estudo. Trata-se de que não interfiram na coleta dos dados para obter a informação dos indivíduos tal como a revelam.

Principais ferramentas da investigação qualitativa[editar | editar código-fonte]

Observação[editar | editar código-fonte]

A “observação investigativa” não se limita ao sentido da visão – compreende todos os sentidos. A observação qualitativa não é uma mera contemplação (sentar-se e observar o mundo tomando notas), implica em adentrar-nos profundamente em situações sociais e manter um papel ativo, assim como uma reflexão permanente. Estar atento aos detalhes, fatos, eventos e interações.

Os propósitos essenciais da observação investigativa na indução qualitativa são:

  1. Explorar e descrever ambientes, comunidades, subculturas e os aspectos da vida social, analisando seus significados e os atores que o geram;
  2. Compreender processos, vinculações entre pessoas e suas situações, experiências ou circunstâncias, os eventos que sucedem ao longo do tempo e os padrões que se desenvolve;
  3. Identificar problemas sociais;
  4. Gerar hipóteses para futuros estudos
Que questões são importantes para a observações?[editar | editar código-fonte]
  • Ambiente físico (entorno): tamanho, distribuição, sinais, acesos, lugares com funções centrais – podem ser muito grandes ou pequenos. Recomenda-se que se elabore um mapa do ambiente.
  • Ambiente social e humano: formas de organização em grupo, padrões de vinculação; características dos grupos e participantes. Convém-se traçar um mapa das relações ou redes.
  • Atividades (ações) individuais e coletivas: que fazem os participantes? A que se dedicam? Quando e como o fazem? Quais são os propósitos e as funções de cada atividade?
  • Artefatos que utilizam os participantes e funções que cobrem.
  • Fatos relevantes, eventos e histórias ocorridas no ambiente e aos indivíduos.
  • Retratos humanos dos participantes.
Os formatos de observação[editar | editar código-fonte]

Durante a observação na imersão inicial podemos ou não utilizar um formato. Às vezes, pode ser tão simples como uma folha dividia em dois: de um lado se registram as anotações descritivas da observação e do outro as interpretativas.

Papel do observador qualitativo[editar | editar código-fonte]

O papel do observador tem um papel ativo na indagação, mas pode assumir diferentes níveis de participação:

Não participação Participação passiva Participação moderada Participação ativa Participação completa
Exemplo: quando são analisados vídeos. O observador está presente, mas não interage. Participa em algumas atividades, mas não em todas. Participa da maioria das atividades; mas não se mistura completamente com os participantes, segue sendo, antes de tudo, um observador. Se mistura totalmente, o observador é mais um dos participantes.

Um bom observador qualitativo necessita saber escutar e utilizar todos os sentidos, ter atenção aos detalhes, possuir habilidades para decifrar e compreender condutar, ser reflexivo e flexível mudar o centro de atenção, se necessário.

Entrevistas[editar | editar código-fonte]

A entrevista qualitativa é mais íntima, flexível e aberta que a quantitativa. Define-se como uma reunião para conversar e intercambiar informações entre uma pessoa (o entrevistador) e outra (o entrevistado) ou outras (entrevistados).

Na entrevista, através das perguntas e respostas se alcança uma comunicação e a construção conjunta de significados a respeito de um tema.

As entrevistas se dividem em estruturadas, semiestruturadas e não estruturadas ou abertas.

  • Estruturadas: o entrevistador realiza seu trabalho seguindo um guia de perguntas específicas e se sujeita exclusivamente a esta (o instrumento prescreve que questões serão perguntadas e em que ordem)
  • Semiestruturadas: se baseiam em um guia de assuntos ou perguntas e o entrevistado tem a liberdade de introduzir perguntas adicionais para precisar conceitos ou obter maiores informações
  • Abertas: se fundamentam em um guia geral de conteúdo e o entrevistador possui toda a flexibilidade para manejá-lo

Regularmente na investigação qualitativa, as primeiras entrevistas são abertas e do tipo “piloto”, e vão se estruturando conforme avança o trabalho de campo. Regularmente o próprio investigador conduz as entrevistas.

As entrevistas, como ferramentas para coletar dados qualitativos, são empregadas quando o problema de estudo não pode ser observado ou é muito difícil de fazê-lo por questões éticas ou de complexidade (exemplo: formas de depressão ou violência doméstica).

