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Barro Vermelho
População total

Informações não encontradas

Regiões com população significativa
Vale São Francisco
Línguas
Português
Religiões
Informações não encontradas

Barro Vermelho é uma comunidade quilombola remanescente situada às margens do Rio São Francisco.

Inicialmente, em janeiro de 1999, foi demarcada uma área de 153 hectares pelo Instituto de Terras da Bahia (Interba) em conjunto com a Fundação Cultural Palmares. Foi a primeira comunidade quilombola baiana a ser titulada pelo órgão Estadual. Já em julho de 2000, outros 7.615 hectares foram titulados pela Fundação Cultural Palmares.

Porém, antes da conquista da titulação, os quilombolas de Barro Vermelho experimentaram a violência e o conflito. E, como outras comunidades quilombolas da região, resistiram.

Localização[editar | editar código-fonte]

As terras da comunidade quilombola do Barro Vermelho localizam-se na região conhecida como Vale do São Francisco, no município Sítio do Mato, região oeste do estado da Bahia. Possui clima semiárido, à 428 metros de altitude em relação ao nível do mar e é distante aproximadamente 540 km de Salvador.

Tem como municípios limítrofes a Serra do Ramalho, Santana, Serra Dourada, Muquém do São Francisco, Paratinga, Brejolândia e Bom Jesus da Lapa.[1]

As coordenadas aproximadas são -13° 5' 7.87", -43° 28' 3.21"

Ver no mapa

História[editar | editar código-fonte]

A partir do século XVI, a cultura canavieira e a busca por minerais preciosos fizeram da região do Médio São Francisco um local de intenso trânsito tanto para o norte e nordeste do país quanto para as Minas Gerais.

Naquele cenário, coube à região o importante papel da pecuária que, durante mais de 200 anos foi a sua atividade principal. A história de Barro Vermelho está inserida dentro desse contexto. A própria comunidade reconhece sua ascendência nos antigos escravos das fazendas de gado.

A memória da comunidade dá conta da existência de duas grandes fazendas (Tabuleiro e Mangal) na região até as primeiras décadas do século XIX. A partir dessa época, as fazendas foram sendo divididas por herança e venda.

Com a instituição da Lei de Terras em 1850 iniciou-se o primeiro processo de expulsão violenta de população negra residente na região. As consequências só não foram mais graves devido a um fato curioso relatado pelos mais idosos da comunidade. Na Fazenda Mangal, o proprietário era conhecido como capitão João e tinha uma filha adotiva, chamada Gertrudes e em um dado momento da história, Gertrudes teria se apaixonado por um vaqueiro da região. Seu pai, desgostoso com o relacionamento, mudou-se para outra propriedade deixando sua filha em Mangal. Algum tempo depois, Gertrudes achou por bem doar grande parte da Fazenda Mangal a Nossa Senhora do Rosário, padroeira do lugar. Na memória da comunidade a doação teria acontecido após a abolição.

Com a doação, a fazenda foi relativamente desvinculada dos conflitos. A comunidade já residente ficou um pouco resguardada naquela porção de terra e pôde inclusive receber outras pessoas expulsas das localidades próximas. Não faltaram, porém, algumas tentativas de fazendeiros e grileiros de se apropriar da área.

A partir de 1970, os incentivos econômicos proporcionados pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) motivaram uma nova tentativa de expulsão dos quilombolas de suas terras. O símbolo maior daquele tempo foi o cercamento das terras por grileiros ou fazendeiros que pretendiam delimitar ou expandir seus domínios.

Na década de 1990, amparados pelo artigo 68 da ADCT da Constituição Federal e pelo artigo 51 da Constituição do Estado da Bahia, os quilombolas passaram a reivindicar a titulação de suas terras. Reivindicação que foi atendida com a entrega dos títulos outorgados em 1999 e 2000.

Cosmologia e Religiosidade[editar | editar código-fonte]

O calendário de festejos de Barro Vermelho é repleto de homenagens e agradecimentos a santos da Igreja católica. Em janeiro, são realizadas as festas de Reis e de São Sebastião. Em junho, a festa de Santo Antônio. Em outubro, homenageia-se Nossa Senhora do Rosário e em dezembro Nossa Senhora da Conceição. São Gonçalo é outro santo devotado pela comunidade e as homenagens que lhe são rendidas acontecem várias vezes ao ano.

As festas em geral são acompanhadas da queima de fogos, de rodadas de cachaça e refrigerante, samba de roda e ceia. Além das datas tradicionais, as homenagens aos santos podem também ser realizadas em outras ocasiões, quando, por exemplo, um comunitário necessita pagar uma promessa ou se pretende homenagear uma pessoa falecida.

Os festejos à Nossa Senhora do Rosário, padroeira da região, e à Nossa Senhora da Conceição são as que mais movimentam a comunidade.

