Wikinativa/Tirió

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Luis Felipe Almeida.

Tirió é o nome do grupo indígenas habitantes nas proximidades dos rios Trombetas, Cuminá e Paru, no estado do Pará (compartilham a faixa oeste do Parque Indígena de Tumucumaque (PIT)) e também áreas no Suriname. Falam línguas do tronco Caribe e também são chamados de Pianokotó, Aramayâna e Tiryó. [1].

A experiência de convívio dos Tiriyó com não-índios, tanto no Brasil quanto no Suriname, se deu em um período relativamente recente, tendo ocorrido a partir de meados dos anos 1950 por iniciativa de militares e missionários. A partir dos anos 1990, além dos militares e missionários, outras agências governamentais e não-governamentais passaram a atuar na região .

Em 2001 estimava-se um total de 1.400 pessoas para a população Tiriyó no Suriname. Para os Tiriyós que vivem no lado brasileiro, a Administração Executiva Regional (AER) da Funai de Macapá apresentou, para 2003, um total de 939 pessoas, incluindo-se aí a população Katxuyana e demais grupos que co-habitam com os Tiriyós no PIT. Somadas as estimativas para ambos os lados da fronteira, havia nesse período aproximadamente 2.300 pessoas.


Localização[editar | editar código-fonte]

A região habitada pelos Tiriyó é politicamente dividida entre Brasil e Suriname. Suas terras estendem-se do norte do estado do Pará - entrecortadas por rios que correm para o Amazonas - ao sul do Suriname. Os principais afluentes do Amazonas que atravessam a parte brasileira de suas terras são, da esquerda para a direita: Marapi, Paru de Oeste, Citaré e Paru de Leste. Há rios, de ambos os lados da fronteira, que têm em comum o fato de apresentarem, em seus cursos, cachoeiras que dificultam bastante a navegabilidade. Tal impedimento geográfico, aliado a fatores históricos, vem sendo responsável, ao longo dos últimos séculos, pelo relativo isolamento e desconhecimento desta região de fronteira.

No Brasil, os Tiriyó juntamente com alguns grupos vizinhos (principalmente Katxuyana, Txikuyana, Wayana e Aparai), habitam a Terra Indígena Parque de Tumucumaque. Trata-se de uma área localizada ao norte do Pará e noroeste do Amapá, nos municípios de Oriximiná, Almeirim, Óbidos e Alenquer.

O Parque Indígena de Tumucumaque é atravessado longitudinalmente por duas bacias fluviais: uma, que tem por rios principais o Paru de Oeste e o Marapi; e a outra, o Paru de Leste e o Citaré. Atualmente, os Tiriyó que se encontram em território brasileiro, resumem-se a dois conjuntos populacionais, localizados em cada uma destas bacias.

Os Tiriyó da bacia Paru de Oeste/Marapi, juntamente com os Katxuyana, distribuem-se em torno do médio e alto curso desses rios. Na bacia do Paru de Leste/Citaré, os Tiriyó encontram-se predominantemente na cabeceira, enquanto os Wayana e Aparai, habitam seu médio curso. [2]

Coordenadas: 1.833333, -54

Veja no mapa

Mapa Interativo[editar | editar código-fonte]

1.833333° ' S 54º ' W

História [3][editar | editar código-fonte]

Contatos esporádicos[editar | editar código-fonte]

As primeiras notícias a respeito de grupos que mais tarde vieram a compor os atuais Tiriyó remontam ao século XVII. Mas é somente na segunda metade do século XX que abandonam a condição de relativo isolamento em relação aos Brancos. Até então, mantinham uma densa rede de trocas e guerras entre si e com os demais grupos indígenas vizinhos, além de manterem relações comerciais com os Mekoro (negros refugiados da antiga Guiana Holandesa), por meio de quem obtinham bens manufaturados em troca de produtos nativos. Seus contatos com Brancos eram indiretos ou esporádicos.

Algumas fontes podem ser encontradas antes de 1950, tanto escritas quanto orais de contatos diretos com a tribo Tiriyó com os Brancos:

  • Em 1906, Goeje, tenente holandês, visita algumas aldeias e recolhe as primeiras notícias mais detalhadas.
  • Em 1928, por ocasião de uma viagem de inspeção de fronteiras, o então General Rondon encontra os “Maratchó” e os “Ragú-Prouyana”.
  • Em 1936, o Comandante Braz Dias de Aguiar faz contatos com os Maratchó do alto rio Panamá e com grupos das cabeceiras dos rios Marapi, Cuxaré e Paru de Oeste.