Características das entrevistas qualitativas[editar | editar código-fonte]
  1. O princípio e o final da entrevista não podem ser predeterminados nem definidos com claridade, inclusive as entrevistas podem ser efetuadas em várias etapas. É flexível.
  2. As perguntas e a ordem em que são feitas se adéquam aos participantes.
  3. A entrevista é em boa medida anedótica e tem caráter mais amistoso.
  4. O entrevistador compartilha com o entrevistado o ritmo e a direção da entrevista.
  5. O contexto social é considerado e resulta fundamental para a interpretação de significados.
  6. O entrevistador ajusta sua comunicação às normas e à linguagem do entrevistado.
  7. As perguntas são abertas e neutras, já que pretendem obter perspectivas, experiências e opiniões detalhadas dos participantes em sua própria linguagem.
Tipos de perguntas nas entrevistas - Duas tipologias sobre as perguntas[editar | editar código-fonte]

Grinnel, Williams e Unrau (2009) – aplica-se a entrevistas em geral (qualitativas e quantitativas)

Classe Características Exemplos
Perguntas gerais (grand tour) Partem de perspectiva globais para dirigir-se ao tema que interessa. “Como é a vida aqui em Brasília?”
Perguntas para exemplificar Servem como disparadores para explorações mais profundas. Solicita-se ao entrevistado que proporcione um exemplo de evento, acontecimento ou categoria. “Que situações geravam ansiedade enquanto lecionava?”
Perguntas de estrutura ou estruturais O entrevistador solicita ao entrevistado uma lista de conceitos na forma de conjunto ou categorias. “Que tipo de problemas teve ao construir essa ponte?”
Perguntas de contraste Questiona-se ao entrevistado sobre similitudes e diferenças a respeito de certos temas e pede-se que classifique símbolos em categorias. “Como é o trato recebido das enfermeiras do turno matutino, em comparação com o trato das enfermeiras do turno noturno?” “Que semelhanças e diferenças encontra?”

Mertens (2010) – mais própria de entrevistas qualitativas – classifica as perguntas em seis tipos:

  1. De opinião: “você considera que há corrupção no atual governo de…?”
  2. De expressão de sentimentos: “como se sente em relação ao alcoolismo de seu marido?”
  3. De conhecimentos: “quais são os candidatos a ocupar a prefeitura de…?”
  4. Sensitivas (relativas aos sentidos): “que gênero de música você mais gosta de escutar quando está estressado?”
  5. De antecedentes: “depois de sua primeira gravidez você sofreu depressão pós-parto?”
  6. De simulação: “suponha que você é a prefeita de...”
Recomendações para realizar entrevistas[editar | editar código-fonte]
  • O propósito das entrevistas é obter respostas na linguagem e na perspectiva do entrevistado (“em suas próprias palavras”).
  • Alcançar espontaneidade e amplitude das respostas, assim como que o entrevistado relaxe.
  • É importante que o entrevistador gere um clima de confiança com o entrevistado e cultive a empatia (rapport). Há temas em que um perfil é melhor que outro. Por exemplo, se a entrevista é sobre a depressão pós-parto, uma mulher é mais adequada para a tarefa.
  • Não perguntar de maneira tendenciosa ou induzindo a resposta.
  • Não devem ser utilizados qualitativos. Por exemplo: “a greve dos trabalhadores está saindo do controle?”, é uma pergunta tendenciosa. Neste caso é melhor é melhor: “qual é o estado atual em que se encontra a greve?”
  • Escutar ativamente, pedir exemplos e fazer uma pergunta de cada vez.
  • Devemos evitar elementos que obstruam a conversação. Não interromper o entrevistado, mas guiá-lo com discrição.
  • Não saltar abruptamente de um tema a outro.
  • Sempre informar ao entrevistado sobre o propósito da entrevista e o uso que se dará a ela. Inclusive às vezes é conveniente ler primeiro todas as perguntas.
  • A entrevista deve ser um diálogo e é importante deixar que flua o ponto de vista único e profundo do entrevistado.
  • Normalmente se efetuam primeiro as perguntas gerais. Ordem de formulação sugerido para as perguntas em uma entrevista qualitativa.
  • Perguntas gerais e fáceis > Perguntas complexas > Perguntas sensíveis e delicadas > Perguntas de fechamento.
  • O entrevistado tem de demonstrar interesse nas reações do entrevistado e pedir que sinalize ambiguidades, confusões e opiniões não incluídas.
  • O entrevistador deve estar preparado para lidar com emoções e abruptos.
  • Cada entrevista é única e crucial, e sua duração deve manter um equilíbrio entre obter a informação de interesse e não cansar o entrevistado.
  • Sempre demonstrar a legitimidade, seriedade e importância do estudo e a entrevista.
  • O entrevistado deve ter sempre a possibilidade de fazer perguntas e dissipar suas dúvidas. É importante fazê-lo saber disso.
Partes na entrevista qualitativa (e mais recomendações)[editar | editar código-fonte]

É apresentado esquema sugerido de entrevista qualitativa com mais recomendações.

