Introdução ao Jornalismo Científico/História da Ciência e da Tecnologia/Grécia Antiga e Império Romano: enfim, Ciência

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Módulo 1: Metodologia e Filosofia da Ciência Módulo 2: História da Ciência e da Tecnologia Módulo 3: Ética da Ciência Módulo 4: Temas Centrais da Ciência Contemporânea Módulo 5: Modos de Organização e Financiamento dos Sistemas de Pesquisa, no Brasil e no Exterior Módulo 6: Mídias, Linguagens e Prática do Jornalismo Científico


Grécia Antiga e Império Romano: enfim, Ciência

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Introdução[editar | editar código-fonte]

As civilizações apresentadas no ponto anterior tiveram enorme desenvolvimento técnico e tecnológico. O conhecimento era aperfeiçoado na base da repetição, embora houvesse pouca ou quase nenhuma teorização por trás. Nessas culturas, a atitude frente à natureza era de contemplação e conservação, ao passo que a preocupação principal ficava em torno do mistério da morte e da vida eterna. O conhecimento e a escrita eram restritos aos governantes e sacerdotes, que recorriam aos deuses e às divindades para justificar suas posições de poder. A política, portanto, era algo divino, cuja vontade era manifesta através dos políticos e suas ordens, não havendo espaço para a participação popular. A civilização grega não compartilhava de tais características.

A Grécia Antiga, no século VI a.C., foi berço da Filosofia Natural, cujo espírito crítico e especulativo fundamentou as indagações feitas sobre a natureza e seus fenômenos. Explicações que recorriam à mitologia eram insuficientes para os filósofos naturais. Tanto a elaboração das perguntas quanto a busca pelas respostas deveriam partir da especulação com base na Razão. Deste trabalho de compreensão do Mundo gerou a Filosofia e a Ciência, que ramificou-se em áreas variadas, como a Matemática e a Astronomia. Depois, à medida que o conhecimento expandia suas fronteiras, as disciplinas ficaram mais específicas e complexas. Também houver alteração na maneira que o conhecimento era criado: a especulação filosófica perdeu espaço para a experimentação.

Em seu princípio, a Filosofia Natural misturava elementos mitológicos e científicos. Apesar da mitologia seguir como crença oficial das cidade-Estado e, por efeito, da maior parte da população, os filósofos podiam fazer suas investigações sem interferência da religião e de suas implicações no que tange a relação do ser humano com o desconhecido, com o que lhe é oculto. A oposição da Razão e do Mito foi fundamental para o florescer da Ciência. Na tentativa de se afastar dos dogmas religiosos dominantes, os filósofos defendiam o raciocínio aliado à reflexão para encontrar respostas que explicassem os fenômenos naturais: era necessário, portanto, justificativas bem elaboradas, em geral com evidências e provas.

As Leis e a Democracia Ateniense foram outros dois fatores fundamentais para o surgimento da Ciência, a começar pelo fato de que os gregos não eram vistos como súditos pelos governantes, estes colocados em seus postos via sorteio ou eleição. Deste modo, a Grécia Antiga diferenciava-se das outros sociedades por não ser uma teocracia ou autocracia como as civilizações do Egito ou da Índia. As pessoas eram julgadas por tribunais e jurados com base em Leis elaboradas por legisladores, como Draco e Sólon. Os debates ocorriam em praça pública, onde qualquer cidadão grego poderia acompanhar e participar. Havia, pois, debate e troca de ideias. Aristóteles definiu o Homem como um animal político e que seria dever do cidadão participar da vida pública.

Formação e História da Grécia Antiga[editar | editar código-fonte]

A Grécia Antiga tinha um ambiente favorável ao desenvolvimento do pensamento racional e da Ciência. Essa sociedade formou-se com base nas civilizações cretense (ou minoica), que ficava na ilha de Creta, mais a civilização micênica, que ocupava o continente, a região sul da península balcânica. Especula-se sobre dois fatores para o fim da civilização cretense: ou destruição após a erupção do vulcão Santorini ou o dominação pelos micênicos por volta de 1450 a.C. Esta época, aliás, foi o apogeu da civilização micênica, cujo motivo da derrocada, em 1200 a.C., também é incerto. Pesquisadores apontam para alguns motivos: uma invasão dos dóricos, tribo do norte da Grécia, ou fenômenos naturais, como seca ou terremoto. E

O período dos cretenses e micênicos é chamado de pré-homérico e constituiu as bases para o surgimento da Grécia Antiga, época que pode ser dividida em quatro períodos: homérico ou idade das trevas, arcaico, clássico e helenístico.