Ainda no decorrer da primeira metade do século XX, principalmente na década de 50, alguns aventureiros e expedições de exploradores mantiveram contatos esporádicos, mas acabaram causando doenças graves e um aumento significativo de mortes nas aldeias da região.

As missões religiosas[editar | editar código-fonte]

Como nas primeiras missões jesuíticas, nos anos 60, com a chegada de missões religiosas na área do Recôncavo de Tumucumaque, que os Brancos começam a ter um relacionamento mais próximo, tendo contatos com um intervalo de tempo entre estes bem menor do que antes.

No lado brasileiro, o precursor da Missão que se instalou entre os Tiriyó foi liderado por frei Protásio Frikel este que visitou os

Prouyana, Arimitchó, Okomoyana, Arimihoto e Maratchó entre 1950 1953. Três anos mais tarde encontrou os Aramagóto nos campos gerais do Recôncavo do Tumucumaque e ali permaneceu durante de 1958 a 1959. Nesse período, a Força Aérea Brasileira (FAB) abriu um campo de pouso na região, promovendo assim o início da instalação da “ Missão Tiriyó” no lado brasileiro.

Na mesma época, surgiram no Suriname duas missões protestantes, que passaram a disputar entre si a centralização do maior número possível de grupos indígenas dos arredores. De fato, muitos Tiriyó atravessaram a fronteira atraídos pelas missões protestantes, enquanto os que permaneceram no Brasil aglomeraram-se em torno da missão católica que se estabeleceu no alto Paru de Oeste.

Por volta de 1968 chegou-se ao auge deste processo de centralização, com somente três núcleos missionários e nenhuma outra aldeia na região. Mas, no Brasil, esta ênfase foi passageira, dando lugar à gradual retomada de um modo de vida mais descentralizado.

Apoios[editar | editar código-fonte]

A assistência (transporte aéreo, saúde e educação) aos Tiriyó foi, inicialmente, idealizada dentro do “trinômio” Missão/FAB/Índios estabelecido no início da década de 1960. Ao longo dos anos, porém, foram surgindo uma série de alterações na condução dos programas implantados, principalmente à medida que o apoio da FAB foi diminuindo, restringindo-se praticamente ao transporte aéreo, e sendo repassado à Funai, que até a década de 80 não possuía atuação direta entre os Tiriyó.

A partir de 1994, o governo do Amapá passou a oferecer apoio no transporte aéreo e a investir na contratação de agentes de saúde, bem como de professores indígenas e não-indígenas. Inicialmente, estes investimentos foram realizados por meio de convênios com a Funai e, posteriormente, com a Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (Apitu), entidade fundada em 1996 com o objetivo de defender os interesses das comunidades indígenas do referido Parque.

Língua[editar | editar código-fonte]

Os Tiriyó vivem, de longa data, num meio multi-linguístico (várias línguas), seja por conviverem historicamente com a imensa diversidade de dialetos e linguistica própria dos grupos Karib, Tupi e Aruak da área guianense, assim como dos grupos de africanos e descendentes refugiados que povoaram a região e arredores.

Além disso, a tribo vive em ambos os lados da fronteira Brasil/Suriname, há mais de meio século. Onde parte dos Tiriyó que vive no lado brasileiro convive com falantes do português e do alemão, e parte que vive no Suriname convive com falantes do holandês e do inglês. Assim, além de sua própria língua, os Tiriyó falam, ou pelo menos compreendem, as línguas dos grupos, agentes e países com os quais mantêm relações mais estreitas.[4]

Cosmologia e Religiosidade[editar | editar código-fonte]

A origem do mundo para os Tiriyós corresponde à própria origem do espaço e do tempo, para além há o indizível, associado à escuridão, ao silêncio e à falta de movimento. Kuyuri é o primeiro ser que existiu, ainda sem forma, apenas com existência. Dizem que Kuyuri não tinha cara nem de homem, nem de bicho, não tinha forma porque não foi feito por ninguém, ele simplesmente 'brotou', Ahtao, da mistura que deu origem ao início dos tempos: pena Ahtao, época definida como onde e quando a vida brotava 'sem pedir', por si própria.