Entrevista qualitativa: podem ser feitas perguntas sobre experiências, opiniões, valores e crenças, emoções, sentimentos, feitos, histórias de vida, percepções, atribuições, etc.

Tabela com sugestões de formato para avaliar a entrevista: 1) o ambiente físico da entrevista foi o adequado? […] 5) que dados não contemplados originalmente emanaram da entrevista? 6) o entrevistado mostrou-se honesto e aberto em suas respostas? […]  9) As últimas perguntas foram respondidas com a mesma profundidade que as primeiras?

Grupos focais[editar | editar código-fonte]

Nos grupos focais existe um interesse por parte do investigador por como os indivíduos formam um esquema ou perspectiva de um problema através da interação.

Alguns autores consideram os grupos focais como uma espécie de entrevistas grupais, as quais consistem em reuniões de grupos pequenos ou médios (três a dez pessoas), nas quais os participantes conversam com profundidade sobre um ou vários temas em um ambiente descontraído e informal sob a condução de um especialista em dinâmicas de grupos. Além de fazer a mesma pergunta a vários participantes, seu objetivo é gerar e analisar a interação entre eles e como constroem conjuntamente significados.

Nessa técnica de coleta de dados a unidade de análise é o grupo (o que expressa e constrói) e tem sua origem nas dinâmicas grupais. Reúne-se um grupo de pessoas para trabalhar com os conceitos, as experiências, emoções, crenças, categorias, acontecimentos ou os temas que interessam na abordagem da investigação. O centro de atenção é a narrativa coletiva.

Documentos, registros, materiais e artefatos[editar | editar código-fonte]

Uma fonte muito valiosa de dados qualitativos são os documentos, materiais e artefatos diversos: cartas, diários pessoais, fotografias, gravações de áudio e vídeo por qualquer meio, objetos como vasilhas, armas e artigos de vestuário […].

Biografias e histórias de vida[editar | editar código-fonte]

A biografia ou história de vida pode ser individual (um participante ou um personagem histórico) ou coletiva (uma família, um grupo de pessoas que viveram durante um período e que compartilharam características e vivências). Para realizá-las costuma-se utilizar entrevistas e revisão de documentos e artefatos pessoais e históricos.

A seleção das ferramentas de investigação de um projeto em particular depende da abordagem do estudo, dos objetivos específicos de análises, do nível de intervenção do investigador, dos recursos disponíveis, do tempo e do estilo.

Página 417 – Tabela com as vantagens e limitações dos principais instrumentos para colher dados qualitativos

Triangulação de métodos de coleta dos dados[editar | editar código-fonte]

Sempre e quando o tempo e os recursos o permitem, é conveniente ter várias fontes de informação e métodos para colher os dados.

A análise dos dados qualitativos[editar | editar código-fonte]

A coleta e a análise dos dados ocorrem praticamente em paralelo; ademais, a análise não é uniforme, já que cada estudo requer um esquema particular.

Na análise dos dados, a ação essencial consiste em que recebemos dados não estruturados, para os quais proporcionamos uma estrutura. Os dados são muito variados, mas essencialmente consistem em observações do investigador e narrações dos participantes:

  • visuais
  • auditivas
  • textos escritos
  • expressões verbais e não-verbais
  • narrações do investigador

Os propósitos centrais da análise qualitativa são:

  1. explorar os dados
  2. impor-lhes uma estrutura (organizando-os em unidades e categorias)
  3. descrever as experiências dos participantes segundo sua ótica, linguagem e expressões
  4. descobrir os conceitos, categorias, temas e padrões presentes nos dados, assim como seus vínculos, afim de lhes conferir sentido, interpretá-los e explicá-los em função da abordagem do problema
  5. compreender o contexto que rodeia os dados
  6. reconstruir fatos e histórias
  7. vincular os resultados com o conhecimento disponível
  8. gerar uma teoria fundamentada nos dados

