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Desanos
300px
Membro da tribo dos Desanos
População total

2.204 (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, 2005)

Regiões com população significativa
Flag of Brazil.svgBrasil
Línguas
Tuc(k)ano
Religiões
Xamanismo
Estados ou regiões do Brasil
Flag of Brazil.svgBrasil Rio Negro - Amazonas
situação do território
Registrada
Grupos étnicos relacionados
Piratapuyo, Wanano, Sirano, Maku

Localização[editar | editar código-fonte]

Os habitantes da tribo Desano ocupam o Noroeste do estado brasileiros do Amazonas, mais precisamente nas Áreas Indígenas Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Pari Cachoeira I, Pari Cachoeira II, Pari Cachoeira III, Taracuá, Yauareté I e Reserva Indígena Balaio, além da Colômbia. [1]

Mapa Interativo[editar | editar código-fonte]

Coordenadas -3.00887,-60.472046
Clique aqui para visualizar o mapa interativo.

Desanos[editar | editar código-fonte]

Os índios que vivem às margens do Rio Uaupés, que se localiza no estado do Amazonas, e seus afluentes – Tiquié, Papuri, Querari e outros menores – integram atualmente 17 etnias, muitas das quais vivem também na Colômbia, na mesma bacia fluvial e na bacia do Rio Apapóris (tributário do Japurá), cujo principal afluente é o Rio Pira-Paraná. Esses grupos indígenas falam línguas da família Tukano Oriental (apenas os Tariana têm origem Aruak) e participam de uma ampla rede de trocas, que incluem casamentos, rituais (religiosos, espirituais) e comércio, compondo um conjunto sócio-cultural definido, comumente chamado de “sistema social do Uaupés/Pira-Paraná”. Este, por sua vez, faz parte de uma área cultural mais ampla, abarcando populações de língua Aruak e Maku.

Organização Social[editar | editar código-fonte]

Os grupos Tuc(k)ano são patrilineares e exogâmicos, isto é, os indivíduos pertencem ao grupo de seu pai e falam a sua língua, mas devem se casar com membros de outros grupos, idealmente falantes de outras línguas. Externamente, os grupos são equivalentes mas distintos; internamente, cada um consiste em um número de clãs hierarquicamente ordenados. Os ancestrais desses clãs eram os filhos do primeiro ancestral Anaconda e a sua ordem de nascimento, que corresponde à ordem de emergência do corpo de seu pai, determina a sua classificação: os clãs de posição mais alta são coletivamente considerados "irmãos maiores" para aqueles de posição mais baixa. A posição do clã é associada a uma hierarquia, sendo ainda frouxamente correlacionada a residência: os clãs de mais alto grau tendem a viver em lugares mais favoráveis nas partes mais baixas dos rios, enquanto os clãs de menor grau freqüentemente vivem nas áreas de cabeceiras ou as partes mais altas dos rios. A classificação do clã também tem os seus correlatos rituais: os clãs de posição mais alta, as "cabeças da Anaconda", são "chefes" que patrocinam os principais rituais e controlam os ornamentos de dança do grupo e os Yurupari; os clãs de posição mediana são especialistas de danças e cânticos; abaixo deles são os xamãs; e o grau mais baixo é ocupado pelos clãs servos, a "cauda da Anaconda", que por vezes são identificados com os semi-nômades Maku que vivem nas zonas interfluviais.

Essa hierarquia de papéis especializados e de privilégios rituais fica muito evidente durante os rituais coletivos em que se recitam as genealogias e enfatizam-se as relações hierárquicas e de respeito. De modo mais sutil, essa hierarquia reflete-se também na vida cotidiana. Os habitantes de uma maloca comumente correspondem a um grupo de homens estreitamente aparentados, como os filhos do mesmo pai ou de dois ou mais irmãos, que vivem juntos com as suas esposas e filhos. Quando uma mulher se casa, ela deixa a sua maloca natal e vai morar junto com seu marido.

História[editar | editar código-fonte]

A história do primeiro contato dos povos do Uaupés com os não indígenas é muita antiga, bem anterior ao grande auge da borracha na virada do século XX, remetendo às incursões maciças dos portugueses em busca de escravos na primeira metade do século XVIII. A penetração efetiva dos missionários começou ao final do século XIX, com a chegada dos Franciscanos. Estes, e os Salesianos que os seguiram, viram a cultura dos povos do Uaupés através das lentes de suas próprias categorias religiosas: as malocas dos índios eram consideradas "antros licenciosos e promíscuos", as suas festas de dança ocasiões de "indecência e embriaguez", os pajés eram "charlatões" que aliciavam o povo, e o culto de Yurupari nada mais era do que o "culto ao Diabo" em pessoa. Sem conhecer e sem a mínima intenção de saber o quê essas coisas realmente significavam, os missionários começaram a destruir uma civilização em nome de outra, queimando as malocas dos índios, destruindo os seus ornamentos de penas, quebrando seus recipientes de caxiri, perseguindo os pajés e expondo os Yurupari às mulheres e crianças reunidas na igreja. Sob o regime estrito dos internatos, as crianças foram ensinadas a rejeitar os valores e os modos de vida dos seus pais, incentivadas a casar-se dentro de seus próprios grupos, e proibidas de falar as línguas que lhes conferiam identidades múltiplas e interligadas. Para os missionários, somente uma identidade importava, a identidade indígena genérica, que impedia o progresso da "civilização".