Enquanto tal é que o nome desta primeira entidade chamada Kuyuri designa o ser dotado de uma luz, surgida onde antes havia apenas a escuridão; de fala mágica, onde antes havia só o silêncio; e de um fluido fértil, que antes era inerte.

O mundo primitivo de Kuyuri é descrito como uma paisagem terrestre clara, circundada por um meio aquático, e envolta pela escuridão. Neste mundo, Kuyuri vivia sozinho, tinha a palavra, mas não tinha com quem conversar; enxergava mas não via ninguém. Seu mundo era só espaço, sem tempo, porque nada acontecia. Ele era capaz de criar por meio de sua palavra mágica e de sua luz, vendo diante de si o que nomeava.

Eis que não querendo mais ser único, Kuyuri, fruto de uma mistura primordial, precisava agora fazer sua própria mistura para deixar de ser sozinho. Não bastava mais dar vida pela palavra, era preciso moldar a vida pela forma e, então, diferenciar-se para finalmente deixar de ser só. Kuyuri, que era homem, queria fazer uma mulher. Foi então que, realizou a segunda mistura primordial, a partir de dois tipos de matérias concebidas como inertes, quando isoladas entre si, tais como o barro, takuren, e o breu, warunu.

Daí se origina toda uma simbólica vinculada aos princípios masculino e feminino. Diz-se que Kuyuri fez a sua primeira mulher de argila, ërino, mas ela era muito frágil. Quando ela se partiu, ele viu que tinha sangue dentro. E que, portanto, a tentativa de Kuyuri não tinha sido em vão: a forma era frágil, mas o conteúdo era vital.

A partir daí, onde antes tinha apenas espaço instaurou-se o tempo e, com ele, o movimento da vida.

Cada nova criatura de Kuyuri é, tal como comparam os Tiriyós, como se fosse um braço seu, porque de cada uma delas depende a continuidade de seu espírito. Sob este mesmo princípio, compreende-se que, se a continuidade do espírito de Kuyuri depende de suas criaturas, a continuidade do espírito destas, depende, por sua vez, de um processo de re-criação sem fim semelhante ao inaugurado por Kuyuri. [5].

Cultura[editar | editar código-fonte]

Os mitos do povo Tiriyó formaram uma cultura muito singular e interessante que podem ser evidenciadas no seu dia a dia em várias situações. Como:

Os Rituais [6][editar | editar código-fonte]

Dentre os rituais que acionam o funcionamento das redes de relações inter-comunitárias, destacam-se o diálogo cerimonial e as festas. Ambos têm em comum o potencial de fazer e desfazer os laços que interligam o conjunto das comunidades locais, que, no caso tiriyó, corresponde ao conjunto das patahton (plural de pata), e têm ainda em comum, embora por mecanismos distintos, o poder de transformar quem era “de fora” em alguém “de dentro” e vice-versa.

Tanto o diálogo cerimonial quanto as festas estão circunscritos às fronteiras sócio-lingüísticas nativas. Mas isto não significa que esses rituais, sob determinadas formas adaptadas, não apresentem operacionalidade fora dessas fronteiras, nas relações com não-índios. Do ponto de vista das relações internas às fronteiras sócio-culturais nativas, o diálogo cerimonial e as festas permitem que relações do tipo kutuma (relação entre não-parentes) sejam administradas e que sejam viabilizados, ou evitados, o estabelecimento de novos laços. Cada um destes rituais encerra, a seu modo, um sinal positivo e outro negativo. Por meio do diálogo cerimonial, que implica um desafio de argumentos entre chefes diferentes, ambas as partes podem sair com vantagens iguais, ou uma delas em desvantagem. E, por meio das festas, por um lado surgem novas possibilidades de trocas matrimoniais ou materiais, mas, por outro lado, o contato com quem é “de fora” abre margem para novos conflitos e descontentamentos.

Mas este é um jogo político com o qual os Tiriyó se mostram muito bem familiarizados, de tal forma que o seu mundo é impensável sem essas instituições ou sem formas adaptadas delas. É por meio delas que se negociam casamentos e bens, assim como se recebem visitantes.