Homérico ou Idade das Trevas[editar | editar código-fonte]

O período seguinte começa em 1.200 a.C. e vai até 776 a.C. A cultura micênica havia sido destruída. Os mitos eram menos conhecidos e a linguagem escrita, chamada de Linear B, talvez o mais antigo dialeto grego, caiu em desuso. Contudo, os elementos mitológicos e parte do vocabulário ainda era usado pelos povos que viviam na região. O resgate de tais elementos ocorreu por volta do século VIII a.C. com a disseminação oral dos poemas e contos de Odisseia e Ilíada, cuja autoria, embora atribuída por muito tempo a Homero, pode ter sido feita por diversas pessoas. Então, no século VI a.C., eles foram textualizados com o alfabeto grego, criado com base no alfabeto fenício, ao qual os gregos adicionaram as vogais. Ao longo deste período foram fundadas as primeiras apoéquias, as colônias gregas, ao longo do litoral do Mediterrâneo e do Mar Negro.

Arcaico[editar | editar código-fonte]

Mapa da colonização grega no período arcaico.

A passagem do período homérico para o arcaico é atestada por evidências arqueológicas que indicam para a recuperação econômica da região, como a construção de Delfos ou as cerâmicas do cemitério de Kerameikos. As populações das cidades voltaram a crescer, assim como a demanda por recursos, que eram conseguidos por meio do comércio ou pela expansão territorial. Com isso, foram introduzidas as moedas para as transações e criaram as hoplitas, as infantarias gregas, e os trirremes, barcos de guerra de três fileiras de remos. A prosperidade voltou para a região, que desenvolveu-se separadamente em cidades-estados, as famosas pólis. Apesar de batalharem entre si, o que impedia a unificação, elas compartilhavam a sensação de pertencer a mesma cultura: falavam a mesma língua, tinham as mesmas crenças e se reuniam nas mesmas celebrações, como os jogos olímpicos. "Gregos" eram como os romanos se referiam a esse povo, que se chamava de Helenos, referência ao território de Hélade, este que é, inclusive, o nome da Grécia em grego.

Clássico[editar | editar código-fonte]

Mapa do reino da Macedônia, do Império Persa e da Grécia em 336 a.C.

A passagem do arcaico para o clássico ocorreu em 499. a.C., quando se deu a I Guerra Médica, na qual os jônicos se rebelaram contra o domínio do persas e os derrotaram. Depois, em 480 a.C., veio a II Guerra Médica, que começou com a invasão da Grécia pelo Império Persa a mando do rei Xerxes I. Atenas e Esparta uniram-se e defenderam com êxito seu território em uma série de batalhas, como a de Termópilas, retratada fantasiosamente na película 300. A paz entre as duas

maiores pólis da Grécia Antiga não durou muito: entre 431 a.C. e 404 a.C. aconteceu a Guerra do Peloponeso, na qual se opuseram dois grupos de cidade-estados. Um era a Liga do Peloponeso, liderada por Esparta, e outro era a Liga de Delos, liderada por Atenas. Vários fatores contribuíram para que as pólis chegassem às vias de fato, das quais destacam-se a recusa de Atenas ao pedido de Potideia para deixar a Liga de Delos e a imposição de Atenas ao pagamento de um imposto por parte da cidade Médera.

A guerra terminou em 404 a.C. com a vitória de Esparta e da Liga do Peloponeso. O golpe final veio quando os espartanos invadiram Atenas graças a uma frota naval construída com o financiamento dos persas. Em troca, Esparta permitiu que o Império Persa tomasse as colônias de Jônia, na Ásia Menor. Praticamente todas as pólis envolveram-se na guerra, cujos efeitos foram negativos: a economia estava em frangalhos com o enorme gasto de recursos, a chance de unificação política sumiu e aumentaram os conflitos dentro das cidades-estados nas questões de governança. Estava aberto o caminho para Felipe II, rei da Macedônia, que conquistou a Grécia Antiga -- menos Esparta -- e impôs a paz entre as pólis.

