Educação na Web/Tratamentos alternativos para doença Zika

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Conversando com os professores[editar | editar código-fonte]

Essa receita foi encontrada no site Nat Vim e não possui autoria. Percebe-se, pelo desenrolar do texto, que a motivação é racional e baseada em pseudociência. A argumentação destaca que vírus e outros invasores não sobrevivem em meios alcalinos e que é necessária acidez no sangue para que as doenças se manisfestem. O texto não apresenta fontes ou evidências para sustentar a argumentação.

Público alvo[editar | editar código-fonte]

Esta seção busca orientar professores e alunos na busca de fontes e informações relevantes sobre tratamentos da febre Zika e de doenças possivelmente relacionadas, desconstruindo boatos e senso comum, ressaltando a importância de buscar informações embasadas cientificamente.

Contexto[editar | editar código-fonte]

A febre Zika é causada por um vírus ainda pouco conhecido e transmitida por um mosquito bastante familiar. A doença tem gerado preocupação e, muitas vezes, a pouca informação que se tem acaba sendo distorcida, gerando boatos – em sua maioria sem fundamento – que acabam por confundir as pessoas, gerando um certo desespero.

Nesta seção trabalharemos especificamente com os boatos relacionados aos tratamentos para a doença, reforçando as informações reais, desmistificando algumas afirmações e tentando fornecer subsídio para que professores consigam trabalhar este tema com seus alunos de forma a desenvolver o senso crítico e a habilidade de buscar e julgar informações.

Boatos[editar | editar código-fonte]

Essa outra receita foi encontrada em outro site, porém o conteúdo é exatamente igual ao site acima mencionado e também não possui autoria.

Argumentos usados pelos boatos[editar | editar código-fonte]

            Pode-se encontrar curas alternativas e remédios caseiros propostos para o tratamento da febre Zika na internet. Uma vez que seu tratamento é sintomático, se combatem os sintomas da febre e não o vírus, diversos alimentos já conhecidos como “remédios” naturais podem aparecer em misturas (exemplo) como sendo uma possível fonte de cura. Além de vídeos explicativos de algumas receitas que prometem a cura não só para a febre Zika como também para a dengue (aqui), há também diversas receitas caseiras encontradas na internet que prometem oferecer maior imunidade e/ou tratar a doença/sintoma ou eliminar o vírus.

           

           

Contra-argumentos aos boatos[editar | editar código-fonte]

Explicação[editar | editar código-fonte]

Aqui estão detalhados os tratamentos recomendados e contra-argumentos aos boatos criados e também foi acrescentado sobre o tratamento de Microcefalia e da Síndrome de Guillain-Barré, para possível uso contra boatos que possam ainda surgir.

Curas naturais[editar | editar código-fonte]

Para podermos compreender melhor o risco de se adotar essas medidas alternativas de tratamento, é preciso entender como são produzidos os remédios e como isso está relacionado com os procedimentos próprios da Ciência para alcançar suas explicações.

Antes de ser comercializado, um remédio passa por diversas etapas de testes, de discussões sobre seu uso dentro do meio acadêmico e outros setores da sociedade até sua produção e aplicação.

Nos diversos processos envolvidos na produção científica, é importante destacar que todas as pesquisas dessa natureza possuem rigor metodológico. Logo, dentro do limite do possível, os laboratórios criam ambientes em que o fator que teria mais influência no resultado desse experimento seria o composto em teste (nesse caso, esse remédio). Uma vez feito o experimento, a equipe discute para tentar chegar a uma conclusão, muitas vezes repetindo o experimento (com ou sem modificações) para ver se os resultados se repetem.

            Depois de semanas, meses, até anos de testes, os responsáveis escrevem um documento relatando como foi feito o experimento. No documento constam quais as teorias já levantadas anteriormente que permitiram que eles formulassem a pergunta que guiou esse experimento e suas conclusões, como esse experimento foi feito e o que a equipe envolvida obteve de resultado. No mundo acadêmico, chama-se esse documento de artigo científico.

Para diminuir ao máximo os possíveis riscos do uso desse produto, os envolvidos nessas pesquisas submetem seu artigo científico para ser discutido entre seus pares, ou seja, outros membros da comunidade científica. Com essa discussão a equipe pode identificar se houve algum erro que passou despercebido, algum fator de seu experimento que pode ter levado a conclusões equivocadas, receber sugestões, críticas ou então elogios e apoio dos outros pesquisadores.

O canal do Youtube, Nerdologia, fez um vídeo sobre  simpatias que pode auxiliar nessa ligação sobre como conhecer todo esse processo pode auxiliar no melhor entendimento dos riscos dos tratamentos alternativos. Além disso no Canal EuCiência, esse outro vídeo sobre homeopatia também dá subsídios para a compreensão desse processo e porque medicinas alternativas não possuem embasamento científico.

Açafrão da Terra (Curcumina)[editar | editar código-fonte]

A Curcumina (extraída do tempero Açafrão da terra) foi identificada como um tratamento contra o vírus causador da Dengue (igualmente um Flavivírus) em células infectadas in vitro, ou seja, em células cultivadas em laboratório, que não estão em organismos vivos. Até o presente momento, nenhum estudo foi conduzido em humanos, logo não há evidências diretas sobre o consumo do tempero auxiliando no tratamento da doença. Muitos compostos que tem ação em condições de laboratório acabam não se tornando medicamentos por não apresentar a mesma ação quando testados em animais ou pessoas.[1]

Febre Zika[editar | editar código-fonte]

O tratamento de febre Zika é sintomático, ou seja, para alívio dos sintomas causados. Segundo o Ministério da Saúde[2], não existe tratamento específico para a doença causada pelo vírus Zika. Pessoas infectadas com a doença tratam seus sintomas como febre e dor com o uso de acetaminofeno (paracetamol) ou dipirona. Anti-histamínicos são usados contra erupções que coçam (pruriginosas). Ainda não há vacina para o vírus. Drogas como ácido acetilsalicílico ou drogas que podem aumentar o risco de hemorragias como anti-inflamatórias não são recomendadas nessa situação.

De acordo o Dr. Pedro Pinheiro do site MDSaúde[2] as recomendações para os pacientes é a ingestão de líquidos e repouso. A febre Zika cura-se espontaneamente em poucos dias. Os sintomas da doença são bem parecidos com os da Dengue e Chikungunya. É importante estar atento às diferenças.

Como os sintomas da Dengue são muito parecidos com os do Zika Vírus deve-se tomar cuidado ao se medicar. Na dengue, há a diminuição de produção das plaquetas responsáveis pela coagulação do sangue. Como ácido acetilsalicílico funciona como um anticoagulante, agravando o processo provocado pelo vírus, ele não é recomendado para pacientes com suspeita de Dengue, já que poderia desencadear hemorragias que podem ser letais.

O ácido acetilsalicílico inibe a produção de tromboxano A2, substância liberada na coagulação sanguínea e em resposta a ela, as plaquetas agregam-se iniciando o efeito de coagulação do sangue. A inibição  de tromboxano A2, resulta na diminuição da agregação das plaquetas, por isso, o medicamento funciona como anticoagulante. A administração dessa droga na Dengue pode resultar em lesões na mucosa gástrica, causar hemorragias e atrapalhar no diagnóstico da doença.[3]

Encontrou-se também receitas que afirmam serem eficazes para tratar o principal sintoma da doença: o prurido (coceira). As diversas receitas foram escritas por André Luiz Melo, porém não foi possível encontrar referências sobre o autor. Ele não apresenta argumentos para a utilização das técnicas, apenas descreve-as. As motivações parecem ser racionais e emocionais, visando o estabelecimento de curas efetivas e naturais para a coceira.

Tratamento para microcefalia[editar | editar código-fonte]

Há diversos fatores que causem a microcefalia além de Zika (ver aqui), seu diagnóstico pode ser feito durante a gestação, com o auxílio de exames de imagem no pré-natal, e pode ser confirmado logo após o parto através da medição do tamanho da cabeça do bebê. Exames como tomografia computadorizada ou ressonância magnética cerebral também ajudam a medir a gravidade da microcefalia e quais serão suas possíveis consequências para o desenvolvimento do bebê. Durante a epidemia, houve uma mudança no valor do perímetro cefálico de 33 cm para 32 cm para o critério diagnóstico da doença no bebe recém-nascido. Segundo a pediatra Profa. Dra. Lavinia Schüler Faccini, médica geneticista da UFRGS e presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica: "O perímetro cefálico de 32 cm é baseado em evidências científicas, literatura internacional, critérios adotados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e significa que esta circunferência é inferior a dois desvios padrão em relação à média da população e, crianças nascidas de 40 semanas, ou o que chamamos a termo."[4]

Atualmente, não há tratamentos medicamentosos capazes de reverter a microcefalia. Entretanto existem ações que auxiliam no suporte e desenvolvimento da criança. Diversos profissionais atuam neste auxílio, uma vez que a microcefalia pode resultar em diferentes complicações, entre elas respiratórias, neurológicas e motoras. Estão disponíveis serviços de atenção básica, serviços especializados de reabilitação, os serviços de exame e diagnóstico e  serviços hospitalares, além de órteses e próteses aos casos em que se aplicar.

O Ministério da Saúde pede para que as grávidas não usem medicamentos não prescritos por profissionais de saúde e que façam um pré-natal qualificado e todos os exames previstos. Recomenda, ainda, que elas notifiquem aos profissionais de saúde qualquer alteração que notarem durante a gestação.

Tratamento para Síndrome de Guillain-Barré[editar | editar código-fonte]

Outra doença que tem sido relacionada ao Zika é a Sindrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que leva à inflamação dos nervos e provoca fraqueza muscular.  O tratamento da síndrome conta com, basicamente, dois recursos: a plasmaferese (técnica que permite filtrar o plasma do sangue do paciente) e a administração intravenosa de imunoglobulina para impedir a ação deletéria dos anticorpos agressores. Exercícios fisioterápicos devem ser introduzidos precocemente para manter a funcionalidade dos movimentos. Medicamentos imunosupressores podem ser úteis nos quadros crônicos da doença.

Importante: A síndrome de Guillain-Barré deve ser considerada uma emergência médica que exige internação hospitalar já na fase inicial da evolução, pois seus sintomas e complicações podem piorar rapidamente.

Uso de antibióticos[editar | editar código-fonte]

Antibióticos são remédios utilizados no combate de infecções causadas por bactérias. Há diversos tipos de antibióticos e cada um age contra propriedades das células do patógeno (bactéria, por exemplo) que são inexistentes nas células do hospedeiro (pessoa infectada, por exemplo), matando-as ou, pelo menos, inibindo seu crescimento. Uma vez que vírus utilizam a célula do hospedeiro para sua replicação, antibióticos não funcionam contra eles.

Material Recomendado[editar | editar código-fonte]

Nesta seção estão alguns materiais de apoio além de temas que podem ser trabalhados em sala de aula relacionados a Febre Zika, resumos das pesquisas que estão ocorrendo e sugestões de materiais que podem ser utilizados como apoio.

Pesquisas sobre Zika[editar | editar código-fonte]

As pesquisas com o Zika vírus vêm sendo desenvolvidas em diversas partes do mundo, desde 1952. Em geral elas tratavam de isolamento e caracterização do vírus, porém com um intuito descritivo, visando o conhecimento do organismo. No período, pouquíssimos casos de infecção humana por esse agente foram relatados, não caracterizando, portanto, a necessidade de muitas pesquisas de importância epidemiológica e/ou de caracterização da doença– apesar de existirem alguns estudos sobre essa temática, em geral estudos de caso isolados. Apenas 10 artigos sobre o vírus foram publicados entre 1952 e 1982 e percebe-se uma enorme lacuna de publicações sobre o ZIKV durante mais de vinte anos.[5]

            A partir de 2008, com o surgimento das primeiras epidemias, observa-se uma explosão de pesquisas científicas com o vírus e sob diversas abordagens: caracterização do vírus, transmissão, vetores, caracterização, evolução e complicações da doença causada por ele; sequenciamento e outras técnicas de detecção (principalmente para rápido diagnóstico através de sorologia); velocidade e modo de propagação da doença; capacidade mutagênica (através do acompanhamento das mudanças ocorridas em diversas linhagens); associação da doença à síndromes neurológicas (principalmente a síndrome Guillain–Barré); tecidos e fluidos humanos que podem conter o vírus; além de pesquisas realizadas em animais e em culturas de células para melhor entendimento dos processos de infecção e dos possíveis desdobramentos da mesma.[5]

            No Brasil, as pesquisas ainda estão em fase inicial. Em geral tratam da associação da infecção pelo vírus e microcefalia em fetos, da correlação com o desenvolvimento da Síndrome de Guillian-Barrè, ferramentas e técnicas de análises moleculares para detecção do vírus e até possíveis vacinas. Além disso, tem-se como perspectivas o desenvolvimento de modelos animais tanto para compreender a interação dos vírus com os organismos quanto para testar alternativas terapêuticas.

Temas que podem ser trabalhados pelo professor[editar | editar código-fonte]

  1. Metodologia científica com foco em produção de medicamentos. Quais são a etapas que um medicamento precisa passar para ser comercializado?
  2. Imunologia. Qual a ação de vacinas e antibióticos no combate a doenças? Antibióticos podem ser usados contra vírus?
  3. Sistema nervoso e doenças autoimunes.
  4. Busca de informações e materiais. Essas fontes são confiáveis? Onde buscar fontes?
  5. Velocidade e alcance de boatos e notícias no ambiente virtual.

Materiais de Apoio[editar | editar código-fonte]

Vídeo sobre criação de medicamentos

Site da Anvisa com as etapas da criação de um medicamento

Principais boatos sobre febre Zika e Microcefalia

Site do Ministério da Saúde com dados e informações atualizadas

Entrevista com professor da USP sobre estudos com Zika vírus

Vídeo uso de ácido acetilsalicílico e outros medicamentos em caso de dengue

Pesquisas no Brasil: Protocolo para buscar vacina contra Zika e Cinco perguntas sobre o Zika Virus

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. Padilla-S L et al (2014) Inhibitory effects of curcumin on dengue virus type 2-infected cells in vitro. Arch Virol (2014) 159:573–579
  2. 2,0 2,1 http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/perguntas-e-respostas-zika
  3. http://diariodebiologia.com/2010/11/por-que-alguns-medicamentos-devem-ser-evitados-em-casos-de-suspeita-de-dengue/
  4. http://genereporter.blogspot.com.br/2015/12/entrevista-com-uma-medica-geneticista.html
  5. 5,0 5,1 Panorama elaborado a partir da leitura dos 64 artigos encontrados na plataforma Web of Science, utilizando os termos “zika vírus”, “zikavirus” e “ZIKV”.