Em contextos que extrapolam as fronteiras sócio-culturais nativas, como é o caso das históricas relações de comércio com os Mekoro (Negros), bem como em contextos recentes, de maior convívio com os Karaiwa (Brancos do continente) e com os Pananakiri (estrangeiros de além-mar), observa-se na performance dos encontros, apesar das evidentes dificuldades lingüísticas, a tentativa de administrar as relações nos moldes das relações baseadas no diálogo cerimonial.

Mas há um momento na vida dos Tiriyó especialmente interessante de ser focalizado, já que parece condensar e confrontar todas as dimensões, valores e seres que fazem parte deste mundo. Esse momento é o da Festa. Os Tiriyó definem a Festa como uma “brincadeira” que, como costumam complementar, “tem que ser organizada”. O que remete à idéia de brincadeira na Festa são as encenações e imitações de situações e de seres diversos que compõem o seu universo. Também o clima lúdico em que os momentos se desenrolam e, ainda, a leveza de estado de espírito dos participantes parecem apontar para a pertinência de tal definição.

Em suas festas fazem-se presentes os próximos e os distantes, os “iguais” e os “diferentes”, os parceiros e os inimigos, os humanos e os não-humanos. E, em sua seqüência, desenrola-se a seqüência mítica por meio da qual um estado de guerra inicial dá lugar a um processo de enyawa (termo que designa a constituição de uma parceria), de tal forma que a aliança - que pode envolver casamento, mas não necessariamente - entre uns e outros torna-se possível.

Neste sentido, paralelamente à idéia de brincadeira, a festa remete à idéia de guerra. Com efeito, as etapas das festas tiriyó parecem corresponder ao processo de afronta, guerra, apaziguamento e troca, ou então, de estranhamento, familiarização e aliança recorrente em suas narrativas e mitos. É interessante notar que os termos brincadeira e guerra parecem intercambiáveis. Assim, quando um Tiriyó diz que a festa é uma brincadeira, bem poderia estar dizendo que na festa se “brinca de fazer guerra”.

As Artes Visuais [7][editar | editar código-fonte]

O livro da antropóloga Denise Fajardo Gruponi, "Arte visual dos povos tiriyó e kaxuyana – padrões de uma estética ameríndia" , sistematiza o resultado de várias oficinas culturais, conduzidas pelo Iepé, entre 2005 e 2009, junto às comunidades Tiriyó e Kaxuyana.

Nestas oficinas, homens e mulheres, de diferentes idades, se envolveram com a proposta de registrar saberes e práticas de seu patrimônio cultural, em discutir como organizá-los e como continuar transmitindo para as novas gerações. Os repertórios de grafismos, as histórias de suas origens, as tintas usadas na aplicação destes grafismos à pintura corporal, as diferenças entre imenu e ikuhtu – grafismo e desenho figurativo; os significados dessa arte visual e a questão do cadeia de transmissão dos saberes orais ligados a esses assuntos foram trabalhados, discutidos, registrados e deram origem ao presente livro. Este organiza-se em duas partes. Na primeira, apresenta-se o modo como os Tiriyó e Kaxuyana concebem-se a si mesmos e como eles se relacionam com os outros. Na segunda parte do livro, apresenta-se uma abordagem da arte visual desses povos, a partir de narrativas de sua tradição oral e uma amostragem de sua arte gráfica e figurativa.

Atividades Econômicas[editar | editar código-fonte]

A base da subsistência dos Tiriyós está ancorada no cultivo de roças de mandioca, na caça, pesca e coleta. Até a década de 1960, tais atividades estavam integradas a um sistema de agricultura móvel e de mudança de lugar de moradia a intervalos de cinco a dez anos. Desde os anos 60, tais atividades tornaram-se mais sedentarizadas, em decorrência da fixação e centralização dos locais de moradia em torno de postos missionários.

No caso brasileiro, em torno da Missão Franciscana do Paru de Oeste. Nesse novo contexto de aldeias maiores tornou-se impossível manter o antigo equilíbrio entre o tamanho da população local e os recursos naturais dos arredores, obrigando as famílias a explorarem áreas mais amplas, sem mudarem de lugar [8].

Referências