A harmonia entre Filipe II e os gregos aconteceu na Assembleia de Corinto, na qual ele estabeleceu como objetivo a conquista do Império Persa como vingança pela tomada das cidades-estados jônicas. Apesar de Filipe II ter sido assassinado em 336 a.C., a campanha de expansão territorial continuou sob o comando de seu filho, Alexandre, o Grande. Dito e feito, o novo rei da Macedônia derrotou os persas e continuou a expandir os limites de seu reino em direção ao leste, passando pelo Egito até chegar ao norte da Índia. A absorção da Grécia pela Macedônia fez com que Atenas perdesse o status de potência cultural e econômica. Não obstante, o tino conquistador de Alexandre levou a lugares distantes a cultura e o conhecimento grego, que acabaram misturados com elementos de outras culturas, como o zoroastrismo babilônico.

Helenístico[editar | editar código-fonte]

Mapa do auge da expansão do império de Alexandre.

O fim do período clássico e o início do helenístico, em 323 a.C., é marcado pela morte de Alexandre, que não havia nomeado um sucessor. Então, o reino macedônico entrou declínio e instabilidade, pois os generais de Alexandre estavam divididos sobre o que fazer. Uma parte queria manter a unidade do império e aguardar pelo nascimento e crescimento do filho de Alexandre com Roxana, enquanto outra parte queria dissolver o império em reinos menores, os quais seriam comandados por eles. Manteve-se, de início, a escolha pela primeira opção, que não durou muito diante da sede de poder. A falta de consenso trouxe as Guerras dos Diádocos, separada em quatro períodos de lutas entre 323 a.C. e 301 a.C. Ao término, os diádocos, palavra grega para "sucessores", haviam desmembrado o império macedônico em quatro reinos. Ptolomeu I Soter fundou a dinastia Ptolomaica no Egito; Lisímaco tornou-se rei da região onde hoje fica a Turquia; Seleuco I Nicator comandou o reino que ficava na Ásia Menor, onde hoje estão Síria, Irã, Iraque e Afeganistão; e Cassandro, que ficou com a Macedônia e a boa parte da Grécia.

Apesar do pouco tempo de duração, a extensão do império da Macedônia levou a cultura e a língua grega a lugares longínquos, inimagináveis no período Homérico. Do mesmo modo, elementos de outras tradições foram incorporados à cultura grega, como o deus Serápis, introduzido à religião egípcia por Ptolomeu numa tentativa de conquistar a reverência dos dois grupos étnicos do Egito. Houve também uma troca de influências entre o budismo e a cultura grega no reino de Seleuco I Nicator, cuja fronteira oriental chegava ao rio Indo. Enquanto isso, as cidades-estado da Grécia Antiga perderam a importância de outrora, visto que não tinham o poderio e nem o contigente para batalhar com os reinos e impérios. Ademais, as mentes brilhantes, filósofos e matemáticas, mudaram-se para as novas cidades importantes ao leste, como as Alexandrias. Por outro lado, Atenas viu a restauração de sua democracia em 307 a.C., mas que pouco durou, até 261 a.C., quando ela foi ocupada novamente pela Macedônia. Esparta, por sua vez, manteve-se parcialmente independente, mas sem o poder militar de antes. A única pólis que conseguiu ficar totalmente independente dos reinos e impérios foi a ilha de Rodes, que tentava passar a imagem de neutra, embora mantivesse relações próximas com o reino ptolomaico. Isso mudou em 188 a.C., quando alinhou-se aos romanos contra os selêucidas. Depois, em 146 a.C., o Império Romano anexou Rodes, o restante da Grécia e os impérios helenísticos. A ascensão romana marca o fim do período helenístico.

