Wikinativa/Renan Dias(vivencia Guarani 2016 - relato de experiência)

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Renan Dias da Silva, sobre a vivência na aldeia.

O que vivenciei na aldeia transcende qualquer expectativa criada ao longo do semestre, nunca esperaria tamanha receptividade e interação por parte dos anfitriões. A primeira interação foi logo na retirada das malas e barracas do ônibus onde todos da aldeia se dispuseram prontamente a ajudar nas montagens, principalmente as crianças que faziam tudo como se estivessem brincando, em certo momento um garoto pediu para encher meu colchão dizendo que era legal fazer aquilo. Logo que a primeira oficina começou, do grupo de brincadeiras, pude perceber como as relações eram estabelecidas de maneira espontânea, tanto com as crianças quanto com os adultos, infelizmente não tive a oportunidade de conversar com nenhuma mulher da aldeia. Um pouco mais tarde, ainda no primeiro dia fomos tomar banho no rio a caminhada longa valeu a pena. A primeira noite na casa de rezas foi surpreendente, o canto, a energia, as palavras do pajé, tudo colabora para a construção de uma atmosfera de amor e pacificidade, fiquei na fogueira até as 3 da manhã jogando conversa fora com alguns anfitriões e fui dormir, ainda na primeira noite com o sentimento de que ia valer muito a penas essa vivência.

No segundo dia fui um dos responsáveis por ajudar na preparação do café, apesar de ter ido dormir tarde não tive maiores problemas em acordar cedo, notei uma certa relutância nas mulheres da aldeia em permitir que ajudássemos na preparação, acabei cortando os pães e fatiando o presunto. Fomos informados que faríamos a trilha em direção à cachoeira e nesse meio tempo eu e meu grupo refletimos um pouco sobre tudo que já havia acontecido, apesar dos momentos de exaltação reparamos que estávamos todos falando em um tom mais baixo e até mais pausado, aparentemente tínhamos finalmente nos incorporado ao ritmo da aldeia, saímos para a cachoeira; A trilha foi um item com muitas particularidades, quando começamos ela de fato estávamos logo atras do pajé até que me lembrei que minha amiga estava com o joelho machucado e resolvi ir para trás onde ela estava; a primeira parte da trilha continha alguns empecilhos para a progressão fluída e depois de um tempo não havia mais grupo à frente, em suma, nos perdemos, eu não me senti como se estivesse realmente perdido, foi uma caminhada incrível, encontramos um cogumelo vermelho fascinante o que me fez refletir um pouco sobre as adversidades e como elas surgem, de toda forma, encontramos o resto do grupo e descobrimos que o pajé havia ido nos procurar, quando ele voltou disse que não poderíamos ir para a cachoeira o que me chateou um pouco mas fez com que eu aproveitasse um pouco mais o rio próximo.

Ainda no segundo dia, na volta para o centro da aldeia fomos pintados pelo Mirim durante o resto da tarde e a noite tivemos um ritual de purificação do Carlos, novamente fiquei na fogueira até tarde da noite.

No terceiro dia os indígenas estavam mais alegres, o clima estava mais intimista, talvez por parte do grupo ter ido embora ou pela noite anterior, foi um dia mais calmo, ao ir tomar banho nesse dia reparei que eu não sentia mais que o caminho até o rio era estafante ou longo, eu estava apreciando por fazer aquele caminho, não mais usava chinelos, pisava nas poças sem receio algum, era maravilhoso estar ali e poder fazer aquilo; nesse mesmo dia saímos para ir ao mercado, pude notar que fora da aldeia eu não pisava nas poças tinha medo e receio do que poderia conter, não gostei de ter saído foi um baque muito forte e uma energia completamente diferente.

No ultimo dia voltamos, a vontade de ficar estava evidente em meu peito, foram diversas histórias contadas, do Mirim, do Thiago, das crianças, aliás, sobre essas ultimas, foi possível notar que elas são crias da aldeia, apesar de terem seus pais que zelam por elas não são somente filhas deles. Pude absorver muita coisa, minha experiencia na casa de rezas foi unica, passar pelo ritual de purificação, mesmo sem ter pedido foi mais impactante ainda, me fez pensar por que não havia pedido para passar e em como tive sorte de ter passado, conhecer essa cultura e trazer esse sentimento ainda no meu peito é algo que levarei pelo resto da vida!