Contato com Seringalistas e Missionários[editar | editar código-fonte]

O contato traumático e duradouro com os seringalistas ocorreu, pois esses comerciantes estavam mais interessados nos corpos dos índios do que nas suas almas; em termos religiosos, e talvez em termos sociais também, foram os missionários que provocaram as maiores transformações.Como reação inicial contra a exploração pelos comerciantes, as pressões dos missionários e as epidemias que dizimaram a população indígena, irrompeu uma série de movimentos milenaristas na região do Uaupés durante a segunda metade do século XIX. Vestindo-se de padres e identificando-se com Cristo e os santos, os pajés-profetas conduziram o povo na "Dança da Cruz", uma fusão dos rituais de caxiri e dabukuri tradicionais com elementos do catolicismo, que prometiam a libertação da opressão dos brancos e o alívio dos "pecados" que acreditavam ser a causa das epidemias.Mas se os missionários foram perseguidos por seus ataques contra a cultura indígena, também foram bem recebidos como fonte de bens manufaturados, como defensores dos índios contra os piores abusos dos seringalistas e como provedores da educação que as crianças indígenas precisariam para se sair bem nas novas circunstâncias

Língua[editar | editar código-fonte]

A família linguística Tuc(k)ano Oriental engloba no mínimo 16 línguas, dentre as quais o Tuc(k)anopropriamente dito é a que possui maior número de falantes. Ela é usada não só pelos Tuc(k)ano, mas também pelos outros grupos do Uaupés brasileiro e em seus afluentes Tiquié e Papuri. Desse modo, o Tuc(k)ano passou a ser empregado como língua franca, permitindo a comunicação entre povos com línguas paternas bem diferenciadas e, em muitos casos, não compreensíveis entre si. Em alguns contextos, o Tuc(k)ano passou a ser mais usado do que as próprias línguas locais. A língua Tuc(k)ano também é dominada pelos Maku, já que precisam dela em suas relações com os índios Tuc(k)ano . Já as línguas classificadas como Tuc(k)ano Ocidentais são faladas por povos que habitam a região fronteiriça entre Colômbia e Equador, como os Siona e os Secoya. Considerando o significativo número de pessoas da bacia do Uaupés que estão residindo no Rio Negro e nas cidades de São Gabriel e Santa Isabel, estima-se que cerca de 20 mil pessoas falem o Tuc(k)ano. [2]

Xamanismo[editar | editar código-fonte]

Os Desanos, como outros povos das terras baixas da América do Sul, distinguem várias categorias de especialistas rituais que exercem as funções de prevenção e cura de doenças segundo a fonte do seu poder e a natureza de suas práticas terapêuticas: os yea, ou xamãs-onça, e os kumua, ou xamãs-rezadores. Os yea, cujo poder advém do contato estabelecido com os espíritos por meio da inalação do pó de paricá, são descritos como tendo a capacidade de se transformar em onça (daí o seu nome) para realizar certas tarefas. Eles efetuam as curas xamânicas através de diversas técnicas de manipulação do corpo (massagens, sucção, etc.) que visam a extrair do corpo do doente o objeto patogênico. Os kumu (especialistas religiosos) também utilizam em seus rituais coca, tabaco e ayahuasca. (ISA - Desana. (o.c.)

Rituais[editar | editar código-fonte]

A maioria dos rituais e da vida religiosa Tuc(k)ano está centrada em objetos (como ornamentos plumários e as flautas Yurupari) e substâncias sagradas - como a pintura vermelha carayuru, cera de abelha, cera de breu (resina vegetal), epadu (feito com variedades de coca), tabaco e ayahuasca -, assim como em bens menos tangíveis, na forma de nomes, cerimoniais, encantações e cantos. Tais itens são propriedade do grupo e constituem expressões de seus poderes espirituais. Em um nível coletivo e estrutural, os rituais que envolvem tais itens podem ser vistos como expressões formais da identidade do grupo e das relações inter-grupais. Ao mesmo tempo, esses rituais constituem expressões das relações políticas em dada conjuntura. Assim, malocas vizinhas são interligadas por intermédio de líderes carismáticos, que comandam a organização de festas e coordenam o trabalho coletivo para a construção de casas maiores que funcionam como centros cerimoniais. Esses líderes são indivíduos que possuem um grande conhecimento esotérico e se mobilizam para manter e aumentar os bens sagrados de sua maloca, podendo disponibilizar os recursos necessários para patrocinar os rituais. Tais capacidades rituais prestam-se a fortalecer sua posição política.