Características da sociedade grega[editar | editar código-fonte]

Os gregos antigos tinham forte tendência ao comércio e à navegação. Também pudera: 80% do território da Grécia peninsular é formado por montanhas e o solo não era propício para uma consistente produção agrícola. A criação de colônias ao longo do litoral Mediterrâneo e do Mar Negro começou na passagem do período homérico para o arcaico. Havia colônias como Marsilia, onde hoje é Marselha, cidade do sul da França, ou até dentro do continente asiático, como Ay Khanoum, onde hoje é o Afeganistão, às portas da Índia e da China. A localização geográfica facilitava a exploração e o contato com outras civilizações antigas: a Grécia fica no sul da Europa, ao norte da África e ao oeste da Ásia.

Entre 600 a.C. e 200 d.C., a sociedade grega cultivou um ambiente favorável para a Razão, o conhecimento e o pensamento crítico, mesmo quando a Grécia esteve sob domínio de imperadores. Surgiu, nesses oito séculos, a Filosofia Natural, cujos estudos tornaram-se complexos e extensos ao longo do tempo, tanto que Aristóteles optou por ramifica-la em duas áreas: Ciência e Filosofia. Filósofos como Diógenes e Sócrates deram os primeiros passos para a filosofia natural, mas pouco contribuíram à Ciência, ao passo que outros, como Tales de Mileto e Aristóteles, foram primordiais para os dois campos. Foi na Grécia Antiga que o espírito humano pôde manifestar-se como nunca e em diversas formas, das Artes à Ciência, passando pela Lógica e pelo Direito. A vontade de compreender o Mundo e o Homem estabeleceu confiança na Razão humana.

A estrutura política, social e cultural é fundamental para o desenvolvimento da Ciência, o que fica em evidência na comparação entre as civilizações antigas orientais com a da Grécia. No primeiro grupo, a escrita e conhecimento ficavam nas mãos dos governantes e dos sacerdotes; a elite impedia que as classes inferiores estudassem, relegando-as ao trabalho manual, cujo aumento da eficiência produtiva dependia das inovações técnicas criadas pelos detentores do conhecimento. Havia, pois, uma lenta evolução técnica em trabalhos como o de transporte, tecelagem, agricultura e outros. A teoria, conforme vimos, era praticamente inexistente.

A Grécia Antiga valorizava a formação do cidadão grego livre, que, quando tinha recursos para isso, podia frequentar os Liceus, as escolas de Medicina, os centros de Astronomia e das Bibliotecas, espaços nos quais o conhecimento era disseminado para as gerações seguintes dos mestres. Os professores exerciam o papel de orientadores, estimulava os alunos ao raciocínio e ao pensamento independente, sem que fossem meros reprodutores do conhecimento existente. A Paideia, o sistema educacional grego, era composto das seguintes matérias: Ginástica, Gramática, Retórica, Poesia, Música, Matemática, Geografia, História Natural, Astronomia e Ciências físicas, História da Sociedade, Ética e Filosofia.

Além de fornecer o ensino ao aluno, as instituições gregas eram responsáveis pela publicação e divulgação das pesquisas, o que colaborou para que a civilização grega tivesse um momento fervilhante culturalmente. É razoável dizer que a divulgação científica começou junto da Ciência, à época da Grécia Antiga. O nível especulativo dos gregos acerca do Universo e da Vida refletia-se nas correntes filosóficas criadas: jônica, pitagórica, atomista, eleática, sofista, estoica, platônica, aristotélica, cética, epicurista. A especulação filosófica casada com a racionalidade deram origem à ramos da Ciência, como a Matemática, a Astronomia, a Mecânica, a Óptica, a História Natural e a Medicina. Ciência e Filosofia foram os pilares do espírito científico, cujas obras por vezes se entrelaçavam.

No entanto, argumentam historiadores que houve pouca aplicação da Ciência à Técnica. Uma das explicações é que os gregos viam as atividades manuais como indignas de um ser humano livre. Para Platão, o conhecimento produzido através do estudo deveria abarcar o incorpóreo, o abstrato, aquilo que os sentidos não conseguem captar. O caminho para o saber passaria pela episteme, ou seja, o conhecimento refletido, que é, em poucas palavras, a compreensão sobre os fatos observados com o auxílio do raciocínio, das teorias e dos conceitos. Não obstante, os gregos fizeram experimentações que comprovaram teorias, como o teste realizado por Pitágoras para mostrar a relação da vibração das cordas com as notas emitidas.

