DC-UFRPE/Licenciatura Plena em Computação/Psicologia II/O Construtivismo Genético de Jean Piaget

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Teorias Psicogenéticas - O Construtivismo Genético de Jean Piaget[editar | editar código-fonte]

A Epistemologia Genética é o nome da teoria desenvolvida por Jean Piaget (1896-1980), cuja etimologia significa ‘estudo (epistemo) do conhecimento (logia)’. Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 9 de agosto de 1896. Desde muito cedo interessou-se por Zoologia, e aos 10 anos publicou seu primeiro trabalho científico, na área de Ornitologia (área da Zoologia que trata das aves). Até os 25 anos, teve 25 trabalhos publicados resultantes de pesquisas na área da Zoologia, especialmente em Malacologia (estudos dos moluscos). Doutorou-se em Ciências Naturais, em 1918, aos 22 anos. Nesse mesmo ano, teve contato com Binet, em Sorbonne (Paris), quando iniciou seu interesse pelos processos de elaboração mental em crianças. Assim, diferente do que muitos pensam, Piaget não foi Psicólogo de formação universitária. Seu grande interesse no início de suas reflexões não foi o ser humano, mas a Zoologia, particularmente os estudo dos moluscos.

Construtivismo[editar | editar código-fonte]

O Construtivismo é uma epistemologia que tem como base o Interpretativismo. Para o o Interpretativismo, a realidade depende do ponto de vista do sujeito e cada sujeito possui sua realidade própria, existindo assim múltiplas realidades onde todas estão corretas. Para o Construtivismo, o sujeito age sobre o meio e o meio age sobre o sujeito, isso chamado de interação. O conhecimento, a inteligência é uma adaptação ao meio, é algo que o sujeito constrói ao longo da vida e só passa a existir quando o sujeito interage com os estímulos e coloca seu próprio significado a esses estímulos.É uma organização de processos e o seu crescimento se dá pela reorganização e não pelo acúmulo.

Para iniciar uma maior compreensão da teoria piagetiana, quatro mecanismos/processos, chamados por Piaget de conceitos cognitivos básicos, são fundamentais: esquema, acomodação, assimilação e equilibração. Esses conceitos são essenciais na compreensão das ideias sobre o processo de organização e adaptação intelectual, uma vez que eles explicam como e porque o desenvolvimento ocorre.

Esquemas são as estruturas mentais com que os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o ambiente. Tentar integrar um novo estímulo ou conceito aos esquemas já existentes, coisas que podem ser facilmente compreendidas pois são familiares, é o que chamamos de processo de assimilação(interpretação), uma mudança quantitativa, compreender algo novo com base no conhecimento que o sujeito já possui. A modificação de conhecimentos prévios para dar conta de um novo estímulo, uma mudança de forma qualitativa, é chamada de acomodação. Durante a assimilação, o indivíduo impõe sua estrutura à nova situação, isto é, são os estímulos que se ajustam a estrutura disponível. O contrário acontece na acomodação, em que o indivíduo muda seus esquemas para compreender as novas situações. Todo o processo que envolve a assimilação e a acomodação é chamada por Piaget de equilibração. Piaget preferiu o termo "equilibração" ao invés de "equilíbrio", pois equilíbrio passa uma sensação de algo parado, porém a equilibração está sempre em movimento contínuo.

Para Piaget, o desenvolvimento não é linear, é por saltos, rupturas, estágios, que ele classificou em quatro: Sensório-Motor, Pré-Operacional, Operacional Concreto e Operacional Formal.

Estágio Sensório-Motor[editar | editar código-fonte]

Estágio entre os 0 e 24 meses da criança, caracterizada pela interação dela com o mundo a partir de suas ações sensoriais e motoras. A criança realiza manipulações sobre objetos reais mais do que os representa internamente. Outra realização interessante dessa fase é a progressiva capacidade de controlar e investigar o ambiente. Quando esses movimentos repetidos para controlar o ambiente são iniciados pela criança intencionalmente e passam a envolver objetos para além do seu corpo, já podemos nomear essas reações circulares de “secundárias” como, por exemplo, bater seguidamente um brinquedo no chão.As “reações circulares terciárias” representam progressos em relação a essa capacidade de controle do ambiente, uma vez que a criança inicia ativamente uma série de manipulações sistemáticas, variando-as intencionalmente com o intuito de perceber similaridades e diferenças nos efeitos que elas produzem. A criança só aprende a falar no próximo estágio por construir um mundo antes, então ela precisa construir uma noção de objeto e entender que é um objeto do mundo e que pode interagir com outros objetos ocasionando um efeito por essa interação.

Estágio pré-operatório[editar | editar código-fonte]

Mais ou menos entre os 2 e 7 anos de idade, a criança apresenta novas capacidades, principalmente voltadas para as habilidades representacionais e a socialização. Para Piaget, existem duas classificações dessa fala da criança pré-operacional: a fala egocêntrica e a fala socializada. A primeira (mais ou menos dos 2 aos 4 anos) se caracteriza pela ausência de uma intenção de comunicação, isto é, mesmo na presença de outras pessoas, não há na criança a intenção de se comunicar com elas, ela simplesmente pensa suas ações em voz alta. Por volta dos 6 ou 7 anos é que a linguagem vai se socializando, tornando-se intercomunicativa. Nessa fase, há o interesse da criança pela troca de ideias entre ela e seu interlocutor. Algumas limitações em seu pensamento que caracterizam este estágio:

  1. Concretitude – lida somente com objetos concretos, fisicamente presentes aqui e agora.
  2. Irreversibilidade – incapacidade de rearranjar mentalmente objetos ou de concebê-los em alguma outra disposição.
  3. Egocentrismo – crença de que qualquer pessoa vê o mundo através dos olhos dela, e que aquilo que ela está experimentando é igual para todos, em um sentido lógico.
  4. Centralização – presta atenção somente a uma dimensão ou aspecto da situação por vez.
  5. Estados versus transformações – focaliza sua atenção mais em estados, isto é, na maneira como as coisas se apresentam, do que nas operações que levaram àquele estado.
  6. Raciocínio transdutivo – como não focaliza o processo de transformação, a criança se fundamenta na percepção imediata, indo de um estado perceptivo particular para um outro particular, desconhecendo a lógica de relações.

