Wikinativa/Caxarari

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Os Caxararis (ou Kaxarari, em outra grafia) são um povo indígena de família linguística pano, entretanto atualmente só falam o português. Habitam a região que se estende do extremo Noroeste do estado brasileiro de Rondônia ao extremo Sul do Amazonas, mais precisamente na Área Indígena Kaxarari cortada pela rodovia federal BR-364. De acordo com a Fundação Nacional da Saúde (Funasa), em 2009 havia cerca de apenas 318 indivíduos, divididos em 3 aldeias.


Caxararis
Tribo Kaxararis
População total

318 pessoas (auto-identificados)

Regiões com população significativa
Amazonas e Rondônia (Funasa, 2010)[1]
Línguas
Pano, Português
Religiões

Grupos étnicos relacionados
Paiteres, Waris, Aricapus, Aruás
Localização da Área Indígena da Tribo Kaxararis, na fronteira entre o estado do Amazonas e Rondônia.

Localização[editar | editar código-fonte]

Os Kaxarari vivem hoje em quatro aldeias, Marmelinho, Barrinha, Paxiúba e Pedreira, todas elas localizadas na Terra Indígena Kaxarari, na fronteira dos estados do Amazonas e Rondônia e Acre. A área ocupada pelos Kaxarari é próxima aos municípios de Lábrea, Porto Velho e Extrema, e o acesso por terra se dá pela BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho.

Mapa Interativo[editar | editar código-fonte]

A Terra Indígena dos Kaxararis possui uma área oficial de 145.889 ha. Situado na faixa de fronteira,e sua Jurisdição Legal sendo classificada como Amazônia Legal.

Coordenadas: -9.392161,-66.288986

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História[editar | editar código-fonte]

Resistência a ação predatória da Mendes Junior na área das Pedreiras[editar | editar código-fonte]

Entre 1988 e 1989, foi iniciado um processo de grande devastação das matas e subsolos das pedreiras, uma área situada no limite oeste do território Kaxarari, com cerca de 900 hectares, que havia sido excluída, segundo os próprios índios, intencionalmente da demarcação realizada pela Asserplan/Funai, em 1987, para beneficiar a empreiteira Mendes Junior. Esta, dispondo de equipamentos e tecnologias apropriadas (tratores, caminhões, grandes britadeiras, dinamites etc.) e ainda de vultosos recursos do próprio governo federal/BID, desenvolveu uma produção em larga escala de pedras e britas para a pavimentação da BR-364 e para a construção civil em Rio Branco.

Em 1990, alarmados com o represamento das águas das cabeceiras do rio Azul, que banhava, em seu curso médio, as antigas aldeias/colocações da Barrinha e do Azul; assustados com as explosões provocadas pelas dinamites; preocupados com o afastamento das caças, os desmatamentos realizados na área e com o aumento de doenças provocadas pelo uso da água poluída, os Kaxarari, conduzidos por suas lideranças e apoiados pela Funai e outras organizações indigenistas, ocuparam o acampamento da empreiteira Mendes Junior e paralisaram as atividades de produção de brita que há mais de dois anos vinham sendo realizadas na área das pedreiras.

O ‘embate’ realizado pelos Kaxarari no acampamento chamou atenção da opinião pública e das autoridades federais e estaduais. Ocupando pacificamente o acampamento, apreendendo equipamentos pesados e grande quantidade de pedras britadas, os índios conseguiram uma importante vitória política que garantiu a partir de 1991 a demarcação da área da Pedreira, anexando, portanto, cerca de 900 hectares à área demarcada em 1987.

Essa importante conquista se consolidou quando a Mendes Junior foi obrigada a negociar com os índios o pagamento de uma indenização pela devastação realizada no território kaxarari. Só assim puderam retirar seus equipamentos e pedras britadas apreendidas pelos índios. Uma parte do dinheiro pago pela empreiteira foi distribuída proporcionalmente entre os distintos grupos domésticos e cantineiros das comunidades kaxarari.

Além da depredação de importantes recursos naturais de sua área indígena, as atividades desenvolvidas pela Mendes Junior criaram, por outro lado, uma grande expectativa entre os índios no sentido de que eles poderiam agora administrar a exploração de pedras britadas em benefício da comunidade. Chegaram a solicitar à Funai a exploração comercial de pedras britadas de algumas de suas 14 pedreiras, mas não obtiveram resposta.

(Funai, 1997)

Língua[editar | editar código-fonte]

Os Kaxarari falam uma língua da família Pano, semelhante ao idioma falado pelos Yaminawa, Kaxinawa, Yawanawa, Nukini, Katukina e Poyanawa que vivem no Acre.