O desenvolvimento da Filosofia Natural[editar | editar código-fonte]

Apresentamos brevemente, na parte anterior, a história da Grécia Antiga para mostrar o contexto no qual a sociedade ocidental começou a surgir, os acontecimentos que aumentaram ou diminuíram o espaço para o desenvolvimento do pensamento científico e as características da cultura helenística. Dado o contexto histórico, falaremos sobre a filosofia natural e alguns de seus expoentes, de forma que traga uma perspectiva das ciências abordadas à época pelo espírito especulativo através da observação crítica e com base no pensamento racional.

Filosofia Pré-Socrática - séculos VI e V a.C[editar | editar código-fonte]

Este é o início da filosofia natural, marcada pelo advento do pensamento crítico e pelo estabelecimento da confiança dos gregos no pensamento humano como forma de compreender os fenômenos naturais.

Tales de Mileto.

Tales de Mileto (624 a.C. - 558 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Tales de Mileto é considerado por muitos como o pai da FIlosofia. Matemático, astrônomo e estadista, Tales é o mais conhecido aluno da Escola jônica, talvez a primeira a tentar explicar a Natureza sem recorrer ao sobrenatural. Também chamados de observadores da Natureza e fisiólogos, os jônicos acreditavam todos os elementos vieram de um único elemento, primordial, que seria, na visão de Tales, a água. Esta ideia foi concebida após viajar ao Egito e presenciar o efeito fertilizante do rio Nilo nas terras à margem, nada favoráveis para o plantio. Tales não recorria a deuses para encontrar uma justificativa. Ele explicou os terremotos com base na sua ideia de Terra flutuante, previu o eclipse solar de 525 a.C. e formulou uma conta para calcular a distância dos barcos à costa. Para Tales, deveríamos nos preocupar em como sabemos o que sabemos, e não o que sabemos.

Pitágoras no afresco de Rafael "A Escola de Atenas".

Pitágoras de Samos (580 a.C. - 497 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Animação do Teorema de Pitágoras.

Nascido em Samos, na Jônia, Pitágoras passou a maior parte de sua vida em Crotona, onde hoje é a Itália. Lá fundou uma sociedade voltada para o estudo da Matemática. As doutrinas propagadas por ele foram mantidas em segredo. Pitágoras é um caso curioso, pois ele mantinha forte ligação com temas religiosos e místicas. Ele ainda acreditava na reencarnação e na metempsicose, o ciclo do espírito que deixa o corpo morto e ressurge na matéria física de plantas, animais ou seres humanos. O saber em sua plenitude, sem dúvidas ou desconhecimentos, pertenceria somente aos deuses, restando ao ser humano a revelação divina para conseguir o saber. Foi Pitágoras que cunhou o termo filósofo, que significa "amigo do saber". Para ele, o universo seria composto pela harmonia dos números, o elemento primordial. Em termos de contribuição para a Ciências, Pitágoras argumentava pela ideia da Terra esférica, desenvolveu o Teorema de Pitágoras e, numa mistura de observação e experimentação, contribuiu para os passos iniciais da Acústica, campo que seus discípulos continuaram a estudar.

Empédocles.

Empédocles (490 a.C. - 435 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Se Tales e Pitágoras queriam encontrar o elemento primordial, Empédocles de Agrigento queria explicar a realidade com base em quatro elementos eternos (água, ar, fogo e terra) e suas variáveis (seco, úmido, quente, frio). Dizia ele que a mistura/atração ou a separação/repulsão desses elementos é a ação geradora da realidade. Por exemplo, o Universo, no olhar de Empédocles, teria passado por quatro estágios de desenvolvimento: mistura de todos os elementos, começo da repulsão, então a separação completa e, por fim, a atração parcial e o início de uma mistura dos elementos. Contemporâneo a uma época em que a experimentação não era utilizada, Empédocles conseguiu provar a materialidade do ar com a clepsidra, um relógio d'água, além de ter falado sobre a viagem da luz pelo espaço até ser percebida pela visão. Ele também tinha um pé no misticismo, pois dizia que "não há nascimento para nenhuma das coisas mortais, como não há fim na morte, mas somente composição e separação, mistura e dissociação dos elementos"

