Wikinativa/Maria Clara Moraes (vivencia Guarani 2016 - relato de experiência)

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Vivência na Aldeia Rio Silveiras

Maria Clara Moraes de Lima N°USP: 7970235 Gestão de Políticas Públicas

Logo que chegamos à Aldeia, a recepção dos índios que estavam jogando futebol no campo, me surpreendeu. Talvez eu nunca tenha chegado a um lugar e as pessoas tenham sido tão receptivas, como se estivessem fazendo uma festa com a nossa chegada. Conforme íamos nos instalando percebi não seriam fáceis aqueles dias vivendo de uma maneira diferente daquela que estamos acostumados. Pé no chão, banho de rio, banheiro, alimentação. Mas, à medida que o tempo ia passando, percebi o quanto aprendi com todas essas questões. Como somos ligados com o ter e desligados do ser, da natureza, e como tudo aquilo pode nos trazer valores diferentes, sobretudo sob a ótica de um gestor público, quando pensamos coisas que achamos necessárias para nós, e na verdade não são para os índios, julgando aquilo que lhes é essencial pela ótica do nosso entendimento do que é preciso para se viver, quando, na verdade, as coisas pelas quais eles lutam são totalmente diferentes. Nessa experiência, houve muito mais aprendizado trazido pelo simples fato de conhecê-los, do que alguma colaboração nossa para eles, pelo menos ao meu ver. Sem dúvida nenhuma, adquiri novos conceitos não só em relação à cultura indígena, como também, e, principalmente, sobre como levamos nossa vida e como deveríamos levar. A fé deles e a oportunidade de conhecer de perto essa religião, dentro da casa de reza, trouxe novas perspectivas de como enxergar a energia da natureza e sobre como é possível conviver pensando além do indivíduo e se colocar na sua sociedade tanto quanto esta sociedade pode viver em você. Quando estávamos na trilha, apesar do imprevisto, o que mais me marcou foi a maneira como eles não se deixam sozinhos em nenhum minuto, sempre se comunicando e se preocupando com o outro, respeitando a natureza , mais do que isso, tratando-a como parte deles, assim como eles como parte dela, e , por meio dessa conexão, entendendo cada som pelo qual passávamos. Tudo que fizemos lá ficará marcado para sempre, a, desde então, o olhos que vemos não só a cultura Guarani, mas qualquer outra, ganha um novo brilho, uma nova forma de interpretação, de luta, de engajamento, de aproximação e de como fazer política em relação a eles. Foi uma conexão que criou um vínculo de responsabilidade, como se essa oportunidade nos tivesse sido dada para que nos tornássemos um pouco guerreiros da causa indígena, seja diretamente, seja passando pras outras pessoas nossa vivência e perpetuando aquilo que vivemos e, sobretudo, aquilo que aprendemos não só com os índios, mas com nós mesmos e tudo que já aprendemos que pudemos colocar ali. A primeira impressão da minha vida em relação ao índio foi de medo, quando criança, muito por causa do que a mídia nos passa. A segunda foi de pena, muito por causa do que mídia e a sociedade alienada nessa questão nos passa. A verdadeira foi de admiração e espelho de valores. Foi de vontade de ter dentro de mim a mesma coisa que está dentro deles, e perceber nosso pequeno tamanho diante da grandeza de quem vive em busca do ser.