Wikinativa/Carlos Henrique de Almeida Ferreira (vivencia Guarani 2016 - relato de experiência)

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Introdução[editar | editar código-fonte]

No primeiro semestre do ano de 2015 foi oferecida a disciplina obrigatória do ciclo básico da EACH/USP conhecida como “Sociedade, Multiculturalismo e Direitos”; nessa disciplina, oferecida pelo Professor Doutor Jorge Machado, tivemos a oportunidade de estudar diversas questões referentes aos povos originários do Brasil; tanto que durante o semestre houve uma “viagem de campo” com a turma para a cidade de Bertioga, onde assistiríamos um evento anual que reúne algumas etnias indígenas para demonstrar sua arte, cultura e tradições.

Nessa “viagem de campo” houve um contato muito forte com a aldeia Rio Silveira (Tupi-Guarani) que estava presente nesse evento. Este contato proporcionou ao professor Jorge a inspiração de criar algo na Universidade que tratava desse assunto; foi dessa forma que nasceu a disciplina “ACH3707 - Seminários de Políticas Públicas Setoriais 2 - Multiculturalismo e Direitos”, qual já teve o seu segundo oferecimento (2º Semestre de 2016) e que resultou, novamente, em uma grande experiência para todas as pessoas envolvidas.

A Disciplina[editar | editar código-fonte]

A disciplina “ACH3707 - Seminários de Políticas Públicas Setoriais 2 - Multiculturalismo e Direitos” busca adentrar no cenário dos povos existentes no nosso país a fim de traçar um paralelo entre as diferentes sociedades e suas formas de relacionamento, tanto dos povos e etnias entre si, mas também estudando a relação que tais povos tiveram, e ainda tem, com o restante da sociedade, principalmente com relação ao comportamento e relação com a “sociedade moderna”.

Baseando-se em diversos autores, produções culturais e cientificas o programa da disciplina pode ser considerado bem abrangente; abordando tanto as questões históricas como culturais de diferentes povos; buscando entender o tipo de comportamento e a suas organizações.

Nesta disciplina é evidente o convite para vivenciar de perto essas questões, tanto por conta das visitas que a turma realiza em algumas comunidades, mas principalmente por conta da sensibilidade alcançada por parte dos alunos devido ao delicado tema.

Ao decorrer do programa da disciplina acessamos grandes oportunidades de entender a situação desses povos, entretanto as visitas às comunidades que ocorrem no decorrer do semestre realmente são as principais oportunidades do aluno sentir de fato não só o modo diferente de viver que essas comunidades praticam, mas principalmente as suas dificuldades e lutas diárias.

Aldeia Guarani Tekoa Pyau[editar | editar código-fonte]

A visita à comunidade indígena do bairro do Jaraguá ocorreu em dois dias diferentes por diversos motivos; tanto para dar suporte a própria comunidade para o nosso recebimento, como para poder dedicar mais tempo e atenção à cada pessoa devido o grupo ser menor.

Acompanhei as visitas nos dois dias, pois além de aluno da disciplina, também atuei como monitor da disciplina devido o conhecimento e contato com as comunidades relacionadas ao projeto. Considero uma oportunidade única e que me trouxe grandes momentos de reflexão e de desenvolvimento dos meus paradigmas e conceitos já existentes em mim.

Fomos muito bem recepcionados pela comunidade, qual dedicou muita atenção e afeto através da liderança que nos recebeu (Sônia). Realizamos uma caminhada por quase toda a reserva, qual é muito pequena para a população indígena existente no local, onde notamos diversas e difíceis situações enfrentadas pela comunidade como, por exemplo, a falta de saneamento básico e auxilio dos órgãos públicos competentes; além de uma quantidade enorme e assustadora de cães e gatos, quais em sua maioria, são abandonados por outras comunidades externas na “porta” da reserva (Abandono).

A reserva fica em um local que ainda possui, em partes, áreas preservadas e protegidas; isso traz grandes benefícios a essa comunidades, qual sempre dependeu diretamente do meio ambiente para sobreviver e adquirir seus produtos e alimentos. Entretanto o grande crescimento populacional urbano acaba suprimindo ainda mais a situação da comunidade indígena, tanto nas questões relativas à especulação imobiliária, quanto na qualidade dos recursos naturais que chegam à aldeia como, por exemplo, a contaminação por esgoto das águas que passam pela reserva.

Considero extremamente delicada a situação dessa comunidade indígena, onde a falta de atenção e suporte do governo tornam o dia a dia uma verdadeira historia de sobrevivência.

A Aldeia Rio Silveira[editar | editar código-fonte]

A aldeia Rio Silveira esta localizada no litoral sul do estado de São Paulo, mais especificamente entre os municípios de Boracéia e São Sebastião.

A comunidade conseguiu a demarcação e a homologação de suas terras entre os anos de 1987 e 1988, qual esta delimitada com cerca de 1.400 hectares para uma média de 600 indígenas do local, quais variam entre as dissidências dos índios Guarani e Tupi.

