Sociologia e Comunicação Cásper/flâneur/Atividade I
I - Qual relação este poema tem com o nosso tema?
[editar | editar código]Sobre uma Poesia sem Pureza (Pablo Neruda)
“Assim seja a poesia que procuramos,
gasta como um ácido pelos deveres da mão,
penetrada pelo suor e o fumo,
rescendente a urina e a açucena,
salpicada pelas diversas profissões
que se exercem dentro e fora da lei.
Uma poesia impura como um fato,
como um corpo,
com manchas de nutrição,
e atitudes vergonhosas,
como rugas, observações, sonhos, vigílias, profecias,
declarações de amor e de ódios,
bestas, abanões, idílios,
crenças políticas, dúvidas,
afirmações, imposições.
A sagrada lei do madrigal
e os decretos do tato, olfato, gosto, vista, ouvido,
o desejo de justiça, o desejo sexual,
o ruído do oceano,
sem excluir deliberadamente nada,
(sem aceitar deliberadamente nada)
a entrada na profundidade das coisas
num ato de arrebatado amor,
e o produto poesia manchado de pombas digitais,
com marcas de dentes e gelo,
roído talvez levemente pelo suor e o uso.
Até alcançar essa doce superfície do instrumento tocado sem descanso,
essa suavidade duríssima da madeira manejada,
do orgulhoso ferro.
A flor, o trigo, a água
têm também essa consistência especial,
esse recurso de um magnífico tato.
II- Proposta de atividade:
[editar | editar código]"Que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais..."
Esse trecho da Letra de “Sei Lá, Mangueira” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho) romantiza um pouco a vida na comunidade de Mangueira, mas é um marco sobre como a poesia ou a crônica podem revelar um mundo muito especial
Este exercício articula leitura crítica, deriva urbana, fotografia e escrita narrativa. Parte da tensão central trabalhada em aula: o flâneur não é turista, nem repórter. Ele erra com atenção, permitindo que o espaço se revele antes de tentar explicá-lo. A proposta está organizada em quatro etapas encadeadas, nas quais imagem e texto não se ilustram mutuamente — juntos, compõem uma história sobre um lugar.
Momento 1 — Reflexão sobre o texto
[editar | editar código]Antes da saída a campo — em sala
Leia o texto "Flanar, Deambular ou Derivar?" (Pereira e Souto, 2021) com três perguntas orientadoras. Não são para ser respondidas por escrito: são para habitar o olhar durante a deriva.
Perguntas orientadoras da leitura
1. O texto distingue flanar, deambular e derivar como práticas com diferenças, mas que compartilham um gesto comum. Qual é esse gesto? O que ele tem a ver com a sua relação cotidiana com a cidade onde você mora ou circula?
2. Careri propõe uma disciplina sem sala de aula, realizada inteiramente nas praças de Roma. O que essa escolha diz sobre o que ele entende por aprendizado? Você consegue imaginar esse modelo na sua própria cidade?
3. A regra mais difícil de cumprir na experiência descrita pelas autoras foi resistir ao impulso de fotografar. Por que caminhar sem registrar é tão difícil hoje? O que isso revela sobre nossa relação com a atenção e com o espaço?
Etapa 1 — Escolha do tema-território
[editar | editar código]Em sala
Cada aluno (ou dupla) deve escolher não um tema abstrato, mas um território específico (seja ele qual for). Por exemplo:
• Um bairro
• Uma rua ou esquina específica
• Uma esquina
• Uma feira livre
• Uma estação de metrô ou trem
• Uma praça
• Um cemitério
• Um comércio de passagem
• Um trajeto cotidiano
• Um boteco
• Uma entrada de estádio de futebol ou arquibancada
• Uma vitrine
Critério fundamental O lugar deve ser familiar ao aluno/grupo. A proposta é exercitar o movimento clássico do flâneur: tornar o familiar estranho.
Provocação inicial
Nesta etapa, o grupo define apenas:
• O lugar escolhido
• Um breve texto (3–5 linhas) explicando por que escolheu esse território
Não é uma pauta. É uma motivação pessoal.
Etapa 2 — A deriva
[editar | editar código]Atividade de campo
O aluno deve ir até o lugar escolhido para realizar uma deriva urbana — um caminhar atento, sem roteiro rígido e sem objetivo informativo imediato.
Restrições importantes
• Sem entrevistas formais, mas podem ouvir as pessoas se acharem necessário
• Sem um ângulo jornalístico pré-definido
• Sem depender apenas do celular
• Levar um caderno ou bloco de notas físico
O foco é observar antes de interpretar.
Orientações para a deriva
Observar/Perceber: gestos, ruídos, ritmos, repetições, vazios, detalhes aparentemente banais.
Anotar/Registrar: frases soltas, imagens mentais, sensações físicas, cheiros, temperaturas, incômodos.
Associar/Conectar: o que se vê com memórias pessoais, referências culturais, músicas, filmes, textos, experiências anteriores.
Fotografar/Produzir: imagens não para ilustrar, mas como extensão do olhar: enquadramentos, texturas, sombras, rastros humanos, detalhes esquecidos.
Silenciar: Evitar explicar mentalmente o que se vê; primeiro, deixar o lugar “falar”.
Orientações específicas para a fotografia
• Fotografar menos, olhar mais
• Evitar imagens óbvias ou turísticas
• Pensar cada foto como um fragmento de narrativa
Pergunta-chave: “Que ângulo eu ponto de vista eu nunca utilizei para pensar esse lugar? Existem lugares em que pode não estar acontecendo nada? O que isso significa?”
Duração mínima sugerida: 1h30 de permanência no local, em dia e horário escolhidos pelo aluno/gupo.
Momento 2 — O texto que precede as fotos=== Texto de cabeçalho ===
A conexão entre a deriva e a narrativa visual
Antes das imagens, o aluno produz um texto de entrada (150 a 250 palavras) que não descreve o lugar, mas situa o leitor em relação ao próprio olhar. O texto responde, de forma implícita, a uma só pergunta: por que este lugar?
Orientações para o texto de entrada
• Escreva na primeira pessoa, mas resista à confissão autobiográfica direta
• Use o tempo presente, como se estivesse andando enquanto escreve
• Nomeie algo que você esperava ver — e que não encontrou
• Não antecipe as fotos. O texto é um convite ao percurso, não um roteiro
Modelos de abertura para calibrar o tom (não para copiar)
Conheço essa rua de cor. Sei em que esquina o calçamento muda. Fui hoje como se fosse a primeira vez.
Escolhi esse lugar porque ele me incomoda. Ainda não sei dizer por quê.
Aqui é onde minha avó comprava pão. O ponto continua. A padaria mudou de nome três vezes.
Momento 3 — Orientações para os enquadramentos fotográficos=== Texto de cabeçalho ===
6 a 10 fotografias que constroem uma narrativa
As fotografias não são meramente ilustrativas. Constituídas com o texto, formam uma sequência narrativa com tensão interna. Os quatro tipos de enquadramento abaixo não são categorias rígidas — são registros de atenção.
1. A pessoa no espaço
Não o retrato, mas a relação entre o corpo e o lugar. O objetivo é mostrar alguém que pertence ao espaço — ou que parece não pertencer.
• Fotografe de costas, de longe ou de lado. Evite o rosto como elemento central
• Prefira o gesto ao semblante: mãos, postura, direção do olhar
• Procure a repetição: duas pessoas fazendo o mesmo gesto sem se ver; o mesmo percurso feito por pessoas diferentes
Pergunta-guia: O que essa pessoa revela sobre o espaço — ou o espaço revela sobre ela?
2. O detalhe esquecido
O que existe, mas ninguém para para ver. Atget (um fotógrafo francês) fotografava sapateiros enfileirados, pátios vazios, janelas que ninguém havia pensado em fotografar.
• Desca o ângulo: o que existe ao nível do chão? (Rachaduras, raízes, restos, marcas de tráfego, sombras projetadas)
• Suba o ângulo: o que existe acima da linha dos olhos e é habitualmente ignorado? (Fachadas deterioradas, fios, molduras, inscrições)
• Procure texturas e rastros: não o objeto, mas o sinal de que alguém o usou — o desgaste, a sujeira, a marca
Pergunta-guia: O que este detalhe diz sobre o tempo que passou por este lugar?
3. O estranhamento
O enquadramento mais difícil e mais rico. Trata-se de produzir, pela composição, um senso de deslocamento — aquilo que os surrealistas chamavam de hasard objectif: o acaso que revela o insólito no cotidiano.
Operações que produzem estranhamento:
• Justaposições: dois elementos que não deveriam estar juntos, mas estão — o luxo e a ruína, o novo e o obsoleto, o sagrado e o banal
• Reflexos e sombras: vitrines que espelham outra cena; sombras que contam uma história diferente da que o corpo está fazendo
• Ausência marcante: o espaço claramente feito para pessoas — mas vazio. A cadeira sem ninguém, a mesa com pratos ainda sujos, o ponto de ônibus às 6h da manhã
• Escala inesperada: o pequeno que parece grande; o grande que parece pequeno
Pergunta-guia: Se um visitante de outro tempo visse esta imagem, o que ele não conseguiria explicar?
4. O ambiente como totalidade
Uma ou duas fotos que mostram o espaço em sua escala real — não para contextualizar, mas para criar a sensação de estar lá. Pode ser uma rua vazia, uma praça ao entardecer, um interior.
• Evite a foto “cartão postal” que conclui e fecha o olhar
• Prefira uma imagem que abre perguntas: de onde vem esse barulho? O que há além desse muro? Quem mora nessa janela acesa?
Pergunta-guia: Esta foto convida o leitor a entrar — ou o mantém do lado de fora?
Etapa 3 — Organização do olhar e construção da narrativa
[editar | editar código]Após a deriva, o aluno deve revisitar: anotações, fotografias e sensações vividas. Aqui começa o gesto fundamental do flâneur-narrador: classificar, organizar e dar forma sem matar a ambiguidade do vivido.
Perguntas-guia
• Que padrões aparecem?
• Que imagens se repetem?
• Que tensão atravessa esse lugar?
• O que está ausente?
• Que tipo de história esse espaço parece contar?
Etapa 4 — O produto narrativo
[editar | editar código]Estrutura da sequência narrativa
Abertura Texto de entrada (150–250 palavras) Situa o olhar, não o lugar
1ª imagem Detalhe ou estranhamento Cria o tom, suspende a expectativa
2ª–3ª imagens Pessoa no espaço + detalhe Constrói o ritmo do olhar
Texto intercalado (opcional, 2–3 linhas) Fragmento — frase ouvida, pensamento, memória Cria textura sem explicar
4ª–6ª imagens Estranhamento + ambiente Desenvolve a tensão
7ª–10ª imagens Detalhe + ambiente Desacelera e abre
Texto de fechamento (50–100 palavras) Não conclui — deixa em aberto A última palavra é uma pergunta ou imagem mental
Formato — Ensaio em formato digital (thread ou carrossel)
• Sequência de imagens
• Textos curtos articulados como fragmentos de história
• Pensar ritmo e ordem de leitura
Exigência comum a todos os formatos
O trabalho deve revelar algo que não seria encontrado em uma reportagem convencional:
• Uma atmosfera
• Um conflito silencioso
• Uma repetição invisível
• Uma poética do cotidiano
• Uma contradição do espaço urbano
Não é “sobre” o lugar.
É o lugar falando através do olhar de quem realiza a flânerie.
Critério de avaliação
Não se avalia a qualidade técnica da fotografia, mas a coerência do olhar:
• Há uma tensão atravessando a sequência?
• As imagens e o texto se respondem sem se explicar mutuamente?
• O aluno conseguiu tornar o familiar estranho — ou o estranho familiar?
• O produto revela algo que uma reportagem convencional não revelaria?