Algumas das características que definem a natureza da análise dos dados qualitativos são as seguintes:

  1. A análise é um processo eclético (que concilia diversas perspectivas) e sistemático, mas não rígido.
  2. Uma fonte de dados importantíssima que se agrega às análises é constituída pelas impressões, percepções, sentimentos e experiências do investigador ou investigadores.
  3. A interpretação que se faz dos dados pode diferir da que poderiam realizar outros investigadores.
  4. A análise qualitativa é sumamente contextual, consiste em estudar cada dado em si mesmo e na relação com os demais.
  5. É um caminho com rumo, mas não em “linha reta”.
  6. A interação entre a coleta e a análise nos permite maior flexibilidade na valorização dos dados e adaptabilidade quando elaboramos as conclusões.
  7. O investigador analisa cada dado, que por si mesmo tem um valor, e deduz similitudes e diferenças com outros dados.
  8. Os segmentos de dados ou unidades são organizados em um sistema de categorias.
  9. Os resultados da análise são sínteses de “ordem superior” que emergem na forma de descrições, expressões, categorias, temas, padrões, hipóteses e teoria.
  10. Existem diversas abordagens para análises qualitativas de acordo com o desenho ou o marco referencial selecionado: etnografia, teoria fundamentada, fenomenologia, feminismo, análises do discurso, análises conversacionais, análises semióticas. Mas todas efetuam análise temática.

Diretriz geral da “coreografia” da análise: coleta de dados, tarefas analíticas e resultados.

[…]

Análise detalhada dos dados[editar | editar código-fonte]

A maioria das vezes contamos com grandes volumes de dados. Que fazer com esses dados? A forma específica de analisá-los varia segundo o desenho de investigação desenhado. De todo modo, há uma análise comum em todo estudo qualitativo: gerar categorias ou temas.

O procedimento habitual é o que parte da teoria fundamentada (grounded theory), o que significa que a teoria (descobertas) vai emergindo fundamentada nos dados. Trata-se de um processo não linear. Resulta sumamente iterativo (vamos e regressamos) e em ocasiões é necessário retornar ao campo para mais dados aprimorados (entrevistas, documentos, sessões etc.)

Organização dos dados e da informação, assim como revisão do material e preparação dos dados para a análise detalhada[editar | editar código-fonte]

Recomendações para a transcrição de materiais gravados:

  • Por questões éticas, é preciso apegar-se ao princípio de confidencialidade. Para isso, é possível substituir o nome verdadeiro dos participantes por códigos, números, inicias, apelidos ou outros nomes.
  • Utilizar um formato com margens amplas e separar as intervenções com duplo espaço (caso queiramos fazer anotações ou comentários).
  • Transcrever todas as palavras, sons e elementos paralinguísticos: caretas, interjeições.
  • Indicar pausas (pausa) ou silêncios (silêncio); expressões significativas (choro, risos, golpe na mesa); sons ambientes; fatos captados; quando não se escuta (inaudível). Trata-se de incluir o máximo de informação.
  • Se vamos analisar linha por linha (quando esta vai ser a unidade de análise), numerar todas as linhas.

Uma vez transcritos os materiais, o ideal é voltar a revista todos os dados, agora reprocessados (inclusive anotações).

A atividade seguinte é organizar com precisão os dados, mediante algum critério ou vários que acreditamos ser mais convenientes.

  • Cronológico
  • Por sucessão de eventos
  • Por tipos de dados
  • Por grupo ou participante
  • Por localização do ambiente
  • Por tema
  • Importância do participante
Diário de análise[editar | editar código-fonte]

O diário tem a função de documentar o procedimento de análise e as reações do investigador ao processo e contém fundamentalmente:

  • Anotações sobre o método utilizado.
  • Anotações sobre a ideia, conceitos, significados, categorias e hipóteses que vão surgindo.
  • Anotações relativas à credibilidade e verificação do estudo.

Os memorandos analíticos são elaborados para fins de triangulação ou auditoria entre investigadores, para que outras pessoas possam ver o que fizemos e como fizemos.

Assim como o diário de campo reflete o que “transpiramos” durante a coleta de dados e nos ajuda a estabelecer a credibilidade dos participantes, o diário analítico mostra o que “transpiramos” ao analisar os dados e nos apoia a estabelecer a credibilidade do método de análise.