É uma comunidade que sofre com a alteração oferecida pelo desenvolvimento urbano da região e dos municípios próximos, entretanto a reserva é consideravelmente grande e esta localizada no sopé da Serra do Mar; uma região rica em natureza e com grande parte de suas matas em condições primárias e preservadas.

São pessoas bem felizes pelo que se pode notar; a comunidade realiza diversas atividades de forma coletiva, tanto nos momentos de lazer quanto nos momentos de trabalho. Existe condições de extrair quase todos os seus recursos necessários para sobrevivência dentro da própria mata onde a comunidade esta inserida, entretanto o fácil acesso ao meio urbano alterou significativamente o modo de vida da comunidade, qual, por exemplo, prefere comprar os alimentos ao invés de produzi-los propriamente.

Mas em considerações finais, a comunidade esta muito bem estabilizada e possui um modo de vida próspero, pois a densidade populacional é muito crescente, principalmente nos últimos anos.

A Vivência na Aldeia Rio Silveira[editar | editar código-fonte]

Nossa vivência na aldeia ocorreu em 4 dias e 3 noites que eu, sinceramente, considero de uma intensidade absurda. Fomos durante o último final de semana do mês de outubro de 2016, chegando à aldeia no dia 28/10 e indo embora no dia 31/10.

Foi uma experiência extremamente gratificante e muito enriquecedora para a minha via; principalmente por conta de toda a preparação que a disciplina nos conduz durante o semestre inteiro, buscando nos preparar para as situações que enfrentaremos durante a vivência.

Senti-me muito preparado para iniciar essa aventura, entretanto um medo e respeito sempre me acompanharam durante os meus passos, pois, apesar de já frequentar a comunidade, ainda assim uma vivência que reúne mais de 60 pessoas externas é uma situação bem delicada e que precisa de muita atenção e respeito para que nada acontecesse de forma errada.

Entretanto a ótima preparação que o professor Jorge nos proporcionou realmente fez a diferença para a condução desses dias.

Chegamos à aldeia por volta das 13h00min do primeiro dia e fomos muito bem recepcionados nesse momento; demos inicio às montagens das barracas e das questões estruturais para a nossa estadia. Em seguida fomos recebidos formalmente pelo Pajé e pelas lideranças presentes naquele momento recebendo as boas vindas e as devidas instruções para o restante do dia.

A partir daí procuramos desenvolver as diversas atividades que foram planejadas anteriormente pela turma; percebo que esses momentos ocorreram de forma muito natural, onde a cada minuto que passava o vinculo com a comunidade se fortalecia e as amarras de cada um acabavam por terra.

No primeiro dia a interação com as crianças realmente foi muito intensa e direta; todas as brincadeiras e gincanas propostas foram muito bem aceitas e desenvolvidas por parte de todos, tanto que em diversos momentos foi necessária uma intervenção mais direta para que pudéssemos passar para outro ponto, isso por conta do “grande envolvimento” que as crianças ofereciam.

Em seguida realizamos uma refeição, qual foi feita pela comunidade, porém com os alimentos que a turma doou e arrecadou durante o semestre como uma das formas de atuação/atividade proposta no inicio do semestre. Gostei muito desse ponto, pois além de não gerar prejuízos e custos para a aldeia, ainda assim podemos desfrutar de alimentos que nós mesmos conseguimos através dos nossos esforços. Foram refeições Maravilhosas!

No inicio da noite, assim como nos dias seguintes, nos reuníamos todos na Casa de Reza para o momento mais importante do dia para os indígenas: “A Reza”. Todas as rezas foram muito intensas, cheias de energia e que produziam um momento único e muito harmônico entre todos os presentes. Nestes momentos podemos compartilhar histórias, sentimentos, mas principalmente ter acesso ao conhecimento do Pajé, qual busca nos orientar em cada palavra e ação; demonstrando na prática como viver melhor e harmonicamente com tudo e com todos.

No segundo dia acordamos bem cedo e tomamos um café da manhã muito delicioso, qual tiha algumas comidas típicas dos indígenas como o “Tipá”, (Espécie de pão). Em seguida partimos direção às matas da região, onde iriamos realizar algumas trilhas e trabalhos na região da mata fechada.

Neste local iriamos visitar uma linda cachoeira e depois partiríamos para um local onde estava planejado o plantio de algumas sementes e mudas que nós levamos; além de uma atividade de preparação da região para a futura construção de uma casa de reza neste local; entretanto alguns contratempos na trilha mudaram um pouco nossos planos. Parte da turma se perdeu na trilha, isso ocasionou uma grande perda de tempo útil, o que acabou impedindo de visitar a cachoeira. Ainda assim podemos visitar um lindo rio onde tomamos banho e ficamos brincando por um tempo considerável.