Estágio das operações concretas[editar | editar código-fonte]

Nessa fase, que vai dos 7 aos 11 anos, aproximadamente, Piaget enfatiza que existe uma mudança básica nas estruturas mentais da criança e em suas operações. A conquista da reversibilidade liberta a criança de perceber as coisas apenas como elas parecem ser, já sendo capaz de resolver problemas que lidem com inversão e reciprocidade. Com relação ao egocentrismo, no estágio das operações concretas a criança já é capaz de encarar o mundo de muitas perspectivas possíveis, podendo perceber o ponto de vista dos outros, considerar suas intenções e, portanto, se adaptar melhor ao mundo social.Operação é uma ação interiorizada(representação, imaginar) reversível(pensar a ação e anulação dessa ação).

Estágio das operações formais[editar | editar código-fonte]

Tem início no começo da adolescência (aos 11 ou 12 anos), com uma capacidade cada vez mais sofisticada de desempenhar operações mentais não apenas com objetos concretos, mas também com representações simbólicas. Durante esse período, a criança desenvolve a capacidade de pensar em termos de hipóteses e probabilidades, isto é, em termos do possível e não somente do concreto imediatamente acessível a ela, como no estágio anterior. Algumas das estruturas desenvolvidas neste estágio são: o raciocínio hipotético-dedutivo (possibilidade de deduzir conclusões a partir de premissas hipotéticas); o raciocínio científico-indutivo (possibilidade de raciocinar dos fatos específicos às conclusões gerais, possibilitando chegar a generalizações) e o raciocínio combinatório (possibilidade de levar em consideração certo número de variáveis diferentes ao mesmo tempo e de forma coordenada, podendo determinar os efeitos de suas combinações). Os adolescentes podem raciocinar de forma tão lógica quanto os adultos. No entanto, em virtude da sua maior experiência e maturidade emocional, os adultos podem apresentar uma maior habilidade de raciocínio sobre um maior número de situações. Importante se faz dizer que Piaget considera que nem todos os adolescentes e adultos desenvolvem as operações formais, ainda que para ele todas as pessoas tenham o potencial de desenvolvê-las. Piaget explica a construção do conhecimento e regulação do desenvolvimento. Isto é, a cada desequilíbrio provocado por uma nova experiência vivenciada pela criança surge a necessidade de coordenar o conhecimento prévio que ela tem com o novo conhecimento, através dos processos de assimilação e acomodação.

Construtivismo na escola[editar | editar código-fonte]

A teoria de Piaget, também conhecida como Teoria Construtivista, mesmo não sendo uma teoria da Educação, ao oferecer uma descrição coerente sobre como e porque o desenvolvimento humano se dá, acaba por se constituir em um excelente referencial para as práticas educacionais. A Teoria Construtivista de Piaget é uma perspectiva que nos ajuda a refletir o como e o porquê da criança construir conhecimentos ou não na escola. Ela nos ajuda a viabilizar a compatibilização entre o desenvolvimento da criança e a aprendizagem de habilidades e de conteúdos. Dentro dessa perspectiva, o processo educacional tem um papel preponderante. Piaget defende que o objetivo da Educação não deve ser o de transmitir informações e verdades, mas sim promover a construção do conhecimento pelo aluno e seu desenvolvimento. Assim, entendendo que o desenvolvimento humano se dá a partir dos processos de assimilação e acomodação suscitados pelos movimentos de equilibração, Piaget defende que o papel da escola e do professor é de provocar situações que sejam desequilibradoras para o aluno.Cada reequilibração é uma ultrapassagem, pois implica a aquisição de um novo conceito. Construir conhecimento de forma eficiente parte da ideia de buscar o interesse do aluno, a sua curiosidade. Estar curioso faz com que o aluno explore o ambiente e suas possibilidades com vontade.

O caminho dessa busca não deve ser planejado com rigor e nem pressionado pelo tempo. Esse caminho deve propiciar a observação, a exploração de possibilidades e hipóteses e, principalmente, criar condições de cooperação, reciprocidade intelectual, trocas e intercâmbios, já que a Educação é vista aqui enquanto um processo de socialização. Em suma, no Construtivismo o objetivo da escola é ajudar o aluno a “aprender a aprender” e isso interfere profundamente na relação professor-aluno. O professor não pode assumir a posição de transmissor de conhecimentos, fazendo o aluno decorar fórmulas, datas e nomes, como um mero receptor de informações. Ao contrário, o professor deverá criar situações que saiam da rotina, que fujam da fixação de respostas prontas e imutáveis.Portanto, o papel do professor é, ao invés de oferecer respostas prontas e pré-estabelecidas, fazer gerar questões para novas e antigas respostas.


Materiais complementares[editar | editar código-fonte]