“Entre os Kaxarari que vivem na aldeia Pedreira, pode-se perceber que apenas os mais velhos ainda falam a língua; das crianças,
poucas falam e algumas apenas entendem. Entre os adultos, pode-se dizer que a maioria não lê ou escreve o português, e alguns
apresentam dificuldades na compreensão da língua” - (Aquino, 1984)

Cosmologia e Religiosidade[editar | editar código-fonte]

As sociedades da floresta de um modo geral são ágrafas e de tradição oral. Dessa forma a memória de seus membros é a fonte de acesso às suas crenças, seu passado mítico, a genealogia, enfim a sua história como povo. Cultivam suas tradições através da oralidade, dos relatos dos velhos e velhas de como era o tempo de antigamente, pois todos os povos tem uma explicação particular para a origem do mundo, dos objetos, dos animais, da criação do homem e da sociedade.

Essa transmissão de conhecimento não sendo compulsória ou pré-determinada depende de vários fatores, inclusive de tempo e de interlocutores apropriados a executar essas performances orais, muito valorizadas nas sociedades ágrafas. Como o espaço e o tempo de transmissão de conhecimento não são institucionalizados, a questão da sua realização esta interligada às relações pessoais, os dias de chuva, com o respeito que os velhos e o seu conhecimento antigo desperta nas gerações mais jovens, enfim, com o auto-respeito e o conceito de identidade que toda sociedade tem em maior ou menor escala.

O que há são fragmentos, lembranças de procedimentos, desorganizadas pela falta de interação entre as muitas gerações que separam a cultura desse povo e os dias de hoje.

Aspectos Culturais[editar | editar código-fonte]

Organização social[editar | editar código-fonte]

Os Kaxarari dividiam-se em clãs (classificação segundo uma regra de descendência baseada em uma só linha). No caso dos Kaxarari esta linha de descendência era patrilinear, ou seja, cada homem ou mulher pertencia sempre ao clã de seu próprio pai. Como em toda sociedade assim dividida, os clãs kaxarari eram exogâmicos (não se podia casar com pessoas do mesmo clã).

No início dos anos oitenta, foram identificados 18 clãs nomeados, mas no passado eram mais numerosos:

Nome do Clã Significado
Inauêtxabê gente da onça
Xaualitxabê gente da arara
Bauêtxabê gente do papagaio
Xapuitxabê gente do algodão
Xauitxabê gente da garça
Txalamaitxabê gente do Jaburu
Tekuluitxabê gente do passarinho bico de brasa
Rititxabê gente da envira
Waraínerotxabê gente da banana
Txurutxabê gente da andorinha
Binuissakaitxabê gente da patativa
Xaxuitxabê gente da pedra
Xukitxabê gente do tucano
Kalatxabê gente da arara canindé
Tescubatxabê gente do passarinho
Apulitxabê gente do tamanduá
Kukuiritxabê gente do gavião
Tauãxanetxabê gente da cana

O casamento preferencial entre os Kaxarari era com a filha do koko (tio materno ou sogro) ou com a filha da iaiá (tia paterna ou sogra), ou seja, casamento ideal entre primos cruzados bilaterais, assim mantinha-se a exogamia clânica.

O jovem esposo costumava se deslocar para o local onde vivia a família de seu sogro, dada a regra da matrilocalidade após o casamento, e deveria trabalhar para ela. Como os filhos homens, de 15 anos em diante, saiam de seu grupo doméstico ao se casar, os genros eram muito importantes para a manutenção daquela família. Eram eles que cortavam seringa, coletavam castanha, derrubavam as matas para colocar os roçados ou trabalhavam como “bóias frias” das fazendas agropecuárias e seringais estabelecidos ao longo da BR-364. Quem decidia o casamento eram os pais dos futuros cônjuges. A separação dos casais era muito freqüente nas primeiras fases do casamento.

“De acordo com os Kaxarari, os mais jovens têm observado pouco a questão dos clãs em relação à realização dos casamentos. O
número de clãs hoje citados são apenas seis.” (Trecho extraído de Aspectos da fonologia da Língua Kaxarari (2004), de Gladys
Cavalcante Sousa).

As crianças, ao nascerem, além de receber o nome clânico de seu pai e residir no grupo doméstico de sua mãe, possuíam nomes pessoais em sua língua nativa, que lhes eram transmitidos em gerações alternadas. Assim ensinavam os mais velhos: “o menino quando nasce recebe o nome do avô dele [avô paterno] e a menina tem o nome da avó dela [avó paterna]”.

“Por falta de pessoas detentoras dos antigos conhecimentos, o ritual de nomeação das crianças está se extinguindo. A nomeação
deveria ser realizada por uma pessoa mais velha conhecedora dos nomes das famílias, pois uma criança deve receber um nome de um
parente antigo; portanto, conhecer a língua e a genealogia kaxarari é imprescindível para nomear um recém-nascido na língua
Kaxarari. Alguns pais relataram que seus filhos, devido à ausência de pessoas capacitadas para tal nomeação, não receberam
nomes kaxarari, apenas aqueles em português.” (Trecho extraído de Aspectos da fonologia da Língua Kaxarari (2004), de Gladys
Cavalcante Sousa).

Medicina tradicional[editar | editar código-fonte]

Xamanismo[editar | editar código-fonte]

Os Kaxararis não mais praticam seus rituais tradicionais como o xamanismo. A principal técnica de cura dos pajés era a de sucção.

“Antigamente tinha pajé pra curar a gente. Quando adoecia, ele chupava no corpo e tirava aquelas pedras do corpo do doente e
jogava a doença fora. Rezava pro doente ficar logo bom. Tomava rapé e kupá pra curar. Sabia muitos remédio da mata, mas agora
não, mais pajé não. Tudo se acabou.” (Depoimento de Antônio Caibú, extraído de Os Kaxarari (1984) de Terri Vale de Aquino).

Não existem mais pajés entre os Kaxarari. Também faziam muitas comemorações e cantorias de roda. Era comum em suas festas fazerem vestimentas de palha do olho do buriti, enfeites de penas, couros de onça, máscaras e pinturas. Tinha a festa do buiarri, que era a festa das frutas, quando todos iam para a mata apanhar ingá, naja, frutas de maçaranduba. Uma de suas brincadeiras era o bili, um jogo de bola de caucho, jogado com o joelho, parecido com o futebol dos cariú [não-índio].

O kupá era uma prática xamânica que provocava estados alterados de consciência, que “dava porre, suava muito, fazia sonhar e curava”. Era uma espécie de lavagem feita por um tipo de planta.

A bebida kupá, no princípio era restrita aos homens e ingerida somente pelos mais velhos. Mulheres e crianças não participavam do ritual de abertura dos trabalhos. Curiosamente houve casos de mulheres que atuavam como pajé e ministravam diagnósticos e curas de enfermidades de origem alegada aos espíritos. A cura muitas vezes era ministrada através do sopro de fumaça de tabaco sobre o local ou até mesmo todo o corpo do paciente (biakintahi). Quando sob o efeito do kupá, o pajé podia ver que tipo de enfermidade ou presença espiritual estava agindo no paciente.

Resumindo uma das praticas xamânicas que eram utilizadas pelos Kaxarari é o Kupá, que nos dizem provoca estados alterados de consciência e curavam. Há pouca ou quase nenhuma referência sobre essas práticas que foram e são frequentemente ridicularizadas por pessoas que, na maioria dos casos, não têm a menor condição de avaliar o real alcance de práticas centenárias de medicina herbal, hoje objeto de desejo comercial de poderosas empresas de medicamentos de todo o mundo.

(Santos, 2002)

Situação territorial[editar | editar código-fonte]

Hoje a os Kaxararis já conseguiram demarcar um território que foi regulamentado e legalizado. A Terra Indígena dos Kaxararis possui uma área oficial de 145.889 ha. Situado na faixa de fronteira (entre os estados de Rondônia e Amazonas),e sua Jurisdição Legal sendo classificada como Amazônia Legal.

Luta pela demarcação territorial[editar | editar código-fonte]

Mesmo depois do “tempo das correrias”, cuja conseqüência maior foi o deslocamento, a depopulação e a expropriação de suas terras, os Kaxarari continuaram vivendo em partes dos seus antigos territórios. A ocupação seringalista e caucheira, segundo depoimentos de velhos kaxarari, ocorreu principalmente nas áreas de seu antigo território, que eram ricas em caucho e seringa.

De 1910 para cá, os Kaxarari mudaram-se das cabeceiras do Curequeté, afluente do Ituxy, onde foram localizados por Masô, para as margens e centros do rio Aquiry e, mais recentemente, para as águas do rio Azul e seus afluentes Barrinha e Maloca. Vivendo, portanto, em partes de seus antigos territórios.

Com a passagem da BR-364 (no trecho Porto Velho-Rio Branco) nas proximidades de suas moradias e as posteriores tentativas de venda das terras cortadas por esta rodovia federal para fazendeiros do sul ligados à agropecuária, os Kaxarari ficaram temerosos de perder o pouco de terra que ainda ocupavam.

Vendo as suas antigas terras serem cortadas por picadas demarcatórias das fazendas estabelecidas na região em meados da década de 1970, as lideranças kaxarari procuraram os responsáveis da delegacia regional da Funai, localizada em Porto Velho (RO), solicitando a urgente delimitação de sua área indígena.

Foram atendidos anos mais tarde, mais precisamente em 1978, quando uma equipe da Funai de Brasília, constituída por um antropólogo e um engenheiro agrimensor, realizou a primeira delimitação de suas terras. De 1978 a 1984, os limites da área Kaxarari sofreram muitas modificações.

Mas foi somente no final da década de oitenta que os Kaxarari vieram reivindicar uma parte da terra que fora excluída equivocamente da demarcação de sua área: as Pedreiras.

(Aquino, 1984)

Fontes[editar | editar código-fonte]


Enciclopédia xxxx.

Referências

  1. Quadro Geral dos Povos. Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil. Página visitada em 04 de maio de 2013.

Referências externas[editar | editar código-fonte]

Aldeia Eachwawá