Em seguida, no mesmo local onde iriamos preparar a construção da futura casa de reza, sentamos na companhia do Pajé e ficamos conversando; uma vez que tínhamos esquecidas as mudas e sementes que seriam plantadas por ali. Foi um momento bem simples, porém único, dotado de muita simplicidade, mas ao mesmo tempo numa das regiões mais bonitas que eu já pude visitar na minha vida.

Após diversas trocas de conhecimento e histórias partimos em direção ao nosso acampamento, onde fomos recepcionados com uma refeição maravilhosa que já estava nos esperando.

Na noite deste dia foi realizada novamente a reza; porém nessa reza eu pedi ao pajé pra que ele realiza-se um ritual de pajelança em mim, uma vez que eu estava me sentindo um pouco fraco e com necessidade de continuar forte e enérgico para continuar ajudando o grupo nos próximos passos. Então o pajé realizou a reza como de costume dentro da casa de reza, porém em seguida fomos convidados para ir para fora, onde na beira da fogueira e junto de outros Xondaros e Xondaras (Guerreiros e Guerreiras da Aldeia) começou-se o ritual de pajelança. Foi um momento único, qual me trouxe muita força e energia; além de ter despertado o interesse no grupo, sendo que em seguida algumas alunas vieram me pedir para que eu organizasse a pajelança para elas junto ao pajé para o dia seguinte; o que foi feito prontamente!

No terceiro dia começamos novamente com aquele maravilhoso café da manhã, onde em seguida ficamos praticando o disparo com o arco e flecha; notei que algumas pessoas já possuíam uma facilidade com o manuseio do arco, mesmo sem nunca ter tocado em algum.

Ao decorrer do dia nós montamos alguns times de futebol e fomos jogar bola no campo de futebol que fica bem próximo do nosso acampamento, ainda dentro da reserva.

Não me recordo quais foram os placares, porém me recordo que se tratou de um momento muito significativo para todos os envolvidos. Era um momento simples, mas que unia todas as pessoas, dentro e fora de campo, foram momentos extremamente engraçados e harmônicos. Os times dos Juruás (USP) contra os times indígenas, quais já conseguiram conquistar até mesmo campeonatos regionais ... pois bem, foi contra esses times que nós fomos jogar contra! Com certeza os times das mulheres e dos homens perderam, mas não lembro os placares.

Após as partidas de futebol voltamos para o acampamento e realizamos a pintura corporal; já seguindo os preparativos para a reza que viria a seguir.

Almoçamos quase no horário da janta, sendo que em seguida nós já entramos na asa de reza para mais um importante momento de oração e união.

Foi uma reza muito intensa, cheia de energia e boas vibrações. Neste momento todo o grupo já estava habituado com a comunidade, ficando bem à vontade e participando cada vez mais de cada momento.

A reza ocorreu de forma linda, sendo em seguida conduzida através do ritual de pajelança que foi desenvolvido sobre parte do grupo. Em seguida nosso grupo acendeu uma fogueira na área externa e, então, fomos presenteados com vários palmitos colhidos naquele dia pela comunidade e, juntamente com o mel que eu tinha levado, acabamos ficando ali nos deliciando por horas com o palmito com mel, junto com as histórias que estávamos recebendo da comunidade naquele momento.

O ultimo dia foi basicamente dedicado para desmontar o acampamento, limpeza do local utilizado e despedida, qual ocorreu num mix de sentimentos, pois a alegria realmente era muito grande por parte de todos devido a conclusão daquela maravilhosa experiência, porém também se tornou um momento um pouco triste, pois estávamos nos despedindo para ir embora. Esse momento tocou a todos, mas principalmente ao pajé, qual dedicou muitas palavras bonitas para representar essa vivência.

Conclusões Finais[editar | editar código-fonte]

Considero-me uma pessoa de muita sorte, realmente fui privilegiado com essa experiência, sinto que ela me ensinou muitas coisas não só sobre as culturas tradicionais do nosso país, mas principalmente sobre mim mesmo.

Senti um verdadeiro sentimento fraterno por parte da aldeia; o que fez com que eu me sentisse totalmente integrado e parte da comunidade.

Desejo que todas as pessoas da nossa instituição possam ter essa experiência, qual se traduz em momentos transformadores para o ser humano. Creio que seja impossível sair de lá sem ser tocado pelo amor e pela fraternidade que a comunidade busca nos oferecer.

Volto de lá uma pessoa muito melhor e não tenho palavras para agradecer tamanha oportunidade. Sinto-me realmente honrado em fazer parte dessa disciplina e por dar de mim para que essa experiência seja cada dia melhor.

Dentre os pontos mais importantes que eu desejo destacar, saliento a forma com que a experiência é capaz de mudar uma vida inteira de preconceitos. Vejo minhas companheiras e companheiros de turma voltar com outros olhos sobre essa questão; buscando atuar na linha de frente dessa batalha para defender os nossos irmãos e irmãs indígenas e quilombolas.

Agradeço meu caro amigo e professor Jorge Machado pela parceria e pela amizade. Sou bem grato pelo nosso encontro e por tantas empreitadas que já vencemos e que ainda estão por vir!