Sofistas (séc. V a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ao lado da jônica, a escola sofista foi uma das principais da Grécia Antiga no século V, especialmente no que diz respeito à divulgação do conhecimento, pois eles ensinavam Ciência em troca de pagamento, o que renovou a Paideia grega. Foram eles os responsáveis pelo começo de áreas como a Antropologia, a Sociologia, a Filologia, a Ética e a Psicologia, além de terem aperfeiçoado a Matemática. Embora, no começo, tenham contribuído consideravelmente para o desenvolvimento das Ciências, os sofistas passaram a usar as habilidades discursivas para refutar as teorias que discordavam e para ironizar a Razão humana. Sócrates e Platão foram críticos dos sofistas, entre os quais estão Protágoras de Abdera (485 a.C. - 411 a.C.), que disse que "o Homem é a medida de todas as coisas", e Trasímaco de Calcedônia, para quem "a Justiça é simplesmente o interesse do mais forte".

Filosofia grega clássica - século IV[editar | editar código-fonte]

Filósofos e historiadores apontam que há uma mudança de rumo na filosofia natural com Sócrates, cuja obra -- se é que houve alguma -- é desconhecida. No entanto, temos acesso as suas ideias por conta dos diálogos reproduzidos por Platão, seu mais famosos discípulo, Xenofontes, além das peças teatrais de Aristófanes. A mudança de característica que difere o período clássico do pré-socrático é em relação ao foco das indagações, das perguntas essenciais feitas pelos filósofos, que tratavam quase que exclusivamente da Natureza e seus fenômenos. Acredita-se que, então, Sócrates trouxe a filosofia para "perto" do ser humano ao refletir sobre as relações humanas, a moral, a ética e a política.

Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Busto de Sócrates.
"A Morte de Sócrates", por Jacques-Louis David.

"Sócrates foi o primeiro a evocar a filosofia do céu à terra, deu-lhe a cidadania nas cidades, introduziu-a também nas casas e obrigou-a a ocupar-se da vida e dos costumes, das coisas boas e das más", escreveu o romano Cícero. Acredita-se que Sócrates tenha nascido em 470 a.C. em uma vila próxima de Atenas, pólis a qual ele jurou lealdade e para defendê-la na Guerra no Peloponeso. Não há obras textuais da autoria de Sócrates. Pode ser que ele tenha optado por não fazê-las, por crer que escrever limitaria seu pensamento ao dar-lhe o aspecto de terminada, ou também é possível que elas tenham sido destruídas. A ausência de tais "provas" pode induzir à dúvida de que Sócrates tenha de fato existido. Historiadores, no entanto, argumentam que Sócrates tenha vivido, devido à extensão dos relatos escritos pelos que foram contemporâneos a ele.

A contribuição de Sócrates para a Ciência não se reduz a um campo específico, como a Astronomia ou a Física. Sócrates e seu método de investigação, chamado de Socrático ou elenchus, foi essencial para o desenvolvimento do método científico. A dialética de Sócrates, como mostra Platão em Diálogos Socráticos, falava que, para solucionar um problema, seria necessário desmembrá-lo em uma série de perguntas que, à medida que respondidas, traria uma resposta para o problema inicial. Isto é, se há um questionamento, cria-se uma hipótese para respondê-la, que será testada de diversas maneiras na intenção de falsificá-la.

O método Socrático foi pensado como um diálogo (daí dialética) argumentativo entre dois indivíduos, que trocam perguntas e respostas na defesa de um ponto de vista. Espera-se que, deste modo, um conduza o diálogo até que o outro caia em contradição e enfraqueça ele mesmo o próprio argumento. A consistência do pensamento é posta em cheque, pois o pensamento implícito, escondido por detrás das palavras, acaba por se manifestar. A Ciência contemporânea absorveu o método de Sócrates, usado para desenvolver e questionar teses, teorias e a pesquisa científica em geral. Sócrates não usou método para criar teorias. Na verdade, ele recorria aos mitos para explicar suas ideias. Mais do que encontrar uma resposta, o elenchus servia -- e ainda serve -- para excluir contradições e aperfeiçoar o pensamento.