Aspectos Culturais[editar | editar código-fonte]

Caça, Pesca e Agricultura[editar | editar código-fonte]

Os Desanos são conhecidos como caçadores, principal atividade realizada pelos homens, para realizar a caça o homem Desano prepara uma criança para aprender os animais que podem ser caçados e quando podem ser caçadas, aprendendo desde a criação de armadilhas e um código de conduta onde não se deve fazer mal uso do animal caçado.
Antes de sair a caça, o homem Desano deve purificar sua alma, se abstendo de sexo, só assim o espírito proprietário para atrair suas presas e dar sorte ao caçador.Tradicionalmente a caça a animais terrestres era realizada com arco e flecha, zarabatana e dardos mas hoje já são utilizadas espingardas no processo.
A pesca é a segunda atividade mais importante, juntamente com a caça fazem parte da principal alimentação da tribo nos períodos quentes, já no inverno as frutas silvestres, o mel e alguns insetos fazem um importante complemento a alimentação.
A agricultura é a atividade por excelência das mulheres.O homem abre(corte e queima), mas é a mulher quem prepara a terra, cuida e colhe o plantio.

Cosmologia[editar | editar código-fonte]

Como princípio básico, a cosmologia Tuc(k)ano combina perspectiva móvel, replicação da organização social em diferentes escalas da existência - corpo, comunidade, casa e cosmos, e organização análoga entre níveis diferentes da experiência. O universo é feito de três camadas básicas: céu, terra e "mundo inferior". Cada camada é um mundo em si, com seus seres específicos e podendo ser entendidos tanto em termos abstratos como concretos. Em contextos diferentes, o "céu" pode ser o mundo do sol, da lua e das estrelas, ou o mundo dos pássaros que voam alto, ou os topos achatados dos tepuis (topos achatados das montanhas) dos quais descem as águas ou o mundo dos topos das árvores da floresta, ou mesmo uma cabeça enfeitada com um cocar de penas vermelhas e amarelas de arara, que são as cores do sol. Do mesmo modo, o "mundo inferior" pode ser o Rio dos Mortos debaixo da terra, o barro amarelo debaixo da camada do solo onde enterram-se os mortos, ou o mundo aquático dos rios subterrâneos. De toda forma, o que define o "céu" ou o "mundo inferior" depende não somente da escala e do contexto, mas também da perspectiva: à noite o sol, o céu e o dia ficam debaixo da terra e o escuro mundo inferior fica acima. Há uma história sobre um homem que encontra o cadáver de uma mulher-estrela que caiu na terra quando fora enterrada por sua família no céu: para seus parentes ela está morta no mundo inferior; para o homem, ela está viva na terra. O homem casa com a mulher-estrela e vai com ela visitar sua família no céu. Para o homem, as estrelas são os espíritos dos mortos que vivem à noite; para as estrelas, ele que é um espírito, e o dia para ele corresponde à noite para elas.

A Maloca[editar | editar código-fonte]

A Maloca é uma casa para 5 a 8 famílias, onde vivem cerca de 35 pessoas. As malocas são retangulares com telhados de folhas de palmeira e paredes com casca de árvores, tendo como ponto importante 2 portas, uma de frente para o rio e a outra do lado oposto que só pode ser usada pelos seus habitantes. O centro da maloca é um lugar sagrado e é colocado um ritual de bancada para o sacerdote do sol (Kamu) e do xamã ou pajé (ye'e). Este suga a resina seca de Virola (Viho) e beber yaje para se comunicar com os espíritos e conseguir a saúde e controle da caça e outras atividades das pessoas. O sacerdote entoa cantos sagrados, apresenta ofertas ao sol e dirige os rituais, alerta as pessoas sobre o seu comportamento, durante a transmissão da sabedoria e histórias para a próxima geração.

Situação territorial[editar | editar código-fonte]

O Rio Uaupés tem cerca de 1.375 Km de extensão. De sua foz do Rio Negro até a desembocadura do Rio Papuri, o Uaupés está situado em território brasileiro e percorre cerca de 342 Km. Entre este ponto e a foz do Querari, serve de fronteira entre o Brasil e a Colômbia por mais de 188 Km. A partir daí, até as suas cabeceiras, localiza-se em território colombiano e percorre 845 Km. Navegando no Uaupés, H. Rice (1910) contou 30 cachoeiras maiores e 60 menores. Depois do Rio Branco, o Rio Uaupés é o maior tributário do Rio Negro. Atualmente, o nome Uaupés é o mais usado (no Brasil, já que na Colômbia fala-se mais Vaupés), mas também é conhecido como Caiari. Em seu curso, o Uaupés recebe as águas de outros grandes rios, como o Tiquié, o Papuri, o Querari e o Cuduiari. Os principais núcleos de povoamento do Rio Uaupés são a cidade de Mitu, capital do departamento colombiano do Vaupés, e Iaraueté, que é sede de um distrito do município de São Gabriel.



Fontes[editar | editar código-fonte]

http://pib.socioambiental.org/pt/povo/desana
http://amazonaviva.wordpress.com/algunos-pueblos-indigenas/desanas-o-tucano/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Desanos


Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Desanos, em Ethnologue
  2. http://www.ethnologue.com/language/des