Surgimento de unidades de análise e codificação aberta (em primeiro nível ou plano inicial)[editar | editar código-fonte]

Na maioria dos estudos qualitativos se codificam os dados para se ter uma descrição mais completa destes, se resume, elimina-se a informação relevante e se realiza análises quantitativas elementares; finalmente, se trata de entender melhor o material analisado.

A codificação tem dois planos ou níveis: no primeiro (codificação aberta), se codificam as unidades (dados brutos) em categorias; no segundo, se comparam as categorias entre si para agrupá-las em temas e buscar possíveis vinculações.

Na codificação qualitativa os códigos surgem dos dados (mais precisamente dos segmentos de dados): os dados vão se mostrando e os “capturamos” em categorias. Usamos a codificação para começar a revelar significados potenciais e desenvolver ideias, conceitos e hipóteses; vamos compreendendo o que sucede com os dados.

Os códigos são etiquetas para identificar categorias, que dizer, descrevem um segmento de texto, imagem, artefato ou outro material.

Quando consideramos que um segmento ou unidade é relevante (em termos da abordagem, da representatividade do que expressaram os participantes, de importância na opinião do investigador) podemos extraí-lo como um potencial exemplo da categoria ou dos dados.

Conforme o investigador revisa novos segmentos de dados e volta a revisar os segmentos anteriores (comparação constante), continua “conectando conceitualmente” unidades e gera mais categorias ou consolida as anteriores.

Podemos identificar duas maneiras para definir as unidades de análise que serão codificadas.

Processo de eleição de uma unidade constante[editar | editar código-fonte]
O investigador revisa rodo o material (conjunto de dados) O investigador identifica um tipo de segmento para ser caracterizado como unidade constante (por exemplo, em documentos: a linha, o parágrafo ou a página; em fotografias, o quadrante superior esquerdo, superior direito etc.) O investigador começa a codificar e vai avaliando se a unidade é apropriada para a análise; prossegue a tarefa de codificação, chega um momento em que decide manter essa unidade como a definitiva para todo o processo. O investigador pode consolidar a unidade escolhida como constante ou mudar de unidade.
“Fluxo livre”[editar | editar código-fonte]

As unidades não possuem um tamanho equivalente. Se seleciona o início do segmento e até que se encontre um significado, se determina o final do segmento. Por exemplo, alguns segmentos podem ter cinco linhas, outros 10, outros 50.

Os segmentos se convertem em unidades quando possuem um significado (de acordo com a abordagem do problema) e em categorias do esquema final de codificação no primeiro nível, se sua essência se repete mais adiante nos dados (por exemplo, na entrevista ou em outras entrevistas).

Bazley (2013) e Coffey e Atkinson (1996) apontam que são três as atividades da codificação aberta ou em primeiro plano:

  1. Observar questões relevantes nos dados.
  2. Analisar essas questões para descobrir similitudes e diferenças, assim como estruturas.
  3. Recuperar exemplos de tais questões (unidades ou segmentos).

O processo de gerar categorias se realiza sobre a base da comparação constante entre unidades de análise. As categorias surgem mais rapidamente se primeiro lemos todo o material (unidades) e nos familiarizamos com este. O número de categorias cresce conforme revisamos mais unidades de análise. Desde logo, no princípio da comparação entre unidades se criam várias categorias; mas quando avançamos até o final, o ritmo de geração de novas categorias decresce.

Os nomes das categorias e as regras de classificação devem ser claras para evitar reprocessos excessivos na codificação.

p. 423 - classes de categorias

Descrever as categorias codificadas que emergiram e codificar os dados em um segundo nível ou central (codificação axial e seletiva)[editar | editar código-fonte]

O segundo nível consiste em descrever e interpretar o significado profundo das categorias, o que se denomina “codificação seletiva”. Berg (2004) recomenda recuperar ao menos três exemplos de unidades para justificar cada categoria.

Exemplo:

Categoria: Importância de uma loja departamental para o centro comercial.

“Não vou à praça, mas sim à Loja Principal.”

“O principal atrativo desta praça é a Loja Principal. Creio que se ela não existisse, eu nem viria.”

“Eu aposto que 70% da gente que vem ao centro comercial não entra na praça, mas na Loja Principal.”

Começamos a comparar categorias (tal como o fizemos com as unidades), identificamos semelhanças e diferenças entre elas e consideramos vínculos possíveis entre categorias. A recuperação de unidades, além de ajudar na compreensão do significado da categoria, nos serve para os contrastes entre categorias.

Em análise qualitativa é fundamental dar sentido aos seguintes elementos:

  1. As descrições completas de cada categoria (codificação seletiva). Isso implica oferecer uma descrição completa de cada categoria e situá-la no fenômeno que estudamos. Por exemple, a categoria “violência física” por parte do marido pode ser descrita respondendo às perguntas: Como é? Quando dura? Em que circunstâncias se manifesta? Como se exemplifica?
  2. Os significados profundos de cada categoria (codificação seletiva). Ou seja, analisar o significado da categoria para os participantes. Que significado tem a “violência física” para cada esposa que a padece?
  3. A presença de cada categoria. A frequência com a qual aparece nos materiais analisados (certo sentido quantitativo). Quantas ocorrências de cada categoria? Por exemplo, é interessante conhecer qual é a palavra com que nomeiam o esposo mais frequentemente ou se referem a ele e que significado tem as designações mais comuns.
  4. As relações entre as categorias (codificação axial). Encontrar vinculações, nexos e associações entre categorias. Algumas relações comuns entre categorias são:
    1. Temporais: quando uma categoria sempre ou quase sempre precede a outra, ainda que não necessariamente a primeira seja causa da segunda;;
    2. Causais: quando uma categoria é a causa de outra.
    3. De conjunto a subconjunto: quando uma categoria está contida dentro da outra.
Gerar hipóteses, explicações e teorias[editar | editar código-fonte]

Com base na seleção de temas e o estabelecimento de relações entre categorias, começamos a interpretar os resultados e entender o fenômeno de estudo, assim como gerar a teoria.

Para completar idealmente o ciclo de análise qualitativa devemos:

a)      Produzir um sistema de classificação (tipologias)

b)     Apresentar temas e teoria – Com a finalidade de identificar relações entre temas, devemos desenvolver interpretações destes, as quais emergem de maneira consistente em relação aos esquemas iniciais de classificação e as unidades.

[...]

Quando devemos deixar de coletar e analisar dados? Em que momento concluir o estudo?  [editar | editar código-fonte]

São dois os indicadores fundamentais:

1. Quando as categorias estão “saturadas” e não encontramos novas informações.

2. No momento em que respondemos à abordagem (proposição) do problema (que foi evoluindo) e gerado um entendimento sobre o fenômeno investigado.

Ademais, que estejamos “satisfeitos” com as explicações desenvolvidas (esse sentimento intangível que em nosso interior nos diz: “sim, já compreendi do que se trata isto”.

Talvez o fenômeno seja tão complexo que requeira que regressemos ao campo ao menos uma vez.

Análise qualitativa de dados assistida por computador[editar | editar código-fonte]

Algumas opções: Atlas.ti®, Ethhnograph®, NVivo®, Decision Explorer®

Rigor na investigação qualitativa[editar | editar código-fonte]

Os principais autores na matéria formularam uma série de critérios para estabelecer certo “paralelo” com a confiabilidade, validade, objetividade quantitativa, os quais foram aceitos pela maioria dos pesquisadores, mas rechaçados por outros. Os objetores desses critérios argumentam que foram movidas as preocupações positivistas ao âmbito da investigação qualitativa.

Dependência[editar | editar código-fonte]

O grau em que diferentes investigadores que que coletam dados similares em campo e efetuam as mesmas análises, geram resultados equivalentes. Os dados devem ser revisados por diferentes investigadores e devem chegar a interpretações congruente.

[...]

Credibilidade[editar | editar código-fonte]

Também chamada de “máxima validade”, refere-se a se o investigador captou o significado completo e profundo das experiências dos participantes, particularmente daqueles vinculados com a abordagem do problema.

Transferência (aplicabilidade de resultados)[editar | editar código-fonte]

Não se refere a generalizar os resultados a uma população mais ampla, já que esta não é uma finalidade de um estudo qualitativo, mas que parte deles ou sua essência possam ser aplicados em outros contextos.

Confirmação ou confirmabilidade[editar | editar código-fonte]

Vinculado à credibilidade, refere-se a demonstrar que minimizamos os preconceitos e tendências do investigador. Implica rastrear os dados em sua fonte e a explicitação da lógica utilizada para interpretá-los.

Outros critérios: fundamentação, aproximação, representatividade de vozes, capacidade de outorgar significado, autenticidade.