Platão (427 a.C. - 347 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Busto de Platão.

Boa parte do que sabemos hoje sobre Sócrates se deve aos relatos de seu mais conhecido discípulo, Platão, ateniense que viveu entre 427 a.C. e 347 a.C. Interessava-se por temas variados, das Política à Matemática: escreveu obras como Político e República, e desenvolveu uma teoria sobre como o Universo formou-se a partir dos cinco sólidos perfeitos -- lados e ângulos iguais e faces equivalentes -- da Geometria. Tetraedro, cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro são poliedros que foram descobertos por Pitágoras, embora sejam conhecidos como sólidos platônicos. Platão acreditava que esses poliedros representariam os elementos fogo, terra, ar, água e o Universo, os quais formariam todos os corpos existentes, dos celestes (estrelas, Lua) aos alados (pássaros, corujas).

Ilustração medieval com Platão e Sócrates.

Os ensinamentos de Platão foram difundidos pela Academia, escola fundada por ele em 387 a.C. e que durou até 529 d.C. À época a religião cristã já havia se tornado a oficial do império bizantino, e líder, o imperador Justiniano, mandou fechá-la por ser pagã. A entrada da Academia era adornada pela frase: "Aqui não entres se não és geômetra". Ela reflete o pensamento de Platão, para quem a Matemática era um meio de conseguir abstrair-se para além do mundo físico e próximo ao pensamento puro. A experimentação e a observação, segundo Platão, não teriam importância dentro do processo do conhecimento, pois elas, necessariamente atreladas aos sentidos, serviriam apenas para afastar o indivíduo da busca pelo conhecimento. No entanto, Platão alimentava interesse pela Astronomia, em especial pela Matemática no cálculo da movimentação planetária.

Formulada por Platão, a Teoria das Ideias traz um panorama sobre o pensamento do filósofo em relação ao pensamento e aos sentidos. Para ele, a realidade sensível dos objetos físicos é uma mera projeção das Ideias, que constituem a realidade verdadeira, acima da sensibilidade humana, acessível apenas para a alma. A compreensão das Ideias seria o papel da Ciência. Os conceitos filosóficos de Platão serviram como base para o Neoplatonismo, que inspirou pensadores cristãos (vide Santo Agostinho), árabes e judeus. O matemático e filósofo britânico Alfred North Whitehead sintetiza a influência de Platão na cultura Ocidental ao dizer que "a mais segura caracterização geral da tradição filosófica europeia é que ela consiste de uma série de notas de rodapé de Platão".

Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Busto de Aristóteles.

Sócrates foi o mestre de Platão, que foi o mestre de Aristóteles, que foi o mestre de Alexandre, o Grande. Nascido em Estagira, cidade que ficava sob o comando da Macedônia, Aristóteles teve interesse pela pesquisa biológica tal qual seu pai, Nicômaco, que foi médico do Rei Amintas II, avô de Alexandre. Sócrates passou vinte anos estudando na Academia de Platão. Após a morte do mestre, saiu de lá, e fundou, em 334, o Liceu, cujas pesquisas financiadas por Alexandre tinham particular interesse em Astronomia, da Física e das Ciências Naturais. O campo de investigação de Aristóteles era extenso, assim como foi sua contribuição para diversas áreas, como de Biologia, Matemática, Zoologia, Lógica, Política, Ética, Botânica, Astronomia, Física e, claro, da Filosofia.

Entre as várias obras de Aristóteles, há uma de característica enciclopédica, o Corpus Aristotelicum, na qual ele realiza um exame crítico dos conceitos elaborados pelos pensadores que o antecederam. O Corpus é um livro composto por vários tratados escritos por Aristóteles sobre temas que ele foi um dos primeiros a abordar, como a Lógica, em Organon, e a História Natural, em História dos Animais. Aristóteles discorda de Platão nos assuntos que tangem a formulação do saber, como o conhecimento empírico, que começa com os dados sensíveis captados pelos sentidos até chegar a uma formulação científica. Para tanto, de acordo a teoria aristotélica do conhecimento, seria necessário passar pela demonstração científica que, por sua vez, requer uma argumentação Lógica.

