Wikinativa/Paula Vitória (vivencia Guarani 2016 - relato de experiência)

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Uma Experiência de Ressignificação[editar | editar código-fonte]

A vivência na Aldeia Guarani Rio Silveira durante os dias 28 à 31 de Outubro de 2016 trouxe conhecimentos enriquecedores pessoal e profissionalmente. Durante os 3 meses que antecederam a viagem tivemos aulas preparatórias para compreender melhor como se dá a relação contemporânea dos povos tradicionais com as sociedades que se formaram, em especial no estado de São Paulo. Desconstruímos conceitos etnocêntricos e, por vezes preconceituosos, em relação aos povos Guaranis a partir de discussões de textos e vídeos sobre o tema. A vivencia nos trouxe a quebra de paradigmas do que entendemos como indígena, existe uma romantização do indígena no Brasil sendo aquele que vive totalmente excluído da sociedade e vive a tradição indígena restritamente. No caso da Aldeia Guarani Rio Silveiras, verificamos uma proximidade com a cidade de Bertioga e com os costumes locais. A Reserva Indígena em que a aldeia está localizada dispõe de grande área de mata fechada, algumas cachoeiras, cultivo de palmito e os núcleos familiares.

Isto posto, tomo aqui o aspecto pessoal da vivência para contar o que significou (ou ressignificou) de forma intima essa experiência. Apesar de ser do Mato Grosso do Sul e ter vivido em região próxima a reservas indígenas Guarani Kaiowá nunca havia tido contato tão próximo com as pessoas dessa etnia, por uma questão histórica de estigma e preconceito existia em minha cidade uma separação bem distinta entre índios e não índios. Ao chegar na aldeia fomos todos extremamente bem recebidos, e a primeira impressão que tivemos foi de como as crianças e os jovens são prestativos e dispostos sinceramente a ajudar, pois se divertiram nos ajudando com as barracas e descarregando o ônibus. Entendi nos dias que passei lá que família é uma questão de afeto e proteção, que é necessário manter os entes próximos e fortalecidos, pois a família guarani se fortalece quando cada um entende que faz parte de um todo.

Na tradição Guarani existe uma separação de tarefas por gênero, as mulheres cuidam da casa, da alimentação, dos assuntos relacionados à saúde física na figura da Pajé; os homens cuidam das construções das casas, da pesca, da liderança política na figura do Cacique e dos assuntos relacionados a saúde espiritual na figura do Pajé. Mas ambos jogam futebol – e amam jogar- todos cuidam das crianças, todos educam, todos passam a tradição adiante. Me chamou atenção inclusive, dentro desse espectro da separação por gênero, que na aldeia quem escolhe com quem vai se casar é a mulher. As meninas tornam-se adultas após a menarca e podem então escolher o parceiro e pedir para que seu pai proponha o casamento a ele. Os meninos são considerados homens a partir do momento em que conseguem fazer trabalhos que exigem esforço físico, por volta dos 12/13 anos. A vivencia m me trouxe uma noção muito maior de comunidade, compartilhamento e solidariedade. Não só a convivência com os Guaranis, mas também com a turma da matéria e com as pessoas da extensão, pois somos todos muito diferentes, com vivencias diferentes e mesmo assim estivemos juntos e conectados nesse momento de aprendizado, sou grata por isso também.

Os momentos mais tocantes e especiais para mim durante esses dias, foram sem dúvida nenhuma os rituais na casa de reza. Entendo que é um caráter muito íntimo e pessoal, mas esses momentos me trouxeram uma sensação de pertencimento àquele lugar que não senti em nenhum outro lugar ao longo da minha vida. Tocou forte no fundo do meu coração. É interessante observar como eles lidam com as enfermidades espirituais, como a música é presente na ritualística e nos embala a alma no mesmo ritmo quando as mulheres entoam a canção. Importante ressaltar que a figura do Pajé é a liderança mais importante da comunidade, é ele quem tem o dom de sonhar com os desígnios de Inhanderu e apontar o caminho correto que seu povo deve seguir. Figura importante também é a Pajé mulher que essa aldeia possui, que a pessoa com sabedoria para lidar com plantas e ervas medicinais e curar as enfermidades do corpo. Nesse sentido é bonito perceber que existe um trabalho em conjunto para cuidar de corpo e espirito e manter o povo saudável.

A vida do povo guarani é uma vida simples para nosso padrão de pessoas que vivem na cidade, e é assim que eles gostam de viver, com simplicidade respeitando e convivendo em harmonia com a natureza e cuidando do que Inhanderu lhes deu. A relação do povo com a terra é mais do que apenas para moradia, a terra é fonte de alimento, de vida, a terra é tradição. Por isso a importância da demarcação e da luta pelos direitos dos povos tradicionais. A vivencia na Aldeia Guarani Rio Silveira nos coloca em posição de lutar com eles, como xondaros e xondarias que somos, para que todos os Guaranis e demais etnias tenham seu direito a terra garantido. Esse é um compromisso que firmamos com eles, como irmãos e irmãs que se protegem e se fortalecem.

189.62.95.128 13h43min de 1 de dezembro de 2016 (UTC) Paula Vitória 01/12/2016