Aspectos Culturais[editar | editar código-fonte]

Marujada[editar | editar código-fonte]

A Marujada é um ritual praticado exclusivamente por homens, que inclui cantos e encenações.

Os componentes da Marujada usam uma vestimenta específica composta por uma tradicional farda branca e uma faixa transversal que desce do ombro direito em direção ao lado esquerdo do corpo. A coloração da faixa é outro signo importante e varia conforme o motivo do festejo. Em geral utiliza-se a vermelha, no entanto, quando a festa tem como homenageado uma pessoa já falecida, usa-se a faixa azul. Finalizando a vestimenta, os marujos levam em sua cabeça um chapéu colorido feito com papel crepe.

A festa inicia-se no alvorecer do dia, em um porto localizado nos limites entre Mangal e Barro Vermelho. Os marujos postam-se de pé em canoas e, navegando aos pares, chegam até o porto de Mangal. Durante o trajeto, a população local acompanha das margens do rio a passagem da Marujada e a saúda com fogos de artifício. Chegando ao porto de Mangal, os marujos descem de suas canoas e se dirigem à igreja, marchando e saudando a padroeira e os santos devotados.

A Marujada tem como figuras centrais: o mestre, o contramestre, o "ração" e o "careta". Ao mestre cabe entoar cantos e conduzir cerca de 30 homens (denominados pelotão) que o acompanham com seus pandeiros, vozes e marcha ritmada. No intervalo entre um canto e outro, o mestre convoca o "ração".

Fechando o pelotão que acompanha o mestre, o "ração" é um menino que atende rapidamente ao chamado e se dirige para a frente do grupo. Em seguida, bate continência ao mestre e enuncia: "Pronto patrão!". A partir daí, o mestre passa a questionar o "ração" sobre a disponibilidade da tropa para seguir. A cada resposta o pelotão realiza uma batida com os pés e uma pancada seca dos pandeiros.

Durante a passagem da Marujada, o contramestre tem a função de controlar a evolução da tropa, corrigindo os descompassos e ritmos irregulares. Já o quarto personagem central é o "careta", que, com vestimenta especial, portando chibata e adornado com uma máscara no rosto, açoita aqueles que o provocam ou que ele deseja assustar.

Educação[editar | editar código-fonte]

No ano de 2001, foi estabelecida uma parceria entre a comunidade o Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias do Campus XVII da Universidade do Estado da Bahia, buscando a formação dos professores da comunidade para que estes assumissem a educação no Quilombo, tendo em vista a preocupação de que professores estranhos à comunidade contribuíssem para que ela perdesse seus marcos identitários de negros e quilombolas.

Conhecimento Tradicional[editar | editar código-fonte]

A agricultura de subsistência, com destaque para as culturas de feijão, mandioca e milho, é a principal atividade dos quilombolas de Mangal e Barro Vermelho. Desenvolvida com maior intensidade nos meses de dezembro a março, a agricultura é realizada em grande parte na roça comunitária. Nesse espaço, com regras de uso definidas, os membros da comunidade têm o direito de plantar. Além da roça comunitária, alguns também plantam em pequenas porções de terra junto à própria residência.

A criação de animais, ainda que diminuta, também tem sua importância para as comunidades. Do rebanho caprino tira-se o leite e a força motriz. Já as galinhas e os porcos servem, muitas vezes, como alimento nas diversas festas organizadas pela comunidade.

A pesca, que historicamente é realizada no rio e nas lagoas formadas na época de seca, sempre foi outra atividade relevante para a comunidade. A partir da década de 1970, com o agravamento das restrições impostas pelos fazendeiros, a pesca teve uma retração grande, mas ainda é praticada pelos comunitários.

A importância da pesca pode ser revelada pela variedade de métodos de pesca, alguns deles com nomes criados pela própria comunidade: anzol, tarrafa, "trio" (fios de arame farpado em que são colocadas iscas), "mergo" (arpão fincado na ponta de uma vara) e arco-e-flecha. De todos os métodos de pesca, somente o do arco-e-flecha não é mais utilizado, sendo lembrado apenas como um dos métodos que os antepassados utilizavam.[2]

Situação Territorial[editar | editar código-fonte]

Conflitos[editar | editar código-fonte]

Apesar de suas terras terem sido tituladas entre os anos de 1999 e 2000, os quilombolas de Barro Vermelho ainda enfrentaram conflitos com os fazendeiros da região depois de então. Acredita-se que a motivação tenha sido um desentendimento entre ambas as partes em um acordo no qual os comunitários vendiam horas de trabalho aos fazendeiros em troca de dinheiro.

Atualmente, a decadência econômica levou com que muitos fazendeiros deixassem a região, extinguindo consequentemente os conflitos.[3]

Referências

  1. [1] Wikipédia
  2. [2] Comissão Pró-Índio de São Paulo
  3. [3] Portal Domínio Público