Para Aristóteles, a mente humana apreende o que está ao seu redor por meio dos sentidos para formular um saber. A Razão entraria neste processo como o elemento que transforma a experiência sensorial em um conhecimento aplicável à vida humana. Da lista de contribuições de Aristóteles para a Ciência, muitas das quais ele foi o primeiro a conceber, pode-se destacar a teoria da Terra esférica (Astronomia), a teoria da propagação da luz e a negação ao atomismo (Física), a classificação dos animais e estudo da anatomia dos animais (Biologia), que o levou a investigar fósseis, sendo ele talvez o primeiro a afirmar que os objetos eram resultado da petrificação de animais e plantas mortas.

A ciência no período helenístico e greco-romano[editar | editar código-fonte]

Gif mostra a evolução da República de Roma para Império e sua separação.

O ambiente da Grécia Antiga, propício ao desenvolvimento da Ciência, começa a se desfazer com a invasão de Alexandre e acentua-se com expansão do Império Romano. No primeiro momento, a Ciência pôde espalhar-se pelo extenso território dominado pelos macedônios, e até misturou-se com costumes e crenças das outras regiões. Isso se deu porque as pólis mantinham uma certa independência política, embora nem perto daquela que tinham outrora. Religiões mística e orientais ganharam terreno dentro da cultura grega, como o maniqueísmo, uma mescla dos elementos do Zoroastrismo e do cristianismo e que cultivava a magia e a astrologia, ou até o culto à deusa egípcia Ísis, que deixou as margens do Nilo para chegar aos confins do Império Romano.

Em 27 a.C., Roma deixou de ser uma República para tornar-se um Império. Os mitos gregos haviam sido adaptados às necessidades romanas, cuja religião em vigor era o politeísmo pagão, com seus cultos e sacrifícios. Os judeus eram aceitos pelo governo e eles podiam ficar de fora das práticas que não fossem condizentes aos seus costumes. Anos depois, primeiro visto como uma seita judaica, apareceu o cristianismo, que logo tornaria-se muito popular entre os pobres. Perseguidos pelo Império Romano, os cristãos não juravam lealdade à Roma e recusavam-se a entrar no exército. Não obstante, o cristianismo ganhou adeptos com o passar dos anos, até entre os mais abastados, incluindo governantes. O quadro mudou em 380 d.C., quando o imperador Teodósio I estabeleceu o cristianismo como a religião oficial do Estado. Todas as práticas e costumes que não estivessem de acordo com os preceitos cristãos deveriam ser extintos. Se antes Igrejas e cristãos eram queimados, escolas, filósofos e bibliotecas, como a de Alexandria, tornaram-se alvos da chama do obscurantismo.

O conhecimento, novamente, estava nas mãos dos sacerdotes, que consideravam a iluminação divina como fonte do saber. O pensamento científico da Filosofia Natural, a capacidade especulativa e crítica, o uso da Razão para a compreensão dos fenômenos e mundo sensível, todo o conjunto de formulações filosóficas antes ensinadas pelas escolas e liceus, praticamente desapareceu. É quase consenso entre os historiadores que a sociedade romana pouco contribuiu para a Ciência. Pode-se dizer que eles foram, na verdade, reprodutores do conhecimento dos gregos, sem acrescentar nada de relevante: apenas adaptaram a cultura helenística ao seu contexto. Roma copiou a Grécia nos mitos, nos deuses, na arquitetura, na Arte, na Literatura, na Filosofia e na Ciência.

Roma dominou a Grécia, cuja cultura espalhou-se pelos costumes romanos. Cícero, Sêneca e Lucrécio, talvez os mais conhecidos pensadores do Império Romano, eram praticamente tradutores das obras dos gregos, de quem tiraram ideias para legislação, administração pública e estratégia militar. Não havia mais espaço para a Razão e para o espírito científico dentro das fronteiras do Império Romano. Estava aberto, na Europa, o caminho para a crença cega na